A dor de Edna
A foto estava nos jornais de sábado passado. Será em breve apenas isso. Uma foto. Sem qualidade suficiente, é incerto que vá ser lembrada em algum daqueles prêmios que os "conscientes" de países mais civilizados outorgam de tempos em tempos para parecerem sensíveis. Responsabilidade social é bom negócio, sabemos bem. Mas isso tudo não importa para Edna Ezequiel. A insurgência civil que tomou conta dos morros do Rio de Janeiro lhe tomou a filha Alana e o irmão Hélio em pouco mais de um mês. Assassinados, "danos colaterais" aparentes de uma guerra que há anos se incrusta no principal cartão-postal do Brasil. Quis o acaso que Edna fosse personagem pública de sua tragédia pessoal. É tentador ao observador externo querer comparar as duas fotos em que seu drama foi congelado. Na primeira, de março, fica clara a maior dor concebível, a da morte de um filho. Já na segunda, uma espécie de anestesia incrédula parece tomar Edna. Mas tudo isso beira a cretinice. A dor de Edna não é mensurável. Jornalisticamente, a exposição de seu sofrimento leva às tentações do parágrafo acima. Mas só Edna sabe o que sentiu. O resto é divagação, facilmente utilizável pela indústria do sofrimento e da hipocrisia montada em décadas de descaso governamental e da sociedade. Ela é infalível, basta aparecer uma Alana, um Hélio, um menino João Hélio. Haverá marchas pela paz, cultos ecumênicos, fitinhas pretas nas antenas dos importados blindados, camisetas com mãos imitando pombas, mídia estridente perguntando "Até quando?", o Congresso aprovando a toque de caixa projetos destinados ao esquecimento. Lula repetirá o discurso de seus amigos da academia à esquerda e dirá que tudo é culpa da pobreza e da falta de educação -desrespeitando a maioria dos pobres que, como Edna, provavelmente é apenas vítima da barbárie que os cerca. Sérgio Cabral dirá que o Exército que patrulha a Cité Soleil deveria subir o morro dos Macacos, onde mora Edna. Os generais dirão que sua tropa é treinada para matar, não policiar, e que os melhoramentos incorporados aos Urutus usados no Haiti serão muito úteis quando guerrearmos com a Argentina. O pior é que eles acabam tendo razão; uma coisa é usar militares numa emergência; outra é tê-los como remendo. Enquanto isso, o morro e seus vários similares por tantas cidades Brasil afora continuam a colher o seu quinhão. A Edna, e a seus mortos, toda a simpatia do mundo. É o melhor que lhes pode ser facultado agora. Porque esperança, a verdadeira, essa só pode ser oferecida sem cinismo. E isso parece muito distante nestes dias em que vivemos.
IGOR GIELOW
Nenhum comentário:
Postar um comentário