Perigo entre veículos
A ESCOLHA se dá entre a rapidez e a segurança. Em 1997, o então presidente Fernando Henrique Cardoso optou pela agilidade ao vetar o dispositivo do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) que expressamente proibia motos de circular entre veículos.Agora, passados dez anos da sanção do código -tempo suficiente para ponderar as conseqüências da decisão presidencial-, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo estuda meios de multar motociclistas que trafeguem entre os carros. Já até enviou ao Conselho Nacional de Trânsito uma consulta para tentar padronizar em qual artigo da lei esse comportamento pode ser enquadrado como violação ao CTB.Opções há para todos os gostos: não guardar distância lateral (art. 192, infração grave), ultrapassagem pela direita (art. 199, infração média) e direção perigosa (art. 169, infração leve).A investida da CET sobre os motociclistas é resultado de mais um espetacular aumento no número de óbitos de condutores desse tipo de veículo. Em 2006, morreram na cidade de São Paulo 380 ocupantes de motocicletas, salto de 10% em relação a 2005. Considerada a atual década, o crescimento das mortes chega a 50%.Também foi decisivo para a proposta da CET um novo levantamento da companhia segundo o qual 52% dos óbitos de motociclistas estão relacionados à circulação entre os carros.A maior agilidade e mobilidade das motocicletas são desejáveis, mas não podem ocorrer em detrimento da segurança do trânsito e a tão alto custo em vidas. Assim, é correta a disposição da CET de multar motos que circulem entre os carros. Tal medida, porém, precisa ser acompanhada de outras que favoreçam a fluidez de veículos biciclos. É o caso, por exemplo, de criar faixas exclusivas onde isso seja possível.
segunda-feira, 30 de abril de 2007
artigo de opinião
ALBA ZALUARA
Armas, adeus
NO RIO DE JANEIRO, a distribuição do tráfico de drogas faz com que o barulho de tiros seja escutado em quase todos os bairros. Dados da pesquisa de vitimização de 2006 permitem estimar percentual de 45% de pessoas de 15 anos e mais que ouvem tiros sempre e freqüentemente, além de 13% que já viram pessoas trocando tiros. Mas, nas áreas sob o controle de traficantes, as proporções de morte de amigos, vizinhos e parentes por arma de fogo são de duas a quatro vezes superiores às de outras áreas da cidade, o que aumenta o risco de morrer assassinado para os homens jovens, negros e pobres. Não se pode, pois, negociar com o Estado para que abra mão do monopólio legítimo da violência, ou seja, que policiais abram mão de portar armas quando cumprem o dever do Estado de prover segurança a seus cidadãos. Mas se deve, sim, exigir que policiais só façam incursões fortemente armados para cumprir mandados de prisão ou revistar residências durante investigações sobre depósito de armas e drogas quando devidamente autorizados pela autoridade judicial. O efeito principal seria o respeito aos direitos do cidadão, o segundo, um golpe na corrupção policial. Na negociação com os moradores de tais áreas, não se pode deixar de incluir o objetivo de reduzir o acesso a armas de fogo pelos jovens, pois é isso que os mata. Os efeitos do Estatuto do Desarmamento foram pequenos, considerando a dimensão que assumiram os crimes intencionalmente letais no país. Precisa-se, pois, saber de onde vieram as armas que transformaram favelas em santuários de traficantes e bairros populares em áreas conflagradas em várias cidades brasileiras, trazendo medo e insegurança para seus moradores. Pelas fotos publicadas na imprensa, pelas entrevistas feitas desde 1980, muitas (quantas?) são exclusivas das Forças Armadas, provavelmente vindas de seus arsenais. Primeiramente, é preciso estancar esse fluxo como ação fundamental na pacificação do país. As Nações Unidas acabam de votar um Tratado Global sobre Comércio de Armas em que advogam várias iniciativas, todas consideradas imprescindíveis para garantir mais paz ao mundo. Ressalto duas que ainda não mereceram a devida atenção do governo federal: identificar os grupos e indivíduos engajados no comércio, estocagem, transferência e posse ilegal das armas ditas leves, mas letais, para puni-los judicial e exemplarmente; garantir que as Forças Armadas e as polícias estabeleçam claros e adequados padrões e procedimentos relativos ao gerenciamento, inventário, controle e segurança dos estoques de armas leves que estão autorizados a manter.
Armas, adeus
NO RIO DE JANEIRO, a distribuição do tráfico de drogas faz com que o barulho de tiros seja escutado em quase todos os bairros. Dados da pesquisa de vitimização de 2006 permitem estimar percentual de 45% de pessoas de 15 anos e mais que ouvem tiros sempre e freqüentemente, além de 13% que já viram pessoas trocando tiros. Mas, nas áreas sob o controle de traficantes, as proporções de morte de amigos, vizinhos e parentes por arma de fogo são de duas a quatro vezes superiores às de outras áreas da cidade, o que aumenta o risco de morrer assassinado para os homens jovens, negros e pobres. Não se pode, pois, negociar com o Estado para que abra mão do monopólio legítimo da violência, ou seja, que policiais abram mão de portar armas quando cumprem o dever do Estado de prover segurança a seus cidadãos. Mas se deve, sim, exigir que policiais só façam incursões fortemente armados para cumprir mandados de prisão ou revistar residências durante investigações sobre depósito de armas e drogas quando devidamente autorizados pela autoridade judicial. O efeito principal seria o respeito aos direitos do cidadão, o segundo, um golpe na corrupção policial. Na negociação com os moradores de tais áreas, não se pode deixar de incluir o objetivo de reduzir o acesso a armas de fogo pelos jovens, pois é isso que os mata. Os efeitos do Estatuto do Desarmamento foram pequenos, considerando a dimensão que assumiram os crimes intencionalmente letais no país. Precisa-se, pois, saber de onde vieram as armas que transformaram favelas em santuários de traficantes e bairros populares em áreas conflagradas em várias cidades brasileiras, trazendo medo e insegurança para seus moradores. Pelas fotos publicadas na imprensa, pelas entrevistas feitas desde 1980, muitas (quantas?) são exclusivas das Forças Armadas, provavelmente vindas de seus arsenais. Primeiramente, é preciso estancar esse fluxo como ação fundamental na pacificação do país. As Nações Unidas acabam de votar um Tratado Global sobre Comércio de Armas em que advogam várias iniciativas, todas consideradas imprescindíveis para garantir mais paz ao mundo. Ressalto duas que ainda não mereceram a devida atenção do governo federal: identificar os grupos e indivíduos engajados no comércio, estocagem, transferência e posse ilegal das armas ditas leves, mas letais, para puni-los judicial e exemplarmente; garantir que as Forças Armadas e as polícias estabeleçam claros e adequados padrões e procedimentos relativos ao gerenciamento, inventário, controle e segurança dos estoques de armas leves que estão autorizados a manter.
domingo, 29 de abril de 2007
editorial de domingo
O alto preço do etanol
A imagem de modernidade e inovação que o Brasil projetou internacionalmente em razão do uso combustível do etanol é incompatível com as condições desumanas a que são submetidos de modo geral os cortadores de cana, que têm uma vida útil de trabalho comparável à dos escravos, como indica pesquisa da Unesp divulgada hoje pela Folha.Segundo o estudo, a pressão pelo aumento da produtividade reduziu de 15 para 12 anos o período em que um cortador de cana é capaz de desenvolver sua atividade. Esse lapso de tempo é semelhante ao registrado entre os escravos que trabalhavam na agricultura no Brasil antes de 1850, quando o tráfico de pessoas da África foi proibido.A professora Maria Aparecida de Moraes Silva, responsável pela pesquisa, estima que os cortadores de cana andem de oito a nove quilômetros por dia, colhendo até 15 toneladas do produto -o Ministério do Trabalho recomenda o limite diário de 10 toneladas. Em decorrência das más condições a que são submetidos, pelo menos 19 mortes de trabalhadores do setor foram registradas desde 2004.A projeção brasileira no desenvolvimento de combustíveis alternativos não pode ser obtida com a "dilapidação" da vida dos cortadores de cana, para usar o termo adotado pela pesquisadora. Preocupadas com a repercussão das mortes, usinas produtoras de álcool começam a rever o método de contratação dos cortadores de cana, que normalmente são terceirizados.Os empresários que recebem os crescentes lucros da atividade têm a responsabilidade de zelar pelas condições de trabalho de seus empregados -sejam eles contratados direta ou indiretamente. Do contrário, o Brasil continuará a ser o país dos lamentáveis contrastes, produzindo o combustível do século 21 com base em estatísticas sociais do século 19.
A imagem de modernidade e inovação que o Brasil projetou internacionalmente em razão do uso combustível do etanol é incompatível com as condições desumanas a que são submetidos de modo geral os cortadores de cana, que têm uma vida útil de trabalho comparável à dos escravos, como indica pesquisa da Unesp divulgada hoje pela Folha.Segundo o estudo, a pressão pelo aumento da produtividade reduziu de 15 para 12 anos o período em que um cortador de cana é capaz de desenvolver sua atividade. Esse lapso de tempo é semelhante ao registrado entre os escravos que trabalhavam na agricultura no Brasil antes de 1850, quando o tráfico de pessoas da África foi proibido.A professora Maria Aparecida de Moraes Silva, responsável pela pesquisa, estima que os cortadores de cana andem de oito a nove quilômetros por dia, colhendo até 15 toneladas do produto -o Ministério do Trabalho recomenda o limite diário de 10 toneladas. Em decorrência das más condições a que são submetidos, pelo menos 19 mortes de trabalhadores do setor foram registradas desde 2004.A projeção brasileira no desenvolvimento de combustíveis alternativos não pode ser obtida com a "dilapidação" da vida dos cortadores de cana, para usar o termo adotado pela pesquisadora. Preocupadas com a repercussão das mortes, usinas produtoras de álcool começam a rever o método de contratação dos cortadores de cana, que normalmente são terceirizados.Os empresários que recebem os crescentes lucros da atividade têm a responsabilidade de zelar pelas condições de trabalho de seus empregados -sejam eles contratados direta ou indiretamente. Do contrário, o Brasil continuará a ser o país dos lamentáveis contrastes, produzindo o combustível do século 21 com base em estatísticas sociais do século 19.
editorial de sábado
Aborto e crime
Informação e distribuição de contraceptivos são falhas; também faltam campanhas em favor da sexualidade responsável
DENTRO OU fora da lei, o aborto induzido é uma realidade. No Brasil, estima-se que, a cada ano, até 1 milhão de mulheres interrompam clandestinamente a gravidez. As péssimas condições em que normalmente o fazem são responsáveis por um número não desprezível de óbitos e seqüelas à saúde reprodutiva.Nenhuma delas o faz por prazer mórbido. O aborto só ocorre porque é o único remédio contra a gravidez indesejada. Assim, quer sejamos favoráveis ou contrários à descriminalização do procedimento, a melhor forma de combatê-lo é instruindo a população sobre como evitar filhos e oferecendo-lhe meios contraceptivos adequados. Estamos fracassando em ambos.Estudo do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp) publicado em novembro de 2006 revela um quadro desolador, tanto na gestão dos recursos investidos em planejamento familiar como na qualidade dos serviços.Nas etapas iniciais, até que o sistema funciona. Só 4% das quase 500 Secretarias Municipais de Saúde (SMSs) pesquisadas não receberam nenhum método anticoncepcional do Ministério da Saúde; 66% declararam ter recebido o kit básico (pílula, minipílula e camisinha) completo.Por graves falhas de gestão, entretanto, os produtos não chegam à ponta final. A proporção de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) que nada recebeu chega a 17%; apenas 28% delas tiveram acesso ao kit completo.A situação fica ainda pior quando se consideram métodos de aplicação um pouco mais complexa. Embora 93% das SMSs tenham recebido o kit complementar, que inclui DIU e hormônio injetável, essas opções chegaram a apenas 8% das UBSs.Os pesquisadores constataram ainda problemas na regularidade do fornecimento e na oferta de opções. Conclusão inescapável: o sistema não é capaz de usar aquilo de que já dispõe.O panorama tampouco é bom no quesito educação. Faltam campanhas de prevenção da gravidez precoce. Muitos diretores de escola resistem a admitir a temática da educação sexual. Além disso, as UBSs não estão aparelhadas para fornecer esse tipo de informação. O quadro é especialmente preocupante no que diz respeito a adolescentes. São poucas as que procuram as UBSs antes de engravidar. Quando o fazem, há médicos que exigem a presença dos pais para passar-lhes um método anticoncepcional. É como se o sistema tivesse sido desenhado para dar errado.Enfrentar esse problema vai exigir não apenas melhorias na gestão do SUS como também uma profunda mudança de mentalidade. Com efeito, políticos, administradores, educadores e médicos ainda relutam em dar ao planejamento familiar a importância que merece. Muito por influência da Igreja Católica -a qual, por motivos que transcendem à razão humana, não quer o aborto, mas também não admite nenhum método contraceptivo eficiente-, esse tema vem sendo relegado há décadas.Tal omissão coletiva é um verdadeiro crime que se comete. De um lado, contribui para uma sexualidade pouco responsável. De outro, nada de prático acarreta para evitar mortes e sofrimento desnecessários.
Informação e distribuição de contraceptivos são falhas; também faltam campanhas em favor da sexualidade responsável
DENTRO OU fora da lei, o aborto induzido é uma realidade. No Brasil, estima-se que, a cada ano, até 1 milhão de mulheres interrompam clandestinamente a gravidez. As péssimas condições em que normalmente o fazem são responsáveis por um número não desprezível de óbitos e seqüelas à saúde reprodutiva.Nenhuma delas o faz por prazer mórbido. O aborto só ocorre porque é o único remédio contra a gravidez indesejada. Assim, quer sejamos favoráveis ou contrários à descriminalização do procedimento, a melhor forma de combatê-lo é instruindo a população sobre como evitar filhos e oferecendo-lhe meios contraceptivos adequados. Estamos fracassando em ambos.Estudo do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp) publicado em novembro de 2006 revela um quadro desolador, tanto na gestão dos recursos investidos em planejamento familiar como na qualidade dos serviços.Nas etapas iniciais, até que o sistema funciona. Só 4% das quase 500 Secretarias Municipais de Saúde (SMSs) pesquisadas não receberam nenhum método anticoncepcional do Ministério da Saúde; 66% declararam ter recebido o kit básico (pílula, minipílula e camisinha) completo.Por graves falhas de gestão, entretanto, os produtos não chegam à ponta final. A proporção de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) que nada recebeu chega a 17%; apenas 28% delas tiveram acesso ao kit completo.A situação fica ainda pior quando se consideram métodos de aplicação um pouco mais complexa. Embora 93% das SMSs tenham recebido o kit complementar, que inclui DIU e hormônio injetável, essas opções chegaram a apenas 8% das UBSs.Os pesquisadores constataram ainda problemas na regularidade do fornecimento e na oferta de opções. Conclusão inescapável: o sistema não é capaz de usar aquilo de que já dispõe.O panorama tampouco é bom no quesito educação. Faltam campanhas de prevenção da gravidez precoce. Muitos diretores de escola resistem a admitir a temática da educação sexual. Além disso, as UBSs não estão aparelhadas para fornecer esse tipo de informação. O quadro é especialmente preocupante no que diz respeito a adolescentes. São poucas as que procuram as UBSs antes de engravidar. Quando o fazem, há médicos que exigem a presença dos pais para passar-lhes um método anticoncepcional. É como se o sistema tivesse sido desenhado para dar errado.Enfrentar esse problema vai exigir não apenas melhorias na gestão do SUS como também uma profunda mudança de mentalidade. Com efeito, políticos, administradores, educadores e médicos ainda relutam em dar ao planejamento familiar a importância que merece. Muito por influência da Igreja Católica -a qual, por motivos que transcendem à razão humana, não quer o aborto, mas também não admite nenhum método contraceptivo eficiente-, esse tema vem sendo relegado há décadas.Tal omissão coletiva é um verdadeiro crime que se comete. De um lado, contribui para uma sexualidade pouco responsável. De outro, nada de prático acarreta para evitar mortes e sofrimento desnecessários.
clovis rossi - artigo de opinião
Não podemos desistir da política, por mais que nos pareça desanimador!!
Desistimos?
PARIS - Está em texto de Vinicius Abate, publicado ontem, uma das razões, provavelmente a principal, para a podridão política que assola o país. Diz o texto: "Os brasileiros se interessam mais por ciência do que por política. É o que revela pesquisa divulgada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Quando estimulados a responder sobre o nível de interesse que têm sobre ciência, 41% disseram ter "muito interesse". Quando o assunto é política, o índice de pessoas que dizem ter "muito interesse" cai para 20%". Nada contra a ciência, claro. Tampouco chega a ser uma grande novidade o desinteresse pela política. O que espanta é, primeiro, o baixíssimo número dos que têm "muito interesse" pela política. Segundo, o fato de haver o dobro de interessados em ciência, ramo que sempre foi dito como árido (política pode ser sórdida, no Brasil, mas árida com certeza não é; ao contrário, está sempre grávida de emoções fortíssimas e indignações idem). Até entendo as razões do desinteresse. Mesmo quem, como eu, ganha a vida escrevendo sobre política, na maior parte das vezes, tem crescentes dificuldades para manter a concentração e, ainda por cima, não usar palavrões. O problema é que não há como fugir do fato de que política acaba sendo determinante. Determinante até para a ciência, ao menos no que toca à alocação de verbas, questão crucial em qualquer país. Logo, fugir da política equivale a fugir da vida, equivale a bancar o avestruz, enfiando a cabeça na terra para não ver a cavalgada de trambiques que passa por política no Brasil. Equivale a entregar a política a esse pessoal que fez dela caso de polícia. Admito que está muito difícil de convencer o cidadão sufocado a não desistir. Mas não custa lembrar que, se insistir pode não mudar nada, desistir com certeza é preservar a sujeira.
Desistimos?
PARIS - Está em texto de Vinicius Abate, publicado ontem, uma das razões, provavelmente a principal, para a podridão política que assola o país. Diz o texto: "Os brasileiros se interessam mais por ciência do que por política. É o que revela pesquisa divulgada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Quando estimulados a responder sobre o nível de interesse que têm sobre ciência, 41% disseram ter "muito interesse". Quando o assunto é política, o índice de pessoas que dizem ter "muito interesse" cai para 20%". Nada contra a ciência, claro. Tampouco chega a ser uma grande novidade o desinteresse pela política. O que espanta é, primeiro, o baixíssimo número dos que têm "muito interesse" pela política. Segundo, o fato de haver o dobro de interessados em ciência, ramo que sempre foi dito como árido (política pode ser sórdida, no Brasil, mas árida com certeza não é; ao contrário, está sempre grávida de emoções fortíssimas e indignações idem). Até entendo as razões do desinteresse. Mesmo quem, como eu, ganha a vida escrevendo sobre política, na maior parte das vezes, tem crescentes dificuldades para manter a concentração e, ainda por cima, não usar palavrões. O problema é que não há como fugir do fato de que política acaba sendo determinante. Determinante até para a ciência, ao menos no que toca à alocação de verbas, questão crucial em qualquer país. Logo, fugir da política equivale a fugir da vida, equivale a bancar o avestruz, enfiando a cabeça na terra para não ver a cavalgada de trambiques que passa por política no Brasil. Equivale a entregar a política a esse pessoal que fez dela caso de polícia. Admito que está muito difícil de convencer o cidadão sufocado a não desistir. Mas não custa lembrar que, se insistir pode não mudar nada, desistir com certeza é preservar a sujeira.
Cortadores de cana têm vida útil de escravo em SP
Pressionado a produzir mais, trabalhador atua cerca de 12 anos, como na época da escravidãoConclusão é de pesquisadora da Unesp; usineiros dizem que estão mudando sistema de contratação e que vão melhorar condições
O novo ciclo da cana-de-açúcar está impondo uma rotina aos cortadores de cana que, para alguns estudiosos, equipara sua vida útil de trabalho à dos escravos. É o lado perverso de um setor que, além de gerar novos empregos e ser um dos principais responsáveis pela movimentação interna da economia, deve exportar US$ 7 bilhões neste ano.Ao menos 19 mortes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde meados de 2004, supostamente por excesso de trabalho. Preocupados com as condições de trabalho e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados.A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que a busca por maior produtividade obriga os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico encurta o ciclo de trabalho na atividade. "Nas atuais condições, passaram a ter uma vida útil de trabalho inferior à do período da escravidão", diz.Nas décadas de 1980 e 1990, o tempo em que o trabalhador do setor ficava na atividade era de 15 anos. A partir de 2000, "já deve estar por volta de 12 anos", diz Moraes Silva. Devido à ação repetitiva e ao esforço físico, "ele começa a ter problemas seriíssimos de coluna, nos pés, câimbras e tendinite", afirma.Para o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos da África. Depois dessa data, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.Moraes Silva, que desenvolve pesquisa com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre os migrantes cortadores de cana, acaba de voltar do Maranhão e do Piauí, novos pólos de fornecimento de mão-de-obra para São Paulo.Uma das constatações da professora é que a maior exigência de força física no trabalho está forçando a vinda cada vez maior de jovens.Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.Para a pesquisadora, o trabalhador anda de 8 a 9 km por dia, sempre submetido a um grande esforço físico, o que causa sérios problemas à saúde. "Esse trabalho tem provocado uma dilapidação -esse é o termo, não encontro outro- dos trabalhadores", afirma ela.Moraes Silva, porém, afirma que a situação começa a melhorar. Com pressão do Ministério Público, as usinas estão fazendo exames admissionais e adotaram várias medidas de proteção aos trabalhadores, diz.
Pressionado a produzir mais, trabalhador atua cerca de 12 anos, como na época da escravidãoConclusão é de pesquisadora da Unesp; usineiros dizem que estão mudando sistema de contratação e que vão melhorar condições
O novo ciclo da cana-de-açúcar está impondo uma rotina aos cortadores de cana que, para alguns estudiosos, equipara sua vida útil de trabalho à dos escravos. É o lado perverso de um setor que, além de gerar novos empregos e ser um dos principais responsáveis pela movimentação interna da economia, deve exportar US$ 7 bilhões neste ano.Ao menos 19 mortes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde meados de 2004, supostamente por excesso de trabalho. Preocupados com as condições de trabalho e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados.A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que a busca por maior produtividade obriga os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico encurta o ciclo de trabalho na atividade. "Nas atuais condições, passaram a ter uma vida útil de trabalho inferior à do período da escravidão", diz.Nas décadas de 1980 e 1990, o tempo em que o trabalhador do setor ficava na atividade era de 15 anos. A partir de 2000, "já deve estar por volta de 12 anos", diz Moraes Silva. Devido à ação repetitiva e ao esforço físico, "ele começa a ter problemas seriíssimos de coluna, nos pés, câimbras e tendinite", afirma.Para o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos da África. Depois dessa data, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.Moraes Silva, que desenvolve pesquisa com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre os migrantes cortadores de cana, acaba de voltar do Maranhão e do Piauí, novos pólos de fornecimento de mão-de-obra para São Paulo.Uma das constatações da professora é que a maior exigência de força física no trabalho está forçando a vinda cada vez maior de jovens.Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.Para a pesquisadora, o trabalhador anda de 8 a 9 km por dia, sempre submetido a um grande esforço físico, o que causa sérios problemas à saúde. "Esse trabalho tem provocado uma dilapidação -esse é o termo, não encontro outro- dos trabalhadores", afirma ela.Moraes Silva, porém, afirma que a situação começa a melhorar. Com pressão do Ministério Público, as usinas estão fazendo exames admissionais e adotaram várias medidas de proteção aos trabalhadores, diz.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
editorial de quinta
O plano e os mestres
Congresso deve melhorar PDE; exame certificador para professores é boa idéia, mas não vinculado ao piso de R$ 850O PLANO de Desenvolvimento da Educação (PDE) teve sua apresentação formal e repetiu a boa aceitação obtida quando da divulgação de suas linhas gerais, no mês passado.
Todos parecem de acordo com o foco no ensino básico (fundamental e médio) e com o imperativo de estabelecer metas e cobrar resultados, como disse o presidente da República na cerimônia.Lula reeditou suas hipérboles, como ao qualificar o PDE de "plano mais abrangente já concebido neste país para melhorar a qualidade do sistema público". Folclore à parte, captou e exprimiu o sentido da crescente reação social à falência do ensino ao afirmar que o plano objetiva "a primazia do talento sobre a origem social e a prevalência do mérito sobre a riqueza familiar".Esse é o princípio fundamental de um sistema educacional republicano: garantir a igualdade de oportunidades. O governo federal mostrou possuir confiança de que seu PDE traz instrumentos adequados para realizá-lo ao submeter o plano ao Congresso na forma de projetos de lei, e não de medidas provisórias.O presidente Lula manifestou apoio às metas básicas do Compromisso Todos pela Educação, encampadas também por esta Folha no editorial "O básico em educação" (22/4). Elas estão sintetizadas no objetivo de, até o ano 2022, elevar de 3,8 para 6 o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no plano nacional.Uma novidade surgida entre o esboço de março e o plano de agora foi a destinação de um acréscimo de 50% nas verbas do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) para premiar os estabelecimentos públicos de ensino que melhorarem seu desempenho. O objetivo coincide com uma das cinco metas adicionais propostas pelo jornal.Não se esperam grandes dificuldades para aprovar no Congresso os projetos de lei do PDE, diante da convergência suprapartidária que se observa. Os parlamentares podem e devem, no entanto, aperfeiçoá-lo no que se fizer necessário. O deputado federal e ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza (PSDB-SP), por exemplo, propõe condicionar o pagamento do piso de R$ 850 previsto no PDE à realização de um exame de certificação pelos professores.O princípio de premiar por mérito e exigir contrapartida dos mestres está correto. É duvidoso, contudo, que tal cobrança de desempenho mínimo dos professores deva ser vinculada à concessão do piso (a ser integralizado por prefeituras e governos estaduais em três anos).Como o nome diz, trata-se de uma remuneração mínima para quem entra na carreira, de maneira a torná-la atraente para quadros mais qualificados. Cerca de 40% dos professores de ensino básico ganham menos que esse valor, que já é inferior ao de uma bolsa de mestrado do CNPq ou da Capes (R$ 940). A prova certificadora é uma boa idéia, mas faria mais sentido usá-la como pré-requisito para a progressão em carreiras estruturadas.
Congresso deve melhorar PDE; exame certificador para professores é boa idéia, mas não vinculado ao piso de R$ 850O PLANO de Desenvolvimento da Educação (PDE) teve sua apresentação formal e repetiu a boa aceitação obtida quando da divulgação de suas linhas gerais, no mês passado.
Todos parecem de acordo com o foco no ensino básico (fundamental e médio) e com o imperativo de estabelecer metas e cobrar resultados, como disse o presidente da República na cerimônia.Lula reeditou suas hipérboles, como ao qualificar o PDE de "plano mais abrangente já concebido neste país para melhorar a qualidade do sistema público". Folclore à parte, captou e exprimiu o sentido da crescente reação social à falência do ensino ao afirmar que o plano objetiva "a primazia do talento sobre a origem social e a prevalência do mérito sobre a riqueza familiar".Esse é o princípio fundamental de um sistema educacional republicano: garantir a igualdade de oportunidades. O governo federal mostrou possuir confiança de que seu PDE traz instrumentos adequados para realizá-lo ao submeter o plano ao Congresso na forma de projetos de lei, e não de medidas provisórias.O presidente Lula manifestou apoio às metas básicas do Compromisso Todos pela Educação, encampadas também por esta Folha no editorial "O básico em educação" (22/4). Elas estão sintetizadas no objetivo de, até o ano 2022, elevar de 3,8 para 6 o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no plano nacional.Uma novidade surgida entre o esboço de março e o plano de agora foi a destinação de um acréscimo de 50% nas verbas do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) para premiar os estabelecimentos públicos de ensino que melhorarem seu desempenho. O objetivo coincide com uma das cinco metas adicionais propostas pelo jornal.Não se esperam grandes dificuldades para aprovar no Congresso os projetos de lei do PDE, diante da convergência suprapartidária que se observa. Os parlamentares podem e devem, no entanto, aperfeiçoá-lo no que se fizer necessário. O deputado federal e ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza (PSDB-SP), por exemplo, propõe condicionar o pagamento do piso de R$ 850 previsto no PDE à realização de um exame de certificação pelos professores.O princípio de premiar por mérito e exigir contrapartida dos mestres está correto. É duvidoso, contudo, que tal cobrança de desempenho mínimo dos professores deva ser vinculada à concessão do piso (a ser integralizado por prefeituras e governos estaduais em três anos).Como o nome diz, trata-se de uma remuneração mínima para quem entra na carreira, de maneira a torná-la atraente para quadros mais qualificados. Cerca de 40% dos professores de ensino básico ganham menos que esse valor, que já é inferior ao de uma bolsa de mestrado do CNPq ou da Capes (R$ 940). A prova certificadora é uma boa idéia, mas faria mais sentido usá-la como pré-requisito para a progressão em carreiras estruturadas.
editorial de quarta
Pensão discutível
NA ENTREVISTA concedida a esta Folha, o ministro da Previdência, Luiz Marinho, pôs o dedo numa das tantas feridas que sangram sua pasta. Ainda que repassando à sociedade o imperativo de debater o que chamou de explosão das pensões por morte, indicou que o governo ao menos não faz vista grossa para um flagrante excesso do sistema previdenciário.Em 2006, foram concedidos 144 mil desses benefícios, elevando para cerca de 5,9 milhões o número de pensionistas por morte. A despesa monta a R$ 2,8 bilhões mensais, ou R$ 36,4 bilhões ao ano, quase um quarto de todos os benefícios. Tal valor poderia ser apreciavelmente reduzido, contribuindo para conter o déficit da Previdência, se o país fosse menos perdulário na emissão do benefício.Não se questiona que uma viúva ou um viúvo necessite manter, ao menos parcial e temporariamente, a renda perdida com a morte do cônjuge. Em certos casos, como idade avançada e presença de filhos menores, até mesmo por muitos anos. É discutível, no entanto, que a pensão seja paga de maneira integral e vitalícia, em todos os casos, e ainda por cima passível de acumulação com outros benefícios e rendas, como no Brasil.Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado há um mês comparou as condições da pensão por morte com as de 20 países de vários continentes. Concluiu que nenhuma nação da amostra, rica ou pobre, é tão pródiga.Em Portugal, por exemplo, o valor pago se limita a 60% da aposentadoria ao que o finado faria jus. Se mais jovem que 35 anos, a viúva recebe o benefício por cinco anos. Aplicada a mesma regra por aqui, haveria economia de 27% do dispêndio.De fato, a sociedade precisa reavaliar tais regras. Ao governo cabe fazer propostas concretas.
NA ENTREVISTA concedida a esta Folha, o ministro da Previdência, Luiz Marinho, pôs o dedo numa das tantas feridas que sangram sua pasta. Ainda que repassando à sociedade o imperativo de debater o que chamou de explosão das pensões por morte, indicou que o governo ao menos não faz vista grossa para um flagrante excesso do sistema previdenciário.Em 2006, foram concedidos 144 mil desses benefícios, elevando para cerca de 5,9 milhões o número de pensionistas por morte. A despesa monta a R$ 2,8 bilhões mensais, ou R$ 36,4 bilhões ao ano, quase um quarto de todos os benefícios. Tal valor poderia ser apreciavelmente reduzido, contribuindo para conter o déficit da Previdência, se o país fosse menos perdulário na emissão do benefício.Não se questiona que uma viúva ou um viúvo necessite manter, ao menos parcial e temporariamente, a renda perdida com a morte do cônjuge. Em certos casos, como idade avançada e presença de filhos menores, até mesmo por muitos anos. É discutível, no entanto, que a pensão seja paga de maneira integral e vitalícia, em todos os casos, e ainda por cima passível de acumulação com outros benefícios e rendas, como no Brasil.Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado há um mês comparou as condições da pensão por morte com as de 20 países de vários continentes. Concluiu que nenhuma nação da amostra, rica ou pobre, é tão pródiga.Em Portugal, por exemplo, o valor pago se limita a 60% da aposentadoria ao que o finado faria jus. Se mais jovem que 35 anos, a viúva recebe o benefício por cinco anos. Aplicada a mesma regra por aqui, haveria economia de 27% do dispêndio.De fato, a sociedade precisa reavaliar tais regras. Ao governo cabe fazer propostas concretas.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
25/04/2007 - 01h34
Governo conclui decreto contra consumo de álcool Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar na próxima semana o decreto que institui a Política Nacional sobre o Álcool, um conjunto de medidas para prevenir o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e ampliar o acesso a tratamento para pessoas dependentes.
O texto do decreto, sob análise na Casa Civil, não traz definições sobre o tema mais polêmico de toda a estratégia, a restrição de horário para propaganda de todas as bebidas alcoólicas. O decreto prevê que a regulamentação da propaganda deverá ser feita por uma resolução - cujo texto já está pronto para publicação. A medida, considerada indispensável por especialistas na área de saúde, atingiria em cheio a indústria de cerveja, que hoje não tem restrição para veiculação de propaganda.
Ministérios que integraram o grupo de trabalho para criação da política ficarão encarregados, assim que o decreto for assinado, de criar medidas específicas para pôr em prática as diretrizes. Entre elas, a proibição da venda de bebidas alcoólicas ao longo das rodovias federais e a criação de mecanismos para incentivar as cidades a impedir a venda de bebidas em pontos próximos de escolas e hospitais. As informações são de O Estado de S.Paulo.
terça-feira, 24 de abril de 2007
editorial de terça
Mínimo esforço
Reforma do ensino básico exige renúncia a soluções fáceis, da crença no poder da tecnologia à idéia de educação só como prazer
A discussão sobre a falência do ensino básico, no Brasil, resvala com facilidade para as falsas questões. Soluções dispendiosas, como o uso de computadores na sala de aula, ganham ares de panacéias definitivas -até serem fulminadas pelo teste implacável da empiria, como mostrou estudo do economista Naercio Menezes Filho noticiado nesta Folha.Professor da USP e do Ibmec-SP (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), Menezes Filho investigou as variáveis que mais explicam o bom desempenho escolar. Tomou por base os testes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) com alunos de 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio. Verificou que a informática na escola não melhora nem piora os resultados de seus alunos no Saeb.Escolaridade, salário e idade dos professores tampouco exercem peso significativo, segundo o estudo -uma conclusão destinada a gerar controvérsia, decerto. Maior influência apresentam a idade de entrada no sistema educacional e a quantidade de horas-aula. Alunos que passaram por creches e pré-escola e ficam mais tempo na escola, a cada dia, apresentam desempenho significativamente superior.Por isso a Folha incluiu os dois quesitos no conjunto de metas nacionais, até o ano 2022, aqui elencadas no editorial "O básico em educação" (22/4): 80% das crianças de 0 a 3 anos com acesso a creches (hoje são 13%) e 90% dos alunos com aulas por 6 horas diárias (1,2%, atualmente). Não se conferiu prioridade a computadores nas escolas, mesmo sendo objetivo desejável.Prioridades são prioridades, afinal. Uma das mais prementes, contudo, se mostra refratária à expressão na forma de uma meta quantificável: pôr fim à lei do mínimo esforço, à crença de que a educação possa ter sucesso sem empenho e disciplina.No gabinete dos tecnocratas, bastaria recorrer a fórmulas mirabolantes. Na sala de aula, à criatividade lúdica, ao espírito crítico e ao universo cotidiano do aluno. O restante viria como que por gravidade, cada estudante percorrendo à própria revelia as etapas necessárias do desenvolvimento cognitivo descritas nalgum esquema abstrato.O fracasso está aí, à vista de todos, para provar que não pode funcionar um ensino em que professores são reduzidos a meros facilitadores, ainda por cima mal pagos e sobrecarregados com jornadas extensas. Perderam a condição de autoridade encarregada de exigir dedicação nas tarefas e civilidade no trato com os colegas, responsabilidade encarada por muitos como ônus a evitar (dificuldade partilhada com vários pais, de resto).Pode-se discutir indefinidamente se é ou não o caso de retroceder à obrigação de decorar todos os afluentes do Amazonas. Para pôr termo ao descalabro do ensino básico, entretanto, é preciso retomar princípios básicos da educação, a começar pelo combate à noção vigente de que se possam realizar conquistas sem esforço proporcional.
Reforma do ensino básico exige renúncia a soluções fáceis, da crença no poder da tecnologia à idéia de educação só como prazer
A discussão sobre a falência do ensino básico, no Brasil, resvala com facilidade para as falsas questões. Soluções dispendiosas, como o uso de computadores na sala de aula, ganham ares de panacéias definitivas -até serem fulminadas pelo teste implacável da empiria, como mostrou estudo do economista Naercio Menezes Filho noticiado nesta Folha.Professor da USP e do Ibmec-SP (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), Menezes Filho investigou as variáveis que mais explicam o bom desempenho escolar. Tomou por base os testes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) com alunos de 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio. Verificou que a informática na escola não melhora nem piora os resultados de seus alunos no Saeb.Escolaridade, salário e idade dos professores tampouco exercem peso significativo, segundo o estudo -uma conclusão destinada a gerar controvérsia, decerto. Maior influência apresentam a idade de entrada no sistema educacional e a quantidade de horas-aula. Alunos que passaram por creches e pré-escola e ficam mais tempo na escola, a cada dia, apresentam desempenho significativamente superior.Por isso a Folha incluiu os dois quesitos no conjunto de metas nacionais, até o ano 2022, aqui elencadas no editorial "O básico em educação" (22/4): 80% das crianças de 0 a 3 anos com acesso a creches (hoje são 13%) e 90% dos alunos com aulas por 6 horas diárias (1,2%, atualmente). Não se conferiu prioridade a computadores nas escolas, mesmo sendo objetivo desejável.Prioridades são prioridades, afinal. Uma das mais prementes, contudo, se mostra refratária à expressão na forma de uma meta quantificável: pôr fim à lei do mínimo esforço, à crença de que a educação possa ter sucesso sem empenho e disciplina.No gabinete dos tecnocratas, bastaria recorrer a fórmulas mirabolantes. Na sala de aula, à criatividade lúdica, ao espírito crítico e ao universo cotidiano do aluno. O restante viria como que por gravidade, cada estudante percorrendo à própria revelia as etapas necessárias do desenvolvimento cognitivo descritas nalgum esquema abstrato.O fracasso está aí, à vista de todos, para provar que não pode funcionar um ensino em que professores são reduzidos a meros facilitadores, ainda por cima mal pagos e sobrecarregados com jornadas extensas. Perderam a condição de autoridade encarregada de exigir dedicação nas tarefas e civilidade no trato com os colegas, responsabilidade encarada por muitos como ônus a evitar (dificuldade partilhada com vários pais, de resto).Pode-se discutir indefinidamente se é ou não o caso de retroceder à obrigação de decorar todos os afluentes do Amazonas. Para pôr termo ao descalabro do ensino básico, entretanto, é preciso retomar princípios básicos da educação, a começar pelo combate à noção vigente de que se possam realizar conquistas sem esforço proporcional.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
conflito de gerações
Falando sobre conflitos de gerações, o médico inglês Ronald Gibson começou uma conferência citando quatro frases:
1) "Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus."
2) "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."
3) "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."
4) "Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."
Após ter lido as quatro citações, ficou muito satisfeito com a aprovação que os espectadores davam às frases. Então, revelou a origem delas:
A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.)
A segunda é de Hesíodo (720 a.C.)
A terceira é de um sacerdote do ano 2000 a.C.
E a quarta estava escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilônia (Atual Bagdá) e tem mais de 4000 anos de existência.
Aos que são pais: RELAXEM, POIS SEMPRE FOI ASSIM!!
1) "Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus."
2) "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."
3) "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."
4) "Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."
Após ter lido as quatro citações, ficou muito satisfeito com a aprovação que os espectadores davam às frases. Então, revelou a origem delas:
A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.)
A segunda é de Hesíodo (720 a.C.)
A terceira é de um sacerdote do ano 2000 a.C.
E a quarta estava escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilônia (Atual Bagdá) e tem mais de 4000 anos de existência.
Aos que são pais: RELAXEM, POIS SEMPRE FOI ASSIM!!
editorial de segunda
Basta de bingos
A Operação Furacão tem impacto positivo numa sociedade acostumada a conviver com o descrédito das leis
"CONTRAVENÇÃO" é uma daquelas palavras de uso corrente no Brasil cuja dimensão sociológica dificilmente poderia ser explicada a um observador estrangeiro. Corresponde ao que não é lícito, mas funciona mesmo assim; que deveria ser clandestino, mas é visível em toda esquina; que deveria ocultar-se, mas se ostenta orgulhosamente em praça pública.Seria então, pode perguntar o hipotético observador, algo semelhante a assaltos, arrastões, fuzilamentos? Pois em toda grande cidade brasileira os crimes mais bárbaros e chocantes acontecem à luz do dia.Tentaríamos explicar que não é bem a mesma coisa. Ou melhor: é e não é. A "contravenção", no sentido que os brasileiros lhe atribuem, é a ilegalidade em traje de gala, em luxo feérico, em desfile de Carnaval. O bicheiro não é o traficante, o rei do camelódromo não é o contrabandista, o dono do bingo não é o mafioso internacional, o delegado não pertence ao esquadrão da morte, o político não é o ladrão.Não mesmo? A esta altura, o interlocutor estrangeiro provavelmente estaria perplexo. Não menos do que nós, aliás -já impotentes para esclarecer uma distinção que aos poucos se consome num pesadelo bizantino.O fenomenal crescimento dos bingos e caça-níqueis no Brasil exigiria, para ser entendido em seu pormenor jurídico, a sutileza proverbial das gerações de sábios que se perderam, ao longo de séculos, nas indecidíveis controvérsias teológicas que fizeram a fama e a ruína de Bizâncio.O jogo foi proibido em todo o território nacional no ano de 1941. O jogo do bicho, entretanto, sobreviveu e prosperou magnificamente desde então. O Estado que proíbe cassinos e tolera o jogo do bicho promove, inventa e propagandeia todo tipo de loterias. Duas leis, em 1993 e 1998, autorizaram o funcionamento de bingos, a pretexto -no Brasil, as coisas são assim- de incentivar o esporte e a atividade física. Para que não restassem dúvidas quanto ao seu propósito, esses diplomas legais ganharam o nome de dois craques do futebol.No ano de 2000, a Lei Zico e a Lei Pelé tiveram revogadas suas disposições relativas à jogatina; como se não bastasse, o bingo foi proibido novamente em 2004, numa estrepitosa medida provisória destinada a diminuir o impacto do caso Waldomiro Diniz. O assessor direto do então todo-poderoso ministro José Dirceu foi flagrado em contatos com, digamos, a Contravenção.Mesmo assim, as casas de bingo se beneficiaram de liminares sem conta, espalharam-se por toda parte, cresceram como palácios, lavaram dinheiro, fizeram amigos e arruinaram cidadãos.Com sua Operação Furacão, a Polícia Federal vem revelando de que modo, ao longo do tempo, os bingos estenderam suas ramificações pelo aparelho de Estado.Tanto quanto pelos efeitos imediatos de sua ação repressiva, a operação adquire importância pelo que tem de simbólico. Representa um alerta -e uma esperança- para uma sociedade que, em muitos aspectos, se acostumou a conviver com a "contravenção", a aceitar o descrédito da ordem legal, a tolerar o intolerável. Basta de bingos; e que a lei seja simplesmente cumprida.
A Operação Furacão tem impacto positivo numa sociedade acostumada a conviver com o descrédito das leis
"CONTRAVENÇÃO" é uma daquelas palavras de uso corrente no Brasil cuja dimensão sociológica dificilmente poderia ser explicada a um observador estrangeiro. Corresponde ao que não é lícito, mas funciona mesmo assim; que deveria ser clandestino, mas é visível em toda esquina; que deveria ocultar-se, mas se ostenta orgulhosamente em praça pública.Seria então, pode perguntar o hipotético observador, algo semelhante a assaltos, arrastões, fuzilamentos? Pois em toda grande cidade brasileira os crimes mais bárbaros e chocantes acontecem à luz do dia.Tentaríamos explicar que não é bem a mesma coisa. Ou melhor: é e não é. A "contravenção", no sentido que os brasileiros lhe atribuem, é a ilegalidade em traje de gala, em luxo feérico, em desfile de Carnaval. O bicheiro não é o traficante, o rei do camelódromo não é o contrabandista, o dono do bingo não é o mafioso internacional, o delegado não pertence ao esquadrão da morte, o político não é o ladrão.Não mesmo? A esta altura, o interlocutor estrangeiro provavelmente estaria perplexo. Não menos do que nós, aliás -já impotentes para esclarecer uma distinção que aos poucos se consome num pesadelo bizantino.O fenomenal crescimento dos bingos e caça-níqueis no Brasil exigiria, para ser entendido em seu pormenor jurídico, a sutileza proverbial das gerações de sábios que se perderam, ao longo de séculos, nas indecidíveis controvérsias teológicas que fizeram a fama e a ruína de Bizâncio.O jogo foi proibido em todo o território nacional no ano de 1941. O jogo do bicho, entretanto, sobreviveu e prosperou magnificamente desde então. O Estado que proíbe cassinos e tolera o jogo do bicho promove, inventa e propagandeia todo tipo de loterias. Duas leis, em 1993 e 1998, autorizaram o funcionamento de bingos, a pretexto -no Brasil, as coisas são assim- de incentivar o esporte e a atividade física. Para que não restassem dúvidas quanto ao seu propósito, esses diplomas legais ganharam o nome de dois craques do futebol.No ano de 2000, a Lei Zico e a Lei Pelé tiveram revogadas suas disposições relativas à jogatina; como se não bastasse, o bingo foi proibido novamente em 2004, numa estrepitosa medida provisória destinada a diminuir o impacto do caso Waldomiro Diniz. O assessor direto do então todo-poderoso ministro José Dirceu foi flagrado em contatos com, digamos, a Contravenção.Mesmo assim, as casas de bingo se beneficiaram de liminares sem conta, espalharam-se por toda parte, cresceram como palácios, lavaram dinheiro, fizeram amigos e arruinaram cidadãos.Com sua Operação Furacão, a Polícia Federal vem revelando de que modo, ao longo do tempo, os bingos estenderam suas ramificações pelo aparelho de Estado.Tanto quanto pelos efeitos imediatos de sua ação repressiva, a operação adquire importância pelo que tem de simbólico. Representa um alerta -e uma esperança- para uma sociedade que, em muitos aspectos, se acostumou a conviver com a "contravenção", a aceitar o descrédito da ordem legal, a tolerar o intolerável. Basta de bingos; e que a lei seja simplesmente cumprida.
editorial de domingo
O básico em educação
Falência do ensino exige de governo e sociedade reação vigorosa, com adoção e perseguição de metas realizáveis
Esgotou-se a fase de debates pernósticos sobre educação. O enfrentamento dos desafios da universalização e da avaliação do ensino na última década revelou o pântano do qual surge a chance de cumprir a promessa republicana: escola básica de qualidade para todos os brasileiros.Não pode ser dado como viável nem digno um país em que a maioria das escolas das redes públicas caminha para a reprovação sob o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em preparação pelo Ministério da Educação (MEC). A nação ostenta, ainda, 18% de jovens de 15 a 17 anos fora da escola -quase 2 milhões de adolescentes semiletrados.Começam a ser dados os primeiros passos para mudar esse quadro. O Fundeb, que financiará a educação básica pública, passou com relativa facilidade na Câmara. Teve boa acolhida o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) apresentado pelo MEC -apesar de não ter definido metas abrangentes.Convergência similar pode ser observada também no meio social. Um sintoma disso está em iniciativas como o Compromisso Todos Pela Educação, organização criada em 2006 que reúne desde dirigentes de redes públicas de ensino e ONGs até empresas e fundações.O movimento lançou cinco metas quantificadas e exeqüíveis para a educação, a serem cumpridas até o ano de 2022, quando o país comemorará 200 anos da Independência. É o básico (veja quadro).As metas do compromisso merecem apoio. A discussão doravante deve ater-se aos meios para realizá-las. É preciso preservar a liberdade do educador de eleger ferramentas de ensino. Sua latitude, porém, não deve ir até o ponto de admitir que fracassem na tarefa de alfabetizar, por exemplo.Nesse intuito, o jornal compilou cinco metas complementares, mais voltadas para a organização e o funcionamento da escola. Seguindo o espírito do compromisso, todas observam como prazo o ano de 2022.O quinteto de objetivos adicionais abrange alvos com grande potencial para influenciar o resultado pedagógico. Não sendo as únicas metas imagináveis, são todas urgentes.Tais objetivos devem ser complementados com outras medidas administrativas, como a revalorização da carreira de professor e a premiação por mérito. O PDE já prevê a criação de um piso salarial nacional na casa de R$ 850. É preciso ir além, para permitir que a profissão passe a competir pelos melhores quadros das universidades.O educador, contudo, não é o único a ser comprometido com o sucesso do ensino. O papel da família e da comunidade revela-se crucial. Sua participação, na cobrança por qualidade, será facilitada com a divulgação transparente das avaliações por escola. Em localidades carentes, a educação em período integral pode ser um recurso imprescindível.As universidades públicas devem concentrar-se em formar professores eficientes, dotados de recursos para ensinar o que as crianças e os jovens necessitam saber: redigir, ler e entender textos básicos; compreender e executar operações matemáticas fundamentais; observar, formular e testar hipóteses sobre a realidade; conhecer, criar e desfrutar bens culturais.Trata-se de uma emergência. Quando futuros professores passam a ser recrutados em uma geração de incultos e despreparados, acabou-se o tempo para experimentalismo. Chegou o momento de transformar em realidade, descendo ao rés-do-chão da escola, os discursos grandiosos sobre cidadania.
Falência do ensino exige de governo e sociedade reação vigorosa, com adoção e perseguição de metas realizáveis
Esgotou-se a fase de debates pernósticos sobre educação. O enfrentamento dos desafios da universalização e da avaliação do ensino na última década revelou o pântano do qual surge a chance de cumprir a promessa republicana: escola básica de qualidade para todos os brasileiros.Não pode ser dado como viável nem digno um país em que a maioria das escolas das redes públicas caminha para a reprovação sob o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em preparação pelo Ministério da Educação (MEC). A nação ostenta, ainda, 18% de jovens de 15 a 17 anos fora da escola -quase 2 milhões de adolescentes semiletrados.Começam a ser dados os primeiros passos para mudar esse quadro. O Fundeb, que financiará a educação básica pública, passou com relativa facilidade na Câmara. Teve boa acolhida o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) apresentado pelo MEC -apesar de não ter definido metas abrangentes.Convergência similar pode ser observada também no meio social. Um sintoma disso está em iniciativas como o Compromisso Todos Pela Educação, organização criada em 2006 que reúne desde dirigentes de redes públicas de ensino e ONGs até empresas e fundações.O movimento lançou cinco metas quantificadas e exeqüíveis para a educação, a serem cumpridas até o ano de 2022, quando o país comemorará 200 anos da Independência. É o básico (veja quadro).As metas do compromisso merecem apoio. A discussão doravante deve ater-se aos meios para realizá-las. É preciso preservar a liberdade do educador de eleger ferramentas de ensino. Sua latitude, porém, não deve ir até o ponto de admitir que fracassem na tarefa de alfabetizar, por exemplo.Nesse intuito, o jornal compilou cinco metas complementares, mais voltadas para a organização e o funcionamento da escola. Seguindo o espírito do compromisso, todas observam como prazo o ano de 2022.O quinteto de objetivos adicionais abrange alvos com grande potencial para influenciar o resultado pedagógico. Não sendo as únicas metas imagináveis, são todas urgentes.Tais objetivos devem ser complementados com outras medidas administrativas, como a revalorização da carreira de professor e a premiação por mérito. O PDE já prevê a criação de um piso salarial nacional na casa de R$ 850. É preciso ir além, para permitir que a profissão passe a competir pelos melhores quadros das universidades.O educador, contudo, não é o único a ser comprometido com o sucesso do ensino. O papel da família e da comunidade revela-se crucial. Sua participação, na cobrança por qualidade, será facilitada com a divulgação transparente das avaliações por escola. Em localidades carentes, a educação em período integral pode ser um recurso imprescindível.As universidades públicas devem concentrar-se em formar professores eficientes, dotados de recursos para ensinar o que as crianças e os jovens necessitam saber: redigir, ler e entender textos básicos; compreender e executar operações matemáticas fundamentais; observar, formular e testar hipóteses sobre a realidade; conhecer, criar e desfrutar bens culturais.Trata-se de uma emergência. Quando futuros professores passam a ser recrutados em uma geração de incultos e despreparados, acabou-se o tempo para experimentalismo. Chegou o momento de transformar em realidade, descendo ao rés-do-chão da escola, os discursos grandiosos sobre cidadania.
sábado, 21 de abril de 2007
maiakóviski
Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim
e não fazemos nada
Na segunda noite, já não escondem
pisam as flores matam nosso cão
e não dizemos nada
Até que um dia o mais frágil deles,
sozinho em nossa casa rouba-nos a lua
e conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta
E porque não disse nada
já não podemos dizer nada
e colhem uma flor de nosso jardim
e não fazemos nada
Na segunda noite, já não escondem
pisam as flores matam nosso cão
e não dizemos nada
Até que um dia o mais frágil deles,
sozinho em nossa casa rouba-nos a lua
e conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta
E porque não disse nada
já não podemos dizer nada
sexta-feira, 20 de abril de 2007
editorial de sexta II
Padrão inaceitável
Omissão do governo Lula encoraja corporações a fazer chantagem; falta regulamentar o direito de greve no setor públicoO DNA SINDICAL do governo Luiz Inácio Lula da Silva está custando caro ao país. Na sua tendência inata para negociar até o que deveria ser inegociável, presidente e ministros incentivam a generalização da chantagem com a tranqüilidade pública como instrumento de pressão por categorias cuja função de Estado é, por ironia, zelar por ela.Encorajada pela impunidade com que controladores de vôo impuseram o caos nos aeroportos do país, a Polícia Federal (PF) seguiu o exemplo. Uma operação-padrão de agentes lotados na conferência de passaportes ocasionou filas de passageiros medidas em horas e quilômetros.A mobilização corporativista, além de revolta, plantou também a dúvida na alma de todos: qual seria a confiabilidade desse serviço de segurança quando policiais não seguem o que eles próprios chamam de padrão? Parece óbvio que em uma das duas situações acabem por não cumprir integralmente sua obrigação.A liderança paredista deve um esclarecimento ao público. Fica dispensada, porém, da franqueza acintosa com que o presidente do sindicato da PF em São Paulo admitiu que as filas servem para "chamar a atenção do governo". Mais uma vez, a chantagem surtiu efeito: uma reunião com sindicalistas foi programada pelo Ministério do Planejamento.Essa é a pasta, de resto, que é acusada pelos servidores da PF de descumprir um pacto firmado no início de 2006 com Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça. Pelo acordo, um reajuste salarial de 60% seria dividido em duas parcelas, mas a segunda -prevista para dezembro- nunca se efetivou, reclamam os sindicatos. Como já surgiu no caso dos controladores de vôo, a acusação de fazer tratos e desrespeitá-los, ao que parece, também tende a generalizar-se.Sem entrar no mérito de tal reajuste, cabe registrar que a PF representa hoje a elite policial do país. De 9.276 servidores (7.402 policiais e 1.874 na área administrativa), em 2004, seu efetivo conta hoje com 12.989 (9.689 e 3.300, respectivamente). O salário pago à corporação varia entre R$ 4.000 e R$ 15 mil.Em comparação, um policial civil no Distrito Federal recebe o máximo de R$ 6.000. Um policial militar ganha R$ 2.900 de salário inicial na mesma unidade da Federação, a melhor remuneração de um PM novato no país. Há Estados, como Alagoas e Rio de Janeiro, em que responsáveis pelo policiamento ostensivo arriscam a vida por menos de R$ 900 mensais, no início da carreira. A PF, portanto, está longe de ser mal remunerada.O governo federal se torna cúmplice do absurdo não só por sua leniência no trato com a categoria mas também -ao lado do Congresso- ao procrastinar a regulamentação do direito de greve no setor público, a exemplo da que existe no privado.Com regras claras sobre áreas essenciais, nas quais grevistas ficariam obrigados a manter o serviço, ações destemperadas como as da Polícia Federal e as recorrentes paralisações do INSS teriam conseqüências mais graves para as categorias.
Omissão do governo Lula encoraja corporações a fazer chantagem; falta regulamentar o direito de greve no setor públicoO DNA SINDICAL do governo Luiz Inácio Lula da Silva está custando caro ao país. Na sua tendência inata para negociar até o que deveria ser inegociável, presidente e ministros incentivam a generalização da chantagem com a tranqüilidade pública como instrumento de pressão por categorias cuja função de Estado é, por ironia, zelar por ela.Encorajada pela impunidade com que controladores de vôo impuseram o caos nos aeroportos do país, a Polícia Federal (PF) seguiu o exemplo. Uma operação-padrão de agentes lotados na conferência de passaportes ocasionou filas de passageiros medidas em horas e quilômetros.A mobilização corporativista, além de revolta, plantou também a dúvida na alma de todos: qual seria a confiabilidade desse serviço de segurança quando policiais não seguem o que eles próprios chamam de padrão? Parece óbvio que em uma das duas situações acabem por não cumprir integralmente sua obrigação.A liderança paredista deve um esclarecimento ao público. Fica dispensada, porém, da franqueza acintosa com que o presidente do sindicato da PF em São Paulo admitiu que as filas servem para "chamar a atenção do governo". Mais uma vez, a chantagem surtiu efeito: uma reunião com sindicalistas foi programada pelo Ministério do Planejamento.Essa é a pasta, de resto, que é acusada pelos servidores da PF de descumprir um pacto firmado no início de 2006 com Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça. Pelo acordo, um reajuste salarial de 60% seria dividido em duas parcelas, mas a segunda -prevista para dezembro- nunca se efetivou, reclamam os sindicatos. Como já surgiu no caso dos controladores de vôo, a acusação de fazer tratos e desrespeitá-los, ao que parece, também tende a generalizar-se.Sem entrar no mérito de tal reajuste, cabe registrar que a PF representa hoje a elite policial do país. De 9.276 servidores (7.402 policiais e 1.874 na área administrativa), em 2004, seu efetivo conta hoje com 12.989 (9.689 e 3.300, respectivamente). O salário pago à corporação varia entre R$ 4.000 e R$ 15 mil.Em comparação, um policial civil no Distrito Federal recebe o máximo de R$ 6.000. Um policial militar ganha R$ 2.900 de salário inicial na mesma unidade da Federação, a melhor remuneração de um PM novato no país. Há Estados, como Alagoas e Rio de Janeiro, em que responsáveis pelo policiamento ostensivo arriscam a vida por menos de R$ 900 mensais, no início da carreira. A PF, portanto, está longe de ser mal remunerada.O governo federal se torna cúmplice do absurdo não só por sua leniência no trato com a categoria mas também -ao lado do Congresso- ao procrastinar a regulamentação do direito de greve no setor público, a exemplo da que existe no privado.Com regras claras sobre áreas essenciais, nas quais grevistas ficariam obrigados a manter o serviço, ações destemperadas como as da Polícia Federal e as recorrentes paralisações do INSS teriam conseqüências mais graves para as categorias.
crônica do dia
Vícios, lixos e ilusões
Domingo passado, numa loja de sucos de Ipanema, encontrei o deputado Fernando Gabeira, chegando de bicicleta:"Meu deputado! Quantos eleitores podem dizer isso alto, no meio da rua e com orgulho?".Ele completou, rindo: "E quantos deputados podem sair à rua?".Apenas uma alegre cena carioca, mas com final melancólico: eleitor e deputado se despediram unidos na certeza de que seus esforços, intenções e gestos são inúteis diante da maioria absoluta dos atuais parlamentares e da nova classe que está no poder.Todos os dias, percorro diversas vezes os blogs políticos. Cada vez fico mais nauseado, mas volto sempre. São como doses de veneno que não consigo recusar, como uma droga pesada que nos revela a inutilidade de nossa indignação diante de tanta burrice e torpeza.Nós somos cada vez mais irrelevantes para eles.Esses colunistas políticos, que alimentam meu vício por lixo, mereciam receber um adicional de insalubridade. Pela convivência diária com essa alta ralé que está dando as cartas e cantando o jogo. São overdoses de bandalheiras, cinismo e mentiras que são denunciadas, escondidas e comentadas, mas logo esquecidas. Preciso me livrar dessa droga malhada, como dizia Cazuza.Pode até não parecer, mas gasto muito tempo e esforço para produzir uma simples crônica para este pequeno espaço, na ilusão de contribuir de alguma forma, mas é em vão, ou quase. Diante dessa sensação de tempo perdido, me abrigo em Albert Camus:Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma grande pedra até o alto da montanha e, assim que chegava ao topo, ela rolava montanha abaixo, e ele começava tudo de novo, todos os dias, eternamente. Para Camus, era possível imaginar Sísifo feliz. Mas não no Brasil.
Domingo passado, numa loja de sucos de Ipanema, encontrei o deputado Fernando Gabeira, chegando de bicicleta:"Meu deputado! Quantos eleitores podem dizer isso alto, no meio da rua e com orgulho?".Ele completou, rindo: "E quantos deputados podem sair à rua?".Apenas uma alegre cena carioca, mas com final melancólico: eleitor e deputado se despediram unidos na certeza de que seus esforços, intenções e gestos são inúteis diante da maioria absoluta dos atuais parlamentares e da nova classe que está no poder.Todos os dias, percorro diversas vezes os blogs políticos. Cada vez fico mais nauseado, mas volto sempre. São como doses de veneno que não consigo recusar, como uma droga pesada que nos revela a inutilidade de nossa indignação diante de tanta burrice e torpeza.Nós somos cada vez mais irrelevantes para eles.Esses colunistas políticos, que alimentam meu vício por lixo, mereciam receber um adicional de insalubridade. Pela convivência diária com essa alta ralé que está dando as cartas e cantando o jogo. São overdoses de bandalheiras, cinismo e mentiras que são denunciadas, escondidas e comentadas, mas logo esquecidas. Preciso me livrar dessa droga malhada, como dizia Cazuza.Pode até não parecer, mas gasto muito tempo e esforço para produzir uma simples crônica para este pequeno espaço, na ilusão de contribuir de alguma forma, mas é em vão, ou quase. Diante dessa sensação de tempo perdido, me abrigo em Albert Camus:Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma grande pedra até o alto da montanha e, assim que chegava ao topo, ela rolava montanha abaixo, e ele começava tudo de novo, todos os dias, eternamente. Para Camus, era possível imaginar Sísifo feliz. Mas não no Brasil.
editorial de sexta
Padrão inaceitável
Omissão do governo Lula encoraja corporações a fazer chantagem; falta regulamentar o direito de greve no setor públicoO DNA SINDICAL do governo Luiz Inácio Lula da Silva está custando caro ao país. Na sua tendência inata para negociar até o que deveria ser inegociável, presidente e ministros incentivam a generalização da chantagem com a tranqüilidade pública como instrumento de pressão por categorias cuja função de Estado é, por ironia, zelar por ela.Encorajada pela impunidade com que controladores de vôo impuseram o caos nos aeroportos do país, a Polícia Federal (PF) seguiu o exemplo. Uma operação-padrão de agentes lotados na conferência de passaportes ocasionou filas de passageiros medidas em horas e quilômetros.A mobilização corporativista, além de revolta, plantou também a dúvida na alma de todos: qual seria a confiabilidade desse serviço de segurança quando policiais não seguem o que eles próprios chamam de padrão? Parece óbvio que em uma das duas situações acabem por não cumprir integralmente sua obrigação.A liderança paredista deve um esclarecimento ao público. Fica dispensada, porém, da franqueza acintosa com que o presidente do sindicato da PF em São Paulo admitiu que as filas servem para "chamar a atenção do governo". Mais uma vez, a chantagem surtiu efeito: uma reunião com sindicalistas foi programada pelo Ministério do Planejamento.Essa é a pasta, de resto, que é acusada pelos servidores da PF de descumprir um pacto firmado no início de 2006 com Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça. Pelo acordo, um reajuste salarial de 60% seria dividido em duas parcelas, mas a segunda -prevista para dezembro- nunca se efetivou, reclamam os sindicatos. Como já surgiu no caso dos controladores de vôo, a acusação de fazer tratos e desrespeitá-los, ao que parece, também tende a generalizar-se.Sem entrar no mérito de tal reajuste, cabe registrar que a PF representa hoje a elite policial do país. De 9.276 servidores (7.402 policiais e 1.874 na área administrativa), em 2004, seu efetivo conta hoje com 12.989 (9.689 e 3.300, respectivamente). O salário pago à corporação varia entre R$ 4.000 e R$ 15 mil.Em comparação, um policial civil no Distrito Federal recebe o máximo de R$ 6.000. Um policial militar ganha R$ 2.900 de salário inicial na mesma unidade da Federação, a melhor remuneração de um PM novato no país. Há Estados, como Alagoas e Rio de Janeiro, em que responsáveis pelo policiamento ostensivo arriscam a vida por menos de R$ 900 mensais, no início da carreira. A PF, portanto, está longe de ser mal remunerada.O governo federal se torna cúmplice do absurdo não só por sua leniência no trato com a categoria mas também -ao lado do Congresso- ao procrastinar a regulamentação do direito de greve no setor público, a exemplo da que existe no privado.Com regras claras sobre áreas essenciais, nas quais grevistas ficariam obrigados a manter o serviço, ações destemperadas como as da Polícia Federal e as recorrentes paralisações do INSS teriam conseqüências mais graves para as categorias.
Omissão do governo Lula encoraja corporações a fazer chantagem; falta regulamentar o direito de greve no setor públicoO DNA SINDICAL do governo Luiz Inácio Lula da Silva está custando caro ao país. Na sua tendência inata para negociar até o que deveria ser inegociável, presidente e ministros incentivam a generalização da chantagem com a tranqüilidade pública como instrumento de pressão por categorias cuja função de Estado é, por ironia, zelar por ela.Encorajada pela impunidade com que controladores de vôo impuseram o caos nos aeroportos do país, a Polícia Federal (PF) seguiu o exemplo. Uma operação-padrão de agentes lotados na conferência de passaportes ocasionou filas de passageiros medidas em horas e quilômetros.A mobilização corporativista, além de revolta, plantou também a dúvida na alma de todos: qual seria a confiabilidade desse serviço de segurança quando policiais não seguem o que eles próprios chamam de padrão? Parece óbvio que em uma das duas situações acabem por não cumprir integralmente sua obrigação.A liderança paredista deve um esclarecimento ao público. Fica dispensada, porém, da franqueza acintosa com que o presidente do sindicato da PF em São Paulo admitiu que as filas servem para "chamar a atenção do governo". Mais uma vez, a chantagem surtiu efeito: uma reunião com sindicalistas foi programada pelo Ministério do Planejamento.Essa é a pasta, de resto, que é acusada pelos servidores da PF de descumprir um pacto firmado no início de 2006 com Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça. Pelo acordo, um reajuste salarial de 60% seria dividido em duas parcelas, mas a segunda -prevista para dezembro- nunca se efetivou, reclamam os sindicatos. Como já surgiu no caso dos controladores de vôo, a acusação de fazer tratos e desrespeitá-los, ao que parece, também tende a generalizar-se.Sem entrar no mérito de tal reajuste, cabe registrar que a PF representa hoje a elite policial do país. De 9.276 servidores (7.402 policiais e 1.874 na área administrativa), em 2004, seu efetivo conta hoje com 12.989 (9.689 e 3.300, respectivamente). O salário pago à corporação varia entre R$ 4.000 e R$ 15 mil.Em comparação, um policial civil no Distrito Federal recebe o máximo de R$ 6.000. Um policial militar ganha R$ 2.900 de salário inicial na mesma unidade da Federação, a melhor remuneração de um PM novato no país. Há Estados, como Alagoas e Rio de Janeiro, em que responsáveis pelo policiamento ostensivo arriscam a vida por menos de R$ 900 mensais, no início da carreira. A PF, portanto, está longe de ser mal remunerada.O governo federal se torna cúmplice do absurdo não só por sua leniência no trato com a categoria mas também -ao lado do Congresso- ao procrastinar a regulamentação do direito de greve no setor público, a exemplo da que existe no privado.Com regras claras sobre áreas essenciais, nas quais grevistas ficariam obrigados a manter o serviço, ações destemperadas como as da Polícia Federal e as recorrentes paralisações do INSS teriam conseqüências mais graves para as categorias.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
editorial de quinta
Vamos torcer para que o despejo de um dos órgãos mais corruptos que conhecemos, de fato ceda lugar para a arte
Museus no parque
Vem em boa hora a decisão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo de despejar o Detran do prédio que ocupa nas imediações do parque Ibirapuera e destinar o edifício ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC). Não há sentido em manter uma repartição como o Detran numa área da cidade cuja vocação é o lazer.De resto, o MAC padece já há tempos com a falta de uma sede adequada. Atualmente, o rico acervo do museu se divide entre um prédio precário no campus principal da USP e um anexo, igualmente impróprio, ao pavilhão da Bienal. Como resultado do espaço inconveniente, os porões do MAC estão abarrotados de obras que deveriam ser expostas ao público.Outro mérito da idéia está em ampliar e aprimorar a zona de museus que se formou no Ibirapuera. Ali já estão instalados a Bienal, o Museu Afro-Brasileiro, o Museu de Arte Moderna (MAM) e a Oca. É a versão paulistana da "museum mile" (milha dos museus) nova-iorquina, também nas adjacências do principal parque da cidade.É o caso até de pensar em outras soluções que favoreçam o pendor natural da região para o lazer. O Detran não é a única repartição pública que "invadiu" a área originalmente prevista para o parque. Ali também funcionam a Assembléia Legislativa e várias dependências do Exército, que poderiam em princípio ser transferidas para outros lugares.A proposta de colocar o MAC no lugar do Detran é boa e deve ser levada em frente. O secretário da Cultura, João Sayad, parece ter se entusiasmado demais e já fala em criar museus. Seriam bem-vindos, mas, antes de construir novos, convém que a secretaria cuide melhor dos que já existem e estão sob sua responsabilidade. O Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Museu da Casa Brasileira, para citar apenas dois, enfrentam dificuldades.
Museus no parque
Vem em boa hora a decisão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo de despejar o Detran do prédio que ocupa nas imediações do parque Ibirapuera e destinar o edifício ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC). Não há sentido em manter uma repartição como o Detran numa área da cidade cuja vocação é o lazer.De resto, o MAC padece já há tempos com a falta de uma sede adequada. Atualmente, o rico acervo do museu se divide entre um prédio precário no campus principal da USP e um anexo, igualmente impróprio, ao pavilhão da Bienal. Como resultado do espaço inconveniente, os porões do MAC estão abarrotados de obras que deveriam ser expostas ao público.Outro mérito da idéia está em ampliar e aprimorar a zona de museus que se formou no Ibirapuera. Ali já estão instalados a Bienal, o Museu Afro-Brasileiro, o Museu de Arte Moderna (MAM) e a Oca. É a versão paulistana da "museum mile" (milha dos museus) nova-iorquina, também nas adjacências do principal parque da cidade.É o caso até de pensar em outras soluções que favoreçam o pendor natural da região para o lazer. O Detran não é a única repartição pública que "invadiu" a área originalmente prevista para o parque. Ali também funcionam a Assembléia Legislativa e várias dependências do Exército, que poderiam em princípio ser transferidas para outros lugares.A proposta de colocar o MAC no lugar do Detran é boa e deve ser levada em frente. O secretário da Cultura, João Sayad, parece ter se entusiasmado demais e já fala em criar museus. Seriam bem-vindos, mas, antes de construir novos, convém que a secretaria cuide melhor dos que já existem e estão sob sua responsabilidade. O Museu da Imagem e do Som (MIS) e o Museu da Casa Brasileira, para citar apenas dois, enfrentam dificuldades.
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Polícia invade favela e estraga velório
Eu não digo que pobreza no Brasil é desrespeito?
É o fim da picada!!
"Em vez da dor da perda, hoje temos só a tensão pelo medo." Foi assim que o supervisor de produtos Denilson Silva, 37, resumiu o sentimento da última madrugada, quando o velório do seu avô Mario Ferraz teve que ser suspenso, por conta do intenso tiroteio no morro da Mineira."Foram quase duas horas de tiroteio cerrado. Parecia uma guerra mesmo. Granadas explodiram. Tivemos de ficar agachados, ao lado do caixão, com medo de ser atingidos. Quando amanheceu, os bandidos começaram a pular para dentro do cemitério. Foi horrível", lembrou o rapaz.Na manhã de ontem, Denilson informava os parentes que a situação era "muito crítica" e que eles não deveriam ir ao enterro do avô, que conheceu de perto a violência. "Há uns três anos, uma bala perfurou a janela do quarto dele [no Rio Comprido, bairro vizinho ao Catumbi, onde fica o cemitério] e caiu na cama onde dormia. Queimou até o lençol, mas graças a Deus ele não se feriu", disse. Quando chegou para velar o corpo do marido morto, Janice Araújo Lima dos Santos, 60, viu uma cena de horror.As flores que enfeitavam o corpo de Irani Thomaz Graça estavam espalhadas no chão e pisoteadas.Momentos antes de ela chegar ao cemitério, um criminoso foi preso se escondendo na capela, onde jazia o corpo do seu marido.Ela disse que não passou a madrugada no velório porque precisava resolver a burocracia do enterro. "Queria chegar aqui cedo, mas o trânsito estava horrível por causa do tiroteio. Depois até achei melhor, porque, se eu estivesse lá dentro, eu não seria uma refém?", perguntou, apavorada.Janice soube da invasão à capela por Aluízio (ele não quis informar o sobrenome), que velava o corpo da mãe, Sebastiana Araújo Silva, 93, em uma capela vizinha."O bandido entrou na nossa capela, onde eu estava com minhas três irmãs, e se assustou. Estava todo enlameado e machucado no rosto. Pediu para a gente não chamar a polícia e se escondeu na outra capela, que estava vazia. Pouco depois chegou a polícia e nos escondemos no banheiro da capela, com medo de que houvesse mais tiros", contou.Na hora do enterro de Irani, às 14h30, algumas pessoas, entre elas a filha dele, não acompanharam o enterro, com medo de novos tiroteios. A gaveta onde ele foi sepultado, fica a menos de dez metros do muro que separa o morro do cemitério.
É o fim da picada!!
"Em vez da dor da perda, hoje temos só a tensão pelo medo." Foi assim que o supervisor de produtos Denilson Silva, 37, resumiu o sentimento da última madrugada, quando o velório do seu avô Mario Ferraz teve que ser suspenso, por conta do intenso tiroteio no morro da Mineira."Foram quase duas horas de tiroteio cerrado. Parecia uma guerra mesmo. Granadas explodiram. Tivemos de ficar agachados, ao lado do caixão, com medo de ser atingidos. Quando amanheceu, os bandidos começaram a pular para dentro do cemitério. Foi horrível", lembrou o rapaz.Na manhã de ontem, Denilson informava os parentes que a situação era "muito crítica" e que eles não deveriam ir ao enterro do avô, que conheceu de perto a violência. "Há uns três anos, uma bala perfurou a janela do quarto dele [no Rio Comprido, bairro vizinho ao Catumbi, onde fica o cemitério] e caiu na cama onde dormia. Queimou até o lençol, mas graças a Deus ele não se feriu", disse. Quando chegou para velar o corpo do marido morto, Janice Araújo Lima dos Santos, 60, viu uma cena de horror.As flores que enfeitavam o corpo de Irani Thomaz Graça estavam espalhadas no chão e pisoteadas.Momentos antes de ela chegar ao cemitério, um criminoso foi preso se escondendo na capela, onde jazia o corpo do seu marido.Ela disse que não passou a madrugada no velório porque precisava resolver a burocracia do enterro. "Queria chegar aqui cedo, mas o trânsito estava horrível por causa do tiroteio. Depois até achei melhor, porque, se eu estivesse lá dentro, eu não seria uma refém?", perguntou, apavorada.Janice soube da invasão à capela por Aluízio (ele não quis informar o sobrenome), que velava o corpo da mãe, Sebastiana Araújo Silva, 93, em uma capela vizinha."O bandido entrou na nossa capela, onde eu estava com minhas três irmãs, e se assustou. Estava todo enlameado e machucado no rosto. Pediu para a gente não chamar a polícia e se escondeu na outra capela, que estava vazia. Pouco depois chegou a polícia e nos escondemos no banheiro da capela, com medo de que houvesse mais tiros", contou.Na hora do enterro de Irani, às 14h30, algumas pessoas, entre elas a filha dele, não acompanharam o enterro, com medo de novos tiroteios. A gaveta onde ele foi sepultado, fica a menos de dez metros do muro que separa o morro do cemitério.
editorial de quarta
Se nem para prender bandido existe competência, o que dizer de um bom projeto educacional que vise a boa formação humana, será que rola?
Presídio-modelo
A desordem reina no presídio federal de Catanduvas (PR), como mostrou reportagem desta Folha publicada na segunda-feira. A situação na primeira penitenciária administrada pela União é um retrato fiel do governo Lula.Em 2003, após um espasmo de violência no Rio de Janeiro, o Planalto reagiu anunciando com jactância a criação de cinco presídios federais. Três anos depois inaugurou o primeiro, que não necessitou mais que seis meses para mergulhar em descontrole.Disputas entre a Polícia Federal (PF) e o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), vinculados ao Ministério da Justiça, esboçam um quadro de insubordinação. Os agentes penitenciários, do Depen, relutam em acatar ordens do diretor do presídio, que veio da PF. Em contrapartida, a PF produziu um relatório que aponta graves irregularidades em Catanduvas, com ênfase na questão dos agentes.Como se tornou praxe na atual administração, tudo é feito no improviso. Concursos mal planejados e executados permitiram a contratação de agentes penitenciários desqualificados, com antecedentes criminais e sérios desvios de conduta. Há até um inquérito que apura a ocorrência de tortura no presídio.O relatório da PF ainda indica falhas graves de segurança. Pelo menos até o final do ano passado, parte das câmeras de vigilância e microfones para gravar conversas entre servidores e detentos ainda não funcionava. Tampouco havia um plano de contingência para rebeliões.Não é de espantar que, em meio a tantos desencontros, presos de alto risco e poder de corrupção estejam exercendo influência cada vez maior no presídio. Se há um setor que o governo Lula não pode conduzir com sua costumeira pusilanimidade é a segurança pública.
Presídio-modelo
A desordem reina no presídio federal de Catanduvas (PR), como mostrou reportagem desta Folha publicada na segunda-feira. A situação na primeira penitenciária administrada pela União é um retrato fiel do governo Lula.Em 2003, após um espasmo de violência no Rio de Janeiro, o Planalto reagiu anunciando com jactância a criação de cinco presídios federais. Três anos depois inaugurou o primeiro, que não necessitou mais que seis meses para mergulhar em descontrole.Disputas entre a Polícia Federal (PF) e o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), vinculados ao Ministério da Justiça, esboçam um quadro de insubordinação. Os agentes penitenciários, do Depen, relutam em acatar ordens do diretor do presídio, que veio da PF. Em contrapartida, a PF produziu um relatório que aponta graves irregularidades em Catanduvas, com ênfase na questão dos agentes.Como se tornou praxe na atual administração, tudo é feito no improviso. Concursos mal planejados e executados permitiram a contratação de agentes penitenciários desqualificados, com antecedentes criminais e sérios desvios de conduta. Há até um inquérito que apura a ocorrência de tortura no presídio.O relatório da PF ainda indica falhas graves de segurança. Pelo menos até o final do ano passado, parte das câmeras de vigilância e microfones para gravar conversas entre servidores e detentos ainda não funcionava. Tampouco havia um plano de contingência para rebeliões.Não é de espantar que, em meio a tantos desencontros, presos de alto risco e poder de corrupção estejam exercendo influência cada vez maior no presídio. Se há um setor que o governo Lula não pode conduzir com sua costumeira pusilanimidade é a segurança pública.
crônica do dia
Um outro enfoque da mídia e da influência americana na nossa cultura
O que o mestre mandar
Durante quase um século, eles nos ensinaram que fumar era bacana, adulto e moderno. Para isso, tinham professores fascinantes: Bette Davis, Joan Crawford, Humphrey Bogart, Lauren Bacall. Podia-se fumar cantando, como Sinatra; dançando, como Fred Astaire; beijando, como Lana Turner. Fumava-se à vontade em elevadores, igrejas e hospitais. Nós e o mundo fizemos o mesmo.Mas, então, eles descobriram que fumar não fazia bem, e a ordem foi banir o cigarro dos filmes, restaurantes, escritórios, fábricas, shoppings, bares e até boates. Nós e o mundo fizemos o mesmo.No mesmo período, eles nos ensinaram que a comida ideal era aquela carne moída, tipo pré-digerida, ou uma salsicha de recheio incerto, servida entre dois pães e pingando, para ser devorada em pé, na rua, com as mãos. Era a fast food. E, para isso, também tinham um elenco de garotos-propaganda: do Wimpy, louco por hambúrgueres, ao gordo Bolinha e ao palhaço do McDonald's. Nós e o mundo aderimos com gula e sofreguidão.Mas, há pouco, eles descobriram que a fast food contém gorduras letais, provoca obesidade e pode levar a doenças horríveis. Nasceu uma campanha contra ela, exortando os americanos a evitá-la. E nós e o mundo, em que ficamos?Por fim, e por igual período, eles nos ensinaram a admirar os pistoleiros Jesse James, Billy the Kid e Wyatt Earp. Ficamos íntimos da Magnum 44, do Colt 45, da Winchester 73 e de outras ferramentas da civilização americana. Tanto que nos dedicamos furiosamente a usá-las uns contra os outros, entre nós mesmos.Às vezes, como anteontem, eles descobrem que ferramentas análogas, nas mãos de um animal doente e agressivo, como o ser humano, costumam ser mortíferas. Alguns até já cogitam proibi-las. Pode ser que, lá, nos EUA, eles consigam.
O que o mestre mandar
Durante quase um século, eles nos ensinaram que fumar era bacana, adulto e moderno. Para isso, tinham professores fascinantes: Bette Davis, Joan Crawford, Humphrey Bogart, Lauren Bacall. Podia-se fumar cantando, como Sinatra; dançando, como Fred Astaire; beijando, como Lana Turner. Fumava-se à vontade em elevadores, igrejas e hospitais. Nós e o mundo fizemos o mesmo.Mas, então, eles descobriram que fumar não fazia bem, e a ordem foi banir o cigarro dos filmes, restaurantes, escritórios, fábricas, shoppings, bares e até boates. Nós e o mundo fizemos o mesmo.No mesmo período, eles nos ensinaram que a comida ideal era aquela carne moída, tipo pré-digerida, ou uma salsicha de recheio incerto, servida entre dois pães e pingando, para ser devorada em pé, na rua, com as mãos. Era a fast food. E, para isso, também tinham um elenco de garotos-propaganda: do Wimpy, louco por hambúrgueres, ao gordo Bolinha e ao palhaço do McDonald's. Nós e o mundo aderimos com gula e sofreguidão.Mas, há pouco, eles descobriram que a fast food contém gorduras letais, provoca obesidade e pode levar a doenças horríveis. Nasceu uma campanha contra ela, exortando os americanos a evitá-la. E nós e o mundo, em que ficamos?Por fim, e por igual período, eles nos ensinaram a admirar os pistoleiros Jesse James, Billy the Kid e Wyatt Earp. Ficamos íntimos da Magnum 44, do Colt 45, da Winchester 73 e de outras ferramentas da civilização americana. Tanto que nos dedicamos furiosamente a usá-las uns contra os outros, entre nós mesmos.Às vezes, como anteontem, eles descobrem que ferramentas análogas, nas mãos de um animal doente e agressivo, como o ser humano, costumam ser mortíferas. Alguns até já cogitam proibi-las. Pode ser que, lá, nos EUA, eles consigam.
terça-feira, 17 de abril de 2007
editorial de terça
Operação Furacão
Há dois modos de interpretar os resultados da Operação Hurricane, que resultou por ora na prisão de 25 pessoas, incluindo magistrados, policiais, empresários, advogados e exploradores do jogo ilegal, suspeitas de participação num esquema de corrupção.Numa leitura pessimista, as instituições nacionais nunca estiveram tão podres. Repetem-se os casos de altos funcionários do Estado envolvidos com o crime organizado. Desta feita, foram presos nada menos do que três desembargadores da Justiça Federal do Rio de Janeiro, um procurador da República e três delegados da Polícia Federal (PF), que executou a operação.Os que preferem enfatizar o lado positivo das coisas podem regozijar-se com o fato, até há pouco raro, de pessoas influentes estarem sendo investigadas e presas. O Judiciário e a PF não estão hesitando em agir contra os seus.É possível que tanto o pessimista como o otimista estejam certos: a corrupção disseminou-se à medida que o crime organizado foi ampliando suas atividades, e as instituições também avançaram e desenvolveram uma atuação mais republicana.O caminho a perseguir é este mesmo da Operação Hurricane e, antes dela, da Anaconda (2003), que desmantelou uma rede de corrupção na Justiça Federal de São Paulo.Magistrados e agentes públicos devem ter em mente que atuam em duas esferas. O impacto mais óbvio de ações como a Hurricane está no desbaratamento de uma quadrilha e sua saída de cena. Menos evidente mas não menos importante é o efeito das prisões sobre a percepção popular. É aí que residem as melhores chances de a Justiça brasileira mostrar que é igual para todos e não se limita a mandar para a cadeia pobres que não podem pagar um bom advogado.Afirmar esse princípio, no entanto, não significa lançar pessoas à execração pública apenas porque provêm de estratos sociais mais altos. O amplo direito de defesa precisa ser resguardado também para dar o exemplo. Alguns dos arrolados como suspeitos na operação Anaconda, vale lembrar, acabaram inocentados ao longo do processo.
Há dois modos de interpretar os resultados da Operação Hurricane, que resultou por ora na prisão de 25 pessoas, incluindo magistrados, policiais, empresários, advogados e exploradores do jogo ilegal, suspeitas de participação num esquema de corrupção.Numa leitura pessimista, as instituições nacionais nunca estiveram tão podres. Repetem-se os casos de altos funcionários do Estado envolvidos com o crime organizado. Desta feita, foram presos nada menos do que três desembargadores da Justiça Federal do Rio de Janeiro, um procurador da República e três delegados da Polícia Federal (PF), que executou a operação.Os que preferem enfatizar o lado positivo das coisas podem regozijar-se com o fato, até há pouco raro, de pessoas influentes estarem sendo investigadas e presas. O Judiciário e a PF não estão hesitando em agir contra os seus.É possível que tanto o pessimista como o otimista estejam certos: a corrupção disseminou-se à medida que o crime organizado foi ampliando suas atividades, e as instituições também avançaram e desenvolveram uma atuação mais republicana.O caminho a perseguir é este mesmo da Operação Hurricane e, antes dela, da Anaconda (2003), que desmantelou uma rede de corrupção na Justiça Federal de São Paulo.Magistrados e agentes públicos devem ter em mente que atuam em duas esferas. O impacto mais óbvio de ações como a Hurricane está no desbaratamento de uma quadrilha e sua saída de cena. Menos evidente mas não menos importante é o efeito das prisões sobre a percepção popular. É aí que residem as melhores chances de a Justiça brasileira mostrar que é igual para todos e não se limita a mandar para a cadeia pobres que não podem pagar um bom advogado.Afirmar esse princípio, no entanto, não significa lançar pessoas à execração pública apenas porque provêm de estratos sociais mais altos. O amplo direito de defesa precisa ser resguardado também para dar o exemplo. Alguns dos arrolados como suspeitos na operação Anaconda, vale lembrar, acabaram inocentados ao longo do processo.
crônica - carlos heitor cony
Plebiscitos
Nas antologias escolares de outros tempos, era obrigatória a presença de um conto do Arthur de Azevedo, "O Plebiscito", obra-prima de humor e estilo. Quando dele tomei conhecimento, tal como o personagem da sua história, eu não sabia o que era plebiscito. E jamais poderia imaginar que um dia fosse convocado a dar palpite sobre qualquer assunto de ordem institucional.Que me lembre, já encarei três plebiscitos: sobre a volta do presidencialismo, sobre a volta da monarquia e, mais recentemente, sobre a venda de armas. A finalidade do plebiscito é dar a última palavra do povo a respeito de um tema polêmico, mas o uso e abuso do plebiscito é também polêmico -muitos ditadores permanecem no poder à custa dele.No momento, há alguns temas que parecem pedir uma consulta ampla à vontade da nação. Dificilmente o Congresso decidirá certas questões, como o aborto e a pena de morte. Os legisladores são políticos, e politicamente os dois assuntos são temerários para serem decididos por uma casa de cidadãos que, de quatro em quatro anos, enfrentam o eleitorado heterogêneo de um país complicado como o Brasil.O plebiscito resulta impessoal, limita-se a um sim ou a um não -é evidente que os grupos interessados terão tempo para expor o problema e propor uma resposta.Outro assunto que talvez deva ser resolvido por plebiscito seria o tamanho do mandato presidencial. Tal como está, a Constituição foi mudada para favorecer FHC e pode ser mudada outra vez para garantir um terceiro mandato ao atual presidente da República.De minha parte, gostaria de um plebiscito para aprovar as reformas que o deputado Clodovil Hernandes fez em seu gabinete no Congresso, dando um sopro de ar fresco em seu ambiente de trabalho.
Nas antologias escolares de outros tempos, era obrigatória a presença de um conto do Arthur de Azevedo, "O Plebiscito", obra-prima de humor e estilo. Quando dele tomei conhecimento, tal como o personagem da sua história, eu não sabia o que era plebiscito. E jamais poderia imaginar que um dia fosse convocado a dar palpite sobre qualquer assunto de ordem institucional.Que me lembre, já encarei três plebiscitos: sobre a volta do presidencialismo, sobre a volta da monarquia e, mais recentemente, sobre a venda de armas. A finalidade do plebiscito é dar a última palavra do povo a respeito de um tema polêmico, mas o uso e abuso do plebiscito é também polêmico -muitos ditadores permanecem no poder à custa dele.No momento, há alguns temas que parecem pedir uma consulta ampla à vontade da nação. Dificilmente o Congresso decidirá certas questões, como o aborto e a pena de morte. Os legisladores são políticos, e politicamente os dois assuntos são temerários para serem decididos por uma casa de cidadãos que, de quatro em quatro anos, enfrentam o eleitorado heterogêneo de um país complicado como o Brasil.O plebiscito resulta impessoal, limita-se a um sim ou a um não -é evidente que os grupos interessados terão tempo para expor o problema e propor uma resposta.Outro assunto que talvez deva ser resolvido por plebiscito seria o tamanho do mandato presidencial. Tal como está, a Constituição foi mudada para favorecer FHC e pode ser mudada outra vez para garantir um terceiro mandato ao atual presidente da República.De minha parte, gostaria de um plebiscito para aprovar as reformas que o deputado Clodovil Hernandes fez em seu gabinete no Congresso, dando um sopro de ar fresco em seu ambiente de trabalho.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
artigo de opinião
A dor de Edna
A foto estava nos jornais de sábado passado. Será em breve apenas isso. Uma foto. Sem qualidade suficiente, é incerto que vá ser lembrada em algum daqueles prêmios que os "conscientes" de países mais civilizados outorgam de tempos em tempos para parecerem sensíveis. Responsabilidade social é bom negócio, sabemos bem. Mas isso tudo não importa para Edna Ezequiel. A insurgência civil que tomou conta dos morros do Rio de Janeiro lhe tomou a filha Alana e o irmão Hélio em pouco mais de um mês. Assassinados, "danos colaterais" aparentes de uma guerra que há anos se incrusta no principal cartão-postal do Brasil. Quis o acaso que Edna fosse personagem pública de sua tragédia pessoal. É tentador ao observador externo querer comparar as duas fotos em que seu drama foi congelado. Na primeira, de março, fica clara a maior dor concebível, a da morte de um filho. Já na segunda, uma espécie de anestesia incrédula parece tomar Edna. Mas tudo isso beira a cretinice. A dor de Edna não é mensurável. Jornalisticamente, a exposição de seu sofrimento leva às tentações do parágrafo acima. Mas só Edna sabe o que sentiu. O resto é divagação, facilmente utilizável pela indústria do sofrimento e da hipocrisia montada em décadas de descaso governamental e da sociedade. Ela é infalível, basta aparecer uma Alana, um Hélio, um menino João Hélio. Haverá marchas pela paz, cultos ecumênicos, fitinhas pretas nas antenas dos importados blindados, camisetas com mãos imitando pombas, mídia estridente perguntando "Até quando?", o Congresso aprovando a toque de caixa projetos destinados ao esquecimento. Lula repetirá o discurso de seus amigos da academia à esquerda e dirá que tudo é culpa da pobreza e da falta de educação -desrespeitando a maioria dos pobres que, como Edna, provavelmente é apenas vítima da barbárie que os cerca. Sérgio Cabral dirá que o Exército que patrulha a Cité Soleil deveria subir o morro dos Macacos, onde mora Edna. Os generais dirão que sua tropa é treinada para matar, não policiar, e que os melhoramentos incorporados aos Urutus usados no Haiti serão muito úteis quando guerrearmos com a Argentina. O pior é que eles acabam tendo razão; uma coisa é usar militares numa emergência; outra é tê-los como remendo. Enquanto isso, o morro e seus vários similares por tantas cidades Brasil afora continuam a colher o seu quinhão. A Edna, e a seus mortos, toda a simpatia do mundo. É o melhor que lhes pode ser facultado agora. Porque esperança, a verdadeira, essa só pode ser oferecida sem cinismo. E isso parece muito distante nestes dias em que vivemos.
IGOR GIELOW
editorial de segunda
Clima de omissão
OS RELATÓRIOS do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão da ONU) a respeito do aquecimento global buscam dois apoios na ciência: observações e previsões. O primeiro tipo é fundamental, por fornecer os dados que alimentam os programas de computador que simulam o comportamento futuro do planeta. É justamente aí que Brasil e América Latina têm sérias lacunas.As observações incluem séries históricas de variáveis físicas (temperatura e precipitação, entre outras) e biológicas (ritmo de crescimento de plantas, área de cobertura vegetal etc.). Modelos numéricos empregam várias equações para integrar todos esses dados. Se conseguirem reproduzir algo próximo da realidade, podem com alguma confiança predizer o futuro.Na segunda parte do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, divulgada dia 6 em Bruxelas, falava-se do risco de "savanização" de parte da Amazônia. Previsões sobre tais impactos na América Latina, porém, contam só com confiança média, por serem rarefeitas as informações. De 29 mil conjuntos de dados usados, cinco provinham da região.No Brasil, estão indisponíveis para climatologistas séries meteorológicas inteiras do século 20 em posse do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), resumiu a deficiência: "O Brasil é um grande vazio de monitoramento do que ocorre nos processos físicos e biológicos".Sem tal esteio, o país -tão dependente da natureza, da agricultura à hidreletricidade- não tem como aprofundar estudos de adaptação (medidas para diminuir o impacto social e ambiental do aquecimento). Ao governo Lula cabe a responsabilidade de pôr fim a essa letargia, orientando a política científica para cobrir os vazios inexplicáveis.
OS RELATÓRIOS do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão da ONU) a respeito do aquecimento global buscam dois apoios na ciência: observações e previsões. O primeiro tipo é fundamental, por fornecer os dados que alimentam os programas de computador que simulam o comportamento futuro do planeta. É justamente aí que Brasil e América Latina têm sérias lacunas.As observações incluem séries históricas de variáveis físicas (temperatura e precipitação, entre outras) e biológicas (ritmo de crescimento de plantas, área de cobertura vegetal etc.). Modelos numéricos empregam várias equações para integrar todos esses dados. Se conseguirem reproduzir algo próximo da realidade, podem com alguma confiança predizer o futuro.Na segunda parte do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, divulgada dia 6 em Bruxelas, falava-se do risco de "savanização" de parte da Amazônia. Previsões sobre tais impactos na América Latina, porém, contam só com confiança média, por serem rarefeitas as informações. De 29 mil conjuntos de dados usados, cinco provinham da região.No Brasil, estão indisponíveis para climatologistas séries meteorológicas inteiras do século 20 em posse do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), resumiu a deficiência: "O Brasil é um grande vazio de monitoramento do que ocorre nos processos físicos e biológicos".Sem tal esteio, o país -tão dependente da natureza, da agricultura à hidreletricidade- não tem como aprofundar estudos de adaptação (medidas para diminuir o impacto social e ambiental do aquecimento). Ao governo Lula cabe a responsabilidade de pôr fim a essa letargia, orientando a política científica para cobrir os vazios inexplicáveis.
domingo, 15 de abril de 2007
crônica do domingo
FERREIRA GULLAR
Cartas anônimas
CASADO HÁ mais de 30 anos com Maria Eugênia, Geninha, como ele a chamava, Deodato, aposentado, vivia sem grandes júbilos mas também sem sobressaltos. Aliás, se sobressaltos havia, eram provocados por seu filho Benício que, não sabia por que, às vezes começava a resmungar pelos cantos e a implicar com a mãe, que sempre o tratou com o carinho dispensado aos filhos únicos.Essa implicância se agravou depois que ele rompeu o namoro com Alice, sua colega na procuradoria da prefeitura. A moça nunca entendeu o que o levara àquela decisão, uma vez que, semanas antes, falara em casar-se com ela. Rompeu de maneira intempestiva e drástica, chegando mesmo, certa noite, a expulsá-la de sua casa quando, ao voltar do trabalho, encontrou-a conversando com dona Geninha, na sala. A atitude, demasiado grosseira, provocou a reação de Deodato que, atraído pelos berros do filho, veio até a sala e o repreendeu. A reação de Benício foi mais violenta ainda, desta vez contra o pai, que ele agarrou pelo pescoço, ameaçando estrangulá-lo. No dia seguinte, Benício pediu desculpas ao pai e se manteve, desde então, relativamente calmo, ainda que às vezes voltasse a resmungar para a apreensão dos pais.Fora esses problemas, a vida de Deodato transcorria em paz, uma vez que ele e a mulher se entendiam muito bem. Ela às vezes saía para visitar uma antiga amiga de colégio, outras vezes era ele que ia até o boteco do Dimas, ali na esquina, jogar um carteado.Foi assim que, com espanto, leu a carta que encontrou, sob a porta da rua, endereçada a ele. Uma carta anônima que, com letras recortadas de jornal, dizia o seguinte: "Sua mulher o está traindo".Dobrou o envelope e meteu-o no bolso, sem saber o que pensar. À mesa do café, Geninha percebeu alguma coisa estranha nele e perguntou se havia acontecido alguma coisa. Ele respondeu que não, não havia acontecido nada e, mal terminou o café, saiu para a rua.Sentado num banco da pracinha que ficava a uma quadra de sua casa, releu a carta anônima. Estava certo de que se tratava de uma calúnia, já que tinha total confiança em Geninha que, se fora namoradeira quando jovem, tornara-se um exemplo de esposa após o casamento. Mas quem teria lhe enviado aquela carta e com que objetivo? Pensou um instante e decidiu rasgá-la para evitar que a mulher tomasse conhecimento daquilo.Passaram-se alguns dias, ele já nem mais pensava no assunto, quando outra carta apareceu debaixo da porta: "Não se iluda, ela está traindo você". Deodato, desta vez, sentiu-se realmente abalado pela denúncia. Não que lhe desse crédito, mas a insistência do acusador passou a preocupá-lo. Que diabo levaria uma pessoa desconhecida a incriminar-lhe a esposa, que ele sabia fiel e honesta? Seria produto de simples equívoco ou a perversidade de alguém? Não tinha resposta para essas perguntas e, então, chegou a pensar que a causa fossem as visitas de Geninha a tal amiga de colégio. Podia ser que alguém, vendo-a entrar com alguma freqüência naquele prédio, talvez supusesse que fosse encontrar-se com algum homem, um amante... Não, aquilo não tinha cabimento, disse Deodato a si mesmo, depois de rasgar a segunda carta anônima e jogá-la na privada.A verdade, porém, é que, quando a terceira carta apareceu debaixo da porta, teve ímpeto de mostrá-la à esposa e pedir-lhe explicações. "Alguma razão deveria haver para que uma pessoa se desse ao trabalho de mandar-me essas denúncias", pensou ele, atormentado. Não quis sentar-se à mesa do café da manhã com a mulher, alegando não ter fome, vestiu o paletó e saiu, sem dar explicações.Ficou rodando pelas ruas, sem saber o que fazer para acabar com aquele tormento. Nem podia pedir conselho a algum amigo, pois levantaria suspeitas contra a respeitabilidade da esposa. Não voltou para almoçar, o que levou Geninha a telefonar para o trabalho do filho e perguntar se sabia do pai. Apareceu para o jantar, mas não pronunciou uma só palavra. Benício e a mãe se entreolhavam, sem entender. Após o jantar, trancou-se no escritório e ali dormiu, sentado na poltrona. Quando despertou, o filho saía para o trabalho. Assim que ele transpôs a porta da rua, foi espiar pela janela e o viu parado, mexendo na pasta que sempre levava consigo. Dela tirou um envelope e, após reparar que ninguém o observava, colocou-o cuidadosamente debaixo da porta, que acabara de transpor. Em seguida, fechou a pasta e dirigiu-se calmamente para o ponto de ônibus.
Cartas anônimas
CASADO HÁ mais de 30 anos com Maria Eugênia, Geninha, como ele a chamava, Deodato, aposentado, vivia sem grandes júbilos mas também sem sobressaltos. Aliás, se sobressaltos havia, eram provocados por seu filho Benício que, não sabia por que, às vezes começava a resmungar pelos cantos e a implicar com a mãe, que sempre o tratou com o carinho dispensado aos filhos únicos.Essa implicância se agravou depois que ele rompeu o namoro com Alice, sua colega na procuradoria da prefeitura. A moça nunca entendeu o que o levara àquela decisão, uma vez que, semanas antes, falara em casar-se com ela. Rompeu de maneira intempestiva e drástica, chegando mesmo, certa noite, a expulsá-la de sua casa quando, ao voltar do trabalho, encontrou-a conversando com dona Geninha, na sala. A atitude, demasiado grosseira, provocou a reação de Deodato que, atraído pelos berros do filho, veio até a sala e o repreendeu. A reação de Benício foi mais violenta ainda, desta vez contra o pai, que ele agarrou pelo pescoço, ameaçando estrangulá-lo. No dia seguinte, Benício pediu desculpas ao pai e se manteve, desde então, relativamente calmo, ainda que às vezes voltasse a resmungar para a apreensão dos pais.Fora esses problemas, a vida de Deodato transcorria em paz, uma vez que ele e a mulher se entendiam muito bem. Ela às vezes saía para visitar uma antiga amiga de colégio, outras vezes era ele que ia até o boteco do Dimas, ali na esquina, jogar um carteado.Foi assim que, com espanto, leu a carta que encontrou, sob a porta da rua, endereçada a ele. Uma carta anônima que, com letras recortadas de jornal, dizia o seguinte: "Sua mulher o está traindo".Dobrou o envelope e meteu-o no bolso, sem saber o que pensar. À mesa do café, Geninha percebeu alguma coisa estranha nele e perguntou se havia acontecido alguma coisa. Ele respondeu que não, não havia acontecido nada e, mal terminou o café, saiu para a rua.Sentado num banco da pracinha que ficava a uma quadra de sua casa, releu a carta anônima. Estava certo de que se tratava de uma calúnia, já que tinha total confiança em Geninha que, se fora namoradeira quando jovem, tornara-se um exemplo de esposa após o casamento. Mas quem teria lhe enviado aquela carta e com que objetivo? Pensou um instante e decidiu rasgá-la para evitar que a mulher tomasse conhecimento daquilo.Passaram-se alguns dias, ele já nem mais pensava no assunto, quando outra carta apareceu debaixo da porta: "Não se iluda, ela está traindo você". Deodato, desta vez, sentiu-se realmente abalado pela denúncia. Não que lhe desse crédito, mas a insistência do acusador passou a preocupá-lo. Que diabo levaria uma pessoa desconhecida a incriminar-lhe a esposa, que ele sabia fiel e honesta? Seria produto de simples equívoco ou a perversidade de alguém? Não tinha resposta para essas perguntas e, então, chegou a pensar que a causa fossem as visitas de Geninha a tal amiga de colégio. Podia ser que alguém, vendo-a entrar com alguma freqüência naquele prédio, talvez supusesse que fosse encontrar-se com algum homem, um amante... Não, aquilo não tinha cabimento, disse Deodato a si mesmo, depois de rasgar a segunda carta anônima e jogá-la na privada.A verdade, porém, é que, quando a terceira carta apareceu debaixo da porta, teve ímpeto de mostrá-la à esposa e pedir-lhe explicações. "Alguma razão deveria haver para que uma pessoa se desse ao trabalho de mandar-me essas denúncias", pensou ele, atormentado. Não quis sentar-se à mesa do café da manhã com a mulher, alegando não ter fome, vestiu o paletó e saiu, sem dar explicações.Ficou rodando pelas ruas, sem saber o que fazer para acabar com aquele tormento. Nem podia pedir conselho a algum amigo, pois levantaria suspeitas contra a respeitabilidade da esposa. Não voltou para almoçar, o que levou Geninha a telefonar para o trabalho do filho e perguntar se sabia do pai. Apareceu para o jantar, mas não pronunciou uma só palavra. Benício e a mãe se entreolhavam, sem entender. Após o jantar, trancou-se no escritório e ali dormiu, sentado na poltrona. Quando despertou, o filho saía para o trabalho. Assim que ele transpôs a porta da rua, foi espiar pela janela e o viu parado, mexendo na pasta que sempre levava consigo. Dela tirou um envelope e, após reparar que ninguém o observava, colocou-o cuidadosamente debaixo da porta, que acabara de transpor. Em seguida, fechou a pasta e dirigiu-se calmamente para o ponto de ônibus.
editorial de domingo
Aborto em plebiscito
Consulta popular sobre a descriminalização é uma boa oportunidade para instalar um debate qualificado sobre o tema
A sugestão de levar a plebiscito a proposta de descriminalizar o aborto no Brasil ganhou evidência ao receber a adesão do ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Talvez não seja a via mais eficaz para que a interrupção voluntária da gravidez, dentro de certos limites, deixe de ser crime -como esta Folha defende-, mas é o melhor meio de promover um debate qualificado da questão.De acordo com pesquisa Datafolha publicada no domingo passado, 65% dos brasileiros se opõem a mudanças no "statu quo"; 16% sustentam que o aborto deve ser permitido em mais situações do que as previstas pela lei atual (risco de vida para a mãe e gravidez resultante de estupro); e apenas 10% advogam pela descriminalização plena.É possível que esses números mudem a partir do momento em que defensores e opositores do direito de aborto começarem a explicitar seus argumentos, a exemplo do que se deu no referendo sobre a proibição do comércio de armas. Mesmo que o eleitor decida que tudo deve ficar como está, o saldo do eventual plebiscito terá sido positivo: a população estará mais informada sobre um tema relevante e cada lado conhecerá melhor os argumentos do outro.Em Portugal, que adotou a estratégia plebiscitária, foram necessárias duas consultas num prazo de nove anos para que a sociedade mudasse de posição e passasse a apoiar mudanças na restritiva legislação local. Elas foram finalmente sancionadas na semana passada.Discussões sobre o aborto são sempre difíceis, porque esse é um tema que mobiliza profundas convicções religiosas e humanitárias. Quem as tem -para um lado ou para o outro- raramente se deixa convencer pelos argumentos da parte adversária.É importante, entretanto, que se tragam para o debate novos elementos que transcendam à questão dos princípios. É aí que devem entrar as considerações de saúde pública.Segundo a metodologia desenvolvida pelo Instituto Alan Guttmacher, centro de pesquisa de saúde reprodutiva e políticas públicas dos EUA, realizaram-se no Brasil 1,1 milhão de abortos clandestinos em 2005, número menor que o de 1992 (1,5 milhão).Seria descabido cogitar de levar esse exército de mulheres -e seus médicos e parteiras- para trás das grades, como preconiza a legislação. Uma parte dessas brasileiras morre ou fica com seqüelas resultantes de abortos (naturais ou induzidos) que se complicam. Eles já são a quarta causa de mortalidade materna.O problema das discussões principistas é que elas gravitam em torno de polêmicas insolúveis acerca de quando a vida tem início e deixam de levar em conta a realidade sanitária, que não é alterada por boas intenções ou palavras de ordem.Nem a ciência nem a religião podem dar uma resposta satisfatória e universal sobre quando começa a vida -se na concepção, ao longo do desenvolvimento fetal ou no nascimento. A única alternativa é deixar que o direito estabeleça o ponto, que será necessariamente arbitrário. O conjunto dos cidadãos e cidadãs tem toda a legitimidade para fazê-lo.
Consulta popular sobre a descriminalização é uma boa oportunidade para instalar um debate qualificado sobre o tema
A sugestão de levar a plebiscito a proposta de descriminalizar o aborto no Brasil ganhou evidência ao receber a adesão do ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Talvez não seja a via mais eficaz para que a interrupção voluntária da gravidez, dentro de certos limites, deixe de ser crime -como esta Folha defende-, mas é o melhor meio de promover um debate qualificado da questão.De acordo com pesquisa Datafolha publicada no domingo passado, 65% dos brasileiros se opõem a mudanças no "statu quo"; 16% sustentam que o aborto deve ser permitido em mais situações do que as previstas pela lei atual (risco de vida para a mãe e gravidez resultante de estupro); e apenas 10% advogam pela descriminalização plena.É possível que esses números mudem a partir do momento em que defensores e opositores do direito de aborto começarem a explicitar seus argumentos, a exemplo do que se deu no referendo sobre a proibição do comércio de armas. Mesmo que o eleitor decida que tudo deve ficar como está, o saldo do eventual plebiscito terá sido positivo: a população estará mais informada sobre um tema relevante e cada lado conhecerá melhor os argumentos do outro.Em Portugal, que adotou a estratégia plebiscitária, foram necessárias duas consultas num prazo de nove anos para que a sociedade mudasse de posição e passasse a apoiar mudanças na restritiva legislação local. Elas foram finalmente sancionadas na semana passada.Discussões sobre o aborto são sempre difíceis, porque esse é um tema que mobiliza profundas convicções religiosas e humanitárias. Quem as tem -para um lado ou para o outro- raramente se deixa convencer pelos argumentos da parte adversária.É importante, entretanto, que se tragam para o debate novos elementos que transcendam à questão dos princípios. É aí que devem entrar as considerações de saúde pública.Segundo a metodologia desenvolvida pelo Instituto Alan Guttmacher, centro de pesquisa de saúde reprodutiva e políticas públicas dos EUA, realizaram-se no Brasil 1,1 milhão de abortos clandestinos em 2005, número menor que o de 1992 (1,5 milhão).Seria descabido cogitar de levar esse exército de mulheres -e seus médicos e parteiras- para trás das grades, como preconiza a legislação. Uma parte dessas brasileiras morre ou fica com seqüelas resultantes de abortos (naturais ou induzidos) que se complicam. Eles já são a quarta causa de mortalidade materna.O problema das discussões principistas é que elas gravitam em torno de polêmicas insolúveis acerca de quando a vida tem início e deixam de levar em conta a realidade sanitária, que não é alterada por boas intenções ou palavras de ordem.Nem a ciência nem a religião podem dar uma resposta satisfatória e universal sobre quando começa a vida -se na concepção, ao longo do desenvolvimento fetal ou no nascimento. A única alternativa é deixar que o direito estabeleça o ponto, que será necessariamente arbitrário. O conjunto dos cidadãos e cidadãs tem toda a legitimidade para fazê-lo.
sábado, 14 de abril de 2007
artigo de opinião - clóvis rossi
Falta do que fazer
Já devia estar acostumado, mas não consigo deixar de me surpreender com a formidável capacidade de o mundo político brasileiro debruçar-se sobre o escandalosamente periférico em vez de debater o essencial. Refiro-me, desta vez, ao "furo" de Catia Seabra, na Folha de ontem, a respeito das negociações governo/ oposição para acabar com o mecanismo da reeleição, estendendo o mandato presidencial de quatro para cinco anos. À parte os próprios políticos, há por aí algum mortal comum capaz de achar que eliminar a reeleição (ou mantê-la) resolve um só problema da pátria? É óbvio que não. Mas é uma mania brasileira essa de mexer nas regras, como se tudo dependesse delas, não de ações. Para tornar ainda mais espantosa a idéia em negociação, convém lembrar que o mecanismo da reeleição é de tenra idade no país: foi usado apenas em três eleições (1998, 2002 e 2006). Ou seja, não teve nem tempo de maturação suficiente para mostrar sua eficácia (ou não). Aliás, daria até para dizer que se mostrou, sim, eficaz. Pelo menos foi sob a égide da reeleição (ou dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva) que o Brasil conheceu um surto raro de estabilidade econômica e política. Antes dela, ou havia uma seqüência contínua de interrupções do processo democrático, ou uma sucessão de distúrbios econômicos espantosos, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Admito que as duas estabilidades não serviram até agora para fazer do Brasil um país realmente decente. Mas, sem elas, era mais indecente ainda. Até a pobreza diminuiu, graças ao controle da inflação. Para que mudar agora, então? Só pode ser para dar vazão ao furor legisferante do mundo político. Impotente ou incompetente para agir, fica fazendo ou discutindo regrinhas. Ridículo.
Já devia estar acostumado, mas não consigo deixar de me surpreender com a formidável capacidade de o mundo político brasileiro debruçar-se sobre o escandalosamente periférico em vez de debater o essencial. Refiro-me, desta vez, ao "furo" de Catia Seabra, na Folha de ontem, a respeito das negociações governo/ oposição para acabar com o mecanismo da reeleição, estendendo o mandato presidencial de quatro para cinco anos. À parte os próprios políticos, há por aí algum mortal comum capaz de achar que eliminar a reeleição (ou mantê-la) resolve um só problema da pátria? É óbvio que não. Mas é uma mania brasileira essa de mexer nas regras, como se tudo dependesse delas, não de ações. Para tornar ainda mais espantosa a idéia em negociação, convém lembrar que o mecanismo da reeleição é de tenra idade no país: foi usado apenas em três eleições (1998, 2002 e 2006). Ou seja, não teve nem tempo de maturação suficiente para mostrar sua eficácia (ou não). Aliás, daria até para dizer que se mostrou, sim, eficaz. Pelo menos foi sob a égide da reeleição (ou dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva) que o Brasil conheceu um surto raro de estabilidade econômica e política. Antes dela, ou havia uma seqüência contínua de interrupções do processo democrático, ou uma sucessão de distúrbios econômicos espantosos, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Admito que as duas estabilidades não serviram até agora para fazer do Brasil um país realmente decente. Mas, sem elas, era mais indecente ainda. Até a pobreza diminuiu, graças ao controle da inflação. Para que mudar agora, então? Só pode ser para dar vazão ao furor legisferante do mundo político. Impotente ou incompetente para agir, fica fazendo ou discutindo regrinhas. Ridículo.
editorial de sábado
Restrições ao álcool
Em termos de saúde pública, o tratamento legal dado à publicidade das bebidas alcoólicas em geral, de cervejas e vinhos inclusive, deve ser exatamente o mesmo reservado ao tabaco: restrição quase total.Trata-se de uma droga que provoca dependência e tem grande impacto na saúde pública. Estudo da Organização Mundial da Saúde de 2000 atribui ao álcool 5,6% de todas as mortes de homens ocorridas no planeta e 0,6% no caso das mulheres. A propaganda desses produtos deveria limitar-se a pontos-de-venda e publicações especializadas.Nesse contexto, é ainda tímida a nova regulamentação proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pois permite que bebidas alcoólicas sejam anunciadas em meios de comunicação de massa.Reconheça-se que a tarefa reservada à Anvisa nada tinha de simples. Por um lado, a agência não poderia banir toda a publicidade, hipótese em que violaria o artigo 220 da Constituição, que permite restringir, mas não proibir, anúncios de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias.Além disso, por força de lobbies poderosos a lei nº 9.294, que regula a publicidade desses produtos, criou uma exclusão injustificável. Bebidas com menos de 13 graus Gay Lussac -categoria que inclui as cervejas- não são consideradas alcoólicas para efeitos propagandísticos.A diferença de tratamento entre bebidas fermentadas (que raramente passam dos 13 graus) e destiladas (mais fortes) não encontra respaldo médico nem científico. O grau de intoxicação de um indivíduo é função do volume de álcool ingerido, e não da gradação do produto consumido.A solução encontrada pela Anvisa, entretanto, correrá riscos no Judiciário. A agência decidiu criar restrições aos anúncios de cerveja ignorando a letra da lei. Seu pressuposto é o de que, como órgão federal incumbido de zelar pela saúde pública, tem poder para tanto. É uma tese jurídica arrojada, mas pouco segura.Resolver essa questão exigiria que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentasse o lobby de cervejarias, TVs e agências de publicidade e encampasse uma proposta para mudar a lei. É difícil, mas já funcionou com o tabaco.
Em termos de saúde pública, o tratamento legal dado à publicidade das bebidas alcoólicas em geral, de cervejas e vinhos inclusive, deve ser exatamente o mesmo reservado ao tabaco: restrição quase total.Trata-se de uma droga que provoca dependência e tem grande impacto na saúde pública. Estudo da Organização Mundial da Saúde de 2000 atribui ao álcool 5,6% de todas as mortes de homens ocorridas no planeta e 0,6% no caso das mulheres. A propaganda desses produtos deveria limitar-se a pontos-de-venda e publicações especializadas.Nesse contexto, é ainda tímida a nova regulamentação proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pois permite que bebidas alcoólicas sejam anunciadas em meios de comunicação de massa.Reconheça-se que a tarefa reservada à Anvisa nada tinha de simples. Por um lado, a agência não poderia banir toda a publicidade, hipótese em que violaria o artigo 220 da Constituição, que permite restringir, mas não proibir, anúncios de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias.Além disso, por força de lobbies poderosos a lei nº 9.294, que regula a publicidade desses produtos, criou uma exclusão injustificável. Bebidas com menos de 13 graus Gay Lussac -categoria que inclui as cervejas- não são consideradas alcoólicas para efeitos propagandísticos.A diferença de tratamento entre bebidas fermentadas (que raramente passam dos 13 graus) e destiladas (mais fortes) não encontra respaldo médico nem científico. O grau de intoxicação de um indivíduo é função do volume de álcool ingerido, e não da gradação do produto consumido.A solução encontrada pela Anvisa, entretanto, correrá riscos no Judiciário. A agência decidiu criar restrições aos anúncios de cerveja ignorando a letra da lei. Seu pressuposto é o de que, como órgão federal incumbido de zelar pela saúde pública, tem poder para tanto. É uma tese jurídica arrojada, mas pouco segura.Resolver essa questão exigiria que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentasse o lobby de cervejarias, TVs e agências de publicidade e encampasse uma proposta para mudar a lei. É difícil, mas já funcionou com o tabaco.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Crônica de Arnaldo Jabor.
Será que a opinião pública está tão interessada assim na visão que Narcisa Tamborindeguy ou Adriane Galisteu têm da vida? A julgar pelo espaço que a mídia dedica a esse tipo de formador (???) de opinião, o Brasil virou um imenso Castelo de Caras. Adriane Galisteu, após o seu casamento relâmpago, falou às páginas amarelas de "Veja" e deu aula Magna de insensibilidade, egoísmo e ... sinceridade !!!
Estranha mistura, mas a moça tem razão quando se diz sincera. Ela não engana, revela-se de corpo (e que corpo!) inteiro, e o retrato que aparece é assustador! Adriane teve uma infância atribulada, perdeu o pai aos 15 anos, ainda pobre, e um irmão com AIDS quando já não era tão pobre. "Eu não tinha um tostão, não tinha dinheiro para comprar um pastel. Meu irmão estava doente. Minha mãe ganhava 190 reais do INSS, meu pai já tinha morrido. Eu sustentava todo mundo e não tinha poupança alguma".
Peço licença a Adriane, mas vou falar de outra infância triste de mulher, a de Rosa Célia Barbosa. Seu perfil - admirável - surgiu em recente reportagem da "Vejinha" sobre os melhores médicos do Rio de Janeiro. Alagoana, pequena, 1m50cm, começou a sua odisséia aos sete anos. Largada num orfanato em Botafogo, Rosa Célia chorou durante meses. "Toda a mulher de saia eu achava que era a minha mãe que vinha me buscar. Depois de um tempo, desisti.".
Voltemos a Adriane Galisteu. Ela é rica, bem sucedida, e "nem na metade da escada ainda". A escada, não deixa de ser uma boa imagem para alguém que - como uma verdadeira Scarlet O'Hara de tempos neoliberais (muito mais neo que liberais) - resolveu que nunca mais vai passar fome. Até aí, tudo bem; mas é desconcertante ver como o sofrimento pode levar à total insensibilidade.
Pergunta da repórter a Adriane se ela faria algo para o bem do outro: "Para o bem do outro? Não. Só faço pelo meu bem. Essa coisa de dar sem cobrar, dar sem pedir, não existe. Depois, você acaba jogando isso na cara do outro". "Você nunca cede, então?" "Cedo, claro que cedo. Já cedi em coisas que não afetam a minha vida. Ele gosta de dormir em lençol de linho e eu gosto de dormir em lençol de seda. Aí dá para ceder."
Rosa Célia fez vestibular de medicina quando morava de favor num quartinho e trabalhava para manter-se. Formou-se e resolveu dedicar-se à cardiologia neonatal e infantil, quando trabalhava no Hospital da Lagoa. Sem saber inglês, meteu na cabeça que teria que estudar no National Heart Hospital, em Londres, com Jane Sommerville, a maior especialista mundial no assunto.
Estudou inglês e conseguiu uma bolsa e uma carta da Dra. Sommerville. Em Londres, era gozada pelos colegas ingleses por causa de seu inglês jeca. Ganhou o respeito geral quando acertou um diagnóstico difícil numa paciente escocesa, após examiná-la por oito horas seguidas. - Ela falava um inglês ainda pior do que o meu", lembra Rosa Célia divertida.
Adriane Galisteu está rica, mas não confia em ninguém, salvo na mãe. Nem nos amigos. Vejam: "Eu não posso sair confiando nas pessoas". Não tenho motorista, nem segurança, por isso mesmo. É Mais gente para te trair. Eu confio mais nos bichos do que nas pessoas. Ainda existem pessoas que acham que eu tenho amnésia. Muitas das que convivem comigo hoje já me viraram a cara quando estava por baixo. Mas você pensa que eu as trato mal? Trato com a maior naturalidade. Porque elas podem até me usar, mas eu vou usá-las também. "É uma troca."
De Londres, Rosa Célia iria direto para Houston, nos Estados Unidos. Fora escolhida e convidada para a Meca da cardiologia mundial. Futuro brilhante a aguardava. Uma gravidez inesperada atrapalhou o sonho. Pediu 24 horas para pensar e optou pelo filho, voltando ao Rio de Janeiro. Reassumiu seu cargo no Hospital da Lagoa e abriu consultório. Mas todo ano viaja para estudar. Passa no mínimo um mês no Children's Hospital, em Boston, trabalhando 12 horas por dia.
"Você gosta de dinheiro, (Adriane)?" "Adoro dinheiro e detesto hipocrisia." Gasto, gosto de gastar, gosto de não fazer conta, de viajar de primeira classe. Tem gente que fala: esse dinheiro que ganhei eu vou doar ... O meu eu não dôo não. O meu eu dôo é para a minha conta. Eu adoro fazer o bem, mas também tenho minhas prioridades: minha casa, minha família. Primeiro vou ajudar quem está mais próximo. "Mas faço minhas campanhas beneficentes."
Rosa Célia atualmente chefia um sofisticadíssimo centro cardiológico : o Pró-Cardíaco. Lá são tratados casos limites, histórias tristes. O hospital é privado e caríssimo mas ela achou um jeito de operar ali crianças sem posses. Criou uma ONG, passa o chapéu, fala com amigos e com empresários.
O seu Projeto Pró-Criança já atendeu mais de 500 e 120 foram operadas. "Sonhei a vida inteira e fiz." Não importou ser pobre, mulher, baixinha, alagoana. "Eu fiz."
Voltemos a Adriane Galisteu e esbarraremos brutalmente na frustração. - Já tive vontade de viajar e não podia. Queria ter um carro e não tinha. Queria ter feito uma faculdade e não tive dinheiro. Não que eu sinta falta de livros, porque livro a gente compra na esquina e conhecimento a gente adquire na vida. Eu sinto falta é de contar para os amigos essas histórias que todo mundo tem do tempo da faculdade.
Duas vidas, dois perfis fora da normalidade, matéria-prima para os órgãos de imprensa. Mas qual é a mais valorizada pela mídia hoje em dia? É fácil constatar e chegar à conclusão de que há algo muito errado com a nossa sociedade. Pode ser até que o leitor tenha interesse mórbido em saber o que as louras e morenas burras ou muito espertas andam fazendo mas a mídia não deve limitar-se a refletir e a conformar-se com a mediocridade, o vazio o oportunismo e a falta de ética. Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade e nesse sentido estaríamos melhor servidos se houvesse mais Rosas Célias nos jornais nas revistas e TVs que nos cercam.
Voltando ao Castelo de Caras, as belas Adrianes, Narcisas, Lucianas, Suzanas ou Carlas, certamente encontrarão lá um espelho mágico... Se for mesmo mágico dirá que Rosa Célia é mais bela do que todas vocês.
Será que a opinião pública está tão interessada assim na visão que Narcisa Tamborindeguy ou Adriane Galisteu têm da vida? A julgar pelo espaço que a mídia dedica a esse tipo de formador (???) de opinião, o Brasil virou um imenso Castelo de Caras. Adriane Galisteu, após o seu casamento relâmpago, falou às páginas amarelas de "Veja" e deu aula Magna de insensibilidade, egoísmo e ... sinceridade !!!
Estranha mistura, mas a moça tem razão quando se diz sincera. Ela não engana, revela-se de corpo (e que corpo!) inteiro, e o retrato que aparece é assustador! Adriane teve uma infância atribulada, perdeu o pai aos 15 anos, ainda pobre, e um irmão com AIDS quando já não era tão pobre. "Eu não tinha um tostão, não tinha dinheiro para comprar um pastel. Meu irmão estava doente. Minha mãe ganhava 190 reais do INSS, meu pai já tinha morrido. Eu sustentava todo mundo e não tinha poupança alguma".
Peço licença a Adriane, mas vou falar de outra infância triste de mulher, a de Rosa Célia Barbosa. Seu perfil - admirável - surgiu em recente reportagem da "Vejinha" sobre os melhores médicos do Rio de Janeiro. Alagoana, pequena, 1m50cm, começou a sua odisséia aos sete anos. Largada num orfanato em Botafogo, Rosa Célia chorou durante meses. "Toda a mulher de saia eu achava que era a minha mãe que vinha me buscar. Depois de um tempo, desisti.".
Voltemos a Adriane Galisteu. Ela é rica, bem sucedida, e "nem na metade da escada ainda". A escada, não deixa de ser uma boa imagem para alguém que - como uma verdadeira Scarlet O'Hara de tempos neoliberais (muito mais neo que liberais) - resolveu que nunca mais vai passar fome. Até aí, tudo bem; mas é desconcertante ver como o sofrimento pode levar à total insensibilidade.
Pergunta da repórter a Adriane se ela faria algo para o bem do outro: "Para o bem do outro? Não. Só faço pelo meu bem. Essa coisa de dar sem cobrar, dar sem pedir, não existe. Depois, você acaba jogando isso na cara do outro". "Você nunca cede, então?" "Cedo, claro que cedo. Já cedi em coisas que não afetam a minha vida. Ele gosta de dormir em lençol de linho e eu gosto de dormir em lençol de seda. Aí dá para ceder."
Rosa Célia fez vestibular de medicina quando morava de favor num quartinho e trabalhava para manter-se. Formou-se e resolveu dedicar-se à cardiologia neonatal e infantil, quando trabalhava no Hospital da Lagoa. Sem saber inglês, meteu na cabeça que teria que estudar no National Heart Hospital, em Londres, com Jane Sommerville, a maior especialista mundial no assunto.
Estudou inglês e conseguiu uma bolsa e uma carta da Dra. Sommerville. Em Londres, era gozada pelos colegas ingleses por causa de seu inglês jeca. Ganhou o respeito geral quando acertou um diagnóstico difícil numa paciente escocesa, após examiná-la por oito horas seguidas. - Ela falava um inglês ainda pior do que o meu", lembra Rosa Célia divertida.
Adriane Galisteu está rica, mas não confia em ninguém, salvo na mãe. Nem nos amigos. Vejam: "Eu não posso sair confiando nas pessoas". Não tenho motorista, nem segurança, por isso mesmo. É Mais gente para te trair. Eu confio mais nos bichos do que nas pessoas. Ainda existem pessoas que acham que eu tenho amnésia. Muitas das que convivem comigo hoje já me viraram a cara quando estava por baixo. Mas você pensa que eu as trato mal? Trato com a maior naturalidade. Porque elas podem até me usar, mas eu vou usá-las também. "É uma troca."
De Londres, Rosa Célia iria direto para Houston, nos Estados Unidos. Fora escolhida e convidada para a Meca da cardiologia mundial. Futuro brilhante a aguardava. Uma gravidez inesperada atrapalhou o sonho. Pediu 24 horas para pensar e optou pelo filho, voltando ao Rio de Janeiro. Reassumiu seu cargo no Hospital da Lagoa e abriu consultório. Mas todo ano viaja para estudar. Passa no mínimo um mês no Children's Hospital, em Boston, trabalhando 12 horas por dia.
"Você gosta de dinheiro, (Adriane)?" "Adoro dinheiro e detesto hipocrisia." Gasto, gosto de gastar, gosto de não fazer conta, de viajar de primeira classe. Tem gente que fala: esse dinheiro que ganhei eu vou doar ... O meu eu não dôo não. O meu eu dôo é para a minha conta. Eu adoro fazer o bem, mas também tenho minhas prioridades: minha casa, minha família. Primeiro vou ajudar quem está mais próximo. "Mas faço minhas campanhas beneficentes."
Rosa Célia atualmente chefia um sofisticadíssimo centro cardiológico : o Pró-Cardíaco. Lá são tratados casos limites, histórias tristes. O hospital é privado e caríssimo mas ela achou um jeito de operar ali crianças sem posses. Criou uma ONG, passa o chapéu, fala com amigos e com empresários.
O seu Projeto Pró-Criança já atendeu mais de 500 e 120 foram operadas. "Sonhei a vida inteira e fiz." Não importou ser pobre, mulher, baixinha, alagoana. "Eu fiz."
Voltemos a Adriane Galisteu e esbarraremos brutalmente na frustração. - Já tive vontade de viajar e não podia. Queria ter um carro e não tinha. Queria ter feito uma faculdade e não tive dinheiro. Não que eu sinta falta de livros, porque livro a gente compra na esquina e conhecimento a gente adquire na vida. Eu sinto falta é de contar para os amigos essas histórias que todo mundo tem do tempo da faculdade.
Duas vidas, dois perfis fora da normalidade, matéria-prima para os órgãos de imprensa. Mas qual é a mais valorizada pela mídia hoje em dia? É fácil constatar e chegar à conclusão de que há algo muito errado com a nossa sociedade. Pode ser até que o leitor tenha interesse mórbido em saber o que as louras e morenas burras ou muito espertas andam fazendo mas a mídia não deve limitar-se a refletir e a conformar-se com a mediocridade, o vazio o oportunismo e a falta de ética. Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade e nesse sentido estaríamos melhor servidos se houvesse mais Rosas Célias nos jornais nas revistas e TVs que nos cercam.
Voltando ao Castelo de Caras, as belas Adrianes, Narcisas, Lucianas, Suzanas ou Carlas, certamente encontrarão lá um espelho mágico... Se for mesmo mágico dirá que Rosa Célia é mais bela do que todas vocês.
edital de sexta
Restrições ao álcool
EM TERMOS de saúde pública, o tratamento legal dado à publicidade das bebidas alcoólicas em geral, de cervejas e vinhos inclusive, deve ser exatamente o mesmo reservado ao tabaco: restrição quase total.Trata-se de uma droga que provoca dependência e tem grande impacto na saúde pública. Estudo da Organização Mundial da Saúde de 2000 atribui ao álcool 5,6% de todas as mortes de homens ocorridas no planeta e 0,6% no caso das mulheres. A propaganda desses produtos deveria limitar-se a pontos-de-venda e publicações especializadas.Nesse contexto, é ainda tímida a nova regulamentação proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pois permite que bebidas alcoólicas sejam anunciadas em meios de comunicação de massa.Reconheça-se que a tarefa reservada à Anvisa nada tinha de simples. Por um lado, a agência não poderia banir toda a publicidade, hipótese em que violaria o artigo 220 da Constituição, que permite restringir, mas não proibir, anúncios de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias.Além disso, por força de lobbies poderosos a lei nº 9.294, que regula a publicidade desses produtos, criou uma exclusão injustificável. Bebidas com menos de 13 graus Gay Lussac -categoria que inclui as cervejas- não são consideradas alcoólicas para efeitos propagandísticos.A diferença de tratamento entre bebidas fermentadas (que raramente passam dos 13 graus) e destiladas (mais fortes) não encontra respaldo médico nem científico. O grau de intoxicação de um indivíduo é função do volume de álcool ingerido, e não da gradação do produto consumido.A solução encontrada pela Anvisa, entretanto, correrá riscos no Judiciário. A agência decidiu criar restrições aos anúncios de cerveja ignorando a letra da lei. Seu pressuposto é o de que, como órgão federal incumbido de zelar pela saúde pública, tem poder para tanto. É uma tese jurídica arrojada, mas pouco segura.Resolver essa questão exigiria que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentasse o lobby de cervejarias, TVs e agências de publicidade e encampasse uma proposta para mudar a lei. É difícil, mas já funcionou com o tabaco.
EM TERMOS de saúde pública, o tratamento legal dado à publicidade das bebidas alcoólicas em geral, de cervejas e vinhos inclusive, deve ser exatamente o mesmo reservado ao tabaco: restrição quase total.Trata-se de uma droga que provoca dependência e tem grande impacto na saúde pública. Estudo da Organização Mundial da Saúde de 2000 atribui ao álcool 5,6% de todas as mortes de homens ocorridas no planeta e 0,6% no caso das mulheres. A propaganda desses produtos deveria limitar-se a pontos-de-venda e publicações especializadas.Nesse contexto, é ainda tímida a nova regulamentação proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pois permite que bebidas alcoólicas sejam anunciadas em meios de comunicação de massa.Reconheça-se que a tarefa reservada à Anvisa nada tinha de simples. Por um lado, a agência não poderia banir toda a publicidade, hipótese em que violaria o artigo 220 da Constituição, que permite restringir, mas não proibir, anúncios de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias.Além disso, por força de lobbies poderosos a lei nº 9.294, que regula a publicidade desses produtos, criou uma exclusão injustificável. Bebidas com menos de 13 graus Gay Lussac -categoria que inclui as cervejas- não são consideradas alcoólicas para efeitos propagandísticos.A diferença de tratamento entre bebidas fermentadas (que raramente passam dos 13 graus) e destiladas (mais fortes) não encontra respaldo médico nem científico. O grau de intoxicação de um indivíduo é função do volume de álcool ingerido, e não da gradação do produto consumido.A solução encontrada pela Anvisa, entretanto, correrá riscos no Judiciário. A agência decidiu criar restrições aos anúncios de cerveja ignorando a letra da lei. Seu pressuposto é o de que, como órgão federal incumbido de zelar pela saúde pública, tem poder para tanto. É uma tese jurídica arrojada, mas pouco segura.Resolver essa questão exigiria que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentasse o lobby de cervejarias, TVs e agências de publicidade e encampasse uma proposta para mudar a lei. É difícil, mas já funcionou com o tabaco.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
O federalista
Agora ante prefeitos, Lula dá seqüência à opção pelas promessas sem compromisso e pelas ações acomodatícias
QUEM OBSERVA com assiduidade a rotina da política nacional já aprendeu a decifrar algumas mensagens codificadas. Quando, por exemplo, governadores ou prefeitos rumam em conjunto para Brasília propondo a reforma do "pacto federativo", eles querem é mais recursos.A 10ª Marcha em Defesa dos Municípios, que levou 3.000 prefeitos à capital federal, seguiu à risca o roteiro. O "pacto federativo" foi invocado uma ou outra vez, mas na hora de ir direto ao ponto tratou-se do aumento da fatia de impostos federais transferida aos municípios.Verba federal, registre-se, além da fornecida por estatais como o Banco do Brasil, a Caixa e a Petrobras, que patrocinaram a caravana municipalista. Os prefeitos querem elevar em um ponto percentual, para 23,5%, a parcela do Imposto de Renda e do IPI (produtos industrializados) transferida constitucionalmente pelo Fundo de Participação dos Municípios.O presidente Lula, federalista de resultados, não perdeu essa chance de ocupar mais um palco com ouvintes ávidos por aplaudi-lo. Disse exatamente o que os prefeitos queriam escutar, que dera "ordem" a sua base parlamentar para votar o aumento pretendido. Foi ovacionado.Amuados ficaram os governadores, que há um mês fizeram a sua própria marcha federalista na Granja do Torto, saíram de lá sorridentes com promessas de mais recursos para os Estados, mas até hoje nada saiu do papel. Lula vai se aperfeiçoando, que o digam os controladores de vôo amotinados, na arte da embromação. Deveriam ficar de sobreaviso os prefeitos, os próximos na fila da frustração.Nem tudo o que o presidente promete, no entanto, vira pó. O PMDB é testemunha do empenho da palavra presidencial quando o tema é distribuir cargos no primeiro, no segundo, no terceiro e em quantos mais escalões houver na máquina federal.Além de prometer-lhes mais fundos, diante dos prefeitos o presidente exterminou o projeto de reforma tributária que há anos tramita no Congresso: "Não é mais a reforma que nos interessa". Do mesmo modo, já lançara para as calendas a reforma previdenciária e a das leis trabalhistas. A administração Lula desistiu, por incapacidade gerencial e política, de qualquer empreitada de fôlego no sentido de modernizar as instituições brasileiras.Todos os movimentos do governo têm sido acomodatícios e pontuais. A mudar as bases do sistema de poupança popular, preferiu reduzir o rendimento da caderneta; em vez de flexibilizar a CLT e promover empregos, escolheu ameaçar prestadores de serviço; a racionalizar a distribuição regional de fundos públicos, dentro de uma discussão ampla sobre tributação, opta por aplacar governadores e prefeitos com promessas de migalhas.E o presidente Lula, com a popularidade em alta, aprecia cada vez mais o show. O federalismo do embuste tem tudo para firmar-se como técnica de governo.
Agora ante prefeitos, Lula dá seqüência à opção pelas promessas sem compromisso e pelas ações acomodatícias
QUEM OBSERVA com assiduidade a rotina da política nacional já aprendeu a decifrar algumas mensagens codificadas. Quando, por exemplo, governadores ou prefeitos rumam em conjunto para Brasília propondo a reforma do "pacto federativo", eles querem é mais recursos.A 10ª Marcha em Defesa dos Municípios, que levou 3.000 prefeitos à capital federal, seguiu à risca o roteiro. O "pacto federativo" foi invocado uma ou outra vez, mas na hora de ir direto ao ponto tratou-se do aumento da fatia de impostos federais transferida aos municípios.Verba federal, registre-se, além da fornecida por estatais como o Banco do Brasil, a Caixa e a Petrobras, que patrocinaram a caravana municipalista. Os prefeitos querem elevar em um ponto percentual, para 23,5%, a parcela do Imposto de Renda e do IPI (produtos industrializados) transferida constitucionalmente pelo Fundo de Participação dos Municípios.O presidente Lula, federalista de resultados, não perdeu essa chance de ocupar mais um palco com ouvintes ávidos por aplaudi-lo. Disse exatamente o que os prefeitos queriam escutar, que dera "ordem" a sua base parlamentar para votar o aumento pretendido. Foi ovacionado.Amuados ficaram os governadores, que há um mês fizeram a sua própria marcha federalista na Granja do Torto, saíram de lá sorridentes com promessas de mais recursos para os Estados, mas até hoje nada saiu do papel. Lula vai se aperfeiçoando, que o digam os controladores de vôo amotinados, na arte da embromação. Deveriam ficar de sobreaviso os prefeitos, os próximos na fila da frustração.Nem tudo o que o presidente promete, no entanto, vira pó. O PMDB é testemunha do empenho da palavra presidencial quando o tema é distribuir cargos no primeiro, no segundo, no terceiro e em quantos mais escalões houver na máquina federal.Além de prometer-lhes mais fundos, diante dos prefeitos o presidente exterminou o projeto de reforma tributária que há anos tramita no Congresso: "Não é mais a reforma que nos interessa". Do mesmo modo, já lançara para as calendas a reforma previdenciária e a das leis trabalhistas. A administração Lula desistiu, por incapacidade gerencial e política, de qualquer empreitada de fôlego no sentido de modernizar as instituições brasileiras.Todos os movimentos do governo têm sido acomodatícios e pontuais. A mudar as bases do sistema de poupança popular, preferiu reduzir o rendimento da caderneta; em vez de flexibilizar a CLT e promover empregos, escolheu ameaçar prestadores de serviço; a racionalizar a distribuição regional de fundos públicos, dentro de uma discussão ampla sobre tributação, opta por aplacar governadores e prefeitos com promessas de migalhas.E o presidente Lula, com a popularidade em alta, aprecia cada vez mais o show. O federalismo do embuste tem tudo para firmar-se como técnica de governo.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Insegurança no Rio
SÉRGIO CABRAL (PMDB), governador do Rio de Janeiro, não sabe o que fazer para garantir segurança à população de seu Estado. No velório do PM que fazia a proteção de seus filhos, disse que não ficaria quatro anos de braços cruzados. Não declinou, contudo, como e quando planeja arregaçar as mangas.Desde que Cabral iniciou sua gestão, a desenvoltura das quadrilhas já vitimou 39 policiais. Dados oficiais indicam acentuado crescimento de crimes graves em janeiro, no Estado e em particular na capital, onde homicídios saltaram 26% em relação ao mesmo mês de 2006.O governador reage com o surrado expediente de privilegiar a solução fácil (em aparência): pedir que as Forças Armadas cumpram a tarefa que caberia à Polícia Militar. Amua-se com o ministro da Justiça, o qual alega, com razão, que o Exército não recebe treinamento adequado para desenvolver ações policiais.É temerário ampliar a presença militar além do entorno dos quartéis. As Forças Armadas devem ser preservadas do engajamento direto contra criminosos, sob risco de contágio ou descrédito. Foi o que se viu em 2006, na ação para reaver armas roubadas de um quartel, quando o Exército mobilizou 1.200 soldados e só as recuperou após um nebuloso entendimento com o tráfico.As tropas certas para missões determinadas, com prazo para começar e terminar, estão na Força Nacional. Faz todo sentido empregá-las no reforço ao policiamento dos Jogos Pan-Americanos, como está previsto. Um contingente de 500 homens já foi enviado ao Rio, em janeiro; quando muito, seria o caso agora de revisar e acelerar o cronograma de deslocamentos até julho.Soluções definitivas, porém, dependem do governador. Cabral promete contratar 9.000 policiais para reforçar a segurança. A população do Rio ficaria mais tranqüila se ele indicasse quando essa tropa entra em ação.
SÉRGIO CABRAL (PMDB), governador do Rio de Janeiro, não sabe o que fazer para garantir segurança à população de seu Estado. No velório do PM que fazia a proteção de seus filhos, disse que não ficaria quatro anos de braços cruzados. Não declinou, contudo, como e quando planeja arregaçar as mangas.Desde que Cabral iniciou sua gestão, a desenvoltura das quadrilhas já vitimou 39 policiais. Dados oficiais indicam acentuado crescimento de crimes graves em janeiro, no Estado e em particular na capital, onde homicídios saltaram 26% em relação ao mesmo mês de 2006.O governador reage com o surrado expediente de privilegiar a solução fácil (em aparência): pedir que as Forças Armadas cumpram a tarefa que caberia à Polícia Militar. Amua-se com o ministro da Justiça, o qual alega, com razão, que o Exército não recebe treinamento adequado para desenvolver ações policiais.É temerário ampliar a presença militar além do entorno dos quartéis. As Forças Armadas devem ser preservadas do engajamento direto contra criminosos, sob risco de contágio ou descrédito. Foi o que se viu em 2006, na ação para reaver armas roubadas de um quartel, quando o Exército mobilizou 1.200 soldados e só as recuperou após um nebuloso entendimento com o tráfico.As tropas certas para missões determinadas, com prazo para começar e terminar, estão na Força Nacional. Faz todo sentido empregá-las no reforço ao policiamento dos Jogos Pan-Americanos, como está previsto. Um contingente de 500 homens já foi enviado ao Rio, em janeiro; quando muito, seria o caso agora de revisar e acelerar o cronograma de deslocamentos até julho.Soluções definitivas, porém, dependem do governador. Cabral promete contratar 9.000 policiais para reforçar a segurança. A população do Rio ficaria mais tranqüila se ele indicasse quando essa tropa entra em ação.
terça-feira, 10 de abril de 2007
um pouco de ironia
"Brasília" é um sucesso
Não é piada nem falta de respeito. Na Inglaterra, inauguraram um bordel em Preston, cidadezinha localizada no norte daquele país, no condado de Lancashire, situado na rua Cannon, local de concentração de bares e restaurantes e, agora, com pelo menos uma das chamadas casas de tolerância.Até aí, nada de novo. Esse tipo de tolerância é antigo e universal. A novidade foi o nome que deram ao estabelecimento: "Brasília". Até lá chegaram as façanhas de nossa capital. Um nome que aos poucos remete para um tipo de atividade específica.Assim como em todas as cidades há um hotel chamado "Plaza" e um parque de diversão chamado "Tívoli", se a coisa funcionar na rua Cannon, em breve teremos "Brasílias" espalhadas pelo mundo, o que mostrará a pujança nacional em determinados setores da faina humana.Não tenho certeza, mas a decoração da nova casa de tolerância é realmente tolerante: a catedral, que não traz apelo condenável, a rampa do Palácio do Planalto e a foto oficial do Congresso, com a bandeira auriverde ao fundo. Não sei até que ponto essas imagens servem de estímulo aos habitantes de Preston. Não acredito que as coisas que acontecem em Brasília tenham chegado ao condado de Lancashire, mas com a internet, tudo é possível.O influente jornal da cidade, o "Lancashire Evening Post", em capa de uma de suas edições, revelou que uma das mulheres do "Brasília" chegava a atender 27 clientes por dia. Ficava com 40% do que faturava, mais do que se cobra na Brasília real, que geralmente fica na casa dos 20%.O "Lancashire Evening Post" informa que havia uma promoção de 30 minutos com duas garotas por 100 euros. De acordo com a Justiça inglesa, "Brasília" rendeu meio milhão em um ano.
Carlos Heitor Cony
Não é piada nem falta de respeito. Na Inglaterra, inauguraram um bordel em Preston, cidadezinha localizada no norte daquele país, no condado de Lancashire, situado na rua Cannon, local de concentração de bares e restaurantes e, agora, com pelo menos uma das chamadas casas de tolerância.Até aí, nada de novo. Esse tipo de tolerância é antigo e universal. A novidade foi o nome que deram ao estabelecimento: "Brasília". Até lá chegaram as façanhas de nossa capital. Um nome que aos poucos remete para um tipo de atividade específica.Assim como em todas as cidades há um hotel chamado "Plaza" e um parque de diversão chamado "Tívoli", se a coisa funcionar na rua Cannon, em breve teremos "Brasílias" espalhadas pelo mundo, o que mostrará a pujança nacional em determinados setores da faina humana.Não tenho certeza, mas a decoração da nova casa de tolerância é realmente tolerante: a catedral, que não traz apelo condenável, a rampa do Palácio do Planalto e a foto oficial do Congresso, com a bandeira auriverde ao fundo. Não sei até que ponto essas imagens servem de estímulo aos habitantes de Preston. Não acredito que as coisas que acontecem em Brasília tenham chegado ao condado de Lancashire, mas com a internet, tudo é possível.O influente jornal da cidade, o "Lancashire Evening Post", em capa de uma de suas edições, revelou que uma das mulheres do "Brasília" chegava a atender 27 clientes por dia. Ficava com 40% do que faturava, mais do que se cobra na Brasília real, que geralmente fica na casa dos 20%.O "Lancashire Evening Post" informa que havia uma promoção de 30 minutos com duas garotas por 100 euros. De acordo com a Justiça inglesa, "Brasília" rendeu meio milhão em um ano.
Carlos Heitor Cony
editorial de terça
Terremoto competitivo
SE a competição entre as empresas no mundo contemporâneo pode ser comparada à luta pela sobrevivência das espécies, então o Brasil tem sido um laboratório espetacular para experimentos de "evolucionismo" corporativo. Das 500 maiores companhias brasileiras em 1973, só 117 (23%) continuavam na elite 32 anos depois.A pesquisa, da Fundação Dom Cabral -reputada instituição de treinamento de executivos-, trata de um dos períodos mais turbulentos da história econômica do Brasil. Em pouco mais de três décadas, o país conviveu com cinco moedas e assistiu, bestializado, ao desfile de sete planos econômicos.Esse terremoto competitivo contou com corte súbito do crédito, congelamentos de preços, confisco de poupança, abertura radical e repentina da economia aos importados, escalada tributária. Juros, preços e câmbio oscilaram como num eletrocardiograma. "Só quem tem comichão pelo risco agüenta ser empresário no Brasil", brincou o ex-ministro Delfim Netto ao comentar os resultados da pesquisa.O estudo tenta estabelecer as causas para a permanência das empresas vencedoras. No geral, mantiveram-se em processo contínuo de expansão, diversificação e aquisição de concorrentes. Desenvolveram em sua cultura empresarial a capacidade de antecipar-se a mudanças nos ambientes doméstico e mundial.Mas o ambiente doméstico, histórias heróicas à parte, foi muito mais avesso à sobrevivência empresarial do que o global nesse período. Decerto a conquista da estabilidade de preços e o equacionamento do problema de solvência externa, nos últimos anos, melhoraram bastante as condições de o empresário brasileiro competir.Ele ainda convive, no entanto, com um custo de capital e tributário elevado demais em relação a seus homólogos em outros países. Passa da hora de o governo atacar esses males, que contribuem para a alta taxa de mortalidade das companhias nacionais.
SE a competição entre as empresas no mundo contemporâneo pode ser comparada à luta pela sobrevivência das espécies, então o Brasil tem sido um laboratório espetacular para experimentos de "evolucionismo" corporativo. Das 500 maiores companhias brasileiras em 1973, só 117 (23%) continuavam na elite 32 anos depois.A pesquisa, da Fundação Dom Cabral -reputada instituição de treinamento de executivos-, trata de um dos períodos mais turbulentos da história econômica do Brasil. Em pouco mais de três décadas, o país conviveu com cinco moedas e assistiu, bestializado, ao desfile de sete planos econômicos.Esse terremoto competitivo contou com corte súbito do crédito, congelamentos de preços, confisco de poupança, abertura radical e repentina da economia aos importados, escalada tributária. Juros, preços e câmbio oscilaram como num eletrocardiograma. "Só quem tem comichão pelo risco agüenta ser empresário no Brasil", brincou o ex-ministro Delfim Netto ao comentar os resultados da pesquisa.O estudo tenta estabelecer as causas para a permanência das empresas vencedoras. No geral, mantiveram-se em processo contínuo de expansão, diversificação e aquisição de concorrentes. Desenvolveram em sua cultura empresarial a capacidade de antecipar-se a mudanças nos ambientes doméstico e mundial.Mas o ambiente doméstico, histórias heróicas à parte, foi muito mais avesso à sobrevivência empresarial do que o global nesse período. Decerto a conquista da estabilidade de preços e o equacionamento do problema de solvência externa, nos últimos anos, melhoraram bastante as condições de o empresário brasileiro competir.Ele ainda convive, no entanto, com um custo de capital e tributário elevado demais em relação a seus homólogos em outros países. Passa da hora de o governo atacar esses males, que contribuem para a alta taxa de mortalidade das companhias nacionais.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
editorial de segunda
O segundo alerta
Novo relatório sobre impactos da mudança do clima no mundo mostra inação dos governos, entre eles o do Brasil
PELA SEGUNDA vez em dois meses, cumprindo sua agenda, o IPCC -Painel Internacional sobre Mudança Climática - lança um alerta incisivo sobre o futuro do planeta. Como ocorrera em Paris, o relatório agora apresentado de Bruxelas reitera que o aquecimento global é uma realidade e vai piorar, mas acrescenta que os pobres pagarão mais pela omissão dos governos de hoje.
Futuro não muito distante, ressalte-se. Segundo o sumário de Bruxelas, já em 2020 até 250 milhões de africanos poderão enfrentar escassez de água e redução no produto agrícola. Um continente relegado à miséria produziria hordas de refugiados em proporções inauditas.
Por volta de 2050, depósitos subterrâneos de água do Nordeste brasileiro poderão receber menos 70% de recarga. O semi-árido nordestino caminharia para a desertificação. Não haveria Bolsa Família que bastasse.
A biodiversidade também marcha para uma quadra escura, constata o IPCC (órgão criado em 1988 pela ONU). Cerca de 30% das espécies da Terra correrão risco de extinguir-se se a temperatura média do globo subir de 1,5C a 2,5C -algo mais que provável. A mortandade de corais na Grande Barreira, a leste da Austrália, deve acelerar-se.
O governo brasileiro talvez comemore a retirada da menção à perda de 20% a 45% de árvores da Amazônia. Seria como regozijar-se com a omissão, pelo médico, da faixa de probabilidade de um filho morrer de inanição. Fica no relatório, porém, a previsão de que a floresta enfrentará uma "savanização", tornando-se mais parecida com o cerrado -só as cifras foram omitidas.
Os representantes de governos de novo pressionaram para suprimir ou modificar passagens do relatório. EUA, Arábia Saudita, Rússia e China, em especial, batalharam para amenizar o documento que poderá ser usado para deles cobrar compromissos mais sérios com a saúde do globo depois de 2012. Até essa data, o controle das emissões de gases que contribuem para o efeito estufa é regido pelo Protocolo de Kyoto (cidade japonesa onde foi firmado o pacto internacional).
As sessões se prolongaram madrugada adentro. Os autores cientistas protestaram. É da regra do jogo consensualista na ONU, que tem vantagens e desvantagens. O aumento da visibilidade do funcionamento do IPCC só reforça a credibilidade e o impacto de seus relatórios.
Na condição de chanceladores desses documentos, torna-se mais difícil para governos nacionais justificarem sua inação. No Brasil, por exemplo, a ministra Marina Silva (Meio Ambiente), esforçou-se por fazer parecer que a administração Lula não está paralisada nesse setor, em contraste com todos os outros.
A ministra revelou que o presidente encarregou-a de coordenar várias iniciativas num Plano Nacional de Enfrentamento de Mudanças Climáticas. Vem aí o PEMC, depois do PAC e do PDE, da educação. Compilam-se idéias prontas, medidas em andamento, orçamentos fantasiosos e, num passe de propaganda, o governo parece agir.
Ao menos no que respeita à mudança climática, Lula aparenta ter escolhido uma coordenadora responsável. Isso não dá garantia de eficácia, contudo.
Novo relatório sobre impactos da mudança do clima no mundo mostra inação dos governos, entre eles o do Brasil
PELA SEGUNDA vez em dois meses, cumprindo sua agenda, o IPCC -Painel Internacional sobre Mudança Climática - lança um alerta incisivo sobre o futuro do planeta. Como ocorrera em Paris, o relatório agora apresentado de Bruxelas reitera que o aquecimento global é uma realidade e vai piorar, mas acrescenta que os pobres pagarão mais pela omissão dos governos de hoje.
Futuro não muito distante, ressalte-se. Segundo o sumário de Bruxelas, já em 2020 até 250 milhões de africanos poderão enfrentar escassez de água e redução no produto agrícola. Um continente relegado à miséria produziria hordas de refugiados em proporções inauditas.
Por volta de 2050, depósitos subterrâneos de água do Nordeste brasileiro poderão receber menos 70% de recarga. O semi-árido nordestino caminharia para a desertificação. Não haveria Bolsa Família que bastasse.
A biodiversidade também marcha para uma quadra escura, constata o IPCC (órgão criado em 1988 pela ONU). Cerca de 30% das espécies da Terra correrão risco de extinguir-se se a temperatura média do globo subir de 1,5C a 2,5C -algo mais que provável. A mortandade de corais na Grande Barreira, a leste da Austrália, deve acelerar-se.
O governo brasileiro talvez comemore a retirada da menção à perda de 20% a 45% de árvores da Amazônia. Seria como regozijar-se com a omissão, pelo médico, da faixa de probabilidade de um filho morrer de inanição. Fica no relatório, porém, a previsão de que a floresta enfrentará uma "savanização", tornando-se mais parecida com o cerrado -só as cifras foram omitidas.
Os representantes de governos de novo pressionaram para suprimir ou modificar passagens do relatório. EUA, Arábia Saudita, Rússia e China, em especial, batalharam para amenizar o documento que poderá ser usado para deles cobrar compromissos mais sérios com a saúde do globo depois de 2012. Até essa data, o controle das emissões de gases que contribuem para o efeito estufa é regido pelo Protocolo de Kyoto (cidade japonesa onde foi firmado o pacto internacional).
As sessões se prolongaram madrugada adentro. Os autores cientistas protestaram. É da regra do jogo consensualista na ONU, que tem vantagens e desvantagens. O aumento da visibilidade do funcionamento do IPCC só reforça a credibilidade e o impacto de seus relatórios.
Na condição de chanceladores desses documentos, torna-se mais difícil para governos nacionais justificarem sua inação. No Brasil, por exemplo, a ministra Marina Silva (Meio Ambiente), esforçou-se por fazer parecer que a administração Lula não está paralisada nesse setor, em contraste com todos os outros.
A ministra revelou que o presidente encarregou-a de coordenar várias iniciativas num Plano Nacional de Enfrentamento de Mudanças Climáticas. Vem aí o PEMC, depois do PAC e do PDE, da educação. Compilam-se idéias prontas, medidas em andamento, orçamentos fantasiosos e, num passe de propaganda, o governo parece agir.
Ao menos no que respeita à mudança climática, Lula aparenta ter escolhido uma coordenadora responsável. Isso não dá garantia de eficácia, contudo.
domingo, 8 de abril de 2007
editorial de domingo
Pronunciada em tom jocoso, e num castelhano menos castiço que o seu português, a frase do presidente Lula inspira tanta confiança quanto as informações de um comissário de bordo numa empresa aérea dirigida por Cantinflas.O chefe do Executivo dedicava-se a desmentir os rumores em torno da saída do ministro da Defesa, seu co-piloto na errática e turbulenta condução da crise aérea brasileira. Assegurou não cogitar de novas mudanças na equipe ministerial."Tranquiles", portanto, quedem-se os brasileiros. Se houver alguma queda nos próximos dias, não será de ministro, a julgar pelo que diz o presidente; no máximo de um avião ou outro, poderiam acrescentar os espíritos mais aziagos.O destino de um ministro é de todo modo assunto menos preocupante do que a continuidade de um estilo de governo caracterizado pela inapetência administrativa, pela verborragia e pela omissão.A verdadeira trapalhada aeronáutica da última semana não foi o único episódio -embora, talvez, o mais grave até aqui- em que se revelou a incapacidade do governo Lula para traçar linhas coerentes e rápidas de atuação.Perderam-se meses na composição de um ministério medíocre e fisiológico; a tarefa arrastava-se com a modorra típica dos dias de verão, interrompendo-se a toda oportunidade que oferecesse o calendário, pródigo em feriados nessa época do ano.A elaboração do ministério não foi mais morosa que a do Plano de Aceleração do Crescimento, que, depois de anunciado com estrépito, continua sem sair do lugar. O caso não destoa do que ocorreu com o "Fome Zero", que depois de muita verborragia se viu objeto de uma série de recuos, tergiversações, desmentidos e esparrelas.Desmentidos e esparrelas, tergiversações e recuos marcaram a atitude presidencial durante a crise do mensalão. Planos supostamente definitivos são prometidos pelo governo a cada emergência. Foi assim na área da segurança pública, está sendo assim na crise aeroviária.Entre uma crise e outra, há quem se lembre de uma operação tapa-buracos nas rodovias federais ou de um plano de "TV pública" que ninguém sabe ou quer definir com clareza; o anúncio sempre precede a estratégia.Num único ponto, talvez, o presidente tenha mostrado real clareza de propósitos e agilidade executiva: foi na compra do Aerolula. Nas atuais circunstâncias, não se pode acusá-lo de falta de espírito visionário.Piruetas verbais, "loopings" decisórios e cortinas de fumaça em todas as direções constituem entretanto um espetáculo dificilmente capaz de deixar "tranquiles" os cidadãos brasileiros.Que todos apertem os cintos, o piloto não sumiu. Continua sem saber para onde vai e, se algum passageiro lhe perguntar por que haveria de "quedarse tranquile", diante dessa situação, talvez só tenha a ouvir do presidente Lula uma outra frase em espanhol: "La garantía soy yo".
sábado, 7 de abril de 2007
o caso do rabino - opinião
São Paulo está órfã do rabino
Aposto um picolé de limão que hoje, em São Paulo, milhares de pessoas como eu -sejam elas judias, cristãs, muçulmanas, budistas, descrentes ou praticantes do zoroastrismo- estão se sentindo órfãs do rabino Henry Sobel.Ao longo dos anos, aprendi a admirar a postura conciliatória do rabino, sua sabedoria e a posição corajosa que tomou na época do regime militar. Henry Sobel sempre foi um orgulho para os habitantes da cidade, uma benção para São Paulo.Em março de 2000, escrevi uma coluna falando de Israel, para mim o país mais deslumbrante que já conheci, e o rabino retribuiu com um carinhoso bilhete: "Quero apenas que você saiba que aprecio imensamente seus artigos. O de 22 de março, sobre a viagem do papa a Israel, foi divino! Que Deus a abençoe". Até a última sexta-feira, a mensagem estava na minha parede.Mas, algo terrível se passou com Henry Sobel e, na semana passada, o paulistano descobriu que o líder da comunidade judaica, figura que sempre atuou como baliza moral em situações críticas, foi detido pelo furto de quatro gravatas.Por tudo que o rabino representa, muitas foram as vozes que se apressaram em perdoar o homem, Henry Sobel. É muito justo que seja assim, e só quem nunca cometeu um tropeço pode condenar toda uma biografia por conta de um gesto isolado.Acontece que, logo depois do ocorrido, ao ser interpelado a comentar o fato no site de notícias G1, da Globo, Sobel agiu com soberba e negou tudo. Disse, textualmente, quando indagado sobre o furto: "Claro que não é verdade. Estive nos EUA, mas não fui preso". Ainda sem saber que o boletim de ocorrência com sua foto já estava na internet, ele insistiu: "Nada disso é verdade. A notícia é sensacionalista. Não sou eu na foto, garanto. Vou tomar providências".Depois, surgiu a versão de que ele estaria sofrendo do mal de Parkinson e teria alterado as dosagens dos medicamentos que lhe foram prescritos. E as cartas de membros proeminentes da comunidade prestando solidariedade ao rabino continuaram a chover nas Redações.Pois algo me diz que as pessoas que perdoaram Henry Sobel com tanta facilidade querem mais é tentar, no fundo do âmago, negar seus próprios defeitos. Ou será que as prisões tapuias não estão coalhadas de pais e mães que furtaram para dar de comer aos filhos?Por mais que eu simpatize com Sobel, o admire e seja infinitamente agradecida por tudo o que ele já fez, sou obrigada a concordar com a ironia da máxima popular que diz que "pobre quando rouba é ladrão, e rico tem problemas psicológicos". O que o rabino fez é gravíssimo.Veja só: no caso de Sobel estar tomando algum remédio de embalagem com tarja preta, como é que ele foi ao shopping (em que o furto teria ocorrido) ao volante de um Toyota Avalon? Nas bulas desse tipo de remédio não há um aviso claro de que não se deve dirigir ou mexer com maquinário quando se está sob efeito da medicação? E se, em vez de furtar gravatas de marcas grã-finas (ai, esse materialismo que corrói o espírito!), ele tivesse atropelado uma criança, quem teria se responsabilizado? De fato, caro rabino, "é muito difícil explicar o inexplicável".
Barbara Gancia
barbara@uol.com.br
Aposto um picolé de limão que hoje, em São Paulo, milhares de pessoas como eu -sejam elas judias, cristãs, muçulmanas, budistas, descrentes ou praticantes do zoroastrismo- estão se sentindo órfãs do rabino Henry Sobel.Ao longo dos anos, aprendi a admirar a postura conciliatória do rabino, sua sabedoria e a posição corajosa que tomou na época do regime militar. Henry Sobel sempre foi um orgulho para os habitantes da cidade, uma benção para São Paulo.Em março de 2000, escrevi uma coluna falando de Israel, para mim o país mais deslumbrante que já conheci, e o rabino retribuiu com um carinhoso bilhete: "Quero apenas que você saiba que aprecio imensamente seus artigos. O de 22 de março, sobre a viagem do papa a Israel, foi divino! Que Deus a abençoe". Até a última sexta-feira, a mensagem estava na minha parede.Mas, algo terrível se passou com Henry Sobel e, na semana passada, o paulistano descobriu que o líder da comunidade judaica, figura que sempre atuou como baliza moral em situações críticas, foi detido pelo furto de quatro gravatas.Por tudo que o rabino representa, muitas foram as vozes que se apressaram em perdoar o homem, Henry Sobel. É muito justo que seja assim, e só quem nunca cometeu um tropeço pode condenar toda uma biografia por conta de um gesto isolado.Acontece que, logo depois do ocorrido, ao ser interpelado a comentar o fato no site de notícias G1, da Globo, Sobel agiu com soberba e negou tudo. Disse, textualmente, quando indagado sobre o furto: "Claro que não é verdade. Estive nos EUA, mas não fui preso". Ainda sem saber que o boletim de ocorrência com sua foto já estava na internet, ele insistiu: "Nada disso é verdade. A notícia é sensacionalista. Não sou eu na foto, garanto. Vou tomar providências".Depois, surgiu a versão de que ele estaria sofrendo do mal de Parkinson e teria alterado as dosagens dos medicamentos que lhe foram prescritos. E as cartas de membros proeminentes da comunidade prestando solidariedade ao rabino continuaram a chover nas Redações.Pois algo me diz que as pessoas que perdoaram Henry Sobel com tanta facilidade querem mais é tentar, no fundo do âmago, negar seus próprios defeitos. Ou será que as prisões tapuias não estão coalhadas de pais e mães que furtaram para dar de comer aos filhos?Por mais que eu simpatize com Sobel, o admire e seja infinitamente agradecida por tudo o que ele já fez, sou obrigada a concordar com a ironia da máxima popular que diz que "pobre quando rouba é ladrão, e rico tem problemas psicológicos". O que o rabino fez é gravíssimo.Veja só: no caso de Sobel estar tomando algum remédio de embalagem com tarja preta, como é que ele foi ao shopping (em que o furto teria ocorrido) ao volante de um Toyota Avalon? Nas bulas desse tipo de remédio não há um aviso claro de que não se deve dirigir ou mexer com maquinário quando se está sob efeito da medicação? E se, em vez de furtar gravatas de marcas grã-finas (ai, esse materialismo que corrói o espírito!), ele tivesse atropelado uma criança, quem teria se responsabilizado? De fato, caro rabino, "é muito difícil explicar o inexplicável".
Barbara Gancia
barbara@uol.com.br
editorial de sábado
Deboche dos vereadores
Em sua mais recente tentativa de arrebatar verbas públicas para contemplar interesses privados, a Câmara Municipal de São Paulo foi pródiga. Saiu-se com um "trem da alegria" que transfere ao contribuinte o pagamento dos salários de seus cabos eleitorais, cria 223 novos cargos e oferece jetons para servidores efetivos da Casa.O novo ataque ao erário já foi aprovado em primeira votação. Houve apenas dois votos contrários, de Arselino Tatto (PT) e Ricardo Trípoli (PV). Se o projeto passar pelo segundo escrutínio, previsto para a semana que vem, irá à sanção do prefeito.É especialmente grave a proposta de permitir que os assessores dos edis trabalhem em suas bases eleitorais -e não apenas na Câmara como exige a legislação vigente. Além do absurdo que é financiar interesses privados com dinheiro público, o projeto cria uma distorção política, ao proporcionar aos atuais vereadores uma vantagem eleitoral com a qual os demais candidatos não poderão contar.Um ponto central da tão almejada reforma política brasileira é edificar barreiras ao clientelismo -o exato oposto do que faz a proposta da vereança paulistana. De resto, quando faltam verbas para setores tão vitais quanto a saúde e a educação, não faz sentido aumentar ainda mais as despesas do Legislativo da cidade.Os vereadores não podem queixar-se de seu quinhão. Além dos vencimentos de R$ 7.155,00 que recebem mensalmente, têm direito a R$ 71.564,92 para gastar em salários e gratificações de até 18 assessores, 400 litros de combustível e várias centenas de reais em contas telefônicas, despesas de correio, impressos, fotocópias e cartões de visita.Decerto a democracia não pode prescindir de legisladores. Mas é também válida a recíproca de que parlamentares não podem debochar do contribuinte.
Em sua mais recente tentativa de arrebatar verbas públicas para contemplar interesses privados, a Câmara Municipal de São Paulo foi pródiga. Saiu-se com um "trem da alegria" que transfere ao contribuinte o pagamento dos salários de seus cabos eleitorais, cria 223 novos cargos e oferece jetons para servidores efetivos da Casa.O novo ataque ao erário já foi aprovado em primeira votação. Houve apenas dois votos contrários, de Arselino Tatto (PT) e Ricardo Trípoli (PV). Se o projeto passar pelo segundo escrutínio, previsto para a semana que vem, irá à sanção do prefeito.É especialmente grave a proposta de permitir que os assessores dos edis trabalhem em suas bases eleitorais -e não apenas na Câmara como exige a legislação vigente. Além do absurdo que é financiar interesses privados com dinheiro público, o projeto cria uma distorção política, ao proporcionar aos atuais vereadores uma vantagem eleitoral com a qual os demais candidatos não poderão contar.Um ponto central da tão almejada reforma política brasileira é edificar barreiras ao clientelismo -o exato oposto do que faz a proposta da vereança paulistana. De resto, quando faltam verbas para setores tão vitais quanto a saúde e a educação, não faz sentido aumentar ainda mais as despesas do Legislativo da cidade.Os vereadores não podem queixar-se de seu quinhão. Além dos vencimentos de R$ 7.155,00 que recebem mensalmente, têm direito a R$ 71.564,92 para gastar em salários e gratificações de até 18 assessores, 400 litros de combustível e várias centenas de reais em contas telefônicas, despesas de correio, impressos, fotocópias e cartões de visita.Decerto a democracia não pode prescindir de legisladores. Mas é também válida a recíproca de que parlamentares não podem debochar do contribuinte.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
a tv de lula
Chapa-branca, tarja preta, luz vermelha
Lula sonha 24 horas por dia com uma TV pública que não pinte a realidade de cor-de-rosa ou a distorça, como fazem as TVs que estão no ar. A nova TV não pode ser assim. Pode ser bem pior.Como seria essa TV dos sonhos de Lula? O que ele gostaria de ver que ainda não exista? A Tribuna Sindical? O Show dos Oprimidos? O BBB dos sem-terra? Que opções de informação e entretenimento faltam nas atuais TVs privadas e estatais que só ela poderá oferecer? O público é ingrato: entre as mínimas audiências da esforçada TV Cultura, as maiores são de desenhos animados, todos estrangeiros.Como os melhores profissionais da televisão brasileira estão nas emissoras privadas, porque pagam melhor e dão melhores condições de trabalho, quem vai fazer a nova TV? Não bastam ideologia e boa vontade, além de verbas públicas, para fazer uma BBC.É uma pena que a emissora ainda não esteja no ar para que se pudesse acompanhar uma cobertura isenta da crise aérea. Não ficaríamos à mercê das mentiras e do sensacionalismo das emissoras comerciais e da grande imprensa, ampliando a crise para prejudicar o governo Lula e os companheiros controladores de vôo.Teríamos imagens alternativas às cenas dantescas dos aeroportos, veríamos os seis meses de esforços do governo, ouviríamos os comentários de Zé Dirceu. Waldir Pires poderia expor, em rede nacional, suas idéias geniais sobre os problemas da aviação civil e da defesa nacional. Mas quem veria?Ver ou não ver, eis a questão-chave da televisão. Quando Lula diz que "não interessa se der meio ou zero de audiência", é uma bravata que nos sai cara: se ninguém vê, é dinheiro público no lixo.Mas, com a nova TV, virá a democratização da informação: todos poderão não vê-la.
Nelson Motta
Lula sonha 24 horas por dia com uma TV pública que não pinte a realidade de cor-de-rosa ou a distorça, como fazem as TVs que estão no ar. A nova TV não pode ser assim. Pode ser bem pior.Como seria essa TV dos sonhos de Lula? O que ele gostaria de ver que ainda não exista? A Tribuna Sindical? O Show dos Oprimidos? O BBB dos sem-terra? Que opções de informação e entretenimento faltam nas atuais TVs privadas e estatais que só ela poderá oferecer? O público é ingrato: entre as mínimas audiências da esforçada TV Cultura, as maiores são de desenhos animados, todos estrangeiros.Como os melhores profissionais da televisão brasileira estão nas emissoras privadas, porque pagam melhor e dão melhores condições de trabalho, quem vai fazer a nova TV? Não bastam ideologia e boa vontade, além de verbas públicas, para fazer uma BBC.É uma pena que a emissora ainda não esteja no ar para que se pudesse acompanhar uma cobertura isenta da crise aérea. Não ficaríamos à mercê das mentiras e do sensacionalismo das emissoras comerciais e da grande imprensa, ampliando a crise para prejudicar o governo Lula e os companheiros controladores de vôo.Teríamos imagens alternativas às cenas dantescas dos aeroportos, veríamos os seis meses de esforços do governo, ouviríamos os comentários de Zé Dirceu. Waldir Pires poderia expor, em rede nacional, suas idéias geniais sobre os problemas da aviação civil e da defesa nacional. Mas quem veria?Ver ou não ver, eis a questão-chave da televisão. Quando Lula diz que "não interessa se der meio ou zero de audiência", é uma bravata que nos sai cara: se ninguém vê, é dinheiro público no lixo.Mas, com a nova TV, virá a democratização da informação: todos poderão não vê-la.
Nelson Motta
Assinar:
Comentários (Atom)