Por que educação é a tragédia nacional
“Com um ensino primário rudimentaríssimo e um ensino secundário positivamente falho, nada possuímos que, de longe, se assemelhe a um centro de cultura superior. Como conseqüência inevitável, aí está o espetáculo profundamente contristador, que oferecemos, de um país que caminha às tontas, sem norte, ao sabor do primeiro semi-analfabeto que se aposse do governo supremo da República e a exaurir-se em intermináveis disputas puramente verbais, nos congressos, na imprensa, nas escolas, nas reuniões públicas ou particulares. É a anarquia mental a imperar infrene, de norte a sul do Brasil, e a favorecer tanto a demagogia dos agitadores profissionais como as ousadias dos dominadores do momento.”Não, caro leitor, o texto acima não foi escrito recentemente, apesar de sua impressionante (e profética) atualidade. Foi escrito há 82 anos, em 1925, e está no livro A Crise Nacional (pág. 85), de autoria do jornalista e educador Julio de Mesquita Filho. Nos últimos tempos não tem havido governo que deixe de estabelecer a educação como sua “meta prioritária”. Mas a qualidade da educação brasileira, segundo todos os índices e pesquisas nacionais ou internacionais que se utilizem para a avaliar, é cada vez mais vergonhosa, constituindo, sem sombra de dúvida, a maior das tragédias nacionais. E nem seria preciso o uso de pesquisas para comprovar o que é cada vez mais visível a olho nu, no convívio de dia-a-dia com profissionais de várias categorias e prestadores de diversos serviços: o analfabetismo funcional crônico da imensa maioria da população brasileira, incapaz de entender uma informação ou um raciocínio contidos num texto, mesmo que já tenha aprendido a soletrá-lo.As alardeadas “prioridades” governamentais conferidas à educação se esgotam nos demagógicos discursos políticos, jamais se concretizando em ações reais, consistentes, transformadoras, que façam reverter a disparidade colossal entre o que aprendem os jovens no Brasil e o que aprendem os jovens nos outros países, especialmente os desenvolvidos. Por outro lado, as discussões que se travam nessa área se esgotam na repetição de clichês, falácias e mitos. O economista e pesquisador Gustavo Ioschpe, especializado em educação, já apontou (e desmontou) quatro mitos que impedem a melhoria de nossa qualidade de ensino: o de que o salário do professor brasileiro é baixo, o de que (em conseqüência) a educação no Brasil só será melhor quando os professores ganharem mais, o da falta de investimento em educação e o da excelência do ensino nas escolas particulares (de primeiro e segundo graus). Ele chegou a conclusões contrárias a tais “enunciados”, baseando-se em dados do MEC e de entidades internacionais, como Unesco e OCDE (entidade de europeus e norte-americanos). E concluiu que a má educação no Brasil tem por causas principais a má formação do professor e a má gestão dos recursos alocados para o setor.Mas existe um outro mito, que é o do “professor coitadinho”. Houve tempo em que até se via nos carros o adesivo com a frase “hei de vencer, apesar de ser professor”. Os jovens repórteres que vão cobrir problemas nas escolas - como greves, ocupações, tumultos ou bagunças - costumam começar suas indagações com a questão da má remuneração dos professores, o que não deixa de ser uma falácia. Há algo muito mais vergonhoso de que pouco se trata: o absenteísmo docente nas escolas públicas. Tome-se o exemplo da rede estadual de ensino em São Paulo, composta de 240 mil professores. Em 2006 o índice de falta desses professores foi de 12,8%. A média de ausência por professor foi de 32 dias, sem contar o direito de férias e o recesso escolar, que totalizam 45 dias. O governo calcula o prejuízo total de R$ 340 milhões por ano, gastos em aulas não oferecidas (mas pagas) e contratação eventual de professores substitutos. Vejamos agora: um ano letivo tem 210 dias. Um hipotético professor, com faltas abonadas (permitidas sem justificativa), com moléstia “transmissível” (gripe?), transmitida à família, e mais outras justificativas (até razoáveis) para faltar, munido de atestados médicos, no limite, pode comparecer à escola só 27 dias no ano, sem prejuízo de salário! Mas ele jamais faltará às aulas que dá em escola privada, para “complemento de salário”, porque, se o fizer, de lá será demitido.Quanto à má gestão dos recursos alocados para a educação, a Rede Globo fez recentemente uma arrasadora reportagem mostrando os muitos milhões que vão para os pequenos municípios, como verbas para a educação, e as condições abjetas, nojentas, de grande parte das escolas que as recebem pelo País afora. Parece não haver controle algum do que os prefeitos fazem com o dinheiro federal. Mas justiça se faça: no campo da educação o governo Lula não é tão pior do que os seus antecessores. É só um pouco mais ruim. Os piores de todos foram os governos militares, os responsáveis pelo rebaixamento da qualidade de ensino no País, ao permitirem, entre outras coisas, a proliferação das arapucas argentárias no ensino “superior”, para se livrarem do problema dos “excedentes”. Mas os governos da ditadura pelo menos tiveram a honestidade de nunca declarar a educação como “meta prioritária”. Naquele tempo, o Ministério da Educação era para onde iam os que estavam sobrando na política.O problema é que, em vez de se indignar com a tragédia, que defasa o País do mundo, a sociedade brasileira parece que já se acostumou com ela e é até capaz de curti-la, como comédia! Prova disso é que dá muitas risadas com as listas de imbecilidades escolares que Jô Soares de vez em quando apresenta em seu divertido programa.
Marco Auréilio Nogueira
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Um comentário:
Esta tragédia nacional, com fator de má formação dos professores, pode ser provada em exemplos. Primeiro, os engenheiros que por se acharem capazes, ou até superiores, enganam os alunos brasilleiros com suas álgebras precárias e suas geometrias falsas. Segundo, os professores invejosos que não querem que seus alunos detenham maior conhecimento.
Por fim, os professores brasileiros não são capacitados, logo demostrando que duas retas paralelas só se encontram no infinito, que é uma imaginação, e não em pequenos intervalos, como osofessores mal formados, os boate-professores.
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