sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O encontro das tribos paulistanas

Quem costuma sair à noite para se divertir na capital paulista encontra nas ruas punks, boyzinhos, carecas, hippies e até Hare Krishnas, que parecem surgir do nada. Às vezes, fica até difícil identificar de que tribo é aquela figura diferente que apareceu no meio da balada. “São Paulo tem grupos que só uma cidade com tanta diversidade pode oferecer”, diz José Guilherme Cantor Magnani, professor de Antropologia da Universidade de São Paulo, que reuniu o trabalho de 11 pesquisadores no livro Jovens da Metrópole.Os acadêmicos passaram quatro anos estudando as regiões em que esses jovens mais aparecem. “Eles têm uma atitude criativa em relação à cidade. Ao contrário do que se pensa, o adolescente não fica fechado em guetos. Ele negocia o espaço urbano”, diz Magnani.Segundo ele, a explicação é histórica, o resultado de uma mistura de raças que garantiu tolerância à diversidade. “O jovem paulistano acaba sendo muito criativo na forma com que se relaciona com o espaço público.” Um bom exemplo são os japas do hip-hop, como costumam ser chamados nisseis e sanseis que curtem rap (veja mais na pág. C8). Eles começaram a dar os primeiros passos no vão livre da Estação Conceição do Metrô, mas quando aterrissaram ali, há cinco anos, o pedaço já tinha dono, os b.boys (break boys), garotos da periferia que aprenderam na rua as piruetas e saltos da dança. Logo, os dois grupos passaram a dividir treinos (passos). Inicialmente, os japas tiveram alguns problemas porque foram considerados boyzinhos, por estudarem em colégios da rede particular, não precisarem trabalhar e capricharem no visual. “Parecem que saíram de um videoclipe”, diz o b.boy Renato César, de 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio de um colégio estadual e funcionário-aprendiz de uma rede de supermercados, que treina no vão no fim da tarde. Mas os japas insistiram e aprenderam com os b.boys. E foram além. É o caso de Bruno Kotama, de 19 anos, estudante de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e Rodrigo Obara, de 18 anos, que faz cursinho no Etapa. Eles entraram para o Just, um grupo de 25 dançarinos brasileiros - todos descendentes de japoneses -, que ficou em 5º lugar no campeonato mundial de Los Angeles em 2005. “Não gostamos de ser chamados de b.boys. Somos free stylers (estilo livre).”“A gente não tem muito tempo para treinar. Por isso não melhoramos tanto como os da colônia”, rebate César. “Mas eles dançam diferente, fazem uma coreografia, uns passinhos, nada a ver com o break de verdade.” Na maior parte do tempo, porém, o clima entre os japas e os b.boys é bem amigável. “Às vezes, esquenta. Daí, tentamos resolver as diferenças na dança”, diz César, para se referir ao chamado “desafio”. Nesse momento, é aberta uma roda. No meio, o desafiante faz um passo bem complicado. Seu adversário tem de fazer melhor. E tudo é pacífico? “Nem sempre.”




Punks vegetarianos e japoneses do hip-hop revelam diversidade
Tribos paulistanas fazem duas grandes festas neste fim de semana, o Orion Top Dance e a Verdurada
Neste fim de semana, dois grandes eventos prometem mostrar a diversidade das tribos paulistanas. Um deles acontece hoje, no Jabaquara, zona sul, e deve reunir aproximadamente 600 adolescentes tatuados e furados por piercings, que vibram com bandas punks. Durante os shows, costumam dançar dando socos e pontapés.Mas são punks caretas, os straights edges: não bebem, não fumam e comem alimentos vega, ou seja, preparados sem nenhum ingrediente de origem animal. Não por outro motivo, o encontro chama-se Verdurada. O festival de música, palestras e gastronomia, acredite, acaba cedo, às 23 horas. Formado em Publicidade, André Vieland, de 25 anos, é vocalista de Good Intentions, uma das bandas que se apresenta no evento. Seu braço direito é coberto de um lado pelas tatuagens de um tigre e de uma cobra, e do outro, pelo símbolo dos straight edges: uma mão marcada com um X. O símbolo foi usado no início do movimento para identificar os punks adolescentes que por lei ainda não tinham a idade para beber. Na perna, Vieland ainda tatuou um girassol com a frase “free drugs” (livre de drogas).“Virei straight edge aos 15 anos porque gostava muito das bandas hardcore. Com o tempo, foi virando meu estilo de vida. Eu não gosto de cair na balada. Levo tudo no sossego.”Como os punks, os straight edges são anarquistas. “Sempre voto nulo. De outra forma, não poderia dormir em paz”, diz Vieland, que largou a carreira de publicitário numa agência para tocar um restaurante vega na Rua Augusta. Na casa trabalham dois amigos de Vieland, também straight edges. “Mas isso não quer dizer que tenha preconceitos. Tenho amigos bem diferentes de mim. Rapper, skatista e até careca. Bem, na verdade, não tenho amigos carecas, mas conheço alguns que cumprimento na rua.” Os carecas são tidos como os mais encrenqueiros. “Mas até eles estão mudando.”Os carecas costumam reunir-se nas noites de sexta-feira no Shopping Santa Cruz, na zona sul de São Paulo. “Sei lá o que eles vão fazer num shopping. Outra noite passei lá e os marmanjos de cabeça raspada estavam sentados no chão conversando com os emos, aqueles garotos com cara de meninas”, diz Vieland.Emo vem da palavra inglesa emotional. É uma tribo que se caracteriza pelas roupas escuras mescladas com acessórios infantis e cabelos com franjas grandes caindo na cara. “Eu vi aquilo e não entendi nada”, observa o straight edge.JAPAS: BREAK NA PORTUGAL Outra tribo, bem diferente e nada rebelde, organizou ontem uma grande balada na Casa de Portugal, centro da cidade. Jovens nisseis e sanseis de classe média e média alta se reuniram para as eliminatórias de um dos mais importantes campeonatos de dança da colônia, o Top Dance Orion. No palco, os dançarinos parecem realmente saídos de videoclipes americanos de música negra. Dançam hip-hop, cada um ao seu estilo. Alguns preferem as coreografias sincronizadas (style), outros o break (com piruetas e saltos). Tem ainda o popping e o locking, com movimentos quebrados, que fazem lembrar Michael Jackson em Thriller.“Os garotos que dançam ganham uma posição de destaque na colônia”, diz Karen Osaka, de 16 anos, uma das organizadoras da balada na Casa de Portugal. “Ele são mais paquerados pelas garotas e têm até fã clube.” Do hip-hop, no entanto, absorveram a dança e as roupas, nada mais.


Augusta virou território livre
Em um mesmo quarteirão da Rua Augusta, fica possível encontrar jovens de várias tribos. Não importa a ideologia, o estilo de roupa ou a preferência sexual. O trecho virou uma zona livre. “São Paulo é uma cidade que oferece muito, mas num espaço muito restrito”, diz Francisco da Costa Júnior, de 28 anos, proprietário do Sabor Mate, um café da Rua Augusta, onde se encontram flyers para todo tipo de balada. A Rua Augusta reúne cinemas, teatro, restaurantes e casas noturnas. “Quanto maior a diversidade de grupos que transitam, mais segura fica a região”, diz o antropólogo José Guilherme Cantor Magnani. “As pessoas são obrigadas a negociar para se divertir”, diz Costa Júnior. O que não significa que o clima nunca fique pesado. “É uma panela de pressão controlada”, diz o straight edge André Vieland.


Punk que é punk jamais mataria por pizza'
Para pesquisadora, atitude de jovens que mataram funcionário de pizzaria não condiz com ideologia do movimento
José Dacauaziliquá
Entre as tribos de São Paulo, os punks são figuras clássicas. Eles são facilmente reconhecidos pelas roupas pretas, cabelos extravagantes, camisetas de banda - Greenday, GBH ou Cólera. Mas os punks também são conhecidos pela atitude contestadora, muitas vezes violenta. Na madrugada do domingo passado, três deles atacaram e mataram o balconista Jaílton de Souza Pacheco, de 24 anos, no quiosque da Pizzaria Express no Terminal Parque D. Pedro, no centro. Tudo começou quando o balconista se recusou a vender por R$ 0,60 um pedaço de pizza que custa R$ 1. “Os punks são conhecidos por barganhar preços de shows ou de comida”, diz Bruna Mantese de Souza, uma das pesquisadoras do livro Jovens na Metrópole. “Eles chegam a ficar na porta de um show recolhendo moedas até conseguir o dinheiro. Eles não têm dinheiro e são contra o sistema. Mas não é porque são punks que mataram. Não dá para esquecer que vivemos numa sociedade cada vez mais violenta. Punk que é punk jamais mataria por uma pizza.” Pelo assassinato, foram presos Willian Oliveira Vicente e José Augusto Reis dos Santos, ambos de 19 anos, e Simone Ramos de Almeida, de 22. “O movimento punk contesta o sistema e vai a favor do trabalhador. Eles mataram um trabalhador. Há uma contradição nisso”, diz Douglas Hyppolito, ex-punk e o proprietário da loja Fora do Ar, na Galeria do Rock, no centro, local conhecido por ter lojas para todos os tipos de tribo. A loja é freqüentada por punks. “O que se vê hoje são adolescentes, sem qualquer ideologia.”




Delegada tem acervo com 3 mil fotos de gangues
Banda Garotos Podres tem tocado cada vez menos em São Paulo para fugir da violência
José Dacauaziliquá, Bruno Tavares e Bruno Paes Manso
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) da Polícia Civil de São Paulo mantém um acervo de cerca de 3 mil fotos de gangues. Seu principal foco é o combate a punks e carecas - estes com suas variantes skinheads e white power, todos com ideologia nacionalista, ou neonazista. São jovens que geralmente moram na periferia paulistana - em especial na zona leste -, embora haja também adeptos em bairros de classe média. “Punks de hoje só querem saber de cerveja, mulher e briga. Não sabem contra quem protestar”, diz a delegada Margarette Barros.Integrantes do movimento, no entanto, acham que a situação é mais complexa. Criada em 1986, a banda Inocentes começou na época em que os alfinetes de fralda eram os principais adereços dos punks da cidade, que circulavam por casas como Carbono 14 e Madame Satã com cabelo moicano e pulseiras de tachinhas. Mudou a moda, o estilo ficou menos ostensivo, mas a ideologia anti-sistema continua, na visão de Clemente, o líder da banda. “O punk sempre atacou violentamente o sistema. Mas as pessoas fazem confusão quando acreditam que há culpados e usam violência contra o outro.”Clemente acredita que o problema piorou porque a sociedade ficou mais violenta. “Hoje você vê moleque usando canivete com a maior tranqüilidade. Mas isso não apenas entre punks. Nos estádios de futebol é a mesma coisa. Antigamente íamos a um jogo na Gaviões (da Fiel, torcida uniformizada do Corinthians) sem medo nenhum de presenciar um assassinato. Hoje o risco já existe.”Integrante de outra banda punk, a Garotos Podres, o vocalista José Rodrigues Mao Júnior, o Mao, tem a mesma opinião. Mas acha que em algumas ocasiões os punks servem de “bode expiatório”. “Quando mataram mendigos no centro, punks foram os primeiros suspeitos. Só que depois, quando descobriram que as mortes haviam sido cometidas por policiais, ninguém veio a público esclarecer.”Aos 44 anos, Mao prefere encarar o punk apenas como “movimento musical de resgate do rock”. Tanto que, nos últimos anos, os Garotos Podres decidiram trocar casas de shows de São Paulo, reduto da banda na década de 80, por turnês alternativas. Há duas semanas, apresentaram-se em Salvador e Camaçari (BA) e em Maceió (AL). “Decidimos tocar mais fora justamente por conta da violência. E nos afastamos das ‘turminhas’ para evitar qualquer vínculo com esses casos de agressões gratuitas.”TRESLOUCADOSPara o coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves, a contestação dos punks contra o sistema é saudável, mas não se pode admitir atitudes tresloucadas de jovens que não representam o movimento, mas sim uma juventude irresponsável.

Um comentário:

Anônimo disse...

drug free e não free drugs ok? se não o sentido seria o oposto!