domingo, 11 de novembro de 2007

editorial de domingo - estadão

Os novos consumidores

Os resultados alcançados pelas empresas que fabricam ou vendem bens de consumo para a população de renda média e baixa comprovam a força de um fenômeno que já obrigou os sociólogos e economistas a rever os critérios de definição das classes sociais nas pesquisas de mercado. Trata-se da incorporação de um grande número de famílias, identificadas como pertencentes às classes C e D nas pesquisas socioeconômicas, ao mercado de consumo de itens antes vendidos só para as faixas de renda mais alta. O aumento do consumo dessas famílias é muito rápido, e filiais de empresas multinacionais que identificaram a tempo a nova tendência estão obtendo aqui resultados muito superiores aos alcançados no resto do mundo. Isso tende a atrair ainda mais investimentos externos para o Brasil.Uma grande rede de varejo de origem americana, como mostrou reportagem de Patrícia Cançado e Mariana Aragão publicada domingo passado no Estado, praticamente multiplicou por 8 seu faturamento real em cinco anos, graças, sobretudo, ao consumo da classe C. É também nessa faixa que outras empresas estão concentrando sua atenção, com o desenvolvimento de produtos específicos para ela - em termos de características, embalagem e especialmente preços -, o que lhes vem assegurando crescimento rápido das vendas e dos lucros.Não apenas fraldas descartáveis, cosméticos e refrigerantes, mas também eletrodomésticos e computadores, entre outros itens de consumo, passam a fazer parte da lista de compra de milhões de pessoas que, até há alguns anos, não os podiam adquirir. Os seguidos aumentos do salário mínimo em valores reais, a ampliação do mercado de trabalho com a redução dos índices de desemprego, a estabilidade da moeda, a generosa oferta de crédito e os programas sociais do governo explicam o crescimento do consumo nas faixas de renda mais baixa.Em certas famílias é notável o impacto de programas como o Bolsa-Família sobre o padrão de consumo. Uma dona de casa entrevistada pelas repórteres do Estado contou que, tão logo recebe os R$ 94 do programa, vai ao supermercado comprar sabão em pó, iogurte e sabonete de marcas especialmente desenvolvidas para as classes C e D. Outro consumidor, um aeroportuário que vive em Itaquera, na zona leste de São Paulo, comprou um carro usado, fabricado em 2000, em 60 parcelas. Suas compras recentes incluem forno de microondas, computador e aparelho de DVD, tudo a prestação. Atitudes como essas, estimuladas por aumento de renda, maior confiança no futuro e expansão da oferta de crédito, se espalham por uma grande faixa da população.O crescimento rápido da demanda já levou fabricantes de bens de consumo a reduzir as exportações, desestimuladas pela taxa de câmbio, e dar prioridade ao mercado interno. Diversificaram sua rede de distribuição e adaptaram seus produtos para reduzir custos e preços. Um grande fabricante de eletrodomésticos de linha branca, que atendia as faixas de renda mais alta, lançou uma linha de fogões que custam pouco mais de R$ 300 para atender os consumidores de baixa renda.O resultado desse fenômeno é o rápido crescimento da produção industrial - de 7,2% no segundo trimestre do ano, na comparação com igual período do ano passado - que vem sustentando o bom desempenho da economia brasileira.As mudanças no padrão de consumo nos últimos anos estão exigindo a revisão dos critérios de classificação socioeconômica do brasileiro. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (Abep) já estuda as mudanças, uma das quais deverá ser a subdivisão da classe C em duas, C1 e C2, como já ocorre com as classes A e B. Essa divisão é feita com base na posse de bens de consumo pela família pesquisada. Também o peso desses bens na classificação socioeconômica será alterado.Pelo critério atual, a classe C correspondia a 36% da população das regiões metropolitanas do País em 2000 e passou a representar 39% em 2005. Com o novo critério, ela deverá passar a 43% da população (21% na C1 e 22% na C2). A classe D, de renda inferior, já vinha se reduzindo (de 31% em 2000 para 29% em 2005) e, na nova classificação, se reduzirá ainda mais.

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