terça-feira, 13 de novembro de 2007

sobre diversidade

O encontro das tribos paulistanas

Pesquisadores mostram uma cidade tolerante, sem guetos, em que jovens negociam espaços na hora do lazer

Quem costuma sair à noite para se divertir na capital paulista encontra nas ruas punks, boyzinhos, carecas, hippies e até Hare Krishnas, que parecem surgir do nada. Às vezes, fica até difícil identificar de que tribo é aquela figura diferente que apareceu no meio da balada. “São Paulo tem grupos que só uma cidade com tanta diversidade pode oferecer”, diz José Guilherme Cantor Magnani, professor de Antropologia da Universidade de São Paulo, que reuniu o trabalho de 11 pesquisadores no livro Jovens da Metrópole.Os acadêmicos passaram quatro anos estudando as regiões em que esses jovens mais aparecem. “Eles têm uma atitude criativa em relação à cidade. Ao contrário do que se pensa, o adolescente não fica fechado em guetos. Ele negocia o espaço urbano”, diz Magnani.Segundo ele, a explicação é histórica, o resultado de uma mistura de raças que garantiu tolerância à diversidade. “O jovem paulistano acaba sendo muito criativo na forma com que se relaciona com o espaço público.” Um bom exemplo são os japas do hip-hop, como costumam ser chamados nisseis e sanseis que curtem rap (veja mais na pág. C8). Eles começaram a dar os primeiros passos no vão livre da Estação Conceição do Metrô, mas quando aterrissaram ali, há cinco anos, o pedaço já tinha dono, os b.boys (break boys), garotos da periferia que aprenderam na rua as piruetas e saltos da dança. Logo, os dois grupos passaram a dividir treinos (passos). Inicialmente, os japas tiveram alguns problemas porque foram considerados boyzinhos, por estudarem em colégios da rede particular, não precisarem trabalhar e capricharem no visual. “Parecem que saíram de um videoclipe”, diz o b.boy Renato César, de 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio de um colégio estadual e funcionário-aprendiz de uma rede de supermercados, que treina no vão no fim da tarde. Mas os japas insistiram e aprenderam com os b.boys. E foram além. É o caso de Bruno Kotama, de 19 anos, estudante de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e Rodrigo Obara, de 18 anos, que faz cursinho no Etapa. Eles entraram para o Just, um grupo de 25 dançarinos brasileiros - todos descendentes de japoneses -, que ficou em 5º lugar no campeonato mundial de Los Angeles em 2005. “Não gostamos de ser chamados de b.boys. Somos free stylers (estilo livre).”“A gente não tem muito tempo para treinar. Por isso não melhoramos tanto como os da colônia”, rebate César. “Mas eles dançam diferente, fazem uma coreografia, uns passinhos, nada a ver com o break de verdade.” Na maior parte do tempo, porém, o clima entre os japas e os b.boys é bem amigável. “Às vezes, esquenta. Daí, tentamos resolver as diferenças na dança”, diz César, para se referir ao chamado “desafio”. Nesse momento, é aberta uma roda. No meio, o desafiante faz um passo bem complicado. Seu adversário tem de fazer melhor. E tudo é pacífico? “Nem sempre.”

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