A universidade revisitada
É claro que, se faço malhação, se nado, se me visto bem, tenho de me maquiar de acordo, você não acha?
Para atrair estudantes, universidades oferecem serviços de shoppings. Sala de videogame, salão de beleza, minishopping, piscinas, academia. Para atrair universitários, instituições particulares de São Paulo têm seguido o modelo norte-americano e investido cada vez mais em infra-estrutura.
- ENTÃO, MINHA FILHA, como foi seu dia na universidade hoje?- Ah, mamãe, foi ótimo. Cheguei muito cedo porque o minishopping estava com uma promoção: vestidos e bolsas a preços fantásticos, mamãe! Comprei um vestido fabuloso. E comprei uma bolsa, e sapatos, e presentes para todas minhas amigas... Olhe só a quantidade de sacolas! Maravilha, mamãe. Maravilha.- Sim, filha, estou vendo que as compras foram muito boas. Mas-- Espere, não terminou. Terminadas as compras, resolvi malhar um pouco. Afinal, a gente tem de ficar em forma, não é, mamãe? De nada adianta comprar um vestido elegante se eu não puder entrar nele. Então, fui à academia. Sim, porque a universidade agora tem uma academia fantástica. Esteira, step, pesos, tudo que você pode imaginar. E um professor que é ótimo, uma simpatia. Malhei lá até quase o meio-dia.- Muito bom, filha, manter a forma é ótimo, mas-- E não fiquei só na malhação. Saindo dali fui nadar. Que piscina, mamãe! Piscina térmica, enorme... Nadei uma hora. Uma hora, mamãe! E isto que você me acusava de preguiçosa!- Retiro esta acusação, filha. Mas o que eu queria lhe perguntar é-- Depois fui ao salão de beleza. A universidade tem um excelente salão de beleza, com gente competente, sofisticada. E é claro que, se faço malhação, se nado, se me visto bem, tenho de me maquiar de acordo, você não acha? Passei uma hora e meia lá, mas valeu a pena. Aliás, dê sua opinião: você não acha que valeu a pena?- Valeu a pena, mas-- Aí fui almoçar. Temos um restaurante ótimo, lá, comida japonesa, essas coisas. Uma delícia, mas não exagerei. Depois da academia e da piscina não tinha sentido, não é mesmo?- Claro, mas o que eu queria saber -- No almoço encontrei uma amiga que me desafiou para jogar videogame. Você sabe que não gosto muito disso, mas você também sabe que não recuso desafio. Lá fomos nós para o videogame, e, modéstia à parte, assombrei o pessoal que estava lá. Minha amiga chegou a ficar com inveja. E aí contei a ela que desde criança sempre fui boa nessas coisas. Não é verdade, mamãe?- É, mas o que eu queria lhe perguntar -- Deus do céu, mamãe, você é muito chata. Eu lhe contando sobre as coisas que fiz na universidade e você repetindo "eu queria lhe perguntar, eu queria lhe perguntar". Pergunte, então. O que você quer saber?- Eu queria saber como foram suas aulas...- Aulas? Aulas? Meu Deus, mamãe, sabe que eu esqueci de ir às aulas? Esqueci completamente, mamãe. Que coisa! Que falta de memória. Aliás, já que estamos falando nisso: que curso, mesmo, eu estou fazendo, mamãe?
MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha
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