terça-feira, 13 de novembro de 2007

Aborto legal pode, sim, reduzir crime, diz economista

Professor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o economista Samuel Pessoa concorda com o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho: a liberação do aborto pode reduzir, anos mais tarde, a criminalidade. Em parceria com o economista Gabriel Hartung, Pessoa fez uma pesquisa com base em dados da Secretaria de Segurança de São Paulo e concluiu que os filhos de mães adolescentes ou de famílias desestruturadas têm maior probabilidade de serem criminosos. O estudo causou discussão com demógrafos. Mas Pessoa não foge da polêmica nem teme ficar conhecido como 'economista de direita'. 'Acho que estou ficando um reacionário incorrigível', brincou, em entrevista ao Estado:Na semana passada, o governador Sérgio Cabral disse que a legalização do aborto poderia reduzir a violência e chamou de 'fábricas de marginais' redutos de pobreza. O que o senhor acha disso?Pesquisas feitas em países tão diferentes como Estados Unidos e Romênia demonstram com sólida evidência empírica que a prática do aborto legal reduz, anos à frente, a criminalidade. Estudos feitos por mim e por Gabriel Hartung, com dados retirados dos 536 municípios de São Paulo entre 1999 e 2001, mostram que havia alta correlação entre crimes contra o patrimônio (furto e roubo) e baixas taxas de crescimento econômico e altos índices de desemprego. Verificamos, porém, que, no caso dos homicídios, a questão econômica não os explicava. Havia uma discrepância muito grande entre cidades com perfil econômico parecido. Aí recuamos 20 anos, com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, feita pelo IBGE), e constatamos que entre jovens nascidos lá atrás, filhos de mães adolescentes ou de famílias monoparentais (sem o pai, sem a mãe ou sem ambos), é muito alta a presença de criminosos que cometeram homicídios. Nesse sentido, a pesquisa corrobora o que Steven Levitt (autor do livro 'Freakonomics') demonstrou em relação ao tema nos EUA. Se a natalidade fosse menor entre adolescentes e famílias desestruturadas no Brasil, há 20 anos, hoje provavelmente teríamos menos crimes.O Rio tem pouco mais de 1 milhão de favelados. Estima-se que, desses, 400 mil têm de 15 a 25 anos - faixa etária que concentra a imensa maioria dos que cometem crimes e dos que são vítimas deles. Num cálculo certamente exagerado, digamos que 10% deles estejam envolvidos com o crime. São 40 mil. Significa que outros 360 mil não estão na criminalidade. Ou seja, em condições econômicas e sociais semelhantes, há mais gente fora do crime do que no crime. Como sustentar, neste caso, que o aborto seria um método eficaz?Essa pergunta é hiperpertinente. É o ponto dos demógrafos nas críticas que fizeram à minha pesquisa. Há dois indicadores importantes: taxa de homicídios por 100 mil habitantes e a porcentagem de filhos de mães adolescentes e de famílias desestruturadas. O que se procura mostrar é a correlação entre esses dois indicadores. O próximo passo será dizer, então, que essas crianças nascidas nestas condições vão ser criminosos 20 anos depois? Não é um passo muito grande supor isso? Minha resposta é: estou dando um passo grande e temerário demais e os demógrafos têm todos os motivos para ficarem incomodados. Mas, admitindo isso, acrescento o dado de um levantamento que estou fazendo agora. Entre internos da Febem do Espírito Santo quase 100% são filhos de famílias monoparentais (desestruturadas). Quando se compara, com base em dados da PNAD, esses internos com jovens da mesma faixa de renda, da mesma classe social no Espírito Santo, que não estão envolvidos com crimes, o número dos que provêm de famílias desestruturadas é muitíssimo menor.De toda a forma, se o aborto tivesse sido legalizado há 20 anos - para ficar só na hipótese do Rio -, isso evitaria o nascimento de mais gente que não é criminosa do que de criminosos. Ou seja, não se reforça a idéia de um determinismo social ou estigmatização da pobreza?Nesta conta hipotética é importante que se diga que os 40 mil que supostamente estão no crime vão matar sobretudo alguns dos 360 mil que não estão no crime e vão se matar entre si. E, numa escala muito menor, vão matar pessoas de classe média ou ricas. Entender o fenômeno com base em indicadores como o que mede os nascidos em famílias desestruturadas ou são filhos de mães adolescentes é proteger os pobres, é melhorar as condições de vida deles. Quem sofre mais com a violência são moradores de favelas, não nós, do asfalto.O sr. acredita que mães adolescentes ou famílias desestruturadas são culpadas pela violência?Essa é uma das reações dos demógrafos. É uma interpretação deles. Nosso trabalho é econométrico. Não apontamos culpados. Mas acho que, quando Sérgio Cabral diz que a taxa de fecundidade na favela é cinco vezes maior do que a registrada na Lagoa Rodrigo de Freitas (zona sul do Rio) e isso explica por que há mais violência na favela, acho que está certo. Quero dizer com isso que as escolhas feitas pelos mais pobres explicam de alguma forma o fenômeno.Quem é: Samuel PessoaSamuel Pessoa: pesquisador da FGVProfessor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio VargasEm parceria com o economista Gabriel Hartung, fez uma pesquisa com base em dados da Secretaria de Segurança de São Paulo e da PNADO trabalho corroborou conclusões de Steven Levitt, autor de Freakonomics, sobre a relação entre crime e aborto legal

Um comentário:

Anônimo disse...

ABORTO “LEGAL” PARA REDUZIR O CRIME?

Pode alguém ser culpado mesmo antes de nascer? Em sua edição de 28.10.07 O Estado de São Paulo, on-line (Metrópole), publicou entrevista com um economista da Fundação Getúlio Vargas. Queremos contestar algumas afirmativas de Samuel Pessoa, bem como de seu parceiro, Gabriel Hartung. Atribuir a criminalidade aos pobres, no Brasil, é uma piada de mau gosto. Na verdade a marginalização de grande parte da população, no Brasil, tem sua origem num sistema secular de exploração da pobreza, apropriação indébita do patrimônio público – via Cartórios, no caso dos fantásticos grilos de terra, por exemplo.
Não se pode fazer uma análise da criminalidade, no Brasil, deixando de lado o contexto histórico e social, bem como sua principal geratriz: Um sistema de leis que incentiva e privilegia o delito, a corrupção por causa de brechas legislativas e espertezas jurídicas – sempre inatingível aos destituídos, que enfrentam cana dura até por pequenos delitos que poderiam ser pagos através de serviços comunitários.
O brasileiro médio está cronicamente indignado com relação ao andamento de casos grotescos de corrupção e criminalidade no meio empresarial e político (veja-se agora, o escândalo da contaminação do leite longa-vida, em diversas partes do País: quem será preso? Quem pagará pelos malefícios causados a, talvez, milhares de crianças?) Onde andam os espertos do mensalão?
A favela, senhor governador do Rio de Janeiro, é mais vítima do que protagonista desse brasil com b minúsculo, medieval, cristão da boca pra fora, onde os ricos ficam impunes e continuam agindo em seus gabinetes, com ternos e gravatas importados – muitas vezes sob a complacência até cúmplice de determinados setores da mídia. Mas, a culpa é dos favelados! Eles são culpados, antes de tudo, por existirem! A corrupção, no Brasil, é epidêmica, mina os recursos da população desde prefeituras, câmaras de vereadores, passando por executivos dos três poderes – além dos mais excelentíssimos deputados e senadores, impunes: Não devolvem os recursos subtraídos, apesar das toneladas de papéis, provas e indícios; não perdem seus mandatos – que na verdade, não lhes pertencem. Surgem, agora, economistas dizendo que o aborto é necessário para evitar a criminalidade – como se criminosos fossem apenas aqueles que tiveram a infelicidade de nascer num País de injustiças gritantes, péssima distribuição de renda, com um sistema de atendimento social arruinado por falta de verbas, decência administrativa e competência. Isso sem falar na doutrinação de TVs que explora e incentiva o sexo em suas mensagens subliminares a jovens e adolescentes – através de novelas, filmes, etc.
Afirma o economista Samuel Pessoa, Professor do Instituto Brasileiro de Economia da FGV: “A liberação do aborto pode reduzir, anos mais tarde, a criminalidade” e, também, “os filhos de mães adolescentes ou de famílias desestruturadas têm maior probabilidade de serem criminosos”. Claro, dentro da miopia social brasileira é fácil achar culpados entre os mais pobres – como se a perversa natureza humana fosse atributo apenas dos mais carentes.
A solução, pois, seria a pena de morte para potenciais delinqüentes ainda não nascidos!!!!... É claro, desde que sejam favelados. Esse tipo de pensamento beira ao nazi-facismo e suas aberrações.
Infelizmente até líderes de uma denominação neopentecostal (IURD), que de evangélica não tem nada, engrossa o coro daqueles que consideram o aborto legal – poderá até tornar-se legal por força de lei, porém diante de Deus será sempre um crime e incentivo ao crime. Devemos lembrar que cidadãos, ONGs, comitês envolvidos na luta pelos Direitos Humanos, ao defenderem o aborto revelam grotesca contradição em si mesma – tratando-se de casos aberrantes de espírito doble – como uma pessoa querer andar em direções opostas, ao mesmo tempo. O aborto é crime lesa humanidade, completamente hediondo (depravado, vicioso, sórdido, imundo), pois atinge e aniquila a vida de um ser indefeso. É um ato covarde e perverso. Sua prática leva essa perversidade ao seio da medicina, da legislação, do direito, da política, da imprensa e da sociedade como um todo.
A legalização do aborto, em vários países, vem revelando o estado de depravação total de uma humanidade hedonista, superficial, irresponsável e cruel – sem dignidade própria e sem temor a Deus. Declarações como a do governador do RJ, buscando solução para problemas administrativos e legais na prática do aborto, é mais um exemplo da superficialidade com que nossa geração vem tratando da VIDA como algo descartável e vil – sujeita aos caprichos de uma geração a qual foi ensinada que o “prazer” seria a medida de todas as coisas. Prazer embalado, muitas vezes, pelo álcool, drogas, prostituição e até chantagem. Como fica o Brasil nessa esteira da legalização do crime contra aqueles que estão em pleno processo de geração, natural e divina?
Alegar que a prática massiva do aborto diminuiria a criminalidade é isentar de crime aqueles que matam a vida que está sendo milagrosamente gerada. Na Alemanha nazista as minorias, especialmente os judeus, eram os culpados de todas as mazelas nacionais – e tinha que ser eliminados. Fenômeno semelhante parece ganhar vulto no “país dos coitadinhos” – só que dessa vez os culpados ainda não nasceram. Eis uma solução que quer mascarar a realidade de um País encardido pela corrupção impune e pelas mazelas de uma elite que quer tapar o sol com a peneira do aborto.

jovemsaomateusdosul.blogspot.com/

José J Azevedo
APMA – Associação de Proteção do Meio Ambiente