O inimigo
POR ABSURDO que possa parecer, não faltou quem tenha comemorado a destruição das torres gêmeas de Nova York há seis anos como uma vingança contra o império norte-americano. Esse tipo de reação forneceu o combustível ideal para toda sorte de retrocesso institucional: aumento dos mecanismos de controle social, expansão dos serviços secretos de vigilância e repressão, restrição de direitos fundamentais, guerra. O 11 de Setembro inaugurou um período de incerteza para a democracia. O neoconservadorismo da era Bush cultivou a sensação de medo e de insegurança e transformou todos os temas do debate público em duelos maniqueístas entre o bem e o mal. Logo após o ataque, qualquer manifestação que não aceitasse esses termos simplificados era imediatamente reprimida como a manifestação de um inimigo. O desastre da Guerra do Iraque e a truculência dos principais auxiliares de Bush arrefeceu esse movimento de ataque à inteligência e ao debate ponderado. Mas não dá sinais de que vá servir também para frear a tendência a sacrificar direitos em favor de segurança em todas as partes. Não é mesmo fácil lidar com o medo e a insegurança, que são bastante reais. Só que o conservadorismo mobiliza esses sentimentos para bloquear a reflexão. Ao inculcar a idéia de que se trata de uma "guerra" contra "o terror", divide o mundo entre amigos e inimigos. E faz isso principalmente dando uma cara ao inimigo. Bush conseguiu convencer muita gente de que a Al Qaeda é de fato uma organização tão ou mais poderosa que um país inteiro e deu a ela a cara de Bin Laden. O próprio Bin Laden aceita muito bem o papel. Reapareceu de barba tingida e aparada para uma vez mais confirmar que é o inimigo. Cede de bom grado a "franquia" da Al Qaeda para toda sorte de atentados e ataques. Quebrar essa lógica perversa exige enfrentar o medo sem ceder a ele. Significa a recusa de criar um "outro" hostil, um inimigo que seria preciso eliminar. O perigo não desaparece só porque está longe da vista, em prisões secretas e ilegais. Também não desaparece porque se dá a ele uma cara. O que é preciso tornar visível são as causas do medo e da insegurança. Só assim é possível discuti-las abertamente, recusando o caminho da lógica beligerante do amigo-inimigo. Abrir mão de direitos em nome da segurança é caminho seguro para abrir mão de mais direitos. Porque significa delegar a alguém ou a alguma instituição o poder de definir quem é o inimigo. Quem delega esse direito hoje pode se tornar o inimigo de amanhã.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na Folha
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