domingo, 30 de setembro de 2007

artigo de opinião - gilberto dimenstein

Você compraria uma máquina de escrever?

UMA DAS MUDANÇAS previsíveis do mercado de trabalho é o fim de uma profissão que, até pouco tempo atrás, oferecia um salário razoável e até mesmo produzia, em alguns casos, pequenas fortunas: professor de cursinho pré-vestibular. A perspectiva econômica dos cursinhos é tão animadora quanto a de uma fábrica de máquinas de escrever.É fácil entender essa morte anunciada: em primeiro lugar, existe uma crescente oferta de cursinhos pré-vestibulares gratuitos; em segundo, na maioria das universidades privadas, o número de vagas é maior do que o de candidatos à sua procura; em terceiro, para entrar nas faculdades mais disputadas, já não basta ao estudante memorizar informações. É necessário manejar conceitos que se vinculem a diferentes áreas do conhecimento, o que exige uma sólida formação do vestibulando. A anunciada decisão da Universidade de São Paulo de implantar o vestibular seriado é mais um tiro, quase fatal, nos cursinhos. De acordo com esse sistema, o estudante faz provas em todos os anos do ensino médio e, no final, vale a média das notas obtidas. A crise desse negócio reflete tendências que vão muito além da educação. Está em jogo, em essência, a garantia de obter um emprego e prosperar nele.
De tanto receberem críticas, os vestibulares foram, aos poucos, ficando melhores e agora trazem questões mais complexas, que envolvem diferentes disciplinas, conectadas a questões concretas. Um problema ecológico exige do estudante que ele discorra sobre biologia, química, física ou história. Esse é o eixo do Enem, usado também para ajudar a selecionar jovens para as faculdades. Note-se que as escolas cujos alunos apresentam bom desempenho nesse exame mostram, não por coincidência, um número maior de aprovados nos vestibulares dos cursos superiores mais disputados - nas escolas melhores, estão aqueles que, por razões familiares e poder aquisitivo, tiveram a chance de obter uma formação geral. Quem quiser entrar no curso de direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, terá de mostrar conhecimento conceitual de arte, além de se submeter a uma dinâmica de grupo, na qual se testam a proficiência em argumentação, a aptidão para a liderança e a capacidade de trabalhar em equipe. A polêmica decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de oferecer prêmios em dinheiro aos melhores alunos, anunciada na semana passada, faz até sentido, a considerar o conjunto de medidas de combate à evasão escolar, mas é quase como tentar inovar uma máquina de escrever -algo que, em se tratando de educação pública, ainda é apresentado como moderno. E, se o "teclado" não funcionar bem, a culpa não é da escola nem do professor, mas do aluno.
Não é só o vestibular que força as alterações do currículo escolar. O mercado de trabalho se interessa por indivíduos com formação técnica, mas exige também que tenham a capacidade de enfrentar desafios, de empreender, de trabalhar em grupo, de renovar constantemente seus conhecimentos. Isso se vê, com clareza, nos testes para trainees das grandes empresas, nas quais, não raro, 3.000 candidatos lutam por uma vaga. Não há executivo bem posicionado que não participe de algum programa de atualização. Já que se exige aprendizagem permanente para responder à velocidade das inovações, perdem o sentido a divisão de ensino por séries e notas, que, muitas vezes, medem o que se memorizou para a prova, não as habilidades para resolver os problemas. A nota é ainda reverenciada, como se viu na repercussão da medida anunciada, na semana passada, pelo governo de São Paulo da volta do boletim unificado. Em geral, as notas não aferem, por exemplo, a habilidade de selecionar informações e aplicá-las no cotidiano. Em suma, pouco medem da auto-aprendizagem.
Pesquisas realizadas pelos mais diferentes veículos de comunicação vêm detectando nos jovens um comportamento crescentemente hiperativo diante das notícias, além de uma disposição não apenas de ver, ouvir e ler mas também de participar, ser co-autor (isso explica a multiplicação dos blogs). Uma das melhores sínteses dessa atitude é, provavelmente, a Wikipedia, a biblioteca construída em conjunto por autores anônimos espalhados pelo mundo. Em meio ao encanto dessa múltipla autoria, no entanto, surgem denúncias de que tanta abertura acaba dando espaço a verbetes errados, em geral, fruto da influência clandestina de empresas e governos. Quanto mais informação, mais confusão. Comunicadores e educadores enfrentam o mesmo desafio para que suas atividades tenham relevância: o de selecionar sempre com mais rapidez sem perder o rigor. A escola de qualidade não será medida pelo número de informações que leva um aluno a memorizar, mas pela sua capacidade de ajudá-lo a selecionar e a associar dados e idéias, convertendo-os em ações. Da mesma maneira, os veículos de comunicação serão avaliados menos pela quantidade de suas notícias exclusivas -os chamados furos- do que pela aptidão de antecipar tendências. Antecipar tendência é a tradução da habilidade de olhar de ângulos diferentes e ver no presente aquilo que terá alguma relevância no futuro. Do contrário, educadores e comunicadores terão o destino das máquinas de escrever ou dos cursinhos pré-vestibulares.
PS - Uma das melhores coisas que se pode fazer pela juventude e pela educação é a proposta do governo de SP, de oferecer cursos técnicos no ensino médio. Se sair do papel e se for bem executada, a medida vai ajudar a empregar os jovens e a tornar o ensino mais atraente.

editorial de domingo - Estadão

Cumplicidade culposa

Desgraçadamente, é só quando surgem atrocidades como as praticadas pelo “monstro da Cantareira” - que violentou e assassinou cruelmente os irmãos Francisco, de 14 anos, e Josenildo Ferreira de Oliveira, de 13 - que a sociedade, tomada por sentimentos de revolta e indignação, começa a considerar que o assassino monstruoso, o presidiário Ademir Oliveira Rosário, tem um “cúmplice culposo” sem cuja ajuda não poderia praticar o crime, que é o “sistema” e, mais que isso, toda uma mentalidade - a daqueles que, com base numa distorcida, obtusa e ideologizada noção de “direitos humanos”, têm deixado a sociedade à mercê de celerados como esse da Cantareira, que não dão valor absolutamente algum à vida humana. A trajetória desse facínora revela um acúmulo inacreditável de omissão, de incompetência e de leniência, tanto do sistema prisional quanto da legislação de execução penal. Agora com 36 anos, a primeira acusação criminal contra Rosário data de seus 19 anos. Ficou detido por 2 meses e acabou liberado após a condenação, de 1 ano e 9 meses, de reclusão, em regime aberto. Em outubro de 1991 cometeu seu primeiro assassinato. Ficou preso na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté e acabou solto antes de ser julgado. De volta às ruas, voltou a cometer crimes - praticou um roubo e abusou sexualmente da vítima em 4 de agosto de 1998. Acabou condenado a 7 anos de prisão - pelo homicídio anterior - em maio de 1999. Em setembro daquele ano, recebeu a pena de 11 anos de prisão pelo roubo seguido de atentado violento ao pudor. Somadas, as três penas chegavam a mais de 19 anos - que, se cumpridas, só o colocariam em liberdade em março de 2018.Entretanto, no início de 2004 Rosário teve a pena convertida em medida de segurança, visto que os peritos perceberam que ele era portador “de alguma doença mental”. O juiz anulou a pena e transferiu Rosário para tratamento médico em um hospital de custódia, por tempo indeterminado, até que um grupo de especialistas atestasse que ele não ofereceria mais perigo à sociedade. E agora vem a parte inacreditável: esse “grupo de especialistas” - composto de psiquiatras, psicólogos, clínicos, assistentes sociais e enfermeiros - concluiu que Rosário não oferecia perigo à sociedade. Por isso fez um laudo com base no qual, por decisão judicial, foi o facínora incluído no “programa de desinternação progressiva”, que lhe permitia sair para visitar a família. Há registros de suas saídas até por 20 dias. E ele aproveitou suas saídas para praticar seus muitos crimes, especialmente nos fins de semana. “Tinha um álibi excelente: estava preso” - como disse um delegado. Nos seus últimos crimes fez exatamente isso: saiu da prisão na sexta, matou os dois irmãos adolescentes no sábado e retornou à prisão segunda-feira. Até agora Rosário - que já confessou o assassinato dos 2 irmãos - foi reconhecido por 6 outros meninos que ele atacou, mas conseguiram escapar, e há suspeitas da polícia de que ele tenha atacado 21 adolescentes. Se formos examinando cada ponto dessa tenebrosa trajetória vêm-nos à tona a arquitetura do criadouro de monstros que é o sistema criminal brasileiro: um assassinato - que em muitos países civilizados tem por punição muitas décadas de reclusão, prisão perpétua ou pena de morte - resultou em apenas 7 anos de prisão; uma soltura antes da condenação; a conversão de uma pena de reclusão em “medida de segurança” - sem que se atentasse para a grande insegurança, para a sociedade, que adviria dessa conversão -; o exame do facínora por um “grupo de especialistas” que, pela trágica incompetência “multidisciplinar” que revelaram ao negar a periculosidade do individuo (que “indícios” terão tido dessa “recuperação”?), deveriam ser de todo interditados para essa função; e a falta total de controle sobre o que fazem ou onde estão os beneficiários desse “programa de desinternação progressiva” - como as autoridades prisionais não sabiam da fama aterradora do presidiário, na região? Mas por sobre a devastadora incompetência desse “sistema” está a preocupação hipócrita de “recuperar” indivíduos notoriamente irrecuperáveis e a não admissão da verdadeira prioridade, que é a proteção da sociedade contra suas atrocidades - independentemente do que as tenha originado. A ausência da hipocrisia da recuperação - dos irrecuperáveis - teria poupado, pelo menos, a vida de 2 jovens inocentes e evitado os ataques aos demais.

sábado, 29 de setembro de 2007

editorial - sábado

Nada espetacular

A MAIS recente safra de pesquisas sobre o mercado de trabalho no Brasil trouxe algumas evidências que merecem atenção. Os resultados relativos ao mês de agosto confirmaram que teve continuidade o movimento, iniciado em junho, de desaceleração do poder de compra dos trabalhadores.Em parte, essa tendência está associada à aceleração da taxa de inflação -decorrente sobretudo da alta intensa dos preços dos alimentos no momento da entressafra da produção agrícola no país e de problemas de oferta em alguns países exportadores. Mas ela reflete também o fato de que o ritmo de crescimento da renda nominal perde velocidade. Na verdade, a renda média do trabalho caiu de R$ 1.133,66 em maio -pico do ano- para R$ 1.109,40 em agosto, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.A sondagem apurou também que a ocupação -isto é, a totalidade das vagas de trabalho, formais ou não- se mantém num ritmo de expansão da ordem de 3% ao ano. Mas o emprego cresce em segmentos (serviços, construção civil) que pagam menos. Essa dinâmica do mercado de trabalho continua a propiciar uma redução bastante lenta e descontínua das taxas de desemprego. O contingente de trabalhadores desocupados permaneceu em 2,2 milhões, resultando em uma taxa de desocupação de 9,5% em julho e agosto.Comportamento semelhante foi identificado na Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada pela Fundação Seade e pelo Dieese. O rendimento real médio dos trabalhadores caiu 0,9%, o nível de ocupação apresentou variação positiva de apenas 0,4% e a taxa de desemprego oscilou em torno de 15,6%.Embora essas pesquisas tenham abrangência geográfica restrita a seis regiões metropolitanas, elas constituem a fonte de informações mais atualizada e ampla para avaliar o que se passa com o mercado de trabalho brasileiro. E as evidências de que a taxa de desemprego custa a ceder e de que a renda parou de subir se harmonizam com os resultados mais recentes sobre o PIB. O ímpeto de expansão da atividade econômica diminuiu pelo terceiro período consecutivo no segundo trimestre deste ano.Embora haja focos setoriais de aquecimento expressivo -caso da indústria automobilística-, a evolução da economia e do mercado de trabalho está longe de espetacular.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

postagem para o anderson!

Concurso que exigia mínimo de 20 dentes é cancelado no RJ

Um decreto publicado nesta quinta-feira (27/9) no Diário Oficial cancelou o concurso da Guarda Municipal no Rio de Janeiro. As taxas de inscrições pagas serão devolvidas aos candidatos mediante apresentação de comprovante. O concurso público previa o preenchimento de 1.500 vagas.O MPT (Ministério Público do Trabalho) entrou com representação para investigar o conteúdo do edital do concurso. Para o procurador do Trabalho, Wilson Roberto Prudente, responsável pelo caso, algumas cláusulas eram inconstitucionais e discriminatórias tais como a exigência de no mínimo 20 dentes (apesar do uso de prótese), o impedimento de obesos e magérrimos no processo seletivo e a não reserva de vagas para portadores de deficiência física. Em audiência realizada a sede da Procuradoria Regional do Trabalho da 1ª Região com representantes da Guarda Municipal, o procurador havia dado prazo até a próxima segunda-feira (1/10) para que as cláusulas contestadas pelo MPT fossem revistas. Mesmo com o cancelamento do concurso, a audiência marcada está mantida. "O cancelamento resultou da firme atuação do MPT e, sob esse aspecto, é positivo. Esperamos que seja publicado em breve novo edital de acordo com a Constituição Federal e a legislação do país para o preenchimento das vagas existentes. A administração pública, mais do que os particulares, não pode proceder qualquer forma de discriminação seja por obesidade, deficiência física ou ausência de dentes", afirmou o procurador. Sexta-feira, 28 de setembro de 2007

domingo, 23 de setembro de 2007

editorial - sábado

Cacciola, a missão

CHEGA EM BOA HORA para o governo Lula a notícia da prisão, em Mônaco, do banqueiro Salvatore Cacciola, há anos foragido da Justiça brasileira. Ainda sob o desgaste da absolvição de Renan Calheiros no Senado, acontecimento que confirmou o conluio majoritário do petismo com o que há de mais arcaico e desavergonhado na política brasileira, as autoridades federais agora contam com uma ocasião propícia para empunhar, como nos bons tempos, a bandeira do combate à impunidade.Não é outro o sentido da missão internacional de que se auto-incumbiu o ministro da Justiça, Tarso Genro. Zarpa hoje para o charmoso principado, levando pessoalmente, não se sabe se em alguma maleta tipo 007, a alentada pilha de documentos que recomenda a imediata extradição do financista.Certamente, é de desejar que Cacciola responda no Brasil às diversas acusações de que é objeto. Entretanto, a menos que o ministro Tarso Genro demonstre inéditos poderes de persuasão pessoal -que lhe faltaram quando quis, em pleno colapso ético do PT, lançar a tese da "refundação" do partido-, cabe perguntar se funcionários qualificados do Itamaraty não poderiam desincumbir-se sozinhos desse gênero de gestões.Naturalmente, para as esfarrapadas patrulhas morais do lulismo, há um sabor especial na captura do banqueiro. Cacciola protagonizou um dos mais espantosos escândalos do governo FHC, do qual saíram condenados vários diretores do Bacen, além do presidente da instituição. O caso resultou num prejuízo de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos. Em troca de informações privilegiadas, Cacciola teria pago R$125 mil mensais a um funcionário do Banco Central, o que configura um mensalão de dar inveja aos mais audaciosos deputados da base governista.Some-se a isto a circunstância de que Salvatore Cacciola pôde fugir do país graças a um habeas corpus concedido pelo ministro Marco Aurélio Mello; depois dos acachapantes resultados do julgamento dos mensaleiros no STJ, não deixa de ser bem-vinda, para o PT, a lembrança daquela inglória decisão judicial.O retorno ao caso Marka, por si só, já seria entretanto capaz de deslocar provisoriamente o foco das atenções gerais, ainda às voltas com as estripulias, sigilosas ou não, de quadrilhas mais recentes. Ocorre que, uma vez diminuído o ímpeto para a criação de espetáculos punitivos na Polícia Federal, com a substituição de seu superintendente, o Ministério da Justiça estava a carecer de alguma proeza midiática.O cenário hitchcockiano de Monte Carlo sem dúvida oferece a Tarso Genro uma ocasião para a fotogenia política. No Senado, a imagem do PT não obteve bons resultados de seus agentes secretos e de suas missões impossíveis; é tempo, sem dúvida, de voltar aos clássicos do cinema -ainda que, para lembrar um outro clássico, o "thriller" policial petista se encene agora em ritmo de chanchada.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

editorial de quinta - Estadão

O MEC acorda tarde

O sistema de compra de livros didáticos adotado pelo Ministério da Educação (MEC) continua apresentando gravíssimos problemas. Terreno fértil para a corrupção, sujeito aos lobbies de editores e, principalmente, amplamente infiltrado pela “esquerda festiva”, ele se caracteriza pelo enviesamento ideológico nos critérios de escolha e pela falta de controle em sua distribuição, a ponto de obras rejeitadas por especialistas contratados pelo próprio governo continuarem sendo livremente utilizadas em salas de aula. É esse o caso da coleção Nova História Crítica de autoria de Mário Schmidt, que apenas entre 2005 e 2007 foi distribuída a 750 mil estudantes da rede pública - submetidos, assim, a autêntica “lavagem cerebral”.A coleção foi aprovada com ressalvas pelo Programa Nacional do Livro Didático, em 2000. Na reavaliação dos títulos a serem adquiridos em 2005, os professores contratados para definir o Guia do Livro Didático a rejeitaram, criticando-a por sua “visão maniqueísta e simplificada dos processos sociais”. A coleção voltou a ser reprovada na escolha dos livros a serem comprados pelo MEC entre 2008 e 2010, desta vez sob a alegação de que contém erros conceituais, falhas de informação e incoerência metodológica. Apesar do veto a novas aquisições, em 2005, e de sua exclusão do Guia do Livro Didático de 2008, a Nova História Crítica continuou sendo distribuída pelo MEC. Só este ano, já foram enviados 89 mil exemplares da coleção a escolas públicas. O governo gastou R$ 12 milhões com uma obra que, pela quantidade de imbecilidades e grosseiras falsificações da história que contém, jamais deveria ter entrado numa sala de aula.Alguns parágrafos dão o padrão da sua “qualidade”. O quadro de Pedro Américo, por exemplo, retratando a Proclamação da Independência, é comparado a “um anúncio de desodorante, com aqueles sujeitos levantando a espada para mostrar o sovaco”. D. Pedro II é um “velho, esclerosado e babão”. A princesa Isabel é uma mulher “feia como a peste e estúpida como uma leguminosa” e o Conde d’Eu é um “gigolô imperial” que enviava meninas paraguaias para os bordéis do Rio de Janeiro. “Quem acredita que a escravidão negra acabou por causa da bondade de uma princesa branquinha, não vai achar também que a situação dos oprimidos de hoje só vai melhorar quando aparecer algum princezinho salvador?”Por outro lado, Mao Tsé-tung é apresentado como um “grande estadista” que “amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido”. A Revolução Cultural Chinesa é descrita como “uma experiência muito original” onde, “em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes”. A ditadura de Fidel Castro é elogiada a começar pelos fuzilamentos no paredón. A derrocada da União Soviética é atribuída aos profissionais com curso superior, por terem “inveja” da classe média dos países desenvolvidos. “Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias.”As distinções ideológicas também são um primor. O capitalismo é definido como o regime econômico onde “terras, minas e empresas são propriedade privada” e “as decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal”, enquanto no socialismo “terras, minas e empresas pertencem à coletividade” e “as decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à toda a população”. A verdade factual é desprezada pela obra, que em momento algum se refere aos milhões de assassinados pelo regime de Mao, ao arquipélago Gulag do regime soviético e ao fracasso do socialismo e do comunismo. Diante de tanta desonestidade intelectual, custa crer que o MEC só tenha se manifestado sobre o problema após a publicação de artigo do jornalista.
Ali Kamel, do jornal O Globo (reproduzido na página A2 desta edição), comentando a obra.

tudo depende do ponto de vista

O que ensinam às nossas crianças

Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático “Nova História Crítica, 8ª série” distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.Sobre o que é hoje o capitalismo: “Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.” Sobre o ideal marxista: “Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores.”Sobre Mao Tse-tung: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.”Sobre Revolução Cultural Chinesa: “Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes ‘politicamente esclerosados’. (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: ‘Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo’. As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.”Sobre a Revolução Cubana e o paredão: “A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular.”Sobre as primeiras medidas de Fidel: “O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%.” Essas medidas eram justificadas assim: “Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde.”Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: “Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA.(...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?”Sobre os motivos da derrocada da URSS: “É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinha inveja da classe média em desenvolvimento dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?”Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas um pesadelo?Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Senão for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém. Artigo reproduzido do jornal O Globo de 18/9, página 7.* Ali Kamel é jornalista

editorial de quinta - Folha

Lata de lixo da história

O PROGRAMA Nacional do Livro Didático (PNLD) conta em 2007 com orçamento de R$ 620 milhões. Uma cifra vultosa, mas por tudo justificável como investimento que faz chegar a 30 milhões de alunos de escolas públicas, de graça, 120 milhões de volumes.O esforço republicano para disseminar conhecimento entre estudantes de todas as classes e regiões, exatamente por seu gigantismo, exige muito controle público para afastar o risco certo de falcatruas -materiais ou intelectuais. De quanto em quando, porém, o país se vê surpreendido com patranhas como a revelada por Ali Kamel, anteontem, no jornal "O Globo", acerca da obra "Nova História Crítica", para alunos da oitava série. Em lugar de ensinar história, o livro se consagra à canhestra tentativa de doutrinar crianças com uma enxurrada de marxismo vulgar.A coleção de disparates vai de uma condenação ao capitalismo por objetivar lucro a um elogio da Revolução Cultural chinesa. À vulgaridade pensativa, o livro agrega falsidade histórica, omitindo os assassinatos -eles sim incontáveis- cometidos em nome da dita revolução. Apesar disso, o governo federal adquiriu de 2005 a 2007 quase 1 milhão de exemplares da obra, campeã de distribuição gratuita. Só em 2007 gastou com ela R$ 944 mil.Não que inexistam filtros para desestimular a escolha de livros desse nível. Em 1996 introduziu-se uma avaliação pedagógica trienal dos inscritos no PNLD, para excluir das opções oferecidas aos professores aqueles volumes que contenham "erros conceituais, indução a erros, desatualização, preconceito ou discriminação de qualquer tipo". Obras incluídas são objeto de resenhas críticas no "Guia do Livro Didático".Em 2002 e 2005, o nada didático "Nova História Crítica" havia sido aprovado "com ressalvas", por "resvalar no maniqueísmo". Deveria ter sido sumariamente eliminado, por seus erros, desatualização e preconceitos. É o que anuncia agora o MEC, para 2008, pondo a tranca na porta arrombada à vista de todos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

opinião

Concurso veta guarda com poucos dentes

Concurso da Guarda Municipal do Rio exige número mínimo de dentes para aprovação. O edital afirma que “é considerado inapto para a função o candidato que tiver menos de 20 dentes”. A exigência, diz a Guarda, é prática comum nas “forças de segurança, incluindo PM e Forças Armadas”. São 1.500 vagas com salário de R$ 812,33.


Pensemos juntos:

Com este tratamento e este salário, como a sociedade pode cobrar por bons serviços? A polícia deve ser vista com admiração, deve ser respeitável e respeitada pela sociedade. Mas diante desta realidade pergunto: não seria o efetivo do município composto por pessoas ignorantes e despreparadas? Haja vista que o preparo psicológico deva ser acompanhado sistematicamente, o que é totalmente negligenciado, pondo em risco a segurança da população.
Outro fato estarrecedor é como podem ser vizinhos os bandidos e os mocinhos? Um guarda ganha tão pouco, que não raro reside na mesma favela que o bandido, muitas vezes ocultando sua profissão, pois se a bandidagem fica sabendo, o apagam. Então, como não querê-lo corrupto? Do jeito que a sociedade trata a polícia aonde chegaremos? A corrupção acaba sendo fonte de sustento, porque morar na favela não dá, o que está claro.
Cabe consciência da população, pois não raro discutimos em favor dos bandidos, vamos pensar também nos nossos pobres mocinhos.
abraços
profa

a mãe de todos os males!!

Brasil é o que menos investe em educação

Em uma lista de 34 países, o Brasil é o que menos gasta com estudantes, diz estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que avalia os países desenvolvidos e outros seis convidados.Segundo a pesquisa, que utiliza dados de 2004, o Brasil gasta em média US$ 1.302 (R$ 2.340) por estudante -do ensino básico ao superior. Os Estados Unidos é o país que tem o maior investimento por estudante, com US$ 12.092 mil (R$ 21,6 mil).O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou ontem que o Plano de Desenvolvimento da Educação -lançado neste ano- prevê um aumento de 0,7 ponto percentual no investimento federal -que hoje é de 4% do PIB.

editorial de quarta

Alerta nível médio

UM DADO da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) parece não ter recebido a devida atenção, após divulgação na semana passada: enquanto cresceu 13,2% o número de estudantes de terceiro grau, de 2005 para 2006, o de alunos do ensino médio caiu 0,9%.O valor percentual baixo pode sugerir que tenha havido apenas flutuação estatística, mas há razões para crer que se trate de algo mais. É fato, por um lado, que a progressiva diminuição na taxa de fecundidade (hoje de dois filhos por mulher) vai reduzindo o contingente de jovens que chegam ao ensino médio. O acentuado acréscimo no nível universitário se explicaria, de outro lado, pela pressão por requalificação no mercado de trabalho.Toda a dificuldade vem de que a quantidade de matrículas no ensino médio deveria aumentar, e não diminuir. A taxa de escolarização na faixa etária correspondente (82,5%, de 15 a 17 anos) está longe da universalização obtida no ensino fundamental (97,7%, de 7 a 14 anos). O indicador vinha melhorando nos anos 1990, até atingir 81,1% em 2001. Desde então, estagnou entre 81% e 82,5%.De acordo com o Censo Escolar do Ministério da Educação, porém, essa taxa bruta de escolarização oculta que apenas 53% dos 8,9 milhões de matriculados estão na faixa etária correta. Há 4,1 milhões de estudantes secundários com 18 anos ou mais que isso, por força de reprovações. A contrapartida é que 3,6 milhões de jovens de 15 a 17 anos, que deveriam cursar o ensino médio, ainda marcavam passo no fundamental, em 2006.Tem razão o ministro da Educação, Fernando Haddad, ao afirmar que o ensino médio no Brasil vive uma grave crise, como fez segunda-feira no Congresso. Não há outra maneira de descrever o que se passa num setor em que a taxa de reprovação é de 11,5%, e a de abandono, de 15,3%. O ministro também está certo ao concluir que não é possível esperar de 10 a 15 anos para que eventuais progressos de qualidade obtidos no ensino fundamental surtam efeito no ensino médio.Não basta, contudo, despejar R$ 3,5 bilhões para criar duas centenas de Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica) até 2010. Em primeiro lugar, porque não há garantia de que, nesse curto prazo, venham a repetir o desempenho de 140 dessas ilhas de excelência que existem hoje. Depois, porque o ensino médio prosseguirá como atribuição constitucional dos governos estaduais. Cabe prioritariamente a eles propiciar a seus jovens educação que lhes franqueie acesso ao conhecimento e a bons empregos.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

complementando a notícia - hoje no Estadão

Jovens de classe média espancam índio até a morte

Um índio da aldeia xacriabá foi espancado até a morte por três jovens de classe média, entre eles dois menores de idade, na madrugada de anteontem, na cidade de Miravânia, no norte de Minas. Segundo informações da Polícia Civil, Avelino Nunes Macedo, de 25 anos, foi seguido depois de sair de uma festa realizada em um ginásio. As agressões foram motivadas por um simples 'esbarrão' ocorrido durante uma festa. A polícia comparou o caso com a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, há dez anos (veja ao lado). Responsáveis por organizações indigenistas da região temem que o clima na aldeia fique 'tenso', após o crime.Os agressores confessaram o ataque, mas alegaram que não tinham a intenção de matar a vítima. Disseram que queriam apenas dar um 'susto' no índio e 'deixá-lo nu'. Eles admitiram que haviam feito uso de bebidas alcoólicas. O entregador Edson Gonçalves, de 18 anos, foi preso em flagrante e se encontra à disposição da Justiça. Os dois menores foram encaminhados para o Ministério Público e tiveram a apreensão provisória solicitada. Um quarto jovem foi inocentado pelos colegas e liberado pela polícia.De acordo com o delegado do município de Manga, Airton Alves Almeida, os três foram autuados por homicídio qualificado, agravado por motivo fútil. 'O índio deu um esbarrão natural em um dos menores. Então, na saída, resolveram atacar. Não tem explicação, parece o caso do índio Galdino.'O xacriabá tentou reagir, mas foi derrubado e agredido a pauladas, socos e pontapés. Almeida ainda não descarta 'preconceito étnico' por parte do trio. A vítima não portava nenhuma faca ou objeto que pudesse ameaçar os agressores.Manoel Rocha, administrador substituto da Executiva Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Governador Valadares (MG), tratou o assassinato como uma 'molecagem' e um 'caso isolado'. Segundo ele, a procuradoria do órgão irá agora 'tomar as providências cabíveis'.O coordenador da Regional Leste (Minas, Espírito Santo e sul da Bahia) do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Wilson Mário Santana, teme que o caso aumente a violência na região. 'A comunidade é grande e a situação pode ficar tensa.'Segundo o Cimi, cerca de 8 mil xacriabás vivem no norte do Estado, numa área estimada de 54 mil hectares. Com base em uma documentação de doação datada da primeira metade do século 18, eles reivindicam a ampliação do território, o que causa atritos com fazendeiros da região. No fim dos anos 80, três líderes foram assassinados durante o mais recente conflito fundiário.De acordo com Nilton Seixas, responsável pelo Cimi em São João das Missões, o assassinato ocorreu em uma área reivindicada. 'Acho que é preciso investigar melhor essa situação. O episódio nos deu uma preocupação muito grande. Um crime que aparenta ser banal, sem nenhuma razão, ocorreu em meio a um povo que passa por um processo de muita ameaça e vive em um terço do território legítimo'.

Há dez anos, execução de pataxó no DF chocou País

Em 20 de abril de 1997, o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, foi queimado vivo por um menor de idade e quatro jovens de classe média em Brasília, enquanto dormia em um ponto de ônibus. Ele teve mais de 85% do corpo coberto por queimaduras de terceiro grau e morreu no dia seguinte. Na época, os jovens declararam à polícia que achavam que a vítima 'era um mendigo' e não tinham noção das conseqüências.Em 2001, após cinco dias de julgamento, os quatro maiores foram condenados a 14 anos de prisão em regime fechado. Menos de um ano depois, conseguiram uma autorização judicial que permitia que saíssem da penitenciária para estudar e trabalhar. Em 2003, o benefício foi cancelado, após três dos envolvidos terem sido flagrados passeando, namorando e bebendo cerveja, sem passar por qualquer tipo de revista na volta ao presídio.Eles perderam temporariamente o direito ao regime semi-aberto. Mas, em agosto de 2004, conseguiram liberdade condicional. Hoje estão livres, mas não podem sair do Distrito Federal e devem manter a Justiça informada de suas atividades.DOMÉSTICAO caso mais recente de crime de intolerância, por motivo fútil envolveu a doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos. Na madrugada de 23 de junho deste ano, ela foi espancada e roubada por cinco rapazes num ponto de ônibus na Barra da Tijuca, zona sul do Rio. Na ocasião, os garotos alegaram que confundiram Sirlei com uma prostituta. Ao serem interrogados, disseram que saíram à noite com a intenção de 'zoar umas putas'.Rubens Arruda Breno, de 19 anos; Felippe Macedo Nery Neto, de 20; Leonardo Pereira de Andrade, de 20; Júlio Junqueira, de 21; e Rodrigo Bassalo, de 21 anos, foram indiciados pelo Ministério Público do Estado do Rio por roubo qualificado e lesão corporal - crimes cujas penas podem chegar a 15 anos. No dia 28 de agosto, o STJ concedeu liminar autorizando Felippe a responder o processo em liberdade. Os outros envolvidos permanecem detidos na Polinter, na zona norte do Rio.

Preconceito - 18/09/07

Miss Gay é morto após vencer concurso

O costureiro Osvan Inácio dos Santos, de 19 anos, vencedor do Concurso Miss Gay Arapiraca, em Alagoas, foi violentado e espancado até a morte, na madrugada de domingo. O crime aconteceu logo após a conquista do título de Miss Gay, quando Santos voltava para a sua residência. A polícia investiga o assassinato e suspeita que Santos tenha sido vítima de dois homens que foram vistos com ele no trajeto para casa.

editorial de terça - Estadão

Uma pesquisa explica a outra

Em política, dizia o ditador português Antonio de Oliveira Salazar, o que parece é. E a percepção da esmagadora maioria dos brasileiros, com o seu indissociável séquito de conseqüências políticas, é que o pai da estabilidade econômica nacional se chama Luiz Inácio Lula da Silva. O papel do “homem do real”, como os encantados eleitores saudavam na campanha presidencial de 1994 o então ex-ministro da Fazenda Fernando Henrique, com quem tudo começou, está reduzido a pouco mais do que um vestígio na memória coletiva. Dois em cada três entrevistados na pesquisa inaugural do Estado com o instituto Ipsos Public Affairs, publicada domingo, consideram Lula “o maior responsável” pelo controle da inflação, ante irrisórios 7% que apontaram o seu antecessor.Não há dúvida de que a deliberada desconstrução da verdade histórica a que ainda agora se dedica o atual presidente contribuiu para aquele monumental equívoco, ao obliterar o fato inconteste de que a maior responsabilidade de Lula consiste, isso sim, em ter mantido e aprofundado o “malanismo”, a política econômica do segundo mandato de Fernando Henrique. Não obstante, Lula não hesitou em cunhar a desonesta expressão “herança maldita”, para designar o legado que iria consolidar e de que iria usufruir em formidável escala. Ao contrário do seu ex-ministro Antonio Palocci, que teve a honestidade de sempre abençoar essa herança. Mas, para mal dos pecados de Fernando Henrique e da oposição, em geral, quanto mais auspiciosos se revelam os resultados dessa política, maior se torna a hegemonia política do presidente Lula da Silva.E esses resultados só tendem a melhorar, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), cuja versão relativa a 2006 o IBGE divulgou três dias antes de virem a público os números da sondagem do Ipsos para este jornal. O nexo entre os dois conjuntos de resultados é claro como o dia. O deslumbramento com um presidente que para 27% dos entrevistados não fez nada de ruim - ante 8% para os quais ele não fez nada de bom - é inseparável do aumento de 7,2%, o maior em uma década, do poder aquisitivo dos trabalhadores. Adicionando-se aos dados de 2006 os do ano precedente, o ganho acumulado alcança 12,1%. Em 2005, além disso, o desemprego estava em 9,3%. No período seguinte, caiu para 8,4%, com a vantagem de que 60% dos novos postos de trabalho davam direito a carteira assinada.O IBGE revela ainda que, para a metade mais pobre dos assalariados, o ano passado foi de longe o melhor desde o lançamento do Plano Real. Isso apenas reforçou a tendência, que data de 1993, de lenta e gradual diminuição da desigualdade de renda no País. Naquele ano, o Índice de Gini, que varia de zero (igualdade absoluta) a 1 (desigualdade absoluta), estava em 0,600, considerando apenas os rendimentos do trabalho. Está em 0,541. Parcela ponderável dessa evolução se deve aos aumentos reais do salário mínimo - 20,6% no segundo governo Fernando Henrique e 25,3% no primeiro governo Lula. Os ganhos de qualidade de vida dos brasileiros nos últimos cinco anos não derivam só da posse de bens familiares (geladeiras, máquinas de lavar, aparelhos de TV, computadores). Também se expandiram os bens públicos (serviços de água, saneamento, coleta de lixo, luz e telefonia).Vá-se dizer aos milhões que passaram a viver menos mal - apesar dos descalabros da saúde e do ensino - que o mundo atravessa o mais duradouro período de expansão econômica já registrado, e que o desempenho da economia brasileira, nesse contexto, é o pior entre os Brics, de que o Brasil faz parte, e é inferior à média dos desempenhos dos países em desenvolvimento. Para eles, herdeiros de uma das piores tradições de injustiça social vigentes em países de nível de desenvolvimento do Brasil, a percepção do ganho obtido, em termos absolutos, é o que conta. O mais é abstração - e o real, que abriu caminho para a doma dos preços, é história antiga. Daí Lula golear Fernando Henrique por 80 a 9, como o presidente que apoiou os mais pobres, e por 73 a 16 como o que mais elevou o poder de compra do povo, nos porcentuais da pesquisa Estado-Ipsos. Contra os 27% que acham que o governo Lula não fez nada de ruim, só 23% acharam ruim a corrupção; 11%, o apagão aéreo; e 10%, os serviços de saúde. Não é à toa que a oposição está desarvorada.

domingo, 16 de setembro de 2007

aí que mora o perigo

Mesmo com queda no índice, país tem 15 mi de analfabetos

Na era da tecnologia da informação, 14,9 milhões eram analfabetos em 2006 no país, queda de 4,2% na comparação com 2005, segundo a Pnad.A taxa de analfabetismo manteve a trajetória de queda -de 10,2% da população com mais de 10 anos em 2005 para 9,6% em 2006. O problema se amplifica, porém, quando olhado o enorme contingente de analfabetos funcionais, conceituados como aqueles com menos de quatro anos completos de estudo. Em 2006, havia 36,9 milhões de pessoas nessa condição. Representavam 23,6%, contra 24,9% em 2005.De acordo com o IBGE, apesar da expansão do número de crianças matriculadas nas escolas, as taxas de analfabetismo e o número analfabetos funcionais se mantêm altos nas gerações mais velhas e no Norte e no Nordeste especialmente.Em 2006, 97,6% das crianças de 7 a 14 anos freqüentavam o colégio -o percentual era de 97,3% em 2005 e cresce continuamente desde 1992, primeiro ano da pesquisa.As diferenças regionais também são marcantes: o Nordeste tinha o maior número de pessoas que não sabiam ler e também a mais alta taxa de analfabetismo funcional -8,9% e 35,5%, respectivamente."O analfabetismo funcional reflete mais a parcela da população que não se escolarizou o suficiente e não tem condição ou interesse de voltar mais para o sistema educacional", disse Romualdo Portela, professor da faculdade de Educação da USP. Segundo ele, o índice não mede a qualidade do ensino. Ou seja, não significa necessariamente que os quatro anos foram suficientes ou não para completar a alfabetização e fazer da leitura e da escrita ferramenta de trabalho e melhoria das condições de vida.Outro problema que persiste é a baixa escolarização -em média, 6,8 anos de estudo. Em uma tendência vista já há alguns anos, as mulheres continuam estudando mais: 7 anos. Os homens, 6,6.Para Sônia Rocha, economista do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), a baixa escolaridade é uma das causas da exclusão dos jovens do mercado de trabalho.Lula x FHCNos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, o esforço de matricular o maior número possível de crianças resultou na queda do analfabetismo. O ritmo não foi muito diferente, com pequena vantagem para o tucano.Na média anual, a taxa de analfabetismo caiu 3,78% no primeiro mandato FHC (1995-1998). No segundo, houve queda de 4,13%. Já sob Lula, a retração média ficou em 3,55%.Excluída a área rural da região Norte (não pesquisada até 2004), a taxa de analfabetismo era 14,7% em 1995. Em 2002, último ano do governo PSDB, caiu para 10,9%. No primeiro ano de Lula, ficou em 10,6%. Em 2006, cedeu para 9,4%.

editorial - sábado

A nova demografia

A PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada anualmente pelo IBGE, traz na edição 2006 uma série de indicadores da melhora paulatina, quase vegetativa, do panorama socioeconômico brasileiro. O crescimento anual da renda do trabalho atingiu 7,2%, o maior desde 1995. Em termos reais, no entanto, os R$ 833 mensais mal recuperam o patamar de R$ 888, em 1999. Ainda falta muito para chegar ao valor de 1996, R$ 975.Os dados mostram também algum avanço comedido sob o ângulo distributivo. A metade mais pobre da população, agora com renda média de R$ 293, enfim ultrapassou seu poder de compra de 1996 (R$ 267). O índice de Gini, que mede graus de desigualdade numa escala de 0 a 1, recuou algumas unidades na terceira casa depois da vírgula, passando de 0,543 (2005) para 0,540 (2006).Houve melhora, ainda em outros indicadores, como a taxa de desemprego (8,5%, a menor desde 1997) e o trabalho infantil (11,5%). Foi porém na taxa de fecundidade que a PNAD registrou um movimento histórico, ainda que igualmente esperado: alcançou-se no país a chamada taxa de reposição, de dois filhos por mulher. Aquém dessa fronteira, a população passa a comprometer-se com uma retração futura, quando contingentes declinantes de jovens chegarem à idade reprodutiva.O valor médio da fecundidade em todo o país, contudo, oculta grandes variações entre subgrupos. Nas regiões mais pobres, ainda se encontra bem acima do nível de reposição, o que contribui para manter certa resistência inercial a todo esforço de redução da miséria (na medida em que continuarão nascendo relativamente mais filhos de pais pobres). A PNAD não gerou, por ora, uma tabulação da fecundidade por faixa de renda, mas dados de 2004 indicavam que a proporção varia de 4,6 filhos por mulher (sem rendimentos ou com até um quarto de salário mínimo) a 1,1 (cinco ou mais salários mínimos).De todo modo, a média nacional de fecundidade aponta para um progressivo envelhecimento da população. Não chega a ser alarmante, mas ressalta a dimensão do problema que afetará cada vez mais as contas da Previdência. Conforme aumenta a proporção de idosos auferindo pensões, cai a de jovens aptos a recolher contribuições e fornecer a mão-de-obra de que o país necessita.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

editorial de quinta - Folha

Absolvido em segredo

CENTO E dez dias depois de reveladas suas ligações com o lobista de uma empreiteira, num episódio a que não conseguiu dar explicações minimamente satisfatórias; após uma seqüência devastadora de notícias a respeito do crescimento vertiginoso de seu patrimônio pessoal; cercando-se de uma vacilante pilha de notas fiscais suspeitas; valendo-se da própria influência do cargo para dar um curso favorável ao processo; protegido pelo corporativismo, pela pequenez e pela covardia da maioria de seus pares, o senador Renan Calheiros obteve ontem, entre quatro paredes, um vergonhoso e temporário prolongamento de sua sinuosa trajetória política.A decisão que o beneficiou não interrompe a corrosão de sua imagem, dada a quantidade esmagadora de denúncias que se seguiram ao primeiro escândalo. Ainda que salvo, desta vez, o seu mandato, Renan Calheiros não reúne as mais elementares condições políticas para manter-se como presidente do Senado.Tudo se fez para dar maior conforto e tranqüilidade aos defensores do presidente da Casa. Proibiu-se o uso de celulares durante a sessão, realizou-se uma varredura eletrônica no plenário, arrancaram-se microfones da sala. Procedimentos de sigilo que caberiam melhor numa reunião entre lideranças da contravenção do que em plenário de um dos Poderes da República.Mais do que nunca, evidenciam-se o anacronismo e a vergonha de uma blindagem normativa que, a despeito de muita condenação retórica, mantém-se intocada a cada uma das sucessivas crises éticas que atingem o Congresso.Quando virá a próxima? Mais que concentrar, numa única jornada deliberativa, todas as esperanças e frustrações inerentes a um conflito entre o interesse público e o corporativismo, trata-se de tomar os acontecimentos de ontem como uma etapa particularmente revoltante num difícil aprendizado civilizatório.Uma sociedade ainda pouco organizada, cindida por graves desníveis de renda, escolaridade e informação, cuida de enfrentar, a duras penas, um tipo de comportamento político fundado no sigilo, no compadrio, no paternalismo, na chantagem e no tráfico de influências.A estreita margem de votos com que se deu a deliberação demonstra o momento transicional ainda vivido no país. Tivemos, sucessivamente, a cassação de José Dirceu e Roberto Jefferson e a absolvição de muitos mensaleiros; a reeleição de alguns deles e a derrota de outros; a dura decisão do STF nesse mesmo escândalo e o relativo esquecimento em que caíram outros flagrantes de desmandos no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, no plano federal, nos Estados e nos municípios.Pela decisão tomada, e pelo muito que nem sequer chegou a ser avaliado -mais três representações contra Calheiros foram encaminhadas ao Conselho de Ética-, o dia de ontem fica marcado como um momento vergonhoso na história do Legislativo brasileiro. Mudar essa história não é tarefa, entretanto, para um único dia; na indignação pública que suscita estão as forças para levá-la em frente.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

editorial de quarta - Estadão

A crise que Lula não aceita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não escolhe latitude nem platéia para falar bobagem sobre assuntos que só conhece “de ouvido”. Desta vez foi no Círculo Polar Ártico e para os governantes da Finlândia. Falando sobre a crise financeira global, ele declarou que, sendo “um problema de política econômica dos EUA (...), não aceitaremos que joguem nas nossas costas os prejuízos de um jogo (do qual) não participamos”, sem se lembrar que a Bovespa foi a bolsa do mundo que mais “aceitou” os prejuízos do jogo de que participa, como todas as bolsas deste mundo globalizado. Para Lula, tudo se resume à “ganância de alguns investidores que compraram títulos de risco imaginando que estavam em um cassino e tiveram prejuízo”. Acostumado a vencer todos os jogos de que participa apenas com a retórica, principalmente porque a platéia brasileira que o interessa não é capaz de perceber o engodo, Lula deve ter surpreendido seus anfitriões finlandeses ao pretender convencê-los de que a crise não chegará ao Brasil porque ele “não aceita que chegue”.Melhor seria para o Brasil que assunto sério fosse tratado com seriedade e conhecimento de causa pelas autoridades, a começar pela mais importante. Felizmente, há, entre elas, quem aja desse modo. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, reconheceu que “ninguém está imune” aos efeitos da turbulência que perturba os mercados financeiros há várias semanas. E, com exceção “deste país”, em todo o mundo é forte o temor de que, por causa da agitação dos mercados, a economia americana reduza seu ritmo de atividade, o que realimentaria a crise e afetaria o desempenho da economia mundial - inclusive o Brasil, aceite ou não o presidente Lula.A crise, de fato, teve origem nos Estados Unidos. Há dois meses, subiu o índice de inadimplência no mercado de créditos hipotecários de alto risco, o que afetou alguns fundos que forneciam recursos que deram origem a esses créditos. Como os fundos eram patrocinados por bancos, estes também passaram a ter problemas de liquidez. O efeito se espalhou para todo o sistema financeiro, que ficou travado. Isso exigiu a ação dos bancos centrais, que injetaram liquidez no mercado, aliviando-o.O problema, porém, ao contrário do que imagina Lula, não se limitou ao mercado de títulos imobiliários nem aos EUA. A turbulência se espalhou para todos os mercados e sua mais recente manifestação foi registrada no último fim de semana. Pode haver outros desdobramentos da crise. Na reunião que presidentes de Bancos Centrais de vários países realizam a cada dois meses na cidade suíça de Basiléia - onde está sediado o Banco de Compensações Internacionais (BIS) -, o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, advertiu seus colegas para a probabilidade de a agitação dos mercados financeiros afetar o desempenho do setor produtivo americano. Se isso ocorrer, haverá reflexos em todo o mundo.É claro que, neste momento, não se pode falar em recessão iminente. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, por exemplo, afirmou que ainda não terminou o “período de ouro” da economia mundial - e isso se deve, como reconheceu, ao desempenho das economias emergentes. Mas, prudentes, os presidentes dos bancos centrais reunidos em Basiléia admitem que a crise financeira pode chegar ao setor produtivo e frear o ritmo de expansão de algumas economias, a começar pela americana. Pessimista, o presidente do BC do México, Guillermo Ortiz, lembrou que, quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo pega um resfriado e a América Latina fica gripada.Se necessário, os BCs vão atuar de forma coordenada para evitar o prolongamento da crise. “Vamos agir”, garantiu Trichet, que atuou como porta-voz da reunião de Basiléia. Para mostrar a capacidade de agir conjuntamente dos BCs e a eficácia dessa ação, ele recordou o movimento coordenado do BCE, do Fed e do Banco do Japão (o BC japonês) para garantir a liquidez do sistema financeiro quando isso foi necessário. A disposição de agir dos bancos centrais acalmou os mercados no dia de ontem.Ainda bem que fora “deste país” há gente preocupada com a crise - e que sabe do que está falando.

justiça à brasileira

Cana máxima

Zeu de Tal, um dos sete condenados pela morte do repórter Tim Lopes em 2002, beneficiou-se em julho último da "progressão da pena" que vigora entre nós. É um dispositivo pelo qual, tendo cumprido 1/6 do tempo, o detento pode sair para passear, visitar a velha ou cometer novos crimes, desde que volte para dormir atrás das grades. Zeu, compreensivelmente, preferiu não voltar.Fora da prisão, o beneficiado pela "progressão da pena" tem uma agitada vida social. Alguns de seus compromissos são com os que contribuíram para a polícia prendê-lo cinco anos antes. Essas pessoas costumam ser gente pobre das "comunidades" por onde o bandido circulava. O dito Zeu não deve estar chegando para as vinditas.Tim Lopes foi morto no Complexo do Alemão pela quadrilha do traficante Elias Maluco por causa de uma reportagem de TV. Eles o torturaram, amputaram seus membros a frio e, terminado o serviço, levaram-no ao "microondas" -queimaram-no em pneus- para desaparecer com o corpo. Zeu participou fornecendo a gasolina. Pegou 23 anos de cadeia.Mas, no Brasil, mesmo que o sujeito seja condenado a 300 anos, a sentença cai para um máximo de 30. Elias Maluco, por exemplo, pegou 28. Como já cumpriu mais de 1/6 disso, também está passando da hora de gozar dos privilégios da "progressão da pena". Donde se conclui que, no Brasil, a cana máxima para seqüestrar, torturar, esquartejar, carbonizar e sumir com o corpo é de cinco anos.Parece que uma nova lei restringiu a "progressão da pena" ao cumprimento de 2/5 da sentença para os primários e 3/5 para os reincidentes. Mas não está sendo aplicada em respeito aos "direitos adquiridos" dos presos. É bom saber que, não demora, teremos Elias Maluco circulando de novo na praça.

Ruy Castro

terça-feira, 11 de setembro de 2007

artigo de opinião

O inimigo

POR ABSURDO que possa parecer, não faltou quem tenha comemorado a destruição das torres gêmeas de Nova York há seis anos como uma vingança contra o império norte-americano. Esse tipo de reação forneceu o combustível ideal para toda sorte de retrocesso institucional: aumento dos mecanismos de controle social, expansão dos serviços secretos de vigilância e repressão, restrição de direitos fundamentais, guerra. O 11 de Setembro inaugurou um período de incerteza para a democracia. O neoconservadorismo da era Bush cultivou a sensação de medo e de insegurança e transformou todos os temas do debate público em duelos maniqueístas entre o bem e o mal. Logo após o ataque, qualquer manifestação que não aceitasse esses termos simplificados era imediatamente reprimida como a manifestação de um inimigo. O desastre da Guerra do Iraque e a truculência dos principais auxiliares de Bush arrefeceu esse movimento de ataque à inteligência e ao debate ponderado. Mas não dá sinais de que vá servir também para frear a tendência a sacrificar direitos em favor de segurança em todas as partes. Não é mesmo fácil lidar com o medo e a insegurança, que são bastante reais. Só que o conservadorismo mobiliza esses sentimentos para bloquear a reflexão. Ao inculcar a idéia de que se trata de uma "guerra" contra "o terror", divide o mundo entre amigos e inimigos. E faz isso principalmente dando uma cara ao inimigo. Bush conseguiu convencer muita gente de que a Al Qaeda é de fato uma organização tão ou mais poderosa que um país inteiro e deu a ela a cara de Bin Laden. O próprio Bin Laden aceita muito bem o papel. Reapareceu de barba tingida e aparada para uma vez mais confirmar que é o inimigo. Cede de bom grado a "franquia" da Al Qaeda para toda sorte de atentados e ataques. Quebrar essa lógica perversa exige enfrentar o medo sem ceder a ele. Significa a recusa de criar um "outro" hostil, um inimigo que seria preciso eliminar. O perigo não desaparece só porque está longe da vista, em prisões secretas e ilegais. Também não desaparece porque se dá a ele uma cara. O que é preciso tornar visível são as causas do medo e da insegurança. Só assim é possível discuti-las abertamente, recusando o caminho da lógica beligerante do amigo-inimigo. Abrir mão de direitos em nome da segurança é caminho seguro para abrir mão de mais direitos. Porque significa delegar a alguém ou a alguma instituição o poder de definir quem é o inimigo. Quem delega esse direito hoje pode se tornar o inimigo de amanhã.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na Folha

artigo de opinião

Os EUA são "made in China"
GERALD THOMAS

NÃO SEI se Mao Tse-tung está revoltado, rebolando ou simplesmente sorrindo no túmulo. Sua Revolução Cultural acabou dando numa enorme fábrica poluente e de produtos de quinta categoria. A sua China virou uma indústria de imitações de plástico ou uma enorme versão das Chinatowns de Nova York e de Los Angeles. E os trabalhadores? Ah, sim, 3 dólares por dia, claro! Mas esses produtos estão acabando com os EUA e com outros países do Ocidente, literalmente. Para cada máquina de café "made in China" ou edredom fabricado lá, para cada tênis Nike ou o que você imaginar, o trabalhador americano está no olho da rua. O nome disso aqui é "outsourcing", e seus maiores oponentes na mídia são Michael Moore e Lou Dobbs. O problema da China é bem mais grave que o "outsourcing" da força trabalhadora que foi para o México, para a Índia ou para as Filipinas. Lá tem a exploração, mas não benefícios, como seguro de saúde, aposentadoria. Depois do surto epidêmico do E.coli do espinafre colhido na Califórnia, que mandou cinco para o cemitério e 190 para o hospital, parcialmente por causa da "higiene (ou falta dela) dos mexicanos ilegais que fazem a colheita" -o que está entre aspas é citação do Center for Desease Control-, o mais recente escândalo assombrando a Food and Drug Administration são os produtos de origem na China: peixes cultivados em rios poluídos, camarões cultivados em tanques, pasta de dentes e outros que já chegam contaminados com uma substância tão tóxica que o próprio Departamento de Saúde da China a baniu faz cinco anos (o FDA a baniu faz 25 anos). Esse produto é algo parecido com o "antifreeze" que se coloca nos radiadores dos carros no inverno. Uma substância marciana gosmenta e verde que não permite que a água congele. E parece que esse anticongelante em pequenas proporções permite que os peixes continuem vivos em rios, riachos ou tanques altamente poluídos. Idem para os crustáceos. E como a base da pasta de dentes é igual para todas, o governo americano se viu obrigado a alertar o público: cuidado ao comprar a sua pasta de dentes. Mas, cuidado como, meu Deus? A situação é tão grave que o equivalente ao secretário de Saúde da China foi sentenciado à morte. A China reconhece a gravidade da situação. Existe uma proposta de lei em uma gaveta do Congresso em Washington DC que obrigaria o fabricante a colocar não somente o país de origem do produto mas também detalhes como "esse produto contém ingredientes originários da China". Mas, porque o lobby é forte e a China é a número um na "trader's list" (os EUA vendem partes de automóveis, partes de software, partes de tudo, inclusive armamentos bélicos -pasmem-, que são devolvidos para cá a troco de centavos), essa proposta de lei não sai da gaveta. Então, como tomar cuidado? Entrei nesses dias na loja Bed, Bath & Beyond e tudo ou quase tudo é fabricado na China. Sendo muitíssimo honesto comigo, o gerente da seção de máquinas de café falou sobre a da Krup, originalmente fabricada na Alemanha (e sobre o liquidificador Hamilton Beach): "Não prestam. Não compre: em três semanas entrarão em curto ou a tampa voará ou a água sairá por baixo". E, em voz baixa: "Vejo, pela tua aparência, que posso confiar em você. Também participei das passeatas contra a Guerra do Vietnã". Me senti um velho. Quase, ao sair da loja, passei na seção de bengalas. Mas me lembrei que bengala deve vir de Bengal, na Índia e... Bem, lá se vai mais uma história. Dia desses, tentei comprar uma camisa branca simples, dessas com botão, por que a que eu tenho rasgou depois de cinco anos de uso (ainda feita nos EUA). Já havia notado que a minha Levi's nova era "made in China", o tecido está fino demais, feita para durar, no máximo um ano (e olhe lá!) e continuei a caminhar. A loja Gap inteira é "made in China"! Fui para a Banana Republic (dos mesmos donos). Igual: quase tudo vem da China. Meu Deus, o coração começou a pulsar como se eu fosse um personagem num filme de Stanley Kubrick, pronto a ser detido por ter visto algo que não deveria, de olhos bem abertos ou bem fechados -ou algo entre um e outro, sei lá. Como estava fazendo quase 40 graus à sombra, fui buscar abrigo numa loja de porcelana (em inglês, porcelana chama-se "china"). Fui olhar o rótulo de um dos produtos de "china" (com o "c" minúsculo) e o vaso era feito na Turquia. Alívio temporário. Ainda hei de achar aqui neste país algo, além de Bush e Cheney, que são fabricados nos EUA. Juro que vou. Nesse meio tempo, passei na loja Kinkos (hum, que nome suspeito), que se especializou em fotocópia e internet e são parceiros da Fedex, e encomendei um carimbo temporário para estampar nas testas dos transeuntes: "Nós, feitos na Terra (em caracteres chineses), "are made in China'". Quem sabe dessa forma não seremos mais, digamos, entendidos como commodities e menos como seres humanos, já que essa raça está mesmo em extinção!

GERALD THOMAS é autor e diretor de teatro.

editorial de terça

Conclave no Senado

NINGUÉM sabe se Renan Calheiros conseguirá conservar seu mandato de senador da República na votação de amanhã, mas é certo que, se o fizer, terá sido graças ao instituto do voto sigiloso previsto para os casos de cassação por quebra de decoro parlamentar.Adicionando uma ponta de ridículo ao absurdo mecanismo constitucional da votação anônima, o regimento do Senado acrescenta a necessidade de a própria sessão ser secreta. Como cardeais prestes a eleger o papa, os senadores se enclausurarão em sorrelfo conclave para definir o futuro de seu presidente.É difícil até imaginar um caso mais grave de violação do contrato que deveria vigorar entre representantes e representados. O voto secreto em plenário simplesmente retira do eleitor os meios de fiscalizar o comportamento daqueles a quem delegou sua voz e poder sufragante. É até possível que, num passado remoto, houvesse justificativas para tal sigilo, mas elas perderam inteiramente sua razão de ser.Nos últimos tempos, são o corporativismo e a traição aos anseios populares que têm caracterizado o instituto do voto secreto. Prova-o o "saldo" dos últimos grandes escândalos. Dos 19 deputados acusados de participar do mensalão -o esquema criminoso de compra de apoio parlamentar gerido pelo publicitário Marcos Valério de Souza, sob a coordenação da cúpula do Partido dos Trabalhadores-, 12 foram inocentados em plenário, quatro renunciaram antes da abertura do processo para escapar à punição e apenas três foram cassados.Sorte não muito diferente tiveram os 69 deputados e três senadores envolvidos com a máfia dos sanguessugas, que desviou recursos do Ministério da Saúde para a compra fraudulenta de ambulâncias. Os três membros da Câmara Alta foram absolvidos -em votação aberta no Conselho, registre-se-, dois deputados renunciaram, e os 67 restantes terminaram seus mandatos sem ser incomodados pelos processos. Os poucos que conseguiram reeleger-se tiveram seus processos suspensos pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.O remédio para restaurar um mínimo de moralidade no Congresso é simplíssimo: acabar com o voto secreto em plenário. Proposta de emenda constitucional (PEC) nesse sentido já foi até aprovada em primeiro turno na Câmara. O incrível placar pelo qual o projeto foi aprovado, de 383 a zero em votação aberta, configura mais uma demonstração de que parlamentares precisam ser submetidos a pressão para atuar de acordo com o interesse público.Só que, contrariando a praxe da Casa, a PEC não foi encaminhada para a segunda votação, que costuma ser meramente protocolar e ocorrer poucas semanas depois do primeiro escrutínio. Isso já faz um ano. Prevalece aqui o instinto de sobrevivência de muitos deputados e senadores. Apenas mediante pressão da sociedade poderá ser superada essa distorção que favorece a impunidade, ao cobrir com um manto de segredo atos de natureza pública.

postura útil para o vestibular

Liberais e conservadores têm cérebros diferentes

O modo de agir de uma pessoa liberal e de alguém conservador não depende apenas das convicções em relação à vida. O comportamento diferente ocorre porque seus neurônios reagem de modo distinto diante de uma decisão difícil.Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista "Nature Neuroscience". O trabalho, feito por pesquisadores da Universidade de Nova York, sugere que os liberais são mais propensos que os conservadores a reagir diante de pistas que sinalizam a necessidade de mudar uma reposta habitual.A análise dos cientistas levou em conta ações do dia-a-dia e não posturas políticas. A idéia era testar se as decisões mais maleáveis e tolerantes dos sujeitos que se autodeclaram liberais e os julgamentos mais persistentes dos ditos conservadores têm eco no cérebro.Segundo a equipe, liderada por David Amodio, do Centro de Ciência Neuronal da universidade, as diferenças na hora de tomar decisões estão relacionadas a um processo conhecido como monitoramento de conflito -um mecanismo que detecta quando uma resposta padrão não é apropriada para uma nova situação.Caminho de casaPara descobrir como isso ocorre os pesquisadores trabalharam com um grupo de 43 voluntários que responderam a uma série de questões enquanto tinham seu cérebro monitorado por eletroencefalogramas.Uma das perguntas era sobre o caminho feito do trabalho para casa. "As pessoas costumam voltar pelo mesmo caminho, todos os dias, até que isso se torne um hábito e não seja preciso pensar muito sobre ele", explicou Amodio. "Mas, ocasionalmente, a rua está em obras, e temos que romper com uma resposta habitual para processarmos a nova informação."Com o eletroencefalograma, foi possível medir as diferenças neuronais da nova realidade. Nas pessoas classificadas como liberais, a atividade cerebral foi significativamente maior na área do cérebro conhecida como córtex cingulado anterior -que está ligado ao processo de auto-regulação do controle de conflitos- quando a situação hipotética pedia uma mudança na rotina. Os conservadores foram menos flexíveis e se negavam a mudar velhos hábitos.O controle de conflitos provavelmente tem origem na herança genética, mas as orientações liberais ou conservadoras são determinadas principalmente pelo ambiente que cerca o indivíduo, explica Amodio.

sábado, 8 de setembro de 2007

editorial - sábado no Estadão

A epidemia de dengue

O alarmante aumento do número dos casos de dengue - 45% nos primeiros sete meses de 2007, com relação ao mesmo período no ano passado - é conseqüência da inépcia administrativa do governo federal e de governos estaduais. O problema já havia sido detectado em fevereiro, quando um levantamento realizado em todo o País identificou as principais áreas de risco onde se reproduz o mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. No entanto, a equipe econômica não liberou em tempo as verbas do Programa de Vigilância e Prevenção da Malária e da Dengue para o combate ao vetor da doença. Dos R$ 64,2 milhões previstos para este ano, até agora, transcorridos mais de oito meses, foram liberados somente R$ 18,2 milhões. Com isso, o Ministério da Saúde ficou sem recursos para promover ações de vigilância, patrocinar campanhas educativas e financiar as medidas de combate à doença que são executadas pelos Estados e municípios. A região mais prejudicada foi o Sudeste. Entre os Estados mais atingidos pelo aumento dos casos de dengue estão, pela ordem, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Paraná. Até São Paulo registrou um número recorde de ocorrências, com 62,2 mil pessoas infectadas entre janeiro e agosto. O recorde anterior ocorreu em 2001, quando houve 51,7 mil casos de dengue nos oito primeiros meses do ano. Segundo o chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Medronho, por falta de verbas as inspeções de responsabilidade das prefeituras fluminenses nos lugares mais propícios à reprodução do mosquito da dengue, como ferros-velhos, cemitérios e terrenos baldios, não puderam ser realizadas com a regularidade recomendada pelos manuais da Organização Pan-Americana da Saúde e do Ministério da Saúde. “Os agentes são contratados de forma precária, sem estabilidade no emprego, e trabalham em péssimas condições”, disse ele. Além do atraso no repasse das verbas, os epidemiologistas lembram que a campanha de prevenção da dengue durante os Jogos Pan-Americanos, no Rio, divulgou muito mais o evento do que os riscos e a profilaxia da doença. Um dos críticos dessa inversão de objetivos é o diretor do Sindicato dos Médicos do Rio, Eraldo Bulhões. Para ele, a publicidade do Ministério da Saúde é “equivocada” e se limita a dizer que as pessoas não podem deixar água em pneus e garrafas. Em sua defesa, os dirigentes do Ministério da Saúde invocaram a dificuldade da população de mudar de hábitos. Como exemplo, apontaram outras doenças, como aids e câncer de pele, em que as pessoas demoraram para incorporar o uso de preservativos nas relações sexuais e de filtro solar. “Com a dengue não é diferente. A população sabe como evitar o mosquito, mas 55% reconhecem que seu vizinho não adota as medidas necessárias”, afirma o chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde, Gerson Pena. Era inevitável, portanto, que essa simbiose entre falta de foco nas campanhas educativas, inépcia administrativa e incapacidade de articular as ações municipais e estaduais, do governo federal, resultasse no agravamento do problema da dengue. Até o mês de agosto, foram contabilizadas 98 mortes ocasionadas pela doença. No mesmo período, em 2006, foram registrados 77 óbitos. “Todas essas mortes poderiam ter sido evitadas”, admite Pena. Até julho, o órgão havia confirmado 438.949 casos de pessoas infectadas. Em 2002, o pior ano da doença no País, foram registrados 794 mil casos em 12 meses. Como as ocorrências de dengue estão ligadas ao clima e as ações educativas e preventivas precisam ser iniciadas seis meses antes do período de chuva, as próprias autoridades federais reconhecem que há risco de o problema se agravar com o fim do inverno e o início da primavera. Além disso, como as épocas de chuva não são as mesmas no Norte e no Sudeste, há necessidade de campanhas regionais, o que exige descortino na gestão dos recursos disponíveis.O recrudescimento da epidemia de dengue é um problema que poderia ter sido evitado com maior eficiência gerencial do poder público.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

crônica - Cony

Lady Di: cúmplice e vítima

ENTRE AS coisas inúteis que fiz, a mais cansativa foi a de me apertar num poleiro da catedral de São Paulo, em 1981, para assistir ao casamento do príncipe de Gales com uma professorinha que estava sendo vendida como plebéia, chamada Diana.Tarefa profissional apenas, que me obrigou a cumprir o complicado calvário entre embaixadas e agências de notícias para descolar a credencial que dava, ao fotógrafo Antônio Rudge e a mim, o direito que estava sendo disputado -segundo me disseram- por mais de 10 mil jornalistas de todo o mundo.Na época, escrevi umas cinco ou seis matérias para as finadas "Manchete" e "Fatos&Fotos", dando conta do pouco que vi e do muito que procurei adivinhar naquela cerimônia que foi considerada "o casamento do século". Três detalhes me impressionaram. Primeiro: o pai da noiva, Lord Spencer, adentrou a bela catedral de Cristóvão Wren cambaleante, não era ele que apoiava a filha mas a filha que o apoiava, para que não desabasse antes de chegar ao altar. Devia ter exagerado no gim -bebida a que era chegado, só perdendo a "pole position" para a rainha-mãe, avó do noivo, também chegada ao gim sem tônica. Por duas ou três vezes, mesmo amparado pela noiva, ele ameaçou se despencar nos bancos cheios de convidados da nobreza mundial.Segundo: o príncipe Charles estava simples e belamente apavorado, com medo de cometer alguma gafe. Não olhava para ninguém, somente para a mãe, a rainha Elizabeth 2ª, que o esperava no altar com cara e postura da professora de boas maneiras rastreando a performance de seu aluno mais caro. Até mesmo na hora do "sim", antes de pronunciá-lo, ele olhou para a mãe. Deviam ter ensaiado um código: um piscar de olhos ou uma cabeça baixa consagraria um casamento ou um escândalo.Terceiro: a própria noiva em si. Apesar da pompa e circunstância, aos compassos da marcha homônima de Elgar, era toda modéstia e pasmo, a Cinderela que encontrara o encantamento de um príncipe de carne e osso, herdeiro de um trono de verdade.Tudo era festa então, dentro e fora da catedral. Mais tarde, os dois apareceram na sacada do palácio real, o povo delirava, não pedia bis como nas óperas, mas o beijo tradicional e obrigatório de dois noivos que afinal estavam casados. E o beijo não vinha. Eu precisava daquele beijo para a capa do número especial das revistas para as quais trabalhava, Rudge entrava em desespero, a sua lente mais poderosa assestada para o casal. E nada de beijo.Os dois se retiraram da sacada, mas a gritaria do povo aumentou, tiveram de voltar. Afinal, o beijo rápido, protocolar, a nobreza obriga e o povo ficou satisfeito, começou a cantar, que Deus salvasse a rainha -não a rainha que estava lá dentro, de cara amarrada, mas a futura rainha, toda branca, parecia feita de espuma e neve.Semana passada, houve um entupimento nos canais da televisão com filmes, documentários e programas celebrando os dez anos da morte da moça que, ao contrário da Inês cantada por Camões, nem depois de morta foi rainha. Parcela considerável da opinião pública considera que a mídia a matou, pagando fortunas aos paparazzi por fotos consideradas quentes e capazes de aumentar as vendas. Do bravo Antônio Rudge, que esperou um tempão para ter a foto dela beijando o marido, logo após o casamento, aos fotógrafos que a perseguiram pelas ruas de Paris naquele 31 de agosto de 1997, Lady Di foi mais cúmplice do que vítima da sociedade que quer saber "tudo" e de alguma forma paga para ser informada.Um dos documentários exibidos na TV mostra Diana e seu mais recente namorado, no iate do pai de Dodi, naquele que seria o último passeio dos dois. De repente, o rapaz repara que estão sendo seguidos por uma lancha cheia de fotógrafos. Reclama de seus seguranças, responsáveis por sua privacidade: "Como foi que eles souberam do nosso passeio?". Moça honesta, Diana respondeu: "Fui eu que avisei".Dois dias depois, no hotel Ritz, em Paris, ela e o namorado quiseram jantar fora. Tudo indicava que ele a pediria em casamento. Desta vez, não foi ela que avisou: os fotógrafos estavam lá, adivinhando que alguma coisa podia acontecer. A foto de Dodi colocando o anel de noivado no dedo de Diana valeria alguns milhões de dólares. Bem informada, a sociedade pagaria.

complementando a notícia - sensacionalismo

Justiça proíbe Record de exibir imagem "íntima" de promotor

O promotor Thales Schoedl, que responde a processo por matar um jovem a tiros e balear outro em um luau em Bertioga (SP), em 2004, conseguiu liminar para proibir a Rede Record de exibir imagens de sua "vida íntima e privada".Segundo a decisão judicial, a emissora tem de pagar R$ 10 mil a cada dia em que veicular imagens de Schoedl feitas com câmera escondida. Nas cenas, ele aparece em um restaurante e em uma academia de ginástica.Em outra liminar, a Justiça proibiu a emissora de usar imagens de Mariana Ozores Bartoletti, namorada do promotor na época. A emissora afirma que vai recorrer da decisão.

crônica - Nelson Motta

Perdas e danos

José Dirceu é mesmo uma lenda viva, um herói e um grande líder com inestimáveis serviços prestados. Mas ao PT, não ao Brasil ou à democracia, como proclama, contra as evidências da história.Para o Brasil e a democracia, desde o movimento estudantil, Dirceu foi um desastre. Perdeu todas. Foi um dos líderes da "estratégia" de fazer um "congresso secreto" da UNE, em 68, com mais de 400 delegados, nas barbas do governo militar: foram todos presos, e o movimento estudantil foi destruído.Em 1970, se exilou em Cuba, onde, depois de breve treinamento militar, virou o "comandante Daniel". Voltou ao Brasil entre 71 e 72 para participar fugazmente da luta armada, mas não há registros de ações que tivesse comandado. Fugiu para Cuba, fez uma plástica e voltou em 74, como um pacato vendedor de roupas. O resto é história.E trágicas ilusões -como a luta armada, que levou muitos jovens idealistas, românticos e corajosos à prisão, à tortura e à morte, pela pátria e pela liberdade. Mas Dirceu queria fazer do Brasil uma grande Cuba. O respeito à dor das famílias e ao sacrifício de seus filhos não impediu que muitos heróis de verdade reconhecessem o erro, que exacerbou a repressão. Dirceu perdeu essa também.Como deputado, fez implacável e destrutiva campanha contra o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e todas as tentativas de modernização do país. Por ele, ainda estaríamos com nossa moeda podre, com os telefones da Telerj e internet estatal. Perdeu.Dirceu só foi vitorioso -e como!- na construção de um PT poderoso e eficiente. Usando o carisma e a vaidade de Lula como carro-chefe, afinal chegou ao poder, mas tentou mantê-lo para sempre. Errou feio e perdeu de novo: o Brasil e a democracia ganharam.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Bom Feriado

Um pombinho entre corujas

UMA DAS peculiaridades da história brasileira é que o Sete de Setembro comemore um príncipe português que não queria voltar para casa, foi parar no Ipiranga devido a um surto de diarréia, declarou que "ficaria" no Brasil e, é claro, no final não foi isso que fez. Mas ele pelo menos era bonito. Quanto a isso, a sabedoria popular brasileira está certa, e os historiadores hoje envolvidos em esforços de reabilitação de dom João 6º e de sua consorte deficiente no quesito beleza, a infanta Carlota Joaquina, estão definitivamente errados. Não é preciso especular a respeito. Contamos com uma testemunha ocular na pessoa de Laure Permon Junot, uma beldade vivaz, descendente de uma família corsa e amiga de infância de outro famoso filho da Córsega, o imperador Napoleão Bonaparte. Laure Permon era casada com o general Andoche Junot, que se tornou embaixador da França em Portugal. Junot mais tarde comandou o exército francês que invadiu Portugal em 1807, o evento que forçou a família real portuguesa a cruzar o Atlântico em direção ao Brasil, dando início ao processo que culminaria no Sete de Setembro. Junot era um dos mais valentes comandantes dos exércitos de Napoleão. Quando de seu casamento com Laure Permon, Napoleão deu ao casal 100 mil francos, e mais 100 mil francos quando nasceu a primeira filha deles. Junot apresentou suas credenciais à corte portuguesa vestido no esplendoroso uniforme de comandante dos Hussardos, que havia sido criado especialmente para que ele usasse na cerimônia de coroação de Napoleão. Junot não teve impressão favorável sobre a família real portuguesa. "Mon Dieu", ele exclamou a Laure quando voltou para casa. "Como o príncipe (dom João) é feio! Mon Dieu! Como é feia a princesa (Carlota Joaquina)! Mon Dieu! Como eles todos são feios! Não há um rosto atraente em toda a família, a não ser o do príncipe real (Dom Pedro)... Ele é um jovem bem apessoado, e parece um pombinho em meio a uma ninhada de corujas". Um dia depois de sua apresentação à corte, o embaixador francês recebeu uma mensagem em sua residência, indagando se Junot "poderia amavelmente emprestar seu uniforme de hussardo para servir de molde ao alfaiate de sua alteza". Dom Pedro queria uma cópia. Com base nisso, o relativismo da nota divulgada na semana passada pelo Alto Comando do Exército brasileiro, afirmando que a história "tem diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas", está parcialmente correto. Como no caso do amor de dom Pedro pelos uniformes, muita coisa depende do ponto de vista.
KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

editorial de quinta - Folha

Cerco à impunidade

AMPLIAR as formas de punir quem dirige embriagado é uma medida necessária contra o coquetel assassino, consumido em excesso no Brasil, composto por álcool e volante. Por isso, representa um avanço o recém-iniciado treinamento de policiais militares para identificar motoristas que beberam além do permitido.Médicos do Hospital das Clínicas de São Paulo vão treinar PMs na identificação mais exata dos sinais clínicos de intoxicação alcoólica. A técnica pode ajudar no caso de condutores que se recusarem a fazer o teste do bafômetro -lei federal de 2006 permite autuações com base em indícios de embriaguez, desde que na presença de duas testemunhas. Olhos vermelhos, soluços ou sonolência, dificuldade de entender fatos, perda da noção de tempo e falta de coordenação são alguns sinais que os policiais terão de buscar nos suspeitos.Estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com base em laudos do Instituto Médico Legal, dá a dimensão de quão letal é essa cultura de dirigir alcoolizado: 56,6% dos motoristas que morreram em acidentes de trânsito na capital paulista em 2005 estavam nessas condições. A concentração alcoólica no sangue desses condutores foi, em média, de 1,7 g/l -a legislação tolera até 0,69 g/l, o equivalente a duas latas de cerveja de 350 ml. No país, o Ministério da Saúde avalia que metade das mortes no trânsito estão ligadas ao abuso de álcool.Especialistas em medicina e em tráfego concordam que há um sentimento de impunidade disseminado entre motoristas brasileiros. Como quase ninguém é punido por beber e dirigir, dá-se a tal comportamento um reforço positivo. Com o treinamento do HC, a polícia terá uma ferramenta a mais para agir de forma efetiva e apertar o cerco contra os condutores imprudentes que colocam vidas em risco.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

editorial de quarta - Estadão

O sucesso do 'Inclusp'

Concebido como uma alternativa ao polêmico sistema de cotas, que hoje é adotado em 16 universidades federais e deverá ser implantado nas demais 41 instituições de ensino superior mantidas pela União - como o ministro da Educação acaba de anunciar -, o programa de inclusão da Universidade de São Paulo (USP) foi lançado no ano passado, começou a funcionar no começo deste ano e já está apresentando resultados surpreendentes, como afirma a pró-reitora de graduação, Selma Garrido Pimenta. Em vez de reservar uma parte das vagas disputadas nos exames vestibulares a estudantes negros e pobres, o “Inclusp” atribui pontos adicionais na nota para os vestibulandos oriundos de escolas públicas, sem distinção de renda ou de cor. Inspirada em experiência semelhante posta em prática pela Unicamp, essa medida tem por objetivo promover inclusão social sem reservar vagas, o que ajuda a preservar o princípio do mérito nos vestibulares. Graças a ela, a USP registrou um aumento de 9,5% no número de estudantes negros matriculados em seus cursos, entre 2006 e 2007. No ano passado, 1.227 candidatos negros foram aprovados no vestibular. Este ano, foram 1.344 - 117 a mais. Os alunos negros hoje constituem 13,4% do corpo discente da instituição. Em 2001, eles constituíam apenas 9,64%. É um avanço significativo em pouco tempo.A experiência da USP mostra que ações afirmativas concebidas para ajudar estudantes oriundos da rede pública do ensino básico acabam beneficiando indiretamente jovens negros e pobres sem levar à formação de quistos raciais integrados por alunos em geral pouco preparados - um problema detectado em algumas universidades públicas que já adotaram o sistema de cotas. Introduzido nas universidades federais e em algumas universidades estaduais com o objetivo de democratizar o acesso ao ensino superior, acabar com a desigualdade racial e combater a exclusão social, o sistema de cotas nunca foi aceito pacificamente. Vários vestibulandos brancos com média superior à dos universitários beneficiados pelo sistema de cotas, por exemplo, costumam recorrer à Justiça e obtêm liminares que os autorizam a assistir às aulas. O convívio entre eles e os colegas “cotistas” nem sempre é fácil.Como nas universidades públicas que adotam cotas os vestibulandos têm a prerrogativa de definir sua cor, em algumas instituições o sistema também acabou estimulando o oportunismo, com vários estudantes brancos declarando-se negros para serem beneficiados nos vestibulares. Em outras instituições, as cotas acarretaram uma espécie de racismo às avessas, com alunos negros discriminando colegas brancos. E, na Universidade de Brasília (UnB), que utiliza a cor para selecionar os “candidatos cotistas” sem levar em conta sua origem socioeconômica, dois irmãos gêmeos univitelinos, filhos de pai negro e mãe branca, receberam tratamento diferenciado. Um foi aceito como cotista e o outro, não. Outro inconveniente das cotas é que elas tendem a provocar um aumento dos custos das universidades, uma vez que muitos alunos beneficiados por esse sistema de seleção precisam de aulas extras e disciplinas de reforço para acompanhar os cursos. No modelo adotado pela USP, que concede um bônus de 3% nas notas aos alunos oriundos da rede pública de ensino básico, os candidatos aprovados no vestibular tendem a ter uma formação escolar mais homogênea, o que permite que os estudantes tenham aula na mesma sala e que sejam submetidos à mesma carga de trabalho, independentemente de sua origem social e de sua cor.A imposição de cotas raciais no acesso ao ensino superior é uma iniciativa política generosa na aparência, mas que, por comprometer o princípio do mérito acadêmico, tumultua o funcionamento das universidades. A USP compreendeu isso e, mesmo sob veementes críticas de movimentos sociais, não se deixou seduzir por essa política. Por meio do “Inclusp”, a maior universidade brasileira está mostrando que é possível adotar programas de inclusão social eficientes, sem fazer concessões demagógicas e sem comprometer a qualidade do ensino.
Reforma ortográfica deve ser adiada, diz ministro da Educação

A reforma ortográfica que estava prevista para entrar em vigor em janeiro de 2008 possivelmente será adiada, afirmou o ministro de Educação, Fernando Haddad, ontem durante entrega de medalhas a personalidades da indústria escolhidas pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro)."O Itamaraty está fazendo um acompanhamento do país depositário dos acordos, que é Portugal. É evidente que o nosso interesse neste momento é manter relações com Portugal no sentido de andarmos juntos. Provavelmente a reforma não sairá em janeiro, a menos que o chanceler Celso Amorim tenha informações que eu ainda não disponho", disse Haddad. "A idéia é conversar com Portugal até o final do ano para estabelecer a data", completou o ministro da Educação.O Brasil se prepara para a mudança que, além de acabar com o trema, modifica o uso dos acentos agudo e circunflexo, extinguindo o sinal em palavras como vôo, lêem, heróico e outros.A nova norma ortográfica também altera as regras do hífen e incorpora ao alfabeto as letras k, w e y, somando, no total, 26 letras.As alterações foram discutidas entre os oito países que usam a língua portuguesa -uma população estimada em 230 milhões- e têm como objetivo aproximar as culturas.O Ministério da Educação prepara a próxima licitação dos livros didáticos, que deve ocorrer em dezembro deste ano, pedindo a mudança na ortografia.Segundo especialistas é necessário um período de dois anos para a sociedade se acostumar as mudanças.

crônica - Ruy Castro

Vida virtual

Pesquisa divulgada há pouco revelou que, no mês de julho, o internauta brasileiro passou 23 horas e 30 minutos navegando na internet. Essa marca é uma hora e três minutos maior que a de junho, que, por sua vez, era quase uma hora maior que a de maio, e assim por diante. Ou seja, de 30 em 30 dias, o brasileiro fica mais tempo ligado à rede.Significa também que, a cada 30 dias, o brasileiro já está passando quase um dia inteiro com os olhos na telinha, os dedos no mouse ou no teclado, as pernas criando varizes, a coluna indo para o beleléu e o cérebro mais na virtual que na real.Apenas por comparação, as 23 horas e 30 minutos mensais do brasileiro deixam longe as 19 horas e 52 minutos do americano, as 18 horas e 41 minutos do japonês e as 18 horas e sete minutos do alemão. Das duas, uma: ou os americanos, japoneses e alemães têm mais o que fazer, ou nossa apaixonada adesão à internet fará com que, em pouco tempo, os superemos em tecnologia, pesquisa, jornalismo, download e compras, que compõem a internet para adultos. E aí, sim, vamos ver quem tem mais garrafa vazia para vender.Enquanto esse dia não chega, já podemos pelo menos observar algumas conquistas da internet entre nós. Segundo outra pesquisa, por causa da internet o jovem brasileiro tem deixado de praticar esportes, dormir, ler livros, sair com os amigos, ir ao cinema ou ao teatro e estudar. E, com certeza, está deixando também de praticar outros itens não contemplados pela pesquisa, como namorar, ir à praia ou ao futebol, visitar a avó, conversar fiado ao telefone e flanar pelas ruas chutando tampinhas.Admito que muitas dessas atividades possam ser substituídas com vantagem pelas horas que o brasileiro passa na internet. Mas flanar chutando tampinhas, não.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

editorial de terça - Estadão

Contrabando infesta São Paulo

Talvez pareça exagerado o alerta do funcionário da Receita Federal Mauro de Brito de que São Paulo “está virando um grande Paraguai”, tal o volume de produtos contrabandeados vendidos no Estado. Mas Brito tem autoridade para falar da maneira como falou, em audiência pública na Câmara dos Deputados. Ele é o chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Pirataria da Receita.Apesar da ação enérgica das autoridades federais, estaduais e municipais contra o comércio de produtos contrabandeados ou falsificados em São Paulo, esses produtos continuam a ser vendidos livremente.É difícil calcular o valor desse comércio no País. As indústrias mais prejudicadas pelo contrabando, pela falsificação e pela entrada no mercado brasileiro de produtos com preços subfaturados - o que é conhecido como “importabando” - estimam em US$ 1,5 bilhão o comércio ilegal na fronteira do Brasil com o Paraguai. Calcula-se que metade das câmeras digitais e 70% dos aparelhos de MP3 comercializados no País não entraram de maneira legal.Igualmente difícil é comprovar a prática do subfaturamento, utilizada para reduzir a tributação. Os fiscais da Receita, como mostrou reportagem do Estado publicada na sexta-feira, já encontraram casos de ternos com valor declarado de US$ 2,00. Fabricantes de calçados de Franca dizem ter conhecimento de sapatos que entram no Brasil pelo valor declarado de US$ 0,0018.Desde 2005, quando a Receita Federal criou divisões de repressão ao contrabando nas dez áreas em que dividiu o País, tem crescido muito a apreensão de produtos que entram ilegalmente no Brasil. Em agosto do ano passado, foi inaugurada em Foz do Iguaçu a nova aduana, agora com condições para vistoriar as 50 mil pessoas, os 15 mil veículos e as 10 mil motos que passam diariamente pelo local, vindos de Ciudad del Este, no Paraguai. Lá trabalham 270 funcionários da Receita. Os agentes são treinados para identificar falsificações, principalmente de produtos têxteis, brinquedos e eletroeletrônicos.Em depoimento que prestou à Câmara há duas semanas, o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, disse que, no primeiro semestre deste ano, as apreensões de mercadorias irregulares, sobretudo em Foz do Iguaçu, totalizaram R$ 513 milhões, 36% mais do que na primeira metade de 2006. Os principais produtos apreendidos foram cigarros, eletroeletrônicos e equipamentos de informática.No caso de têxteis, a Receita barrou, no ano passado, a entrada de R$ 50 milhões de produtos irregulares. No primeiro semestre de 2007, o total barrado chegou a R$ 30 milhões. As informações fornecidas pelos fabricantes nacionais e o melhor preparo dos agentes da Receita são dois fatores que têm contribuído para tornar mais eficiente o combate ao contrabando.O contrabando, o “importabando” e a falsificação são altamente nocivos para o País, pois reduzem de maneira desleal as condições de competição das empresas legalmente constituídas, o que leva à fuga de investimentos e ao fechamento de postos de trabalho. Por isso é preciso combater essas práticas. Mas para intensificar o combate não é necessária a criação, sugerida por Mauro Brito, de um fundo específico. A Receita dispõe de recursos financeiros e materiais de que necessita, especialmente na fronteira com o Paraguai, e a criação do fundo engessaria ainda mais o Orçamento da União.O governo combateria mais eficazmente o contrabando se reduzisse a tributação sobre os bens preferidos pelos contrabandistas. A redução da taxação sobre computadores, por exemplo, reduziu a vantagem de comprar o produto ilegal, cujo mercado encolheu de 70% para 30% das vendas.Mas nessa questão o governo parece sem rumo. Deu mais força e recursos à Receita, mas com a medida provisória (MP) que legaliza a atividade dos “sacoleiros” nega o que tem feito para combater o contrabando. A MP facilita a entrada no País de produtos chineses através do Paraguai. Isso não ajuda a economia paraguaia - ajuda um grupo de comerciantes daquele país - e prejudica a indústria nacional.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

editorial de segunda - Folha

O erro dos procuradores

EQUÍVOCO lamentável cometeu o Ministério Público de São Paulo na semana passada ao decidir pela vitaliciedade no cargo do promotor Thales Ferri Schoedl, que confessou ter matado um homem em 2004. À época, o promotor alegou ter agido em legítima defesa, pois ele e sua namorada teriam sido provocados e ameaçados em um luau em Bertioga, litoral norte do Estado. Desde então, aguarda julgamento em liberdade -até lá, pela Constituição, não pode ser considerado culpado.A votação favorável a Schoedl ocorreu na última quarta-feira, quando o promotor passou pela avaliação obrigatória do final de seus dois primeiros anos no cargo. Concluído esse estágio, o Órgão Especial do Colégio de Procuradores tem de analisar se o jovem promotor possui capacitação profissional e condições psicológicas para ser mantido na função e ganhar estabilidade.Por 16 votos a 15, o órgão concluiu que Schoedl cumpre os requisitos que seu cargo exige, que pressupõe capacidade de tomar decisões em momentos difíceis, prudência e serenidade. A morte em Bertioga sugere o contrário, que falta equilíbrio emocional ao promotor -ele foi armado a uma festa na praia e, ao envolver-se em uma situação de conflito, disparou seu revólver 12 vezes.Além de garantir a manutenção do promotor no cargo, o erro administrativo do Ministério Público alterou o foro do julgamento de Schoedl, cujo destino não será mais definido por um júri popular e sim pelo Tribunal de Justiça.É provável que a família da vítima recorra da decisão no Conselho Nacional do Ministério Público. Caberá ao CNMP reverter a decisão do Colégio de Procuradores a fim de minimizar o dano causado à imagem da instituição.