segunda-feira, 26 de novembro de 2007

opinião - Estadão

Por que educação é a tragédia nacional

“Com um ensino primário rudimentaríssimo e um ensino secundário positivamente falho, nada possuímos que, de longe, se assemelhe a um centro de cultura superior. Como conseqüência inevitável, aí está o espetáculo profundamente contristador, que oferecemos, de um país que caminha às tontas, sem norte, ao sabor do primeiro semi-analfabeto que se aposse do governo supremo da República e a exaurir-se em intermináveis disputas puramente verbais, nos congressos, na imprensa, nas escolas, nas reuniões públicas ou particulares. É a anarquia mental a imperar infrene, de norte a sul do Brasil, e a favorecer tanto a demagogia dos agitadores profissionais como as ousadias dos dominadores do momento.”Não, caro leitor, o texto acima não foi escrito recentemente, apesar de sua impressionante (e profética) atualidade. Foi escrito há 82 anos, em 1925, e está no livro A Crise Nacional (pág. 85), de autoria do jornalista e educador Julio de Mesquita Filho. Nos últimos tempos não tem havido governo que deixe de estabelecer a educação como sua “meta prioritária”. Mas a qualidade da educação brasileira, segundo todos os índices e pesquisas nacionais ou internacionais que se utilizem para a avaliar, é cada vez mais vergonhosa, constituindo, sem sombra de dúvida, a maior das tragédias nacionais. E nem seria preciso o uso de pesquisas para comprovar o que é cada vez mais visível a olho nu, no convívio de dia-a-dia com profissionais de várias categorias e prestadores de diversos serviços: o analfabetismo funcional crônico da imensa maioria da população brasileira, incapaz de entender uma informação ou um raciocínio contidos num texto, mesmo que já tenha aprendido a soletrá-lo.As alardeadas “prioridades” governamentais conferidas à educação se esgotam nos demagógicos discursos políticos, jamais se concretizando em ações reais, consistentes, transformadoras, que façam reverter a disparidade colossal entre o que aprendem os jovens no Brasil e o que aprendem os jovens nos outros países, especialmente os desenvolvidos. Por outro lado, as discussões que se travam nessa área se esgotam na repetição de clichês, falácias e mitos. O economista e pesquisador Gustavo Ioschpe, especializado em educação, já apontou (e desmontou) quatro mitos que impedem a melhoria de nossa qualidade de ensino: o de que o salário do professor brasileiro é baixo, o de que (em conseqüência) a educação no Brasil só será melhor quando os professores ganharem mais, o da falta de investimento em educação e o da excelência do ensino nas escolas particulares (de primeiro e segundo graus). Ele chegou a conclusões contrárias a tais “enunciados”, baseando-se em dados do MEC e de entidades internacionais, como Unesco e OCDE (entidade de europeus e norte-americanos). E concluiu que a má educação no Brasil tem por causas principais a má formação do professor e a má gestão dos recursos alocados para o setor.Mas existe um outro mito, que é o do “professor coitadinho”. Houve tempo em que até se via nos carros o adesivo com a frase “hei de vencer, apesar de ser professor”. Os jovens repórteres que vão cobrir problemas nas escolas - como greves, ocupações, tumultos ou bagunças - costumam começar suas indagações com a questão da má remuneração dos professores, o que não deixa de ser uma falácia. Há algo muito mais vergonhoso de que pouco se trata: o absenteísmo docente nas escolas públicas. Tome-se o exemplo da rede estadual de ensino em São Paulo, composta de 240 mil professores. Em 2006 o índice de falta desses professores foi de 12,8%. A média de ausência por professor foi de 32 dias, sem contar o direito de férias e o recesso escolar, que totalizam 45 dias. O governo calcula o prejuízo total de R$ 340 milhões por ano, gastos em aulas não oferecidas (mas pagas) e contratação eventual de professores substitutos. Vejamos agora: um ano letivo tem 210 dias. Um hipotético professor, com faltas abonadas (permitidas sem justificativa), com moléstia “transmissível” (gripe?), transmitida à família, e mais outras justificativas (até razoáveis) para faltar, munido de atestados médicos, no limite, pode comparecer à escola só 27 dias no ano, sem prejuízo de salário! Mas ele jamais faltará às aulas que dá em escola privada, para “complemento de salário”, porque, se o fizer, de lá será demitido.Quanto à má gestão dos recursos alocados para a educação, a Rede Globo fez recentemente uma arrasadora reportagem mostrando os muitos milhões que vão para os pequenos municípios, como verbas para a educação, e as condições abjetas, nojentas, de grande parte das escolas que as recebem pelo País afora. Parece não haver controle algum do que os prefeitos fazem com o dinheiro federal. Mas justiça se faça: no campo da educação o governo Lula não é tão pior do que os seus antecessores. É só um pouco mais ruim. Os piores de todos foram os governos militares, os responsáveis pelo rebaixamento da qualidade de ensino no País, ao permitirem, entre outras coisas, a proliferação das arapucas argentárias no ensino “superior”, para se livrarem do problema dos “excedentes”. Mas os governos da ditadura pelo menos tiveram a honestidade de nunca declarar a educação como “meta prioritária”. Naquele tempo, o Ministério da Educação era para onde iam os que estavam sobrando na política.O problema é que, em vez de se indignar com a tragédia, que defasa o País do mundo, a sociedade brasileira parece que já se acostumou com ela e é até capaz de curti-la, como comédia! Prova disso é que dá muitas risadas com as listas de imbecilidades escolares que Jô Soares de vez em quando apresenta em seu divertido programa.

Marco Auréilio Nogueira

opinião - gilberto dimenstein

Poesia concreta

A volta aos estudos trouxe-lhe o prazer da poesia e um projeto profissional. Agora, João quer chegar à faculdade

EM 2004, aos 42 anos de idade, João Jesus Santos, que ainda não tinha sequer diploma do ensino fundamental, decidiu voltar para a escola. O que o impulsionou a retomar os estudos foi um único objetivo: conseguir escrever poesias. A súbita decisão ocorreu no Bar do Zé Batidão, no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, quando viu, pela primeira vez, um sarau. "Não conhecia nem mesmo a palavra sarau." O que entusiasmou João Santos foi tomar contato, no Bar do Zé Batidão, com uma tribo paulistana - os poetas da periferia, reunidos sob a sigla Cooperifa, de Cooperativa Cultural da Periferia. "Senti muita emoção ao ver pessoas que conheci na infância declamando com tanto entusiasmo." João tinha interrompido os estudos na sétima série para trabalhar. "Passei a ganhar meu dinheiro. Diversão, para mim, era só barzinho e salão de festa." A poesia levou-o a caminhos inesperados e envolveu toda a sua família.
Cerca de 300 pessoas se reúnem nas noites de quarta-feira no Bar do Zé Batidão, onde João Jesus conheceu os mais diversos personagens encantados pela poesia - uma galeria que vai dos repentistas nordestinos aos rappers, passando por sambistas e pagodeiros. "Somos uma espécie de quilombo cultural", define Sérgio Vaz, um dos idealizadores da Cooperifa. De lá se espalharam saraus em diversos pontos da periferia. Logo João estaria lendo Carlos Drummond de Andrade e, num caderninho, começou a rabiscar poesias. A primeira delas começa assim: "Se eu pudesse contar as estrelas do céu/ Ou medir a imensidão do mar/ Podia dizer com certeza o tempo que irei te amar."
O entusiasmo de João pelas letras atraiu o interesse dos filhos. "Eles ficaram curiosos em ler minhas poesias. De repente, toda a minha família estava influenciada pela poesia." Seu projeto é lançar um livro com suas poesias, todas românticas. Antes do livro, porém, já conseguiu tirar uma obra do papel. Da poesia, nasceu algo concreto. Inspirado na animação do Bar do Zé Batidão, ele criou um centro cultural em M" Boi Mirim, bairro da zona sul de São Paulo, com aulas de violão, música, esporte, artesanato - e, é claro, poesias. Até o final do ano, deve surgir ali um telecentro, afinal eles já conseguiram a doação de dez computadores.
A volta aos estudos trouxe-lhe o prazer da poesia e um projeto profissional. Agora que concluiu, num supletivo, o ensino fundamental, ele quer chegar à faculdade para se dedicar ao direito. E, para isso, buscou inspiração em Castro Alves, um de seus poetas favoritos, ex-aluno do Largo São Francisco. "O que aprendi, de verdade, com a poesia foi a sonhar."
gdimen@uol.com.br

Artigo de opinião

Educação por dinheiro

Um leitor, certa vez, contestou meu costume de repetir à exaustão que considero o ato de educar tarefa bastante árdua. Pediatra, ele disse que esse conceito poderia deixar pais e professores intimidados com sua função educativa e, dessa maneira, inibir ainda mais suas já tímidas atuações. Devo dizer que dialoguei com essa oposição por muito tempo. Será que apontar um trabalho como árduo poderia fazer as pessoas desistirem dele em vez de o tomarem como desafio? Ainda não me convenci de que não é produtivo dizer aos pais e professores que educar é tarefa árdua, pois ela o é. Podemos constatar, entretanto, que os educadores, de um modo geral, não acreditam que os mais novos possam criar um desafio frente a exigências rigorosas. Foi nisso que pensei quando li recentemente uma notícia sobre alunos de uma faculdade paulista que receberam a promessa de um prêmio econômico em troca do comparecimento e de boas notas no Enade. Não fiquei muito espantada com o fato, para falar a verdade. Já faz tempo que tenho conhecimento da oferta de pequenos prêmios a universitários em troca de sua dedicação aos estudos. Uma professora, por exemplo, contou que leva bombom de chocolate para dar aos alunos que fizerem os exercícios propostos em aula; outra tem levado pastilhas aos alunos que ficam com sono e dormem durante a exibição de vídeos da matéria que leciona. Por que a oferta de prêmio em dinheiro seria diferente disso? O fato é que essa prática pode evidenciar que não estamos convencidos de que os mais novos queiram, possam e devam empregar altas doses de esforço e energia a não ser em algo que lhes dê prazer imediato. Não temos convicção de que eles possam descobrir algum prazer no trajeto da empreitada. Não admitimos que eles tenham condição para tanto. Pode ser que a adoção dessa prática nada tenha a ver com crianças e jovens, mas com os próprios educadores. Talvez eles não acreditem na potência do ato educativo, não confiem em sua capacidade de mediar positivamente a relação de quem aprende com a aprendizagem, não se vejam capazes de provocar desafios. De qualquer modo, deixamos de exigir dos mais novos e passamos a querer comprar suas atitudes. Pais e professores fazem o mesmo, com filhos e alunos de todas as idades, não apenas os universitários. Vamos fazer uma breve retrospectiva: pais cujos filhos estão próximos do exame vestibular oferecem prêmios -não raro um carro ou uma viagem ao exterior- para que eles se dediquem aos estudos e entrem numa boa faculdade. Filhos menores sempre podem ganhar um dinheirinho ou um presente para dar conta de obrigações familiares e/ou domésticas, como levar o cachorro para passear ou arrumar a cama. Crianças na primeira infância recebem prêmios por "bom comportamento" etc. Há uma semana falamos sobre atos entre crianças que, no mundo adulto, chamamos de corrupção. Nesse caso, fazem falta a educação e o acompanhamento. Hoje, tratamos de adultos que corrompem os mais novos com ofertas materiais em troca de determinação, dedicação e esforço. Seria falta de quê, neste caso?
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Ex-ministro quer filho de político na rede pública


O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou projeto que impede parlamentares, prefeitos, governadores e presidente da República de matricularem seus filhos em escolas particulares durante a educação básica.Quem tem cargo eletivo seria obrigado a colocar filhos e demais dependentes em escolas públicas a partir de 2014. A punição para quem descumprir a regra não está prevista, mas Cristovam disse que para os parlamentares federais poderia ser considerado quebra de decoro.Ele disse que não estudou nem colocou seus filhos em escolas públicas, mas justificou que na época não era parlamentar.Para o pedetista, com os filhos de políticos na escola pública, haverá melhoria na educação gratuita. Em discussão na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, o projeto recebeu parecer contrário do senador Romeu Tuma (PTB-SP) porque prejudicaria as particulares ao excluir delas "os filhos de mais de 60 mil famílias". Como Tuma não pertence mais a CCJ, o projeto terá novo relator.
A cor da consciência

A consciência negra é comemorada hoje em muitas cidades brasileiras. Seu significado é o de dizer que a raiz do preconceito e da discriminação está na imposição duradoura de uma cultura excludente e intolerante. O anti-racismo tem diferentes respostas para o que deve ser a consciência negra. O fomento da cultura negra pode significar uma polarização política intransigente com a cultura dominante para se colocar em bloco como alternativa a ela. Como pode significar que a disputa é para transformar essa cultura dominante de tal maneira que ela seja obrigada a reconhecer e incluir negras e negros como protagonistas da história brasileira. Os argumentos das duas posições são convincentes. Para combater uma cultura secular de exclusão pode ser que não haja outro caminho senão o confronto em bloco. Como pode ser possível que haja espaço para impor o reconhecimento e a tolerância como critérios fundamentais de uma cultura compartilhada. É uma decisão política estratégica optar por um caminho ou por outro. Em qualquer dos casos, o decisivo é a definição do que significa ser negro no Brasil. E cada posição propõe uma visão diferente do que seja a identidade negra. O importante nessa discussão é que não se parta de definições prévias. Cabe aos próprios agentes desse processo encontrar as suas respostas e a maneira de fazê-las valer na discussão pública e na ação política. Um instrumento importante para isso é o direito. Traduzir a consciência negra em direitos reconhecidos faz das normas jurídicas plataformas para transformações sociais. Mas, se a aprovação de novas leis é um importante começo, fazê-las valer é um processo longo e complexo. Também os tribunais são um espaço de disputa pelo sentido da lei. A aplicação de uma norma não é evidente por si mesma. Como também não são óbvias e previsíveis as interpretações que surgirão do debate público e da disputa política. Por isso mesmo é desejável que as leis atualmente em debate, principalmente o Estatuto da Igualdade Racial, procurem deixar o máximo possível aberta a definição da identidade negra. Quanto mais limitados os parâmetros legais, tanto mais estreitas as opções para as disputas políticas que se iniciam com a aprovação de uma lei. E tanto mais estreito o espaço para que essa identidade seja construída pelos agentes, tanto mais estreito o espaço para interpretações inovadoras e imprevistas. Porque não apenas a consciência negra são muitas. Também o racismo a ser combatido tem sempre muitas e novas caras.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na Folha.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

hoje no Estadão

Tráfico bem-nascido

Engana-se quem pensa que tráfico de drogas é exclusividade dos morros e das favelas. Recentemente, a polícia do Rio de Janeiro prendeu oito jovens de classe média suspeitos de vender ecstasy, LSD, cocaína e maconha. Entre os detidos está o estudante de Psicologia Bruno Pompeu D’Urso, de 18 anos. Ele é apontado pela polícia carioca como chefe da quadrilha. Bruno mora no Edifício Fonte da Saudade, de alto padrão, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Segundo a polícia, era ele que fazia a ligação entre traficantes de morros e vendedores de drogas no ambiente universitário. Os outros suspeitos moram em bairros como Leblon, Humaitá e Copacabana, todos de classe média. Entre eles há universitários e um administrador de empresas.Não é de hoje que jovens de classe média e média alta freqüentam o noticiário policial. Crimes, vandalismo, espancamento de prostitutas, incineração de mendigos, consumo e tráfico de drogas despertam indignação e perplexidade. O novo mapa do crime transita nos bares badalados, vive nos condomínios fechados, estuda em colégios e universidades da moda e desfibra o caráter no pântano de um consumismo sem-fim.A delinqüência bem-nascida mobiliza policiais, psicólogos, pais e inúmeros especialistas. O fenômeno, aparentemente surpreendente, é o reflexo de uma cachoeira de equívocos e de uma montanha de omissões. O novo perfil da delinqüência é o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva e de setores do negócio do entretenimento que se empenham em apagar qualquer vestígio de normas ou valores.Os pais da geração transgressora, em geral, têm grande parte da culpa. Choram os desvios que cresceram no terreno fertilizado pela omissão. É comum que as pessoas se sintam atônitas quando descobrem que um filho consome drogas. Que dirá, então, quando vende. O que não se diz, no entanto, é que muitos lares se transformaram em pensões anônimas e vazias. Há, talvez, encontros casuais, mas não há família. O delito não é apenas o reflexo da falência da autoridade familiar. É, freqüentemente, um grito de revolta. Os adolescentes, disse alguém, necessitam de pais morais, e não de pais materiais.Alguns pais não suportam ser incomodados pelas necessidades dos filhos. Educar dá trabalho. E nem todos estão dispostos a assumir as conseqüências da paternidade. Tentam, então, suprir o vazio afetivo com carros, mesadas e presentes. Erro mortal. A demissão do exercício da paternidade sempre acaba apresentando sua fatura. A omissão da família está se traduzindo no assustador aumento da delinqüência infanto-juvenil e no comprometimento, talvez irreversível, de parcelas significativas da nova geração.Não é difícil imaginar em que ambiente afetivo terão crescido os integrantes do tráfico bem-nascido. Artigos, crônicas e debates tentam explicar o fenômeno. Fala-se de tudo. Menos do óbvio: a brutal crise que machuca a família. É preciso ter a coragem de fazer o diagnóstico. Caso contrário, assistiremos a uma espiral de delinqüência. É só uma questão de tempo.Psiquiatras, inúmeros, tentam encontrar explicações para os desvios comportamentais nos meandros das patologias. Podem ter razão. Mas nem sempre. Independentemente de eventuais problemas psíquicos, a grande doença dos nossos dias tem um nome menos técnico, mas mais cruel: desumanização das relações familiares. A delinqüência, último estágio da fratura social, é, freqüentemente, o epílogo da falência da família.Teorias politicamente corretas no campo da educação, cultivadas em escolas que fizeram a opção preferencial pela permissividade, também estão apresentando um perverso resultado. Uma legião de desajustados e de delinqüentes, crescida à sombra do dogma da tolerância, está mostrando suas garras. Gastou-se muito tempo no combate à vergonha e à culpa, pretendendo que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas. O saldo é toda uma geração desorientada e vazia. A despersonalização da culpa e a certeza da impunidade têm gerado uma onda de infratores e criminosos. A formação do caráter, compatível com o clima de verdadeira liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. É pena que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio: é preciso saber dizer não!Impõe-se um choque de bom senso. O erro, independentemente dos argumentos da psicologia da tolerância, deve ser condenado e punido. Chegou para todos, sobretudo para os que temos uma parcela de responsabilidade na formação da opinião pública, a hora da verdade. É necessário ter a coragem de dar nome aos bois. Caso contrário, a delinqüência enlouquecida será uma trágica rotina. Colheremos, indefesos, o amargo fruto que a nossa omissão ajudou a semear.A irresponsabilidade pragmática de alguns setores do negócio do entretenimento fecha o triângulo da delinqüência bem-nascida. A exaltação do sucesso sem limites éticos, o vale-tudo e a consagração da impunidade, marca registrada de algumas novelas e programas de TV, têm colaborado para o crescimento dos desvios de caráter. Apoiados numa leitura equivocada do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de TV exploram as paixões humanas. Ao subestimar a influência negativa da violência ficcional, levam adolescentes ao delírio em shows e programas que promovem uma sucessão de quadros desumanizadores e humilhantes.Como já escrevi neste espaço opinativo, recuperação da família, educação da vontade, combate à impunidade e entretenimento de qualidade compõem a melhor receita para uma democracia civilizada.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia E-mail: difranco@ceu.org.br

sábado, 17 de novembro de 2007

Respostas da coordenadora de redação da UNICAMP

1. É necessário dar um título à Redação? Não é necessário dar título à Redação, a menos que na proposta seja solicitado explicitamente que o candidato dê um título à Redação.

2. Um texto original e criativo ganha ou perde pontos? As redações não são corrigidas e pontuadas segundo critérios de “originalidade” ou “criatividade”, uma vez que é impossível introduzir tais critérios em uma grande correção, sem prejudicar a atribuição objetiva de pontos aos candidatos. Todavia, aquelas redações que se destacam do ponto de vista da elaboração mais sofisticada levará o candidato a receber o número máximo de pontos nos itens em que sua redação apresentar grandes qualidades. Assim, um texto excelente do ponto de vista do desenvolvimento do tema proposto, receberá necessariamente a pontuação máxima prevista nos itens “adequação ao tema”, “adequação à coletânea” e “coerência”. Um texto excepcional do ponto de vista da elaboração formal, receberá pontuação máxima nos itens “adequação à modalidade” e “coesão”. Um texto excepcional em termos de elaboração formal e de conteúdo receberá nota máxima em todos os itens. Esses textos são, evidentemente, os mais “originais” e “criativos”.

3. Usar gírias ou palavras de uso coloquial consideradas incorretas do ponto de vista gramatical tira muitos pontos? Quantos? O uso de gírias e da linguagem coloquial será avaliado em função do tema escolhido pelo candidato. Essas escolhas podem ser inadequadas, por exemplo, para um texto dissertativo. Já quando utilizadas com propriedade em um texto narrativo, onde podem contribuir, por exemplo, para a caracterização de determinada(s) personagem(ns) podem ser perfeitamente adequadas. Quando utilizadas inadequadamente, as gírias e expressões típicas da linguagem coloquial serão avaliadas segundo critérios estabelecidos na grade de correção, para atribuição de pontos ao item “adequação à modalidade escrita”. Os candidatos não devem tentar sofisticar artificialmente sua linguagem escrita, no entanto, utilizando palavras ou expressões cujo significado não dominem. Quando dizemos que um texto dissertativo deve apresentar uma linguagem escrita formal, nossa expectativa é apenas a de que esse grau de formalidade seja compatível com a linguagem esperada de um bom texto escrito por um jovem que concluiu o ensino médio.

4. É permitido escrever com letra de forma? Sim. O importante, para a Banca de Correção, é que o texto do candidato seja legível

5. É permitido usar corretor líquido ou escrever a lápis? Não, o candidato não pode usar corretor líquido. Quanto a escrever a lápis, é admissível apenas no rascunho. A prova deve ser feita com caneta azul ou preta.

6. Há um número mínimo de linhas ou máximo de linhas?
Espera-se que os candidatos não escrevam menos de 20 linhas nem ultrapassem as 60 linhas. A banca não estimula a prolixidade que em nada contribui para a qualidade dos textos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O encontro das tribos paulistanas

Quem costuma sair à noite para se divertir na capital paulista encontra nas ruas punks, boyzinhos, carecas, hippies e até Hare Krishnas, que parecem surgir do nada. Às vezes, fica até difícil identificar de que tribo é aquela figura diferente que apareceu no meio da balada. “São Paulo tem grupos que só uma cidade com tanta diversidade pode oferecer”, diz José Guilherme Cantor Magnani, professor de Antropologia da Universidade de São Paulo, que reuniu o trabalho de 11 pesquisadores no livro Jovens da Metrópole.Os acadêmicos passaram quatro anos estudando as regiões em que esses jovens mais aparecem. “Eles têm uma atitude criativa em relação à cidade. Ao contrário do que se pensa, o adolescente não fica fechado em guetos. Ele negocia o espaço urbano”, diz Magnani.Segundo ele, a explicação é histórica, o resultado de uma mistura de raças que garantiu tolerância à diversidade. “O jovem paulistano acaba sendo muito criativo na forma com que se relaciona com o espaço público.” Um bom exemplo são os japas do hip-hop, como costumam ser chamados nisseis e sanseis que curtem rap (veja mais na pág. C8). Eles começaram a dar os primeiros passos no vão livre da Estação Conceição do Metrô, mas quando aterrissaram ali, há cinco anos, o pedaço já tinha dono, os b.boys (break boys), garotos da periferia que aprenderam na rua as piruetas e saltos da dança. Logo, os dois grupos passaram a dividir treinos (passos). Inicialmente, os japas tiveram alguns problemas porque foram considerados boyzinhos, por estudarem em colégios da rede particular, não precisarem trabalhar e capricharem no visual. “Parecem que saíram de um videoclipe”, diz o b.boy Renato César, de 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio de um colégio estadual e funcionário-aprendiz de uma rede de supermercados, que treina no vão no fim da tarde. Mas os japas insistiram e aprenderam com os b.boys. E foram além. É o caso de Bruno Kotama, de 19 anos, estudante de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e Rodrigo Obara, de 18 anos, que faz cursinho no Etapa. Eles entraram para o Just, um grupo de 25 dançarinos brasileiros - todos descendentes de japoneses -, que ficou em 5º lugar no campeonato mundial de Los Angeles em 2005. “Não gostamos de ser chamados de b.boys. Somos free stylers (estilo livre).”“A gente não tem muito tempo para treinar. Por isso não melhoramos tanto como os da colônia”, rebate César. “Mas eles dançam diferente, fazem uma coreografia, uns passinhos, nada a ver com o break de verdade.” Na maior parte do tempo, porém, o clima entre os japas e os b.boys é bem amigável. “Às vezes, esquenta. Daí, tentamos resolver as diferenças na dança”, diz César, para se referir ao chamado “desafio”. Nesse momento, é aberta uma roda. No meio, o desafiante faz um passo bem complicado. Seu adversário tem de fazer melhor. E tudo é pacífico? “Nem sempre.”




Punks vegetarianos e japoneses do hip-hop revelam diversidade
Tribos paulistanas fazem duas grandes festas neste fim de semana, o Orion Top Dance e a Verdurada
Neste fim de semana, dois grandes eventos prometem mostrar a diversidade das tribos paulistanas. Um deles acontece hoje, no Jabaquara, zona sul, e deve reunir aproximadamente 600 adolescentes tatuados e furados por piercings, que vibram com bandas punks. Durante os shows, costumam dançar dando socos e pontapés.Mas são punks caretas, os straights edges: não bebem, não fumam e comem alimentos vega, ou seja, preparados sem nenhum ingrediente de origem animal. Não por outro motivo, o encontro chama-se Verdurada. O festival de música, palestras e gastronomia, acredite, acaba cedo, às 23 horas. Formado em Publicidade, André Vieland, de 25 anos, é vocalista de Good Intentions, uma das bandas que se apresenta no evento. Seu braço direito é coberto de um lado pelas tatuagens de um tigre e de uma cobra, e do outro, pelo símbolo dos straight edges: uma mão marcada com um X. O símbolo foi usado no início do movimento para identificar os punks adolescentes que por lei ainda não tinham a idade para beber. Na perna, Vieland ainda tatuou um girassol com a frase “free drugs” (livre de drogas).“Virei straight edge aos 15 anos porque gostava muito das bandas hardcore. Com o tempo, foi virando meu estilo de vida. Eu não gosto de cair na balada. Levo tudo no sossego.”Como os punks, os straight edges são anarquistas. “Sempre voto nulo. De outra forma, não poderia dormir em paz”, diz Vieland, que largou a carreira de publicitário numa agência para tocar um restaurante vega na Rua Augusta. Na casa trabalham dois amigos de Vieland, também straight edges. “Mas isso não quer dizer que tenha preconceitos. Tenho amigos bem diferentes de mim. Rapper, skatista e até careca. Bem, na verdade, não tenho amigos carecas, mas conheço alguns que cumprimento na rua.” Os carecas são tidos como os mais encrenqueiros. “Mas até eles estão mudando.”Os carecas costumam reunir-se nas noites de sexta-feira no Shopping Santa Cruz, na zona sul de São Paulo. “Sei lá o que eles vão fazer num shopping. Outra noite passei lá e os marmanjos de cabeça raspada estavam sentados no chão conversando com os emos, aqueles garotos com cara de meninas”, diz Vieland.Emo vem da palavra inglesa emotional. É uma tribo que se caracteriza pelas roupas escuras mescladas com acessórios infantis e cabelos com franjas grandes caindo na cara. “Eu vi aquilo e não entendi nada”, observa o straight edge.JAPAS: BREAK NA PORTUGAL Outra tribo, bem diferente e nada rebelde, organizou ontem uma grande balada na Casa de Portugal, centro da cidade. Jovens nisseis e sanseis de classe média e média alta se reuniram para as eliminatórias de um dos mais importantes campeonatos de dança da colônia, o Top Dance Orion. No palco, os dançarinos parecem realmente saídos de videoclipes americanos de música negra. Dançam hip-hop, cada um ao seu estilo. Alguns preferem as coreografias sincronizadas (style), outros o break (com piruetas e saltos). Tem ainda o popping e o locking, com movimentos quebrados, que fazem lembrar Michael Jackson em Thriller.“Os garotos que dançam ganham uma posição de destaque na colônia”, diz Karen Osaka, de 16 anos, uma das organizadoras da balada na Casa de Portugal. “Ele são mais paquerados pelas garotas e têm até fã clube.” Do hip-hop, no entanto, absorveram a dança e as roupas, nada mais.


Augusta virou território livre
Em um mesmo quarteirão da Rua Augusta, fica possível encontrar jovens de várias tribos. Não importa a ideologia, o estilo de roupa ou a preferência sexual. O trecho virou uma zona livre. “São Paulo é uma cidade que oferece muito, mas num espaço muito restrito”, diz Francisco da Costa Júnior, de 28 anos, proprietário do Sabor Mate, um café da Rua Augusta, onde se encontram flyers para todo tipo de balada. A Rua Augusta reúne cinemas, teatro, restaurantes e casas noturnas. “Quanto maior a diversidade de grupos que transitam, mais segura fica a região”, diz o antropólogo José Guilherme Cantor Magnani. “As pessoas são obrigadas a negociar para se divertir”, diz Costa Júnior. O que não significa que o clima nunca fique pesado. “É uma panela de pressão controlada”, diz o straight edge André Vieland.


Punk que é punk jamais mataria por pizza'
Para pesquisadora, atitude de jovens que mataram funcionário de pizzaria não condiz com ideologia do movimento
José Dacauaziliquá
Entre as tribos de São Paulo, os punks são figuras clássicas. Eles são facilmente reconhecidos pelas roupas pretas, cabelos extravagantes, camisetas de banda - Greenday, GBH ou Cólera. Mas os punks também são conhecidos pela atitude contestadora, muitas vezes violenta. Na madrugada do domingo passado, três deles atacaram e mataram o balconista Jaílton de Souza Pacheco, de 24 anos, no quiosque da Pizzaria Express no Terminal Parque D. Pedro, no centro. Tudo começou quando o balconista se recusou a vender por R$ 0,60 um pedaço de pizza que custa R$ 1. “Os punks são conhecidos por barganhar preços de shows ou de comida”, diz Bruna Mantese de Souza, uma das pesquisadoras do livro Jovens na Metrópole. “Eles chegam a ficar na porta de um show recolhendo moedas até conseguir o dinheiro. Eles não têm dinheiro e são contra o sistema. Mas não é porque são punks que mataram. Não dá para esquecer que vivemos numa sociedade cada vez mais violenta. Punk que é punk jamais mataria por uma pizza.” Pelo assassinato, foram presos Willian Oliveira Vicente e José Augusto Reis dos Santos, ambos de 19 anos, e Simone Ramos de Almeida, de 22. “O movimento punk contesta o sistema e vai a favor do trabalhador. Eles mataram um trabalhador. Há uma contradição nisso”, diz Douglas Hyppolito, ex-punk e o proprietário da loja Fora do Ar, na Galeria do Rock, no centro, local conhecido por ter lojas para todos os tipos de tribo. A loja é freqüentada por punks. “O que se vê hoje são adolescentes, sem qualquer ideologia.”




Delegada tem acervo com 3 mil fotos de gangues
Banda Garotos Podres tem tocado cada vez menos em São Paulo para fugir da violência
José Dacauaziliquá, Bruno Tavares e Bruno Paes Manso
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) da Polícia Civil de São Paulo mantém um acervo de cerca de 3 mil fotos de gangues. Seu principal foco é o combate a punks e carecas - estes com suas variantes skinheads e white power, todos com ideologia nacionalista, ou neonazista. São jovens que geralmente moram na periferia paulistana - em especial na zona leste -, embora haja também adeptos em bairros de classe média. “Punks de hoje só querem saber de cerveja, mulher e briga. Não sabem contra quem protestar”, diz a delegada Margarette Barros.Integrantes do movimento, no entanto, acham que a situação é mais complexa. Criada em 1986, a banda Inocentes começou na época em que os alfinetes de fralda eram os principais adereços dos punks da cidade, que circulavam por casas como Carbono 14 e Madame Satã com cabelo moicano e pulseiras de tachinhas. Mudou a moda, o estilo ficou menos ostensivo, mas a ideologia anti-sistema continua, na visão de Clemente, o líder da banda. “O punk sempre atacou violentamente o sistema. Mas as pessoas fazem confusão quando acreditam que há culpados e usam violência contra o outro.”Clemente acredita que o problema piorou porque a sociedade ficou mais violenta. “Hoje você vê moleque usando canivete com a maior tranqüilidade. Mas isso não apenas entre punks. Nos estádios de futebol é a mesma coisa. Antigamente íamos a um jogo na Gaviões (da Fiel, torcida uniformizada do Corinthians) sem medo nenhum de presenciar um assassinato. Hoje o risco já existe.”Integrante de outra banda punk, a Garotos Podres, o vocalista José Rodrigues Mao Júnior, o Mao, tem a mesma opinião. Mas acha que em algumas ocasiões os punks servem de “bode expiatório”. “Quando mataram mendigos no centro, punks foram os primeiros suspeitos. Só que depois, quando descobriram que as mortes haviam sido cometidas por policiais, ninguém veio a público esclarecer.”Aos 44 anos, Mao prefere encarar o punk apenas como “movimento musical de resgate do rock”. Tanto que, nos últimos anos, os Garotos Podres decidiram trocar casas de shows de São Paulo, reduto da banda na década de 80, por turnês alternativas. Há duas semanas, apresentaram-se em Salvador e Camaçari (BA) e em Maceió (AL). “Decidimos tocar mais fora justamente por conta da violência. E nos afastamos das ‘turminhas’ para evitar qualquer vínculo com esses casos de agressões gratuitas.”TRESLOUCADOSPara o coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves, a contestação dos punks contra o sistema é saudável, mas não se pode admitir atitudes tresloucadas de jovens que não representam o movimento, mas sim uma juventude irresponsável.
Redação identifica quem sabe ler

Próximo domingo é o dia da mais famosa prova de redação dos vestibulares: a da Unicamp. Tormento para muitos, boa oportunidade de sucesso para quem mantiver a calma e seguir corretamente as orientações que a própria Unicamp fornece no manual do candidato.A prova apresenta diferentes opções de temas e de modalidades textuais, por isso escolher bem a proposta que vai desenvolver já é um bom começo.Em comum, todas as propostas trazem uma coletânea de textos, que deve ser utilizada pelo candidato durante a realização da prova.As coletâneas não estão lá apenas para enfeitar, elas são um recurso fundamental para que os objetivos da avaliação sejam efetivamente atingidos.Além da capacidade de expressão escrita, a prova de redação pretende identificar aquele aluno que sabe ler criticamente, que é capaz de interpretar dados e fatos e de construir, a partir deles, um texto claro, coeso e coerente.Desse modo, é essencial o manuseio do conteúdo dos textos constantes das coletâneas, desprezá-los significa anulação de sua redação.Os critérios de avaliação não apresentam novidade, mas nem por isso devem ser desprezados. Parta do princípio de que seu texto é resposta a uma questão específica, essa questão é a proposta temática apresentada.Assim, na produção de seu trabalho, para que ele atinja o máximo de correção possível, escreva à luz dos critérios pelos quais a avaliação será encaminhada.A Unicamp não faz mistério quanto a esses critérios. Em primeiro lugar, exige adequação ao tema que foi proposto e ao tipo de texto solicitado.Fuga do tema e do tipo de texto requerido - por exemplo: desenvolver uma narrativa quando o pedido foi uma dissertação - significa anulação de sua redação.Outro critério fundamental é a utilização da coletânea de textos que acompanha cada proposta. Os textos escolhidos servem para verificar a capacidade do vestibulando de identificar e tirar proveito do que for importante para sua argumentação.Atenção: jamais transcreva ou despreze os textos. Isso é considerado falta grave e também implica anulação da redação.Articule os argumentos com coerência, deixe bem evidentes o início, o meio e o fim de sua produção. Com sensatez combine argumentos que concorram para a defesa de um ponto de vista.Organize o conteúdo de seu texto de forma coesa, preste bastante atenção aos pronomes e às conjunções que emprega. Observe se esses elementos estão, de fato, traduzindo o tipo de relação que você estabelecer entres as frases.O bom senso exige que a linguagem seja adequada à modalidade de texto que estiver desenvolvendo. Dissertação não é seara para coloquialismos nem para marcas de oralidade. Por outro lado, numa narrativa, na fala de uma personagem, desde que o contexto peça, tal tipo de linguagem é aceitável.Na dissertação, opte pela linguagem formal, denotativa, objetiva e sem aqueles artifícios alegóricos que apenas tornam o texto pomposo e cansativo. Faça-se comunicar com clareza e exatidão.Para finalizar, dois lembretes e uma receita. Primeiro: não se esconda atrás da manjada desculpa da falta de inspiração. Escrever é ato intelectual, não é emocional, por isso exige conhecimento e raciocínio, é um exercício objetivo da razão.Segundo: os temas de redação usualmente propostos em vestibulares estão diretamente relacionados à vida atual. Tenha certeza de que os livros, jornais e revistas que você leu ultimamente serão úteis para a fundamentação de suas idéias.A receita: considere todos os ingredientes para um bom texto já citados, adicione as técnicas de redação já aprendidas, mas não esqueça de temperar todos eles com seu toque individual.O modo de preparar consiste apenas em colocar as estratégias estudadas a serviço de seu ponto de vista e em evitar seguir, como um autômato, receitas de textos prontas, daquelas adquiridas nas prateleiras de algum cursinho.Defenda consciente, correta e objetivamente uma opinião sua. O resultado final será bem mais saboroso
Uma ética dos robôs

O mais novo dos robôs humanóides japoneses tem capacidades impressionantes. Desenvolvido por meio de uma parceria entre a Kawada e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Avançada (AIST) do Japão, o "HRP-3 Promet" tem tudo que o trabalhador do futuro precisa. A máquina branca e preta, de 1,60 metro e 80 quilos, consegue se movimentar nos terrenos mais acidentados, e em qualquer clima. O robô é capaz de caminhar durante duas horas, manipular com precisão uma chave de fenda, ajudar um homem a carregar uma tábua, conduzir veículos de trabalho. Seus criadores esperam começar a comercializá-lo em 2010. Em menos de uma década, de acordo com os pesquisadores, os robôs farão parte da vida cotidiana dos japoneses. Bill Gates, cuja Microsoft acaba de desenvolver um sistema operacional padronizado para esse tipo de máquina, acredita que a indústria da robótica, como a dos computadores pessoais 30 anos atrás, está às portas de uma forte expansão. As novas máquinas evoluirão no contato com os seres humanos e poderão substituí-los na execução de certas tarefas; mas será que terão direitos? A questão já está em debate no Reino Unido, em um relatório encaminhado ao governo em dezembro de 2006. O projeto Horizon Scan teve por tema cerca de 250 assuntos que estão em desenvolvimento, entre os quais as conseqüências da evolução da robótica. Podem votar?Sob o título "sonhos utópicos ou máquinas melhores", os especialistas discutem aquilo que será preciso prover aos robôs à medida que sua inteligência artificial se desenvolva. Será que terão direito de voto? Serão forçados a pagar impostos, a prestar serviço militar? De acordo com o estudo, caso os robôs participem da força de trabalho e, portanto, do crescimento da economia, será necessário fornecer a eles, por exemplo, uma cobertura de seguro social que garanta o bom funcionamento de seus equipamentos. Como aponta o texto, um computador, que legalmente não é considerado uma pessoa, não poderia ser responsabilizado judicialmente por qualquer delito. Seu fabricante, no entanto, poderia proteger seus direitos de propriedade intelectual. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das organizações líderes na pesquisa em robótica nos EUA, Aaron Edsinger está envolvido há três anos no desenvolvimento do robô Domo. Trata-se de uma fusão entre o Kismet, robô criado para o estudo dos contatos entre máquinas e humanos e da aprendizagem que eles propiciam, e do Cog, muito eficiente na manipulação de objetos. "A questão dos direitos dos robôs será importante no futuro não apenas para os estudiosos da robótica mas para a sociedade em geral", diz ele. "Não estou certo de que ela venha a ser tão diferente da questão dos direitos animais. A probabilidade é que venhamos a nos comportar assim também em relação às diferentes categorias de robôs. Uma lavadora de louças deve continuar a ser uma lavadora de louças. Já os robôs mais infantilizados talvez venham a ocupar o lugar de um cão ou gato. E creio que dentro de 50 anos parecerá natural que concedamos direitos semelhantes aos dos animais a essas duas categorias de companheiros", diz. Isaac AsimovNo Japão, a questão vai se apresentar mais cedo, dada a posição importante que a robótica já ocupa na vida cotidiana do país. O envelhecimento da população apresenta problemas de mão-de-obra para as empresas, e também no que tange a encontrar assistência para os idosos. Por isso, laboratórios e parcerias, sob forte pressão do governo, estão investindo pesadamente nesse ramo de atividade. Os robôs humanóides vêm sendo desenvolvidos pouco a pouco pelos laboratórios, como por exemplo o Wakamaru, que já está à venda para trabalhar como recepcionista em empresas. Já a Alsok, uma fabricante de produtos de segurança, está oferecendo aos clientes os robôs de vigilância C4 e C5, para operar em centros comerciais. Com uma abordagem bastante pragmática, o Ministério da Economia japonês está trabalhando na redação de normas de segurança para o uso de robôs. A comissão criada para essa finalidade em dezembro de 2006 não deve se pronunciar em favor do estabelecimento de uma distinção entre robôs e outras máquinas. O fabricante será sempre considerado responsável pelos problemas criados por seu produto, a não ser que as instruções de uso tenham sido desrespeitadas. As normas do governo exigirão que os fabricantes garantam fiscalização séria dos robôs que prestarão serviços pessoais. Na Coréia do Sul, país igualmente avançado em termos de robótica e grande rival do Japão nessa área, uma "carta ética dos robôs" deve ser redigida neste ano. O texto se inspira nos princípios propostos pelo escritor de ficção científica Isaac Asimov. Os robôs não deverão fazer mal aos seres humanos ou permitir que estes os façam sofrer. Deverão obedecer aos seres humanos, a menos que isso contradiga a primeira lei. E deverão garantir sua própria proteção, caso isso não contradiga as duas primeiras leis.

uma outra opinião - complementando a notícia

Cérebro imigrado

Por mais problemas que os brasileiros enfrentem para fazer ciência, isso não impediu que o país tenha centros de excelência que se destaquem por fazer pesquisa de qualidade. USP e Unicamp costumam chamar mais a atenção, mas grupos no Rio, na Amazônia e no Sul do país não só têm feito a lição de casa como ainda atraem pesquisadores estrangeiros para cá.É o caso do neurocientista argentino Martín Cammarota, 38, que há cinco anos trocou Buenos Aires por Porto Alegre, onde faz parte do laboratório de estudos da memória da PUC do Rio Grande do Sul. E ele nem pensa em voltar para a beira do rio da Prata.O grupo gaúcho é coordenado pelo argentino-brasileiro Iván Izquierdo, autoridade mundial no estudo de fisiologia da memória. Izquierdo, a quem Cammarota chama de "pai científico", é um dos motivos pelos quais ele decidiu se mudar para o Brasil. O outro é que ele se casou com uma brasileira que conheceu na Universidade de Buenos Aires."Eu trabalho com o maior cientista do Brasil e duvido que alguma outra universidade na América Latina fosse melhor. Mas estou aqui também por razões familiares e culturais. Hoje me sinto brasileiro. Seria um estrangeiro na Argentina."Sobre os problemas da ciência nacional, ele concorda que eles existem e que são complicados, às vezes, limitantes, mas diz acreditar na capacidade do país. "É claro que poderia ser melhor, mas não tenho dúvida de que o Brasil será um potência científica. Seu tamanho continental o obriga a ser uma potência científica. Agora, o tempo que vai levar para isso ocorrer depende de quanto os políticos vão roubar."Um dos pontos positivos no Brasil para Cammarota, na comparação com a Argentina, é o sistema de bolsas de doutorado. "Na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires são concedidas três bolsas para 20 mil alunos. Eles têm mais estudantes que a Federal do Rio Grande do Sul inteira. Mas aqui, só para o departamento de bioquímica e genética, que tem 500 alunos, há 30 bolsas por ano. Então nesse sentido, a vantagem é enorme."Apesar disso, ele defende que talvez seja o momento de passar a redirecionar esse investimento. "A política de distribuição de recursos não pode parar, mas acho que hoje, ao menos aqui no Sul, alcançamos uma massa crítica suficiente. É hora de fortalecer os grupos de excelência já consolidados. Criar políticas de premiação para a qualidade da produção. Repartir é fácil, selecionar é antipático, eu sei, mas faz parte do processo de evolução", afirma.Então vale a pena ficar aqui? "Sim, por fazer parte de algo que está sendo construído."

pais e filhos complementando a notícia - repostagem

Pais preferem TV a brincar com filhos, diz estudo Pais afirmam ter mais prazer de assistir à TV do que passear ou brincar com os filhos. Ao mesmo tempo, só 14% deles vêem as brincadeiras como aliadas no desenvolvimento infantil. Os dados são de um estudo com 1.014 pais e mães de crianças entre seis e 12 anos de todas as regiões do país, feito pela Ipsos Public Affairs para a multinacional Unilever.Entre as dez atividades mais prazerosas citadas pelos pais, passear com os filhos aparece em quarto lugar (com 22% das preferências), atrás de assistir à TV (48%), ouvir música (27%) e ficar com a família (25%). As mães relatam ter mais prazer nessa atividade (25% contra 19% dos pais), e o Sudeste é onde a taxa de prazer em sair com os filhos é maior (30% contra 10% no Norte e Centro Oeste).Quando se trata de brincar com os filhos, o prazer fica ainda mais distante, em sétimo lugar -com 14%-, atrás de atividades como ir à igreja/culto (19%) e sair com amigos (17%). Neste quesito, os pais se saem melhor (16% contra 13%).Assistir à TV também é a brincadeira mais freqüente para 97% das crianças, à frente de atividades como desenhar (81%), brincar de pega-pega (65%) e ler histórias (59%).A escola é citada por 46% dos pais como o local onde as crianças mais brincam fora de casa. A rua foi mencionada por 40% deles -48% das classes D e E contra 19% das classes A e B.Os dados da pesquisa integram a publicação "A Descoberta do Brincar", um estudo inédito sobre as relações entre o brincar e o desenvolvimento da criança brasileira, que teve como relatora e consultora Maria Ângela Barbato Carneiro, educadora da PUC-SP.Para ela, ao assistir à TV, os pais não interagem com os filhos e não se preocupam em criar atividades que interessem e motivem os pequenos. "Há o problema da passividade, a criança não reflete. Isso não significa deixar a criança alienada, mas ela deve ser orientada para refletir sobre o que vê."Segundo a educadora Adriana Friedmann, co-fundadora da Aliança para a Infância no Brasil, em muitas famílias, a TV já se transformou em um canal de comunicação entre pais e filhos. "A culpa da não-presença fica mitigada em colocar a criança na frente da TV, que tem efeito de hipnose."Na última década, diz ela, a conduta do educador tem sido mais de aceitar que a TV é um personagem na vida das famílias e lutar pela qualidade da programação.Um dado que chamou a atenção dos educadores na pesquisa foi que apenas 14% dos pais vêem, espontaneamente, as brincadeiras como importantes aliadas no desenvolvimento infantil. Para 51%, a principal função do brincar é "deixar as crianças mais felizes"."É um misto de falta de conhecimento e de questão cultural. Nossa sociedade acha que brincar é perda de tempo ou só serve para divertir, não enxerga os benefícios", diz Marilena Flores, presidente da Associação pelo Direito de Brincar.Maria Ângela Carneiro acrescenta que os adultos desvalorizam as brincadeiras por acharem que elas não ensinam conteúdos às crianças. "Os pais estão preocupados com o futuro de seus filhos e pensam que os conteúdos escolares são os mais importantes."Para ela, o pior são os professores que também não valorizam as brincadeiras com parte do aprendizado. "Eles têm estudado muito o desenvolvimento infantil, graças às descobertas da psicologia, e ignoram sua prática na escola."Mães afirmam que jornada exaustiva de trabalho dificulta brincadeiras Excesso de trabalho é a explicação que algumas mães dão por não brincarem muito com seus filhos. Depois de uma jornada pesada fora de casa, elas voltam só à noite, cansadas, e não agüentam ajoelhar no chão e encarar uma maratona de bonecas ou carrinhos."Não tenho pique mesmo. Não consigo brincar depois de um dia de trabalho, com pressão e desgaste", diz Ana Paula Lomba, 39, gerente bancária. Ela sai de casa às 7h45 e só volta por volta das 20h, quando sua caçula, de cinco anos, já está quase dormindo. Toma banho e chama a primogênita, de nove anos, para ver o "Jornal Nacional" e uma novela. "Sei que brincar é importante na formação delas, mas, vendo o quanto eu me esforço, elas aprenderam a ser responsáveis."Situação parecida vive a psicóloga Ana Lúcia Funari, 37. Depois de 12 horas de trabalho diárias, ela só agüenta deitar na cama para ver um filme com as filhas. "Fico lá, tentando ver, mas sempre durmo", diz. "É o preço. Estou fazendo o melhor, que é dar qualidade de vida."A também psicóloga Patrícia Proença, 32, escolheu o outro lado da moeda. "Abri mão de ter mais dinheiro pela minha filha", diz ela, que se encaixa nos 14% que preferem brincar com os filhos a assistir à TV."Dedico 100% de mim à minha filha." E também aos filhos das amigas, já que Patrícia costuma se reunir com algumas amigas-mães: "Vamos ao parque ou brincamos com os nossos filhos aqui em casa".Amiga de Patrícia, Cristina Rocha, psicóloga, pediu afastamento do trabalho quando seu caçula nasceu para poder cuidar dele e da filha maior. Mas ela assume: "É muito cansativo. É até mais pesado do que trabalhar fora. Filho é 24 horas por dia, sete dias por semana".

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

voyeurismo moderno

Prédios de vidro, para ver e ser visto

Nova geração de edifícios de apartamentos de Nova York cria diálogo entre voyeurismo e exibicionismo
Penelope Green, do The New York Times


Jeremy Fletcher e Alejandra Lillo, designers da Graft, uma empresa de arquitetura e design com sedes em Berlim, Pequim e Los Angeles, dizem que elaboravam um diálogo entre voyeurismo e exibicionismo quando projetaram os interiores devassáveis do W Downtown, um edifício de apartamentos revestido de vidro a ser construído no distrito financeiro de Manhattan em 2009.As paredes de vidro do edifício permitirão aos moradores do W ver e serem vistos por pessoas na rua. Além disso, Fletcher e Alejandra criaram dispositivos transparentes dentro de cada apartamento, como uma janela entre a cozinha e o dormitório e um banheiro que é um cubo de vidro, permitindo que os moradores se exponham aos companheiros de moradia. A idéia, segundo Fletcher, era emoldurar e exibir os detalhes íntimos da vida ou ao menos aqueles que seriam esteticamente agradáveis, “como a sua silhueta embaixo do chuveiro”. “Estamos criando palcos para as pessoas de certa maneira atuarem, mas é uma exposição muito roteirizada e pensada.”Ele fala em ajustar a privacidade de cada cômodo, usando cortinas ou anteparos de pano para criar aberturas, como se muda a abertura de uma câmera fotográfica. “Se você não quiser que seu parceiro a veja raspando a perna, você pode puxar a cortina.”Os interiores transparentes da Graft surgem maliciosamente numa cultura que continua a encontrar maneiras de exibir detalhes cada vez mais íntimos e mundanos da vida doméstica. Num mundo onde impera o YouTube, a casa já não é um refúgio privado: é apenas um receptáculo para a webcam.Em Nova York, o panorama urbano vem sendo sistematicamente refeito por torres de vidro como a W. Em setembro, Curbed, o espirituoso blog imobiliário de Nova York, exibiu uma foto de um recém-acabado prédio de apartamentos com paredes de vidro na Rua 13 Leste. Você podia ver o interior dos apartamentos, que mais pareciam quartos de dormir desmazelados. Era uma réplica perversa à badalação de marketing que cerca esses hoje onipresentes edifícios. Acompanhando a foto aparecia uma reclamação contra a vista de um sujeito em calções de boxe fazendo flexões. “Será que a primeira reunião do condomínio não terá de incluir uma oficina para a cobertura de janelas?” indagava.Em certa medida, a vida urbana sempre foi uma performance pública e um de seus prazeres é a oportunidade de vislumbrar hábitats alheios, assistir ao cinema de vidas alheias pela cortina entreaberta, como fez James Stewart em Janela Indiscreta. Mas, assim como as conversas de telefone entreouvidas costumavam ser fascinantes até o uso do celular chegar a um ponto de saturação, espiar os apartamentos alheios já não é tão sedutor.A VISÃO DOS ESPECIALISTASA professora Sherry Turkle, psicóloga e diretora do Programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade do MIT, vê as torres de vidro como expressões de “um ponto de virada na forma”. “Há uma verdadeira confusão entre intimidade e solidão”, diz. “Estamos sozinhos nesses prédios, enfrentando o anonimato da cidade, ou estamos conectados com a cidade? O que nós mostramos e o que escondemos?”“Isso espelha o que acontece quando estamos no computador. Já não somos capazes de distinguir quando estamos juntos e acolhidos e quando estamos sozinhos e isolados. Eu posso estar em contato íntimo com 300 pessoas por e-mail, mas, quando levanto a vista do computador, fico desalentada. Não ouvi uma voz, não toquei um braço, durante horas ou dias.” Esses prédios, ela sugere, contam uma história de ansiedade - não de exibicionismo.O professor Jeffrey Cole, diretor do Centro para o Futuro Digital da Escola de Comunicação Annenberg da Universidade do Sul da Califórnia, vem pesquisando adolescentes e suas comunidades digitais, nas quais a metáfora da casa de vidro parece mais urgente e mais perigosa. “Minha experiência é de que os adolescentes, e em especial as garotas adolescentes, não sabem que no Facebook estão vivendo numa casa de vidro”, disse Cole. “Eles são atraídos para um sentimento de que em suas redes são apenas eles e seus amigos e os melhores interesses do coração. Eu acho, essencialmente, que não temos nenhuma privacidade ou temos cada vez menos áreas para recuar em segurança.”Os interiores abertos e janelas de vidro da arquitetura modernista foram a expressão de uma cultura urbana em relaxamento, afirma Winifred Gallagher, a autora de House Thinking: A Room-by-Room Look at How We Live. Apontando para os primeiros tempos do modernismo no início do século 20, ela observa que “de repente, já não queríamos privacidade e isolamento”. No momento em que isso ressurge, Gallagher nota a mesma mensagem, mas com uma variante. “Nova York era uma cidade de grades e barras de aço nas janelas, um lugar inseguro. Hoje, a cidade é espetacularmente segura. O vidro conta essa história. A casa de vidro de Philip Johnson era algo que só poderíamos ter em Nova Canaã. Agora é algo que você pode ter na cidade. Claro, sempre haverá o pensamento de: como você pode sentir-se confortável com o predador olhando por sua janela?”Nos anos 70, o psicólogo Irwin Altman estudou como as pessoas desenvolviam relacionamentos, usando um método de “aberturas e fechamentos”. “Elas gradualmente se abrem em níveis muito superficiais de suas personalidades e cuidadosamente se movem para áreas mais íntimas.” Ele descreveu sua teoria de regulação da privacidade: para equilibrar os momentos em que os indivíduos se sentem expostos, precisam existir momentos em que estão fechados e sozinhos. “Uma das maneiras de fazer isso é em suas casas. As salas de visita são nossas salas públicas, onde nós mostramos o melhor de nós, o que há de valioso em nós e o que prezamos. E há os lugares como quartos de dormir que estão fora dos limites, aos quais só pessoas que nos conhecem intimamente têm acesso.”Se uma sociedade como um todo está “aberta” o tempo inteiro, é razoável pensar que ela precisa de um pouco de fechamento. Talvez seja por isso que o arquiteto Costas Kondylis mudou o projeto de um prédio de apartamentos de 31 andares na Rua 60 Leste, em Manhattan, que era inteiramente de vidro, para granito. O vidro disse ele, acabou ficando algo “déjà vu demais”.

Esta é uma opinião, embaixo há outra

Aborto não combate a violência, diz demógrafa

De tempos em tempos ressurge no Brasil um debate que, para muitos demógrafos, já deveria estar superado: o país enfrenta uma explosão populacional, que explica, em parte, a pobreza e a violência. Suzana Cavenaghi, demógrafa da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e uma das maiores especialistas do país em fecundidade, rebate: "Alguns querem acabar com a pobreza. Outros querem acabar com os pobres".
FOLHA - Crianças nascidas de gravidez indesejada têm mais probabilidade de se tornarem criminosas? SUZANA CAVENAGHI - Crianças que nascem e crescem em situação adversa podem ter alta probabilidade de se tornarem criminosas. No entanto, o erro está em achar que o aborto é uma -ou a única- solução para a violência.
FOLHA - Há estudos que apontam relação entre crime e aborto. Há resistência em debater temas tabus?
CAVENAGHI - Sempre voltamos a um velho dilema com essa questão, que não tem nada a ver com tabus: alguns querem acabar com a pobreza, e outros querem acabar com os pobres.
FOLHA - Somos 187 milhões, e o IBGE estima que seremos 260 milhões em 2050. Isso não limita a capacidade do Estado em atender bem?
CAVENAGHI - Não acredito que exista um ótimo populacional [tamanho ideal da população], pois isso depende do contexto, do modelo econômico e de como a população cuida do ambiente. Por isso, não me arrisco a dizer que termos 260 milhões de brasileiros seria ruim. Acho, sim, que é ruim para a economia não conseguir gerar empregos para eles.
FOLHA - É desejável que as mulheres pobres tenham menos filhos?
CAVENAGHI - Dependendo de como se define o que é pobre ou rico, a fecundidade chega a ser o dobro ou até quatro vezes maior entre os mais pobres. No entanto, não acho que deva haver políticas públicas para diminuir a fecundidade.

Para relaxar e refletir

Receita de vida: se conhecer bem
Danusa leão

Mas não há quem não tenha talentos, e tem tanta coisa para inventar. O que é que você mais gosta de fazer?

UMA DAS COISAS mais importantes neste mundo é se conhecer bem; saber de suas qualidades e defeitos - sobretudo os defeitos - e, no campo profissional, de suas aptidões e capacidades, para errar pouco e não perder tempo fazendo coisas para as quais não tem o menor dom.O sonho atual de uma certa juventude é trabalhar na televisão. As candidatas telefonam para os parentes e amigos dos autores e diretores, vão aos lugares onde acham que podem encontrar as pessoas certas, e algumas fariam qualquer papel -mas qualquer papel mesmo- para conseguir uma ponta numa novela. Às vezes até conseguem e fazem dois ou três trabalhos -só que não deslancham. E aí vêm as desculpas: "O diretor me paquerou mas eu não topei", ou "foi aquela piranha que fez uma intriga, por isso não consegui o contrato" -e por aí vai.Raras, raríssimas são aquelas que têm a coragem de admitir: "Não nasci para atriz" -e partir para outra. Isso em todas as áreas: tem a que quer ser escritora, a outra poetisa, uma terceira que sonha em virar uma grande estilista, a que pensa em ser Marisa Monte, e a que se imagina como sucessora de Glauber Rocha; mas como o mundo é injusto, nada dá certo. E o que é dar certo? Bem, para essas, fazer um sucesso retumbante, com direito a capas de revistas e fotos nos jornais, pois as luzes da ribalta exercem sobre elas um tal fascínio que fica difícil aceitar um destino que possa parecer, de longe, medíocre. Só que talvez sua vocação verdadeira possa ser viver uma vida tranqüila e, quanto mais cedo isso for descoberto, melhor; e, mesmo com um mundo tão vasto e cheio de possibilidades, passam a vida tentando chegar onde sonham, jogando fora seu bem mais precioso -o tempo-, buscando o patrocínio para um filme ou um espetáculo que, na maioria das vezes, já nasce condenado ao fracasso -e isso quando conseguem o tal do patrocínio.De quem é a culpa? Sempre dos outros, claro: primeiro do governo, que deveria ter como objetivo principal financiar a cultura; do diretor da novela, com quem elas não quiseram fazer o teste do sofá; da rival, que conseguiu ficar com o papel que deveria ser dela. Não passa pela sua cabeça, em momento algum, que, se a outra conseguiu, é porque tinha mais competência, o que, reconheçamos, é mesmo difícil de admitir. E como administrar seu próprio fracasso é mais difícil ainda, a solução é jogar a culpa na outra.Mas não há quem não tenha seus talentos e, como diz o ditado popular, quem procura acha -e tem tanta coisa para inventar. Pare e pense: o que é que você mais gosta de fazer? O que é que você sabe fazer bem?Se adora viajar, por que não tenta ser guia turística? Se cozinha bem, por que não organiza um curso em casa, para as amigas que não têm noção de como se faz um ovo cozido? Se foi sempre elogiada por saber receber, por que não vira professora de jovens noivas, ávidas para aprender? E se sua vocação for para não fazer nada, ser servida por várias empregadas, ter motorista, comer caviar no café da manhã, por que não arranja um marido rico ou um senhor que a ajude? Mas é sempre bom lembrar: para isso também é preciso ser competente.Deixe de lado a fantasia -bem cômoda, aliás- de que é uma injustiçada, e que se não está brilhando na Broadway é porque alguém foi culpado. E talvez faça bem a seu coração saber que, mesmo no peito das mulheres de sucesso, bate às vezes uma nostalgia de não estar em casa pregando os botões na camisa do marido e pensando nele -ah, com essa chuvinha, como seria bom.Só que essa mulher não está onde está em vão: ela se conhece bem e sabe -e não põe a culpa disso em ninguém- que, se não tem um marido para esperar, é que talvez não tenha talento para isso.E estamos conversadas.

complementando a notícia - uso de cobaias

O uso de animais em pesquisas científicas deve ser proibido?

Cientistas ficaram alvoroçados com a publicação, no Diário Oficial do Rio de Janeiro, de um projeto de lei do vereador Cláudio Cavalcanti, sancionado pelo prefeito Cesar Maia, que prevê punições para quem maltratar ou mutilar animais. Uma sucessão de erros fez chegar às mãos do prefeito uma versão do texto que não continha as emendas que isentavam as instituições de pesquisa dos efeitos da lei. O projeto voltou à Câmara dos Vereadores, que aprovou na quarta-feira a versão correta.
Resultado da enquete:

Sim 67%
Não 33%

O uso de animais na ciência é necessário e continuará sendo até que alternativas viáveis sejam desenvolvidas. Utilizamos o benefício desse uso no dia-a-dia sem percebermos. O simples fato de acordarmos saudáveis e protegidos de diversas doenças pode ser atribuído às vacinas desenvolvidas em animais. Produtos utilizados em consultórios dentários e hospitais foram testados em animais. Aqueles contrários ao uso de animais podem hoje tentar viver sem utilizar desses benefícios, mas não têm o direito de impedir o restante da sociedade de usufruir disso. Seria como impedir o uso de carros e aviões por sua parcela de culpa no aquecimento global. Não podemos proibir a experimentação com animais. Mas podemos e devemos regular o uso e garantir que seu bem-estar seja preservado durante e após sua utilização. Para isto, é necessária a aprovação de uma lei que há 12 anos tramita no Congresso e exige que qualquer trabalho seja avaliado por uma comissão de ética que analisará a necessidade do experimento e as condições em que ele será realizado. >>“Técnicas que substituam o uso de animais devem ser desenvolvidas”LETÍCIA DANTASCOORD. DA SOC. MUNDIAL DE PROTEÇÃO AOS ANIMAIS (WSPA)A WSPA opõe-se a qualquer tipo de procedimento que cause sofrimento aos animais, a todos os experimentos que envolvam repetição desnecessária, à reutilização de animais e a quaisquer técnicas para as quais tenham sido desenvolvidas alternativas humanitárias satisfatórias. Também somos contra experimentos para fins cientificamente triviais ou para testes de substâncias não-essenciais à saúde ou ao bem-estar dos animais ou humano (como cosméticos). Apoiamos a adoção de técnicas alternativas, a redução do número de animais utilizados e o refinamento dos procedimentos de forma a promover bem-estar animal. Os esforços dos laboratórios e centros de pesquisa devem se concentrar em desenvolver técnicas que reduzam o sofrimento e o número de animais envolvidos e, preferencialmente, substituam completamente o uso de animais vivos. É imprescindível que instituições que usam animais em pesquisas tenham um comitê de ética em experimentação animal para avaliar os projetos. Devem necessariamente fazer parte desses grupos representantes da área de bem-estar animal.

Para rir um pouco - Moacyr Scliar

A universidade revisitada

É claro que, se faço malhação, se nado, se me visto bem, tenho de me maquiar de acordo, você não acha?
Para atrair estudantes, universidades oferecem serviços de shoppings. Sala de videogame, salão de beleza, minishopping, piscinas, academia. Para atrair universitários, instituições particulares de São Paulo têm seguido o modelo norte-americano e investido cada vez mais em infra-estrutura.


- ENTÃO, MINHA FILHA, como foi seu dia na universidade hoje?- Ah, mamãe, foi ótimo. Cheguei muito cedo porque o minishopping estava com uma promoção: vestidos e bolsas a preços fantásticos, mamãe! Comprei um vestido fabuloso. E comprei uma bolsa, e sapatos, e presentes para todas minhas amigas... Olhe só a quantidade de sacolas! Maravilha, mamãe. Maravilha.- Sim, filha, estou vendo que as compras foram muito boas. Mas-- Espere, não terminou. Terminadas as compras, resolvi malhar um pouco. Afinal, a gente tem de ficar em forma, não é, mamãe? De nada adianta comprar um vestido elegante se eu não puder entrar nele. Então, fui à academia. Sim, porque a universidade agora tem uma academia fantástica. Esteira, step, pesos, tudo que você pode imaginar. E um professor que é ótimo, uma simpatia. Malhei lá até quase o meio-dia.- Muito bom, filha, manter a forma é ótimo, mas-- E não fiquei só na malhação. Saindo dali fui nadar. Que piscina, mamãe! Piscina térmica, enorme... Nadei uma hora. Uma hora, mamãe! E isto que você me acusava de preguiçosa!- Retiro esta acusação, filha. Mas o que eu queria lhe perguntar é-- Depois fui ao salão de beleza. A universidade tem um excelente salão de beleza, com gente competente, sofisticada. E é claro que, se faço malhação, se nado, se me visto bem, tenho de me maquiar de acordo, você não acha? Passei uma hora e meia lá, mas valeu a pena. Aliás, dê sua opinião: você não acha que valeu a pena?- Valeu a pena, mas-- Aí fui almoçar. Temos um restaurante ótimo, lá, comida japonesa, essas coisas. Uma delícia, mas não exagerei. Depois da academia e da piscina não tinha sentido, não é mesmo?- Claro, mas o que eu queria saber -- No almoço encontrei uma amiga que me desafiou para jogar videogame. Você sabe que não gosto muito disso, mas você também sabe que não recuso desafio. Lá fomos nós para o videogame, e, modéstia à parte, assombrei o pessoal que estava lá. Minha amiga chegou a ficar com inveja. E aí contei a ela que desde criança sempre fui boa nessas coisas. Não é verdade, mamãe?- É, mas o que eu queria lhe perguntar -- Deus do céu, mamãe, você é muito chata. Eu lhe contando sobre as coisas que fiz na universidade e você repetindo "eu queria lhe perguntar, eu queria lhe perguntar". Pergunte, então. O que você quer saber?- Eu queria saber como foram suas aulas...- Aulas? Aulas? Meu Deus, mamãe, sabe que eu esqueci de ir às aulas? Esqueci completamente, mamãe. Que coisa! Que falta de memória. Aliás, já que estamos falando nisso: que curso, mesmo, eu estou fazendo, mamãe?
MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

O Tropa de Elite é referência - assistam

Brasil pode crescer com Lei do Aprendiz

"TROPA DE Elite", "Falcão -Meninos do Tráfico", "Cidade de Deus". Várias são as peças de ficção que retratam as mazelas da nossa juventude. Os problemas são vários: 66% dos jovens brasileiros não concluíram o ensino médio, só 3,6% freqüentam uma universidade, 50% da população desempregada é jovem -cerca de 3,7 milhões, sem falar nos dados sobre a violência. No entanto, esses dados não são os únicos que refletem a situação. A juventude também é feita de sonhos, talentos, muita energia e boas iniciativas espalhadas pelo país. Jovens que mudam suas famílias, comunidades e história. Protagonistas, que querem ser ouvidos e, quando têm oportunidade, fazem seu caminho. Foi para falar em juventude e oportunidades que escrevemos esse texto. Ele reúne não só entidades da área de responsabilidade social mas também um novo grupo, formado por atletas que querem contribuir para o desenvolvimento do país e escolheram como primeira bandeira a juventude. A escolha não foi feita a esmo. Os atletas refletem a boa aposta que é investir na juventude, pois foram jovens que tiveram oportunidades de desenvolver seus talentos e de ajudar o país no campo esportivo. E esse não é o único campo em que a juventude se destaca quando tem oportunidade e a sociedade aposta nela. Hoje, há uma política concreta que representa oportunidade de trabalho à juventude: a Lei do Aprendiz. Criada em 2000, determina que toda empresa de grande e médio porte deve ter, do número total de funcionários, de 5% a 15% de aprendizes. Os aprendizes são jovens de 14 a 24 anos que devem cursar o ensino fundamental ou médio e um curso de formação técnica. A proposta é incentivá-los a continuar estudando, a aprender uma profissão e a ter uma oportunidade de trabalho efetiva. Por isso, estamos lançando um desafio para o país. Alcançar, até 2010, a marca de 800 mil aprendizes contratados. Esse número não saiu da cartola. O Ministério do Trabalho e Emprego calcula que, se todas as empresas cumprissem o mínimo de 5% de aprendizes contratados, conforme prevê a lei, o Brasil criaria mais de 1,2 milhão de novas vagas. Segundo dados inéditos do próprio ministério, o país tem cerca de 113 mil aprendizes e, a partir de hoje, o Placar do Aprendiz vai monitorar, mês a mês, a evolução desse dado, nacionalmente e por Estado. O site do placar também vai listar os nomes das empresas que cumprem a lei, mostrando como conseguiram se organizar e quais os desafios e benefícios que a Lei do Aprendiz traz às empresas. Esperamos ainda que essa mobilização contribua para reduzir a falta de conhecimento sobre a lei e ajude a vencer alguns preconceitos e desafios. Nada que, com a boa vontade das empresas, do governo e da sociedade, não se supere, pois, acima de tudo, acreditamos que se trata de uma política em prol do desenvolvimento do Brasil. Estimativas do Banco Mundial sobre os impactos econômico e social da falta de oportunidades para a juventude apontam que os custos de não investir nos jovens ao longo da vida estão entre 184 bilhões e 320 bilhões de reais, algo entre 12% e 21% do PIB. Taxas de desemprego altas entre jovens de 16 a 24 anos resultam na perda de rendimentos anuais entre 641 milhões e 1,2 bilhão de reais. Além de associar que o comportamento de risco entre jovens é parcialmente devido a investimentos insuficientes nesse grupo. No Brasil, os gastos públicos com jovens representam 6% do total. Quando se retira do cálculo a verba destinada ao ensino universitário limitado a uma pequena parcela da população, os gastos caem a quase 0% do total investido na área social. Não se pode pensar no pleno desenvolvimento social e econômico de um país sem investir na juventude. Nesse ponto, a Lei do Aprendiz é uma das poucas e boas iniciativas. Para os jovens, trata-se de mais uma possibilidade de escolha. Para as empresas, um investimento em futuros profissionais e uma oportunidade de ser socialmente responsável. Para a sociedade, é uma forma de apontar soluções e relembrar que todos nós fomos jovens um dia. Pensando no esporte, até hoje o país pára para torcer por nossos jovens atletas. E, ao lembrarmos dos gols, das cestas, das cortadas, dos golpes certeiros, dos saltos olímpicos, lembramos que todos devem ter oportunidades, em todas as áreas, para alegrar corações e desenvolver esse Brasil de todos nós.
RAÍ OLIVEIRA , 42, ex-jogador de futebol, é presidente da Associação Atletas pela Cidadania. RICARDO YOUNG , 50, empresário, é presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.
FERNANDO ROSSETTI , 45, é secretário-geral do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Tropa de Elite - uma reflexão acadêmica

Mais real que a própria realidade

Textos de Beatriz Jaguaribe mostram como as estéticas do realismo influenciam a construção do imaginário da modernidade
Luiz Zanin Oricchio

Quando lançou seu livro O Choque do Real - Estética, Mídia e Cultura, Elizabeth Jaguaribe não poderia adivinhar que um filme - Tropa de Elite - viria ilustrar como nenhum outro as teses expressas no texto. Nele, Elizabeth, que é doutora em literatura comparada por Stanford e professora na Escola de Comunicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro, procura mostrar como o realismo estético ressurge com força inesperada. Fenômeno global e não apenas brasileiro, o “pancadão do real” se impõe no cinema, na literatura, na fotografia e em outras artes. Fornece ao distinto público uma certa “pedagogia da realidade” e tem trânsito em diversos estratos da população, incluindo a sua parte menos letrada, colocada à margem da educação formal. Como escreve na introdução do livro “Num país como o Brasil, marcado pela escassa escolaridade e pelo predomínio avassalador da cultura audiovisual, os novos códigos realistas também funcionam como diagnósticos da nossa vivência social”. E, de fato, esse corpo-a-corpo com o real, mediado pela arte, tem produzido resultados expressivos. Tropa de Elite é o destaque da hora, mas deve-se lembrar do sucesso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Carandiru, de Hector Babenco, para ficar em casos mais recentes. No âmbito do romance, temos o extraordinário exemplo do livro de Paulo Lins, base do filme de Meirelles, que está completando 10 anos de lançamento, e toda a literatura de Ferrez, produzida a partir da sua experiência no Capão Redondo. Em tempos difíceis como o nosso, o realismo estético proporciona certa catarse simbólica, um alívio das tensões que se experimenta a partir de sua projeção em uma tela. Não basta chamar pelo capitão Nascimento para resolver os problemas do País. Mas, a partir da discussão desfechada por estas obras, alguma coisa pode acontecer. Abaixo, a entrevista com a autora. No momento em que seu livro está sendo lançado, as atenções estão sendo monopolizadas por um filme, Tropa de Elite. Como você o analisa no contexto do “choque de realidade”' proposto por sua obra? No meu livro, defino o “choque do real” como sendo a utilização de estéticas realistas que visam a suscitar um efeito de espanto catártico no espectador ou leitor. Este uso do “choque da realidade” quer provocar o incômodo sem recair, necessariamente, em registros do grotesco ou do sensacionalismo. O impacto do “choque” decorre da representação de algo que não é incomum, mas é revoltante, excitante, violento e estarrecedor. O que é representado descarrega adrenalina justamente porque essas atrocidades e esses horrores fazem parte do cotidiano das metrópoles atuais, chamam a atenção para este cotidiano do desmanche social, tal como é o caso dramático das guerras do narcotráfico nas favelas brasileiras. Agora, o poder mobilizador do “choque do real” depende do uso persuasivo da estética realista. Se um filme como Tropa de Elite, por exemplo, tivesse retratado os conflitos entre o Bope, favelados, traficantes e estudantes de classe média com uma linguagem surreal ou com uma estética do realismo mágico, ele não teria o mesmo impacto porque os espectadores já naturalizaram o realismo estético como uma representação da “vida como ela é”. Nesse sentido, esses códigos do realismo têm a capacidade de fornecer vocabulários de reconhecimento que não abalam a noção da realidade em si, mas reforçam seu desnudamento. As estéticas do realismo inventam ficções que parecem ser a realidade. Nosso cotidiano é dispersivo, fragmentado e amorfo. A ficção realista torna a realidade mais “real” porque intensifica, seleciona e enquadra eventos, personagens, enredos. O fato de este filme estar fazendo tanto sucesso (com as cópias piratas e com a versão oficial) justifica essas teses da pedagogia da realidade e da epifania negativa, colocadas no livro? Evidentemente escrevi este livro antes do aparecimento do filme Tropa de Elite. Mas creio que ele ilustra muito bem os meus argumentos. O argumento central é calcado na idéia de que nosso senso comum da realidade é permeado pelas estéticas do realismo, embora este filão realista conviva com outros imaginários fantasiosos, maravilhosos, etc. Mas os códigos do realismo estético detêm um poder de construção de realidade. No caso deste filme e de outros, estas estéticas oferecem uma pedagogia da realidade porque fornecem explicações e interpretações de fácil assimilação. Estas explicações, entretanto, desferem o impacto de uma epifania negativa porque elas não oferecem saídas redentoras, não vislumbram utopias do futuro, não possuem sublimação. Mas retêm um forte poder de mobilização porque colocam em pauta nossa perplexidade diante da violência e dos conflitos sociais. Isso se torna particularmente relevante num país como o Brasil, marcado pela escassa escolaridade e pelo predomínio avassalador da cultura audiovisual. Até que ponto você entende que os “choques de realidade” vêm se convertendo em linha dominante de um tipo de cinema? Afinal, Tropa de Elite promete ser um dos grandes sucessos do cinema recente, além de Cidade de Deus, Carandiru e outros filmes como O Rap do Pequeno Príncipe, Deserto Feliz, Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Que tipo de contribuição você acha que esses filmes trazem para a construção do imaginário do País? Creio que a força destes novos códigos do realismo estético não se limita à produção brasileira, basta ver o novo cinema iraniano, o cinema inglês de Loach, Frears e outros, os mandamentos do Dogma, novos filmes argentinos tais como O Outro Lado da Lei, o prestígio crescente do documentário no mundo inteiro, etc... Este retorno do realismo, em produções muito diferenciadas entre si, se dá em meio à saturação provocada pela própria cultura midiática com seu incessante bombardeio de narrativas e imagens. É como se houvesse uma necessidade e uma ansiedade de buscar um solo comum de experiências justamente porque a realidade está em disputa. Creio que o uso do choque nos recentes filmes brasileiros se alimenta da necessidade de produzir sentido em meio ao risco, incerteza, violência e brutal desigualdade da sociedade brasileira. Os retratos da favela, prisões, periferias desoladas, etc... aguçam o debate sobre a viabilidade social também porque o Brasil se democratizou extraordinariamente. Ao par desta democratização, ocorre uma democratização do próprio conceito de cultura que já não é abalizada pelos cânones letrados. Por outro lado, cineastas que buscam produzir o choque de realidade devem encontrar uma maneira diferente de produzir estes “retratos da realidade” em meio ao empacotamento midiático. Certamente estes filmes contribuem para um debate aguçado sobre os descaminhos da sociedade brasileira e creio que isto é altamente positivo. Entretanto, há o perigo redutor do “choque de realidade”. Enquanto os “excluídos” têm uma hipervisibilidade midiática, existem poucas produções que colocam em pauta as vivências e agruras da classe média ou a retratação da própria favela em registros além do pancadão realista. Gostaria de ver mais enredos que apresentassem as nuances e as imaginações insólitas de cidades e pessoas que ainda estão por serem narradas. Quanto mais diversificada for a produção cinematográfica melhor, afinal também há novas produções de impacto e qualidade que não se enquadram neste viés do choque de realidade. Em alguns momentos você faz a distinção entre esses filmes e os do Cinema Novo, que também utilizavam muitas vezes a violência, imagens da miséria, mas de uma forma, digamos, mais “politizada”, distanciada, reflexiva, com proposta de uma utopia no horizonte, por exemplo. Esse tipo de proposta seria impossível no contexto contemporâneo (fim das utopias, individualismo, predomínio do espetáculo sobre a reflexão, etc.)? No meu entender, há certa continuidade entre estes filmes e os do Cinema Novo em relação à denúncia social. Mas os retratos do Brasil se fragmentaram, já não existe aquela obrigatoriedade de pensar o projeto nacional ou a consciência nacional, e há uma crise sobre os imaginários do futuro. Por outro lado, creio que há uma nova autoria em pauta. A favela é retratada também pelos próprios favelados, o lugar de onde se fala e em nome de quem se fala é um aspecto importante da produção contemporânea. Na literatura, quais seriam os expoentes dessa corrente realista? A propósito, gostaria também que comentasse a intervenção de Ferrez no affair do roubo do Rolex do Luciano Huck, escrevendo um texto na Folha de S. Paulo no qual se coloca no lugar dos assaltantes. Você cita também Paulo Lins, que produz um depoimento poderoso em Cidade de Deus, transformado em filme, mas também Marçal Aquino, que trabalha muito o gênero policial e é parceiro constante de Beto Brant, além de Patricia Melo, discípula de Rubem Fonseca, considerado o nosso mestre do gênero. O que aproxima esses escritores, e o que os afasta entre si?Não li o texto do Ferrez, mas li a carta do Luciano Huck. Compreendo seu desalento, simpatizo com sua aflição perante o absurdo de se perder uma vida por um mero objeto, mas o que não está explicitado na carta é o seu espanto de perceber que, mesmo sendo uma celebridade midiática, ele não está a salvo da violência corriqueira que nos assola cotidianamente. Quanto aos escritores mencionados, creio que Paulo Lins tem uma prosa variada que não se enquadra plenamente num gênero específico. Já Marçal Aquino e Patrícia Melo são mestres contemporâneos de uma literatura urbana, coloquial, cinematográfica, concisa, rápida e antenada aos imaginários atuais .Em seu texto, você comenta a polêmica surgida com Cidade de Deus, em especial a intervenção da Ivana Bentes e sua discussão sobre a “Estética e a Cosmética da Fome”, debate sobre as duas maneiras de representar a miséria, a favela e a violência, a de Fernando Meirelles e a do Cinema Novo. Desta vez, com Tropa de Elite, a discussão seguiu outro rumo, sobre se o filme seria fascista, de direita, ou nada disso - se apenas apresentaria um retrato sem retoques da realidade tratada. Como vê esse deslocamento de discussões? Tropa de Elite é narrado sob a perspectiva do comandante do Bope, o capitão Nascimento. Este personagem está à beira do colapso, tem ataques de pânico, possui uma incorruptível vontade de realizar sua missão, mas entrevê o mundo numa ótica simplificada e simplificadora. Não creio que a intenção do diretor tenha sido colocá-lo como um herói, mas revelar o terrível emparedamento destes policiais, a nossa hipocrisia em relação ao uso do poder policial, a brutalidade das circunstâncias e as bárbaras práticas de extermínio de ambos os policiais e os narcotraficantes. A opção de narrar a guerra sob a perspectiva do policial é brilhante e absolutamente necessária. Entretanto, mesmo levando em consideração o foco narrativo do personagem, a retratação dos estudantes de classe média, dos moradores da favela, da ação das ONGs me parece bastante redutora. É fundamental tecer a conexão entre o consumidor e a violência social provocada pelo consumo das drogas, mas por que não se questionou, em momento algum, a legalização das drogas? Por que no debate de sala de aula onde lêem Foucault e reclamam do assédio da polícia este tema não veio à tona? Não existem filmes que sejam “um retrato sem retoques da realidade tratada”. Existem opções estéticas e escolhas. Você entende que essas representações contemporâneas do real, sejam na fotografia, na literatura ou no cinema, tendem a ser progressistas, do ponto de vista político, ou ficam aquém, quando comparadas às manifestações de décadas anteriores? Estas manifestações são muito variadas entre si justamente porque não há uma ideologia em comum. O que nelas me parece central é a busca por um público amplo, o distanciamento tanto dos cânones letrados quanto do experimentalismo vanguardista. Como toda produção, as imagens e narrativas do choque da realidade mobilizam e também perdem seu poder de persuasão na medida em que envelhecem e são banalizadas pelo déjà vu. Mas o real e a realidade nos importam porque queremos ter algum agenciamento no mundo. Este agenciamento não tem mais o caráter abstrato e universalista das promessas do futuro modernista. Ele é ao mesmo tempo pontual e global; depende de políticas muito específicas e ao mesmo tempo de uma agenda de alcance global. Por exemplo, a nova visibilidade midiática dos “favelados”, “excluídos”, “marginalizados”, possui tanto uma dimensão política de agenciamento quanto também indica a lógica de circulação e do consumo da cultura do espetáculo. A questão é equacionar ambos. Sobretudo, a visibilidade midiática é parte essencial do novo espaço público contemporâneo.

não custa pensar a respeito

licença-paternidade no Brasil também deve ser ampliada?
De 5 para 15 dias em casa, ou mais
A senadora Patrícia Saboya, autora do projeto que ampliou a licença-maternidade para seis meses, prepara uma proposta para elevar a licença-paternidade de 5 para 15 dias.

Resultado da enquete:Sim> 72%Não> 28%bebê”

ELEONORA MENICUCCI PROFª. DO DEPTO. DE MEDICINA PREVENTIVA DA UNIFESP
Sou a favor da ampliação da licença-paternidade por considerar que o filho não é responsabilidade da mulher apenas, independentemente de seu estado civil. A participação do pai desde o momento do nascimento rompe com a norma patriarcal de que quem cuida de filho é a mulher - o que acarreta uma tripla jornada e uma grande carga de estresse para as mães. Além disso, a participação do homem é fundamental para melhor desenvolvimento afetivo, psíquico e social da criança e para a saúde mental da mulher, que se encontra fragilizada no momento do parto. Em caso de adoção, também é importante o envolvimento de ambos para uma boa construção da subjetividade do bebê. Penso, ainda, que 15 dias são insuficientes e o ideal seria, no mínimo, um mês. Claro que arcar com duas licenças representa um custo social grande para empresas e Estado, mas, no longo prazo, representa a diminuição de seqüelas psicossociais para a criança e um retorno social muito importante. Se quisermos mudar as relações de gênero em nossa sociedade e melhorar as relações entre pais e filhos, é necessário que se comece desde o início.
Aborto legal pode, sim, reduzir crime, diz economista

Professor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o economista Samuel Pessoa concorda com o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho: a liberação do aborto pode reduzir, anos mais tarde, a criminalidade. Em parceria com o economista Gabriel Hartung, Pessoa fez uma pesquisa com base em dados da Secretaria de Segurança de São Paulo e concluiu que os filhos de mães adolescentes ou de famílias desestruturadas têm maior probabilidade de serem criminosos. O estudo causou discussão com demógrafos. Mas Pessoa não foge da polêmica nem teme ficar conhecido como 'economista de direita'. 'Acho que estou ficando um reacionário incorrigível', brincou, em entrevista ao Estado:Na semana passada, o governador Sérgio Cabral disse que a legalização do aborto poderia reduzir a violência e chamou de 'fábricas de marginais' redutos de pobreza. O que o senhor acha disso?Pesquisas feitas em países tão diferentes como Estados Unidos e Romênia demonstram com sólida evidência empírica que a prática do aborto legal reduz, anos à frente, a criminalidade. Estudos feitos por mim e por Gabriel Hartung, com dados retirados dos 536 municípios de São Paulo entre 1999 e 2001, mostram que havia alta correlação entre crimes contra o patrimônio (furto e roubo) e baixas taxas de crescimento econômico e altos índices de desemprego. Verificamos, porém, que, no caso dos homicídios, a questão econômica não os explicava. Havia uma discrepância muito grande entre cidades com perfil econômico parecido. Aí recuamos 20 anos, com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, feita pelo IBGE), e constatamos que entre jovens nascidos lá atrás, filhos de mães adolescentes ou de famílias monoparentais (sem o pai, sem a mãe ou sem ambos), é muito alta a presença de criminosos que cometeram homicídios. Nesse sentido, a pesquisa corrobora o que Steven Levitt (autor do livro 'Freakonomics') demonstrou em relação ao tema nos EUA. Se a natalidade fosse menor entre adolescentes e famílias desestruturadas no Brasil, há 20 anos, hoje provavelmente teríamos menos crimes.O Rio tem pouco mais de 1 milhão de favelados. Estima-se que, desses, 400 mil têm de 15 a 25 anos - faixa etária que concentra a imensa maioria dos que cometem crimes e dos que são vítimas deles. Num cálculo certamente exagerado, digamos que 10% deles estejam envolvidos com o crime. São 40 mil. Significa que outros 360 mil não estão na criminalidade. Ou seja, em condições econômicas e sociais semelhantes, há mais gente fora do crime do que no crime. Como sustentar, neste caso, que o aborto seria um método eficaz?Essa pergunta é hiperpertinente. É o ponto dos demógrafos nas críticas que fizeram à minha pesquisa. Há dois indicadores importantes: taxa de homicídios por 100 mil habitantes e a porcentagem de filhos de mães adolescentes e de famílias desestruturadas. O que se procura mostrar é a correlação entre esses dois indicadores. O próximo passo será dizer, então, que essas crianças nascidas nestas condições vão ser criminosos 20 anos depois? Não é um passo muito grande supor isso? Minha resposta é: estou dando um passo grande e temerário demais e os demógrafos têm todos os motivos para ficarem incomodados. Mas, admitindo isso, acrescento o dado de um levantamento que estou fazendo agora. Entre internos da Febem do Espírito Santo quase 100% são filhos de famílias monoparentais (desestruturadas). Quando se compara, com base em dados da PNAD, esses internos com jovens da mesma faixa de renda, da mesma classe social no Espírito Santo, que não estão envolvidos com crimes, o número dos que provêm de famílias desestruturadas é muitíssimo menor.De toda a forma, se o aborto tivesse sido legalizado há 20 anos - para ficar só na hipótese do Rio -, isso evitaria o nascimento de mais gente que não é criminosa do que de criminosos. Ou seja, não se reforça a idéia de um determinismo social ou estigmatização da pobreza?Nesta conta hipotética é importante que se diga que os 40 mil que supostamente estão no crime vão matar sobretudo alguns dos 360 mil que não estão no crime e vão se matar entre si. E, numa escala muito menor, vão matar pessoas de classe média ou ricas. Entender o fenômeno com base em indicadores como o que mede os nascidos em famílias desestruturadas ou são filhos de mães adolescentes é proteger os pobres, é melhorar as condições de vida deles. Quem sofre mais com a violência são moradores de favelas, não nós, do asfalto.O sr. acredita que mães adolescentes ou famílias desestruturadas são culpadas pela violência?Essa é uma das reações dos demógrafos. É uma interpretação deles. Nosso trabalho é econométrico. Não apontamos culpados. Mas acho que, quando Sérgio Cabral diz que a taxa de fecundidade na favela é cinco vezes maior do que a registrada na Lagoa Rodrigo de Freitas (zona sul do Rio) e isso explica por que há mais violência na favela, acho que está certo. Quero dizer com isso que as escolhas feitas pelos mais pobres explicam de alguma forma o fenômeno.Quem é: Samuel PessoaSamuel Pessoa: pesquisador da FGVProfessor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio VargasEm parceria com o economista Gabriel Hartung, fez uma pesquisa com base em dados da Secretaria de Segurança de São Paulo e da PNADO trabalho corroborou conclusões de Steven Levitt, autor de Freakonomics, sobre a relação entre crime e aborto legal

não se prevê o futuro - aprendam

Filho de banco de esperma busca o pai

Usando nada mais que um swab (haste para coleta de materiais) com saliva e a internet, um rapaz de 15 anos rastreou seu anônimo pai doador de esperma, segundo detalhes divulgados na revista britânica New Scientist. Ao enviar um swab com amostra retirada de dentro da sua bochecha para testes genéticos, o adolescente usou sites de pesquisa genealógica para rastrear seu pai ao procurar por um homem com cromossomo Y compatível, pois esse é transmitido pela linhagem masculina.Esse trabalho detetivesco terá implicações importantes para homens que doaram o esperma na condição de anonimato e esperam que sua identidade permaneça secreta. A notícia deve causar um aumento das tentativas de outros filhos de doadores de achar os pais genéticos.
A habilidade do rapaz em usar dados de testes genéticos publicamente disponíveis e mecanismos de busca na internet sugere que as autoridades policiais poderiam fazer o mesmo para obter o sobrenome de suspeitos potenciais com amostras de DNA coletadas na cena do crime.
O rapaz enviou a amostra de saliva no fim do ano passado para um serviço online de genealogia por testes de DNA denominado FamilyTreeDNA.com. Por uma taxa de US$ 289, pôs seu código genético disponível para buscas de outros membros do site. Embora seu pai genético nunca tivesse fornecido seu DNA ao site, nove meses depois o rapaz foi contatado por dois homens que estavam na base de dados e cujos cromossomos Y batiam com o seu. Os dois homens não se conheciam, mas compartilhavam o sobrenome, ainda que com grafia diferente, e a similaridade genética de seus cromossomos Y sugeria que havia uma chance de 50% de que os dois e o rapaz compartilhassem o mesmo pai, avô ou bisavô.
O sobrenome era a chave de que o rapaz precisava. Sua mãe tomara conhecimento da data e local de nascimento e do curso que o doador havia feito na faculdade, apesar de seu nome ter permanecido em segredo. Com essas informações, o rapaz recorreu a outro serviço de internet, Omnitrace.com, e conseguiu informações sobre todos que nasceram no mesmo lugar e na mesma data que o pai. Só um homem tinha o sobrenome que ele obtivera anteriormente e dez dias depois o adolescente fez contato, amigavelmente, com seu pai genético.
"Esta é a primeira vez em que fico sabendo que isso foi feito", diz Bryan Sikes, geneticista da Universidade de Oxford e presidente da OxfordAncestors.com, que oferece testes genéticos para pesquisas de ancestralidade. "Há 15 anos, quando o pai doou o esperma, ninguém poderia ter imaginado que isso seria possível." A notícia deve causar inquietação a quem doou esperma em países onde o anonimato ainda é comum, como os EUA. "Os bancos recrutam doadores e lhes prometem anonimato. Não creio que essa promessa será válida agora", diz Wendy Kramer, do DonorSiblingRegistry.com, serviço via internet que promove encontro de crianças com seus irmãos.

complementando a notícia

O maior desperdício brasileiro é o desperdício de talentos -uma parte deles, além de não produzir nada, ainda vai para o crime. De acordo com as estatísticas do seminário, devem existir no Brasil 5% de pessoas com potencial para altas habilidades -os tais superdotados. Deixe-me traduzir: temos atualmente 60 milhões de crianças e adolescentes, o que significaria que 3 milhões seriam notáveis cantores, médicos, engenheiros, artistas plásticos -e por aí vai. Seus talentos não despertam porque esses jovens não têm estímulo nem na escola nem na família -a maioria deles acaba se acomodando numa vida medíocre. Há projetos brasileiros, como o Ismart, que caçam talentos entre os mais pobres, matriculando-os nas melhores escolas privadas. Os jovens conseguem rapidamente recuperar o tempo perdido e encontrar uma vocação. Vemos como conseguem brilhar, como se abrissem a janela de um quarto escuro. Mas o que acontece ao superdotado se estiver num ambiente que convida seu espírito empreendedor e sua inteligência não para tocar em concertos, pintar quadros, fazer neurocirurgias, mas para entrar na indústria do crime?

Por qualquer número que se examine -jovens nas periferia, taxa de escolaridade ou de emprego-, vê-se a brutal dimensão da marginalidade. Temos 7 milhões de jovens que nem estudam nem trabalham. Segundo as estatísticas, entre eles, teríamos 350 mil supertalentosos. O pior é que, para muito deles, como alertou Giovani, o talento é mais uma fonte de ressentimento, porque são chamados de burros na escola ou pela família. Sua inteligência é, todavia, aceita nas quadrilhas que exigem destreza. É claro que essas histórias sempre acabam mal.

Em se tratando de violência, a discussão mais relevante não é a legalização das drogas, mas a abertura de mais espaços para os jovens a fim de que tenham perspectiva e, assim, possam apostar no futuro. Um país que joga fora quase 3 milhões de seres altamente talentosos só pode ter uma droga de elite.



28.10.07


Se virou consenso a afirmação de que o diferencial não só das empresas mas dos países é seu capital humano, a perda de talentos é o mais terrível aborto brasileiro, no qual se eliminam candidatos a Caetano Veloso, Chico Buarque, Adib Jatene, Oscar Niemeyer ou Paulo Autran. Em seu lugar, é mais provável que nasçam tipos como Marcola. Essa troca faz com que o governador Sérgio Cabral tenha uma dose de razão: a falta de planejamento familiar não é, nem de longe, a principal razão da violência (assim como também não é a droga), mas é uma contribuição na produção das "fábricas de marginais".