segunda-feira, 26 de novembro de 2007

opinião - Estadão

Por que educação é a tragédia nacional

“Com um ensino primário rudimentaríssimo e um ensino secundário positivamente falho, nada possuímos que, de longe, se assemelhe a um centro de cultura superior. Como conseqüência inevitável, aí está o espetáculo profundamente contristador, que oferecemos, de um país que caminha às tontas, sem norte, ao sabor do primeiro semi-analfabeto que se aposse do governo supremo da República e a exaurir-se em intermináveis disputas puramente verbais, nos congressos, na imprensa, nas escolas, nas reuniões públicas ou particulares. É a anarquia mental a imperar infrene, de norte a sul do Brasil, e a favorecer tanto a demagogia dos agitadores profissionais como as ousadias dos dominadores do momento.”Não, caro leitor, o texto acima não foi escrito recentemente, apesar de sua impressionante (e profética) atualidade. Foi escrito há 82 anos, em 1925, e está no livro A Crise Nacional (pág. 85), de autoria do jornalista e educador Julio de Mesquita Filho. Nos últimos tempos não tem havido governo que deixe de estabelecer a educação como sua “meta prioritária”. Mas a qualidade da educação brasileira, segundo todos os índices e pesquisas nacionais ou internacionais que se utilizem para a avaliar, é cada vez mais vergonhosa, constituindo, sem sombra de dúvida, a maior das tragédias nacionais. E nem seria preciso o uso de pesquisas para comprovar o que é cada vez mais visível a olho nu, no convívio de dia-a-dia com profissionais de várias categorias e prestadores de diversos serviços: o analfabetismo funcional crônico da imensa maioria da população brasileira, incapaz de entender uma informação ou um raciocínio contidos num texto, mesmo que já tenha aprendido a soletrá-lo.As alardeadas “prioridades” governamentais conferidas à educação se esgotam nos demagógicos discursos políticos, jamais se concretizando em ações reais, consistentes, transformadoras, que façam reverter a disparidade colossal entre o que aprendem os jovens no Brasil e o que aprendem os jovens nos outros países, especialmente os desenvolvidos. Por outro lado, as discussões que se travam nessa área se esgotam na repetição de clichês, falácias e mitos. O economista e pesquisador Gustavo Ioschpe, especializado em educação, já apontou (e desmontou) quatro mitos que impedem a melhoria de nossa qualidade de ensino: o de que o salário do professor brasileiro é baixo, o de que (em conseqüência) a educação no Brasil só será melhor quando os professores ganharem mais, o da falta de investimento em educação e o da excelência do ensino nas escolas particulares (de primeiro e segundo graus). Ele chegou a conclusões contrárias a tais “enunciados”, baseando-se em dados do MEC e de entidades internacionais, como Unesco e OCDE (entidade de europeus e norte-americanos). E concluiu que a má educação no Brasil tem por causas principais a má formação do professor e a má gestão dos recursos alocados para o setor.Mas existe um outro mito, que é o do “professor coitadinho”. Houve tempo em que até se via nos carros o adesivo com a frase “hei de vencer, apesar de ser professor”. Os jovens repórteres que vão cobrir problemas nas escolas - como greves, ocupações, tumultos ou bagunças - costumam começar suas indagações com a questão da má remuneração dos professores, o que não deixa de ser uma falácia. Há algo muito mais vergonhoso de que pouco se trata: o absenteísmo docente nas escolas públicas. Tome-se o exemplo da rede estadual de ensino em São Paulo, composta de 240 mil professores. Em 2006 o índice de falta desses professores foi de 12,8%. A média de ausência por professor foi de 32 dias, sem contar o direito de férias e o recesso escolar, que totalizam 45 dias. O governo calcula o prejuízo total de R$ 340 milhões por ano, gastos em aulas não oferecidas (mas pagas) e contratação eventual de professores substitutos. Vejamos agora: um ano letivo tem 210 dias. Um hipotético professor, com faltas abonadas (permitidas sem justificativa), com moléstia “transmissível” (gripe?), transmitida à família, e mais outras justificativas (até razoáveis) para faltar, munido de atestados médicos, no limite, pode comparecer à escola só 27 dias no ano, sem prejuízo de salário! Mas ele jamais faltará às aulas que dá em escola privada, para “complemento de salário”, porque, se o fizer, de lá será demitido.Quanto à má gestão dos recursos alocados para a educação, a Rede Globo fez recentemente uma arrasadora reportagem mostrando os muitos milhões que vão para os pequenos municípios, como verbas para a educação, e as condições abjetas, nojentas, de grande parte das escolas que as recebem pelo País afora. Parece não haver controle algum do que os prefeitos fazem com o dinheiro federal. Mas justiça se faça: no campo da educação o governo Lula não é tão pior do que os seus antecessores. É só um pouco mais ruim. Os piores de todos foram os governos militares, os responsáveis pelo rebaixamento da qualidade de ensino no País, ao permitirem, entre outras coisas, a proliferação das arapucas argentárias no ensino “superior”, para se livrarem do problema dos “excedentes”. Mas os governos da ditadura pelo menos tiveram a honestidade de nunca declarar a educação como “meta prioritária”. Naquele tempo, o Ministério da Educação era para onde iam os que estavam sobrando na política.O problema é que, em vez de se indignar com a tragédia, que defasa o País do mundo, a sociedade brasileira parece que já se acostumou com ela e é até capaz de curti-la, como comédia! Prova disso é que dá muitas risadas com as listas de imbecilidades escolares que Jô Soares de vez em quando apresenta em seu divertido programa.

Marco Auréilio Nogueira

opinião - gilberto dimenstein

Poesia concreta

A volta aos estudos trouxe-lhe o prazer da poesia e um projeto profissional. Agora, João quer chegar à faculdade

EM 2004, aos 42 anos de idade, João Jesus Santos, que ainda não tinha sequer diploma do ensino fundamental, decidiu voltar para a escola. O que o impulsionou a retomar os estudos foi um único objetivo: conseguir escrever poesias. A súbita decisão ocorreu no Bar do Zé Batidão, no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, quando viu, pela primeira vez, um sarau. "Não conhecia nem mesmo a palavra sarau." O que entusiasmou João Santos foi tomar contato, no Bar do Zé Batidão, com uma tribo paulistana - os poetas da periferia, reunidos sob a sigla Cooperifa, de Cooperativa Cultural da Periferia. "Senti muita emoção ao ver pessoas que conheci na infância declamando com tanto entusiasmo." João tinha interrompido os estudos na sétima série para trabalhar. "Passei a ganhar meu dinheiro. Diversão, para mim, era só barzinho e salão de festa." A poesia levou-o a caminhos inesperados e envolveu toda a sua família.
Cerca de 300 pessoas se reúnem nas noites de quarta-feira no Bar do Zé Batidão, onde João Jesus conheceu os mais diversos personagens encantados pela poesia - uma galeria que vai dos repentistas nordestinos aos rappers, passando por sambistas e pagodeiros. "Somos uma espécie de quilombo cultural", define Sérgio Vaz, um dos idealizadores da Cooperifa. De lá se espalharam saraus em diversos pontos da periferia. Logo João estaria lendo Carlos Drummond de Andrade e, num caderninho, começou a rabiscar poesias. A primeira delas começa assim: "Se eu pudesse contar as estrelas do céu/ Ou medir a imensidão do mar/ Podia dizer com certeza o tempo que irei te amar."
O entusiasmo de João pelas letras atraiu o interesse dos filhos. "Eles ficaram curiosos em ler minhas poesias. De repente, toda a minha família estava influenciada pela poesia." Seu projeto é lançar um livro com suas poesias, todas românticas. Antes do livro, porém, já conseguiu tirar uma obra do papel. Da poesia, nasceu algo concreto. Inspirado na animação do Bar do Zé Batidão, ele criou um centro cultural em M" Boi Mirim, bairro da zona sul de São Paulo, com aulas de violão, música, esporte, artesanato - e, é claro, poesias. Até o final do ano, deve surgir ali um telecentro, afinal eles já conseguiram a doação de dez computadores.
A volta aos estudos trouxe-lhe o prazer da poesia e um projeto profissional. Agora que concluiu, num supletivo, o ensino fundamental, ele quer chegar à faculdade para se dedicar ao direito. E, para isso, buscou inspiração em Castro Alves, um de seus poetas favoritos, ex-aluno do Largo São Francisco. "O que aprendi, de verdade, com a poesia foi a sonhar."
gdimen@uol.com.br

Artigo de opinião

Educação por dinheiro

Um leitor, certa vez, contestou meu costume de repetir à exaustão que considero o ato de educar tarefa bastante árdua. Pediatra, ele disse que esse conceito poderia deixar pais e professores intimidados com sua função educativa e, dessa maneira, inibir ainda mais suas já tímidas atuações. Devo dizer que dialoguei com essa oposição por muito tempo. Será que apontar um trabalho como árduo poderia fazer as pessoas desistirem dele em vez de o tomarem como desafio? Ainda não me convenci de que não é produtivo dizer aos pais e professores que educar é tarefa árdua, pois ela o é. Podemos constatar, entretanto, que os educadores, de um modo geral, não acreditam que os mais novos possam criar um desafio frente a exigências rigorosas. Foi nisso que pensei quando li recentemente uma notícia sobre alunos de uma faculdade paulista que receberam a promessa de um prêmio econômico em troca do comparecimento e de boas notas no Enade. Não fiquei muito espantada com o fato, para falar a verdade. Já faz tempo que tenho conhecimento da oferta de pequenos prêmios a universitários em troca de sua dedicação aos estudos. Uma professora, por exemplo, contou que leva bombom de chocolate para dar aos alunos que fizerem os exercícios propostos em aula; outra tem levado pastilhas aos alunos que ficam com sono e dormem durante a exibição de vídeos da matéria que leciona. Por que a oferta de prêmio em dinheiro seria diferente disso? O fato é que essa prática pode evidenciar que não estamos convencidos de que os mais novos queiram, possam e devam empregar altas doses de esforço e energia a não ser em algo que lhes dê prazer imediato. Não temos convicção de que eles possam descobrir algum prazer no trajeto da empreitada. Não admitimos que eles tenham condição para tanto. Pode ser que a adoção dessa prática nada tenha a ver com crianças e jovens, mas com os próprios educadores. Talvez eles não acreditem na potência do ato educativo, não confiem em sua capacidade de mediar positivamente a relação de quem aprende com a aprendizagem, não se vejam capazes de provocar desafios. De qualquer modo, deixamos de exigir dos mais novos e passamos a querer comprar suas atitudes. Pais e professores fazem o mesmo, com filhos e alunos de todas as idades, não apenas os universitários. Vamos fazer uma breve retrospectiva: pais cujos filhos estão próximos do exame vestibular oferecem prêmios -não raro um carro ou uma viagem ao exterior- para que eles se dediquem aos estudos e entrem numa boa faculdade. Filhos menores sempre podem ganhar um dinheirinho ou um presente para dar conta de obrigações familiares e/ou domésticas, como levar o cachorro para passear ou arrumar a cama. Crianças na primeira infância recebem prêmios por "bom comportamento" etc. Há uma semana falamos sobre atos entre crianças que, no mundo adulto, chamamos de corrupção. Nesse caso, fazem falta a educação e o acompanhamento. Hoje, tratamos de adultos que corrompem os mais novos com ofertas materiais em troca de determinação, dedicação e esforço. Seria falta de quê, neste caso?
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Ex-ministro quer filho de político na rede pública


O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou projeto que impede parlamentares, prefeitos, governadores e presidente da República de matricularem seus filhos em escolas particulares durante a educação básica.Quem tem cargo eletivo seria obrigado a colocar filhos e demais dependentes em escolas públicas a partir de 2014. A punição para quem descumprir a regra não está prevista, mas Cristovam disse que para os parlamentares federais poderia ser considerado quebra de decoro.Ele disse que não estudou nem colocou seus filhos em escolas públicas, mas justificou que na época não era parlamentar.Para o pedetista, com os filhos de políticos na escola pública, haverá melhoria na educação gratuita. Em discussão na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, o projeto recebeu parecer contrário do senador Romeu Tuma (PTB-SP) porque prejudicaria as particulares ao excluir delas "os filhos de mais de 60 mil famílias". Como Tuma não pertence mais a CCJ, o projeto terá novo relator.
A cor da consciência

A consciência negra é comemorada hoje em muitas cidades brasileiras. Seu significado é o de dizer que a raiz do preconceito e da discriminação está na imposição duradoura de uma cultura excludente e intolerante. O anti-racismo tem diferentes respostas para o que deve ser a consciência negra. O fomento da cultura negra pode significar uma polarização política intransigente com a cultura dominante para se colocar em bloco como alternativa a ela. Como pode significar que a disputa é para transformar essa cultura dominante de tal maneira que ela seja obrigada a reconhecer e incluir negras e negros como protagonistas da história brasileira. Os argumentos das duas posições são convincentes. Para combater uma cultura secular de exclusão pode ser que não haja outro caminho senão o confronto em bloco. Como pode ser possível que haja espaço para impor o reconhecimento e a tolerância como critérios fundamentais de uma cultura compartilhada. É uma decisão política estratégica optar por um caminho ou por outro. Em qualquer dos casos, o decisivo é a definição do que significa ser negro no Brasil. E cada posição propõe uma visão diferente do que seja a identidade negra. O importante nessa discussão é que não se parta de definições prévias. Cabe aos próprios agentes desse processo encontrar as suas respostas e a maneira de fazê-las valer na discussão pública e na ação política. Um instrumento importante para isso é o direito. Traduzir a consciência negra em direitos reconhecidos faz das normas jurídicas plataformas para transformações sociais. Mas, se a aprovação de novas leis é um importante começo, fazê-las valer é um processo longo e complexo. Também os tribunais são um espaço de disputa pelo sentido da lei. A aplicação de uma norma não é evidente por si mesma. Como também não são óbvias e previsíveis as interpretações que surgirão do debate público e da disputa política. Por isso mesmo é desejável que as leis atualmente em debate, principalmente o Estatuto da Igualdade Racial, procurem deixar o máximo possível aberta a definição da identidade negra. Quanto mais limitados os parâmetros legais, tanto mais estreitas as opções para as disputas políticas que se iniciam com a aprovação de uma lei. E tanto mais estreito o espaço para que essa identidade seja construída pelos agentes, tanto mais estreito o espaço para interpretações inovadoras e imprevistas. Porque não apenas a consciência negra são muitas. Também o racismo a ser combatido tem sempre muitas e novas caras.
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras na Folha.