Uma ponte perdida
Poucos escândalos produzem boas imagens. O da Operação Navalha foi generoso. Aquela foto da ponte ligando o nada a coisa nenhuma é muito forte. A cinzenta estrutura perdida na paisagem é a metáfora do sistema político brasileiro. O tipo de crise que vivemos comporta uma CPI. Mas não se esgota nela. É preciso rever tudo, reformar o sistema, ou então voltar para a casa. Não dá mais para fazer o Orçamento desse jeito. Nem para executá-lo assim. Não dá para construir maiorias fisiológicas. Não dá para manter o jogo eleitoral, para conviver com partidos sem alma. São incontáveis os erros e, agora, acumulados, nos levam ao impasse profundo. Vivemos bons tempos na economia. Muitos preferem deixar os políticos mergulhados na sua irrelevância. Mas, se as coisas continuarem assim -bonança econômica, indiferença política-, o resultado será ainda pior. Há uma contradição que não permite mais que se enterre a cabeça na areia. E isso vale para políticos e não-políticos. Não só a tecnologia mas as instituições que reprimem a corrupção avançaram. Ocupação das estatais pelos partidos e a influência das empreiteiras sobre o Orçamento vão produzir um grande escândalo por semestre. Muitos dizem: o povo não se importa; mostrou nas últimas eleições que perdoou os escândalos. Mas quem garante que esquecerá sempre com a memória refrescada de tempos em tempos? Quem garante que perdoará sempre diante da repetição dos erros? Quem se dispõe a trabalhar quase cinco meses por ano para manter um aparato estatal que lhe devolve tão pouco? A única hipótese improvável é a de que as coisas não se movam. Ou o sistema se reforma ou terá de inibir o crescimento das instituições de controle, mídia inclusive, obrigando-as a uma regressão. Não se pode descartar a hipótese de que as coisas andem para trás. Nesse caso, a própria fluidez da economia será ameaçada; as relações internacionais marcadas pelo desconforto. A conclusão não é a de que teremos um avanço linear. Idas e vindas podem se suceder, momentos de desânimo vão surgir de novo. O ciclo de assalto ao Estado dá mostras de esgotamento. Supor que é verdadeira a frase "o Brasil não tem jeito" é supor uma rigidez letal . Mesmo entre os 2 milhões que se lançaram no mundo, em busca de melhores oportunidades, há esperança. Os ciclos aqui são longos, feitos quase que exclusivamente para corredores de fundo.
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