Balas perdidas têm remetente
Com tanto projétil sem transponder a cortar o ar por aqui, costumo brincar com os colegas de São Paulo dizendo que participo das reuniões de pauta, via teleconferência, instalado embaixo da mesa. Exagero? Nem tanto. Anteontem, por muito pouco não esbarrei num baleado no corredor do prédio onde moro.Explico: um baterista nada inspirado impedia, na vizinhança, que minha filha de seis meses pegasse no sono. Fui embalá-la no corredor do edifício e dei de cara com um PM, pistola prateada na mão, levando algemado um sujeito com a camisa toda ensangüentada. O estrangeiro alugou apartamento por temporada em Ipanema, se meteu em confusão, foi ferido e acabou preso onde eu ninava a pequenina e sorridente Julia.O carioca, que costuma expressar indignação com bom humor, incorporou balas perdidas ao vocabulário. Lulu Santos, ao vivo, deixou de se sentir "uma mola encolhida", trocada pela expressão de rima óbvia e mais atual em "Toda Forma de Amor". Uma garota da turma de outro filho -este adolescente-, de tão disponível nas baladas, ganhou apelido: chamam-na de "Bala Perdida". Depois de várias tragédias no início do ano, o Estado resolveu contar as balas que acha. No primeiro mês, deu uma por dia. Para o próximo levantamento oficial, vão no pacote mais de 30 casos só em uma semana de conflitos na Penha.Reconhecer os casos facilita indenizações, mas não resolve o problema. Sabe-se onde as balas ferem, falta descobrir o momento em que se desviam até lá. Seria interessante refazer o caminho das balas perdidas. A trajetória terá mesma imprecisão com que são disparadas. A quantidade de vezes em que o ricochete de volta apontará, como origem, alguma fonte oficial aqui ou além-fronteiras, vai empurrar todos para embaixo das mesas.
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