Ondas perigosas
NÃO BASTASSE a crise estrutural por que passa o setor aéreo no Brasil, pilotos e controladores de vôo ainda têm de lidar com constantes interferências no sistema de comunicações provocadas por rádios comunitárias e piratas.
Anteontem, os aeroportos de Congonhas e Guarulhos, os dois mais movimentados do país, tiveram de suspender suas operações de pouso e decolagem por seis minutos. Zunidos, pregações religiosas, canções populares sobrepunham-se às instruções da torre para os aviões.
O problema, que já provoca "apagões" em média duas vezes por semana, vem crescendo nos últimos meses. De acordo com o Serviço Regional de Proteção ao Vôo de São Paulo, o número de interferências saltou de 32 em janeiro de 2006 para 171 até as 11h do último dia 29.
Esse tipo de ocorrência não significa uma grave e iminente ameaça à aviação. Além de os pilotos terem várias freqüências de rádio à sua disposição, existem sistemas redundantes de proteção ao vôo. Ainda assim, é inegável que a má qualidade da recepção radiofônica e ser obrigado a procurar freqüências alternativas representam um estresse adicional a pilotos e controladores. Quando se efetuam mais de mil operações por dia, como é o caso do controle de São Paulo, toda dificuldade extra se traduz em mais atrasos e insegurança.
É necessário, portanto, resolver de vez esse problema, pondo um fim às interferências, mesmo que isso implique o fechamento de rádios que operam sem licença. Não se trata, como ocorreu no passado, de cercear a liberdade de expressão, mas apenas de disciplinar a utilização do espectro eletromagnético, que tem limitações físicas, em claro benefício da segurança do público.
Os representantes de rádios comunitárias têm razões para reclamar da forma como são distribuídas as concessões. Podem fazê-lo sem criar mais empecilhos ao conturbado setor aéreo.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
quarta-feira, 30 de maio de 2007
complementando a notícia
É hora de discutir sexualidade
MEC inclui educação sexual nas escolas com projetos de formação e orientação
Em parceria com a Unesco, o Ministério da Educação colocou em prática este ano nas escolas públicas dois projetos de educação sexual: um leva palestras e programas aos jovens de norte a sul do País e o outro dá formação aos professores. Um estudo divulgado em fevereiro pelo Ministério da Saúde, que entrevistou 102 mil estudantes de 13 a 24 anos em todo o País, revela a urgência de medidas como essa: 45% dos jovens que eram portadores do HIV foram contaminados durante relações sexuais sem preservativo. “Isso é falta de orientação e a escola tem papel fundamental nisso”, afirma a coordenadora do projeto, Lorena Bernadete da Silva. A pesquisa revelou, ainda, que 44,7% dos entrevistados têm vida sexual ativa a partir dos 15 anos. Ângela Soligo, professora da faculdade de Educação da Unicamp, ressalta que, para os projetos do MEC serem eficientes, é necessário mais que tratar as questões biológicas. “Hoje, quando se fala em sexualidade, logo se pensa no corpo humano. É preciso se preocupar também com fatores como as transformações que os adolescentes vivenciam, as emoções e os conflitos.”O diretor Antonio Gonçalves Portella, da Escola Estadual Jardim Brasília, na Zona Norte, acha importante palestras de prevenção e defende que os pais sejam consultados. “A parceria escola e pais é essencial para a o jovem ser melhor orientado.”Entre as atividades do projeto de capacitação de professores está um curso semipresencial de Gênero e Diversidade na Escola, que começou no início do ano letivo. Segundo a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, o objetivo é oferecer aos docentes elementos para mudar as práticas de ensino. “Com a formação, os profissionais terão instrumentos para refletir e conviver com atitudes e comportamentos que envolvam a sexualidade”, explica.Angela Soligo acredita que a formação do professor é o passo principal para iniciar o trabalho de educação sexual. “O educador precisa ser qualificado para debater e dialogar com os alunos, entender seus anseios e necessidades. Para mim, esse é um assunto interdisciplinar.”O professor Rogério de Paulo, que leciona de 1ª a 4ª série na Escola Estadual Marina Cintra, no Centro, concorda. “O professor pode e deve ajudar na formação sexual, independentemente da disciplina. Ele pode ficar atento aos assuntos e englobar o tema em diversas disciplinas. Não é um assunto só para a aula de ciências.” SAIBA MAIS1.054 professores de 5ª a 8ª participaram da formação do MEC85% dos professores e 60% dos alunos acham que sua escola deve ter educação sexual
MEC inclui educação sexual nas escolas com projetos de formação e orientação
Em parceria com a Unesco, o Ministério da Educação colocou em prática este ano nas escolas públicas dois projetos de educação sexual: um leva palestras e programas aos jovens de norte a sul do País e o outro dá formação aos professores. Um estudo divulgado em fevereiro pelo Ministério da Saúde, que entrevistou 102 mil estudantes de 13 a 24 anos em todo o País, revela a urgência de medidas como essa: 45% dos jovens que eram portadores do HIV foram contaminados durante relações sexuais sem preservativo. “Isso é falta de orientação e a escola tem papel fundamental nisso”, afirma a coordenadora do projeto, Lorena Bernadete da Silva. A pesquisa revelou, ainda, que 44,7% dos entrevistados têm vida sexual ativa a partir dos 15 anos. Ângela Soligo, professora da faculdade de Educação da Unicamp, ressalta que, para os projetos do MEC serem eficientes, é necessário mais que tratar as questões biológicas. “Hoje, quando se fala em sexualidade, logo se pensa no corpo humano. É preciso se preocupar também com fatores como as transformações que os adolescentes vivenciam, as emoções e os conflitos.”O diretor Antonio Gonçalves Portella, da Escola Estadual Jardim Brasília, na Zona Norte, acha importante palestras de prevenção e defende que os pais sejam consultados. “A parceria escola e pais é essencial para a o jovem ser melhor orientado.”Entre as atividades do projeto de capacitação de professores está um curso semipresencial de Gênero e Diversidade na Escola, que começou no início do ano letivo. Segundo a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, o objetivo é oferecer aos docentes elementos para mudar as práticas de ensino. “Com a formação, os profissionais terão instrumentos para refletir e conviver com atitudes e comportamentos que envolvam a sexualidade”, explica.Angela Soligo acredita que a formação do professor é o passo principal para iniciar o trabalho de educação sexual. “O educador precisa ser qualificado para debater e dialogar com os alunos, entender seus anseios e necessidades. Para mim, esse é um assunto interdisciplinar.”O professor Rogério de Paulo, que leciona de 1ª a 4ª série na Escola Estadual Marina Cintra, no Centro, concorda. “O professor pode e deve ajudar na formação sexual, independentemente da disciplina. Ele pode ficar atento aos assuntos e englobar o tema em diversas disciplinas. Não é um assunto só para a aula de ciências.” SAIBA MAIS1.054 professores de 5ª a 8ª participaram da formação do MEC85% dos professores e 60% dos alunos acham que sua escola deve ter educação sexual
complementando a notícia - planejamento familiar
Governo federal anuncia anticoncepcional a R$ 0,40
Medida integra programa de planejamento familiar, anunciado ontem por LulaO plano inclui ainda tornar a vasectomia mais acessível; governo ainda não sabe estimar o custo de todas as medidas previstas no pacote
O governo prometeu ontem que vai ficar mais fácil evitar uma gravidez indesejada.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros José Gomes Temporão (Saúde) e Nilcéa Freire (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) anunciaram que a pílula anticoncepcional vai ficar até 90% mais barata nas farmácias cadastradas e que possuam o selo "Aqui tem farmácia popular". Devem custar entre R$ 0,30 e R$ 0,40 por cartela.Também disseram que os homens que optarem pela vasectomia (esterilização masculina) encontrarão mais facilidade. Até agora, a vasectomia era oferecida em hospitais públicos, com internação e fila de espera para a cirurgia.Quando o programa entrar em operação (o governo não anunciou datas), o interessado poderá agendar uma consulta no ambulatório, onde será feita a cirurgia -que não dura mais do que 30 minutos, segundo o Ministério da Saúde.Essas medidas fazem parte do programa de planejamento familiar e contra a mortalidade materna, que inclui a divulgação dos métodos anticoncepcionais nas escolas e nas TVs.Está previsto o aumento de 20 milhões para 50 milhões no número de cartelas de pílulas distribuídas gratuitamente e a abertura de linha de financiamento para melhorar o atendimento das maternidades.O governo, no entanto, ainda não sabe estimar o custo total do programa. Só a ampliação da distribuição gratuita de pílulas deverá custar R$ 100 milhões.Lula afirmou que as medidas têm caráter de reparação. "Em um segundo mandato, em um momento em que temos mais leveza para governar, sem o peso da reeleição, a gente pode fazer um governo com uma grande conotação de reparação das coisas que não fizemos no primeiro mandato", disse."Muitas vezes a gente disputa apenas a questão do montante de dinheiro, e muitas vezes a gente tem o dinheiro e não faz o montante das coisas certas que poderíamos fazer. Acho que agora não temos mais como não fazer as coisas que precisam ser feitas."Temporão classificou o atual estado das políticas contra a gravidez indesejada como "grave". "[Os métodos anticoncepcionais] não estão chegando na quantidade e com a regularidade necessária para que as famílias possam planejar quantos filhos querem ter."Lula e os ministros não estipularam prazos de implantação. A princípio, o governo arcará com a diferença entre o preço de fábrica da pílula e o valor pago pelo consumidor.Hoje, o governo já vende pílula subsidiada nas 311 farmácias do Estado. Agora, além do barateamento, a venda será estendida às farmácias privadas credenciadas, que até então só vendiam a preços subsidiados medicamentos contra a diabetes e a hipertensão.Para adquirir qualquer um desses itens é preciso apresentar CPF e receita médica. Não é preciso comprovante de renda.Três multinacionais -Schering do Brasil, Wyeth e Organon)- detêm 70% do mercado de anticoncepcionais no país.
Medida integra programa de planejamento familiar, anunciado ontem por LulaO plano inclui ainda tornar a vasectomia mais acessível; governo ainda não sabe estimar o custo de todas as medidas previstas no pacote
O governo prometeu ontem que vai ficar mais fácil evitar uma gravidez indesejada.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros José Gomes Temporão (Saúde) e Nilcéa Freire (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) anunciaram que a pílula anticoncepcional vai ficar até 90% mais barata nas farmácias cadastradas e que possuam o selo "Aqui tem farmácia popular". Devem custar entre R$ 0,30 e R$ 0,40 por cartela.Também disseram que os homens que optarem pela vasectomia (esterilização masculina) encontrarão mais facilidade. Até agora, a vasectomia era oferecida em hospitais públicos, com internação e fila de espera para a cirurgia.Quando o programa entrar em operação (o governo não anunciou datas), o interessado poderá agendar uma consulta no ambulatório, onde será feita a cirurgia -que não dura mais do que 30 minutos, segundo o Ministério da Saúde.Essas medidas fazem parte do programa de planejamento familiar e contra a mortalidade materna, que inclui a divulgação dos métodos anticoncepcionais nas escolas e nas TVs.Está previsto o aumento de 20 milhões para 50 milhões no número de cartelas de pílulas distribuídas gratuitamente e a abertura de linha de financiamento para melhorar o atendimento das maternidades.O governo, no entanto, ainda não sabe estimar o custo total do programa. Só a ampliação da distribuição gratuita de pílulas deverá custar R$ 100 milhões.Lula afirmou que as medidas têm caráter de reparação. "Em um segundo mandato, em um momento em que temos mais leveza para governar, sem o peso da reeleição, a gente pode fazer um governo com uma grande conotação de reparação das coisas que não fizemos no primeiro mandato", disse."Muitas vezes a gente disputa apenas a questão do montante de dinheiro, e muitas vezes a gente tem o dinheiro e não faz o montante das coisas certas que poderíamos fazer. Acho que agora não temos mais como não fazer as coisas que precisam ser feitas."Temporão classificou o atual estado das políticas contra a gravidez indesejada como "grave". "[Os métodos anticoncepcionais] não estão chegando na quantidade e com a regularidade necessária para que as famílias possam planejar quantos filhos querem ter."Lula e os ministros não estipularam prazos de implantação. A princípio, o governo arcará com a diferença entre o preço de fábrica da pílula e o valor pago pelo consumidor.Hoje, o governo já vende pílula subsidiada nas 311 farmácias do Estado. Agora, além do barateamento, a venda será estendida às farmácias privadas credenciadas, que até então só vendiam a preços subsidiados medicamentos contra a diabetes e a hipertensão.Para adquirir qualquer um desses itens é preciso apresentar CPF e receita médica. Não é preciso comprovante de renda.Três multinacionais -Schering do Brasil, Wyeth e Organon)- detêm 70% do mercado de anticoncepcionais no país.
terça-feira, 29 de maio de 2007
editorial de terça - complementando a notícia
Planejamento familiar
Programa que distribui mais contraceptivos é positivo, mas controle da gestão do sistema pela Saúde precisa melhorar
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ontem um novo programa de planejamento familiar que prevê, entre outras medidas, a venda de anticoncepcionais com 90% de desconto em farmácias credenciadas e o aumento da oferta de contraceptivos gratuitos em postos de saúde.A iniciativa é oportuna. O país talvez enfrentasse hoje menos problemas se tivesse sido mais atento ao problema demográfico no passado. Não parece despropositado relacionar a explosão da violência urbana, a favelização das grandes cidades e outros sintomas do mal-estar social brasileiro, que se acentuaram nos últimos 20 anos, à negligência pretérita das autoridades.A mentalidade dos militares, que pregavam no poder a ocupação dos vazios demográficos, foi, ao lado da posição histórica da Igreja Católica a respeito dos métodos contraceptivos, um poderoso inibidor de um debate que sem dúvida faltou ao país.Hoje, a ameaça de uma nova explosão populacional não se coloca, mas o planejamento ainda é importante por permitir que as pessoas exerçam sua sexualidade de forma responsável e sadia.As altas taxas de fecundidade da mulher brasileira caíram em ritmo quase sem paralelo no mundo. Em 1970, o índice era de 5,8 filhos por representante do sexo feminino. Em 1980, acompanhando o rápido processo de urbanização, caiu para 4,4 e, em 1991, o Censo registrou 2,7 descendentes por brasileira. Em 2000, a taxa já baixara para 2,4 e, em 2004, à marca dos 2,1 filhos por mulher, que é a taxa de reposição -isto é, crescimento zero.Mas há motivos para inquietação. Mulheres pobres e sem instrução ainda têm muito mais filhos do que as de maior renda e escolaridade. Este segue sendo um poderoso mecanismo de reprodução da miséria.A receita para combatê-lo é conhecida: informação e acesso aos meios contraceptivos. É justamente isso que o novo programa do Ministério da Saúde pretende proporcionar. Além da ampliação da oferta de métodos anticoncepcionais dentro e fora do SUS -um investimento orçado em R$ 100 milhões-, estão previstas campanhas sobre o tema.São passos importantes, mas insuficientes. É preciso -e com urgência- tornar a gestão do sistema mais eficaz. Estudo do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp), publicado em novembro de 2006, revela um quadro desolador. O ministério adquire kits com métodos anticoncepcionais e os envia às Secretarias Municipais de Saúde. Nessa primeira etapa, as coisas funcionam. Apenas 4% das secretarias deixaram de recebê-los.O problema piora no trânsito para as Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o usuário é atendido. A proporção de UBS que não recebem os contraceptivos sobe para 17%, e chega a 92% no caso de kits com métodos de aplicação mais sofisticada, como DIU e hormônio injetável.Sem melhorar a gestão, boas iniciativas serão comprometidas pelo desperdício de recursos.
Programa que distribui mais contraceptivos é positivo, mas controle da gestão do sistema pela Saúde precisa melhorar
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ontem um novo programa de planejamento familiar que prevê, entre outras medidas, a venda de anticoncepcionais com 90% de desconto em farmácias credenciadas e o aumento da oferta de contraceptivos gratuitos em postos de saúde.A iniciativa é oportuna. O país talvez enfrentasse hoje menos problemas se tivesse sido mais atento ao problema demográfico no passado. Não parece despropositado relacionar a explosão da violência urbana, a favelização das grandes cidades e outros sintomas do mal-estar social brasileiro, que se acentuaram nos últimos 20 anos, à negligência pretérita das autoridades.A mentalidade dos militares, que pregavam no poder a ocupação dos vazios demográficos, foi, ao lado da posição histórica da Igreja Católica a respeito dos métodos contraceptivos, um poderoso inibidor de um debate que sem dúvida faltou ao país.Hoje, a ameaça de uma nova explosão populacional não se coloca, mas o planejamento ainda é importante por permitir que as pessoas exerçam sua sexualidade de forma responsável e sadia.As altas taxas de fecundidade da mulher brasileira caíram em ritmo quase sem paralelo no mundo. Em 1970, o índice era de 5,8 filhos por representante do sexo feminino. Em 1980, acompanhando o rápido processo de urbanização, caiu para 4,4 e, em 1991, o Censo registrou 2,7 descendentes por brasileira. Em 2000, a taxa já baixara para 2,4 e, em 2004, à marca dos 2,1 filhos por mulher, que é a taxa de reposição -isto é, crescimento zero.Mas há motivos para inquietação. Mulheres pobres e sem instrução ainda têm muito mais filhos do que as de maior renda e escolaridade. Este segue sendo um poderoso mecanismo de reprodução da miséria.A receita para combatê-lo é conhecida: informação e acesso aos meios contraceptivos. É justamente isso que o novo programa do Ministério da Saúde pretende proporcionar. Além da ampliação da oferta de métodos anticoncepcionais dentro e fora do SUS -um investimento orçado em R$ 100 milhões-, estão previstas campanhas sobre o tema.São passos importantes, mas insuficientes. É preciso -e com urgência- tornar a gestão do sistema mais eficaz. Estudo do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp), publicado em novembro de 2006, revela um quadro desolador. O ministério adquire kits com métodos anticoncepcionais e os envia às Secretarias Municipais de Saúde. Nessa primeira etapa, as coisas funcionam. Apenas 4% das secretarias deixaram de recebê-los.O problema piora no trânsito para as Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o usuário é atendido. A proporção de UBS que não recebem os contraceptivos sobe para 17%, e chega a 92% no caso de kits com métodos de aplicação mais sofisticada, como DIU e hormônio injetável.Sem melhorar a gestão, boas iniciativas serão comprometidas pelo desperdício de recursos.
sábado, 26 de maio de 2007
crônica - nelson motta
Mimosos e mimados
Quando se ouvem os diálogos gravados entre parlamentares, funcionários, assessores e lobistas com a turma da Gautama, tudo soa parecido com o pessoal do tráfico, do movimento, armando suas paradas e se defendendo dos X9 e dos "alemão".A diferença é que a linguagem dos bandidos do morro, criada para enganar a polícia e o pessoal do asfalto, é muito mais rica e colorida que a da turma de gravata e crachá. Mas são todos droga malhada do mesmo sacolé.Quando os traficantes perguntam "do preto ou do branco?", é como se fossem empreiteiros e políticos combinando "é estrada ou ponte?"; "é emenda ou aditivo?", "é carro ou caneta?".Curiosamente, tanto uns como outros jamais falam em propina -não são otários, otários somos nós-, sempre usam o código "fazer um agrado". Além de "chefe", talvez seja a única expressão usada igualmente pelas duas tribos, tão diferentes nas linguagens e tão parecidas nos objetivos.Outra diferença é que as vítimas dos bandidos do morro são indivíduos e estabelecimentos comerciais, enquanto as quadrilhas da Esplanada roubam o dinheiro suado de todos nós e deixam um rastro de impunidade que abala a fé na democracia e nas instituições.Como os bandidos são mimosos, os que recebem os mimos vão ficando mimados, têm prisão especial, foro privilegiado e liminares, enquanto o pessoal do short e chinelo fica em cana. Mas quem comete um crime mais grave? Quem vende droga proibida a um adulto ou quem rouba toda a coletividade, geralmente em Estados miseráveis?Ainda sonhamos com o dia em que o Supremo Tribunal Federal mandará um parlamentar para a cadeia, pela primeira vez em toda a sua história, enquanto sustentamos os mimosos, mimados e intocáveis.
Quando se ouvem os diálogos gravados entre parlamentares, funcionários, assessores e lobistas com a turma da Gautama, tudo soa parecido com o pessoal do tráfico, do movimento, armando suas paradas e se defendendo dos X9 e dos "alemão".A diferença é que a linguagem dos bandidos do morro, criada para enganar a polícia e o pessoal do asfalto, é muito mais rica e colorida que a da turma de gravata e crachá. Mas são todos droga malhada do mesmo sacolé.Quando os traficantes perguntam "do preto ou do branco?", é como se fossem empreiteiros e políticos combinando "é estrada ou ponte?"; "é emenda ou aditivo?", "é carro ou caneta?".Curiosamente, tanto uns como outros jamais falam em propina -não são otários, otários somos nós-, sempre usam o código "fazer um agrado". Além de "chefe", talvez seja a única expressão usada igualmente pelas duas tribos, tão diferentes nas linguagens e tão parecidas nos objetivos.Outra diferença é que as vítimas dos bandidos do morro são indivíduos e estabelecimentos comerciais, enquanto as quadrilhas da Esplanada roubam o dinheiro suado de todos nós e deixam um rastro de impunidade que abala a fé na democracia e nas instituições.Como os bandidos são mimosos, os que recebem os mimos vão ficando mimados, têm prisão especial, foro privilegiado e liminares, enquanto o pessoal do short e chinelo fica em cana. Mas quem comete um crime mais grave? Quem vende droga proibida a um adulto ou quem rouba toda a coletividade, geralmente em Estados miseráveis?Ainda sonhamos com o dia em que o Supremo Tribunal Federal mandará um parlamentar para a cadeia, pela primeira vez em toda a sua história, enquanto sustentamos os mimosos, mimados e intocáveis.
opinião - fernando gabeira
Uma ponte perdida
Poucos escândalos produzem boas imagens. O da Operação Navalha foi generoso. Aquela foto da ponte ligando o nada a coisa nenhuma é muito forte. A cinzenta estrutura perdida na paisagem é a metáfora do sistema político brasileiro. O tipo de crise que vivemos comporta uma CPI. Mas não se esgota nela. É preciso rever tudo, reformar o sistema, ou então voltar para a casa. Não dá mais para fazer o Orçamento desse jeito. Nem para executá-lo assim. Não dá para construir maiorias fisiológicas. Não dá para manter o jogo eleitoral, para conviver com partidos sem alma. São incontáveis os erros e, agora, acumulados, nos levam ao impasse profundo. Vivemos bons tempos na economia. Muitos preferem deixar os políticos mergulhados na sua irrelevância. Mas, se as coisas continuarem assim -bonança econômica, indiferença política-, o resultado será ainda pior. Há uma contradição que não permite mais que se enterre a cabeça na areia. E isso vale para políticos e não-políticos. Não só a tecnologia mas as instituições que reprimem a corrupção avançaram. Ocupação das estatais pelos partidos e a influência das empreiteiras sobre o Orçamento vão produzir um grande escândalo por semestre. Muitos dizem: o povo não se importa; mostrou nas últimas eleições que perdoou os escândalos. Mas quem garante que esquecerá sempre com a memória refrescada de tempos em tempos? Quem garante que perdoará sempre diante da repetição dos erros? Quem se dispõe a trabalhar quase cinco meses por ano para manter um aparato estatal que lhe devolve tão pouco? A única hipótese improvável é a de que as coisas não se movam. Ou o sistema se reforma ou terá de inibir o crescimento das instituições de controle, mídia inclusive, obrigando-as a uma regressão. Não se pode descartar a hipótese de que as coisas andem para trás. Nesse caso, a própria fluidez da economia será ameaçada; as relações internacionais marcadas pelo desconforto. A conclusão não é a de que teremos um avanço linear. Idas e vindas podem se suceder, momentos de desânimo vão surgir de novo. O ciclo de assalto ao Estado dá mostras de esgotamento. Supor que é verdadeira a frase "o Brasil não tem jeito" é supor uma rigidez letal . Mesmo entre os 2 milhões que se lançaram no mundo, em busca de melhores oportunidades, há esperança. Os ciclos aqui são longos, feitos quase que exclusivamente para corredores de fundo.
Poucos escândalos produzem boas imagens. O da Operação Navalha foi generoso. Aquela foto da ponte ligando o nada a coisa nenhuma é muito forte. A cinzenta estrutura perdida na paisagem é a metáfora do sistema político brasileiro. O tipo de crise que vivemos comporta uma CPI. Mas não se esgota nela. É preciso rever tudo, reformar o sistema, ou então voltar para a casa. Não dá mais para fazer o Orçamento desse jeito. Nem para executá-lo assim. Não dá para construir maiorias fisiológicas. Não dá para manter o jogo eleitoral, para conviver com partidos sem alma. São incontáveis os erros e, agora, acumulados, nos levam ao impasse profundo. Vivemos bons tempos na economia. Muitos preferem deixar os políticos mergulhados na sua irrelevância. Mas, se as coisas continuarem assim -bonança econômica, indiferença política-, o resultado será ainda pior. Há uma contradição que não permite mais que se enterre a cabeça na areia. E isso vale para políticos e não-políticos. Não só a tecnologia mas as instituições que reprimem a corrupção avançaram. Ocupação das estatais pelos partidos e a influência das empreiteiras sobre o Orçamento vão produzir um grande escândalo por semestre. Muitos dizem: o povo não se importa; mostrou nas últimas eleições que perdoou os escândalos. Mas quem garante que esquecerá sempre com a memória refrescada de tempos em tempos? Quem garante que perdoará sempre diante da repetição dos erros? Quem se dispõe a trabalhar quase cinco meses por ano para manter um aparato estatal que lhe devolve tão pouco? A única hipótese improvável é a de que as coisas não se movam. Ou o sistema se reforma ou terá de inibir o crescimento das instituições de controle, mídia inclusive, obrigando-as a uma regressão. Não se pode descartar a hipótese de que as coisas andem para trás. Nesse caso, a própria fluidez da economia será ameaçada; as relações internacionais marcadas pelo desconforto. A conclusão não é a de que teremos um avanço linear. Idas e vindas podem se suceder, momentos de desânimo vão surgir de novo. O ciclo de assalto ao Estado dá mostras de esgotamento. Supor que é verdadeira a frase "o Brasil não tem jeito" é supor uma rigidez letal . Mesmo entre os 2 milhões que se lançaram no mundo, em busca de melhores oportunidades, há esperança. Os ciclos aqui são longos, feitos quase que exclusivamente para corredores de fundo.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
editorial sexta
Sem alternativas
Energia é condição "sine qua non" do desenvolvimento econômico sustentável. Por isso mesmo o tema se torna cada vez mais preocupante no governo Lula -não só quanto ao futuro de seu tardio PAC e ao fantasma de um apagão, mas pela incapacidade de liderar um programa conseqüente de fomento a formas alternativas de energia.O Brasil larga em vantagem, em matéria de geração de energia elétrica de fontes renováveis. Usinas hidrelétricas representam aqui 85% da matriz energética (a média mundial é 13%). Já no setor das fontes alternativas, como a eólica, o país engatinha.O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas (Proinfa), lançado em 2002, tinha por meta criar uma potência instalada de 3.300 megawatts com turbinas de vento, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e queima de biomassa. Como mostrou o jornal "Valor Econômico" de ontem, a capacidade instalada está em 860 megawatts. Vale dizer, só 26% da meta fixada.Podem-se buscar várias razões para tal atraso, da reformulação do projeto originário da gestão Fernando Henrique Cardoso pela equipe de Dilma Rousseff a exigências tidas como excessivas, por parte do BNDES, para financiar os projetos. Mais importante é perceber que a lentidão decorre da timidez e da falta de prioridade. Os 3.300 megawatts do Proinfa representariam uma expansão de capacidade inferior àquela de que o país precisa a cada ano, caso pretenda de fato crescer a taxas de 4% ou 5%.Faz tempo que as fontes alternativas deixaram de ser utopia. Com a crescente preocupação acerca da mudança climática global, expandir o uso de energias renováveis é um imperativo. Sem as fontes alternativas, e com restrições ambientais crescentes a hidrelétricas de grande porte, resta a opção de termelétricas a combustíveis fósseis ou nuclear -um verdadeiro retrocesso.
Energia é condição "sine qua non" do desenvolvimento econômico sustentável. Por isso mesmo o tema se torna cada vez mais preocupante no governo Lula -não só quanto ao futuro de seu tardio PAC e ao fantasma de um apagão, mas pela incapacidade de liderar um programa conseqüente de fomento a formas alternativas de energia.O Brasil larga em vantagem, em matéria de geração de energia elétrica de fontes renováveis. Usinas hidrelétricas representam aqui 85% da matriz energética (a média mundial é 13%). Já no setor das fontes alternativas, como a eólica, o país engatinha.O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas (Proinfa), lançado em 2002, tinha por meta criar uma potência instalada de 3.300 megawatts com turbinas de vento, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e queima de biomassa. Como mostrou o jornal "Valor Econômico" de ontem, a capacidade instalada está em 860 megawatts. Vale dizer, só 26% da meta fixada.Podem-se buscar várias razões para tal atraso, da reformulação do projeto originário da gestão Fernando Henrique Cardoso pela equipe de Dilma Rousseff a exigências tidas como excessivas, por parte do BNDES, para financiar os projetos. Mais importante é perceber que a lentidão decorre da timidez e da falta de prioridade. Os 3.300 megawatts do Proinfa representariam uma expansão de capacidade inferior àquela de que o país precisa a cada ano, caso pretenda de fato crescer a taxas de 4% ou 5%.Faz tempo que as fontes alternativas deixaram de ser utopia. Com a crescente preocupação acerca da mudança climática global, expandir o uso de energias renováveis é um imperativo. Sem as fontes alternativas, e com restrições ambientais crescentes a hidrelétricas de grande porte, resta a opção de termelétricas a combustíveis fósseis ou nuclear -um verdadeiro retrocesso.
editorial de quinta
Política viciada
Parte da elite política que hoje se vê em apuros foi e é alimentada pela prática fisiológica patrocinada pelo Planalto Central
A Operação Navalha caiu sobre a política brasileira como raio em dia de céu azul. O governo e sua coalizão experimentavam até a última semana um período de inédita, quase exasperante calmaria. O presidente Lula e sua base congressual desincumbiam-se sem esforço da missão de estrangular as CPIs do Apagão Aéreo, tarefa facilitada pela inapetência da própria oposição.Esse cenário caducou na quinta-feira. Desde então, o escândalo provocou a queda de um ministro; e vários governadores -pelo menos sete, entre atuais e ex-titulares do cargo- já foram de alguma forma relacionados ao caso. Há ainda indícios que podem implicar o presidente do Senado nas acusações e uma alegada lista de presentes que teriam sido oferecidos a parlamentares pela construtora Gautama.O espírito de corpo dos congressistas, em ampla maioria contrários a qualquer iniciativa para investigar o caso no âmbito do Legislativo, ofuscou de vez a divisão já desbotada entre governistas e oposição. Parecem todos agora a favor de si mesmos.Diante da complexidade e da extensão do esquema revelado pela PF, recomenda-se prudência contra conclusões apressadas. O sentimento de indignação e o justo clamor por punição que afloraram na opinião pública não podem se traduzir em atos de justiçamento indiscriminado, muitas vezes com o incentivo da mídia mais estridente.É salutar, por isso, a iniciativa de um grupo de renomados criminalistas, que decidiu protestar publicamente, em carta enviada ao presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), contra o açodamento e os abusos que, segundo dizem, vêm caracterizando várias operações da PF."Métodos de duvidosa eficácia para combater a criminalidade, muitos flagrantemente ilegais, têm como conseqüência exclusiva criar a ilusão de uma atuação eficiente contra a chamada criminalidade das elites". Pode-se concordar ou não com este diagnóstico, que consta do manifesto dos advogados. A escolha, de qualquer forma, não deve ser entre a ilegalidade e a impunidade.Difícil é fugir à evidência de que o governo Lula, em nome do pragmatismo, jogou no lixo suas veleidades reformistas para incorporar os vícios do sistema político brasileiro e até inovar em matéria de aliciamento indevido.Parte da elite política do país que hoje se encontra em apuros -ou no fio da navalha- foi e é alimentada pela realpolitik fisiológica patrocinada pelo Planalto Central. Detalhes à parte, a mesma observação valeria, aliás, para caracterizar os anos FHC.Questionado durante a campanha à reeleição sobre a aliança com o PMDB, o presidente Lula respondeu assim à Folha: "Você pode gostar ou não. As forças políticas que existem no Brasil são essas. Tem PMDB, PFL, PSDB, PDT, PT, PC do B, PP, PL, PTB. Foi isso que se conseguiu criar depois que houve a abertura política". Chama atenção sobretudo a desenvoltura conformista da resposta. A expectativa depositada nos adversários do regime militar -vê-se- era uma ilusão que desmanchou no ar.
Parte da elite política que hoje se vê em apuros foi e é alimentada pela prática fisiológica patrocinada pelo Planalto Central
A Operação Navalha caiu sobre a política brasileira como raio em dia de céu azul. O governo e sua coalizão experimentavam até a última semana um período de inédita, quase exasperante calmaria. O presidente Lula e sua base congressual desincumbiam-se sem esforço da missão de estrangular as CPIs do Apagão Aéreo, tarefa facilitada pela inapetência da própria oposição.Esse cenário caducou na quinta-feira. Desde então, o escândalo provocou a queda de um ministro; e vários governadores -pelo menos sete, entre atuais e ex-titulares do cargo- já foram de alguma forma relacionados ao caso. Há ainda indícios que podem implicar o presidente do Senado nas acusações e uma alegada lista de presentes que teriam sido oferecidos a parlamentares pela construtora Gautama.O espírito de corpo dos congressistas, em ampla maioria contrários a qualquer iniciativa para investigar o caso no âmbito do Legislativo, ofuscou de vez a divisão já desbotada entre governistas e oposição. Parecem todos agora a favor de si mesmos.Diante da complexidade e da extensão do esquema revelado pela PF, recomenda-se prudência contra conclusões apressadas. O sentimento de indignação e o justo clamor por punição que afloraram na opinião pública não podem se traduzir em atos de justiçamento indiscriminado, muitas vezes com o incentivo da mídia mais estridente.É salutar, por isso, a iniciativa de um grupo de renomados criminalistas, que decidiu protestar publicamente, em carta enviada ao presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), contra o açodamento e os abusos que, segundo dizem, vêm caracterizando várias operações da PF."Métodos de duvidosa eficácia para combater a criminalidade, muitos flagrantemente ilegais, têm como conseqüência exclusiva criar a ilusão de uma atuação eficiente contra a chamada criminalidade das elites". Pode-se concordar ou não com este diagnóstico, que consta do manifesto dos advogados. A escolha, de qualquer forma, não deve ser entre a ilegalidade e a impunidade.Difícil é fugir à evidência de que o governo Lula, em nome do pragmatismo, jogou no lixo suas veleidades reformistas para incorporar os vícios do sistema político brasileiro e até inovar em matéria de aliciamento indevido.Parte da elite política do país que hoje se encontra em apuros -ou no fio da navalha- foi e é alimentada pela realpolitik fisiológica patrocinada pelo Planalto Central. Detalhes à parte, a mesma observação valeria, aliás, para caracterizar os anos FHC.Questionado durante a campanha à reeleição sobre a aliança com o PMDB, o presidente Lula respondeu assim à Folha: "Você pode gostar ou não. As forças políticas que existem no Brasil são essas. Tem PMDB, PFL, PSDB, PDT, PT, PC do B, PP, PL, PTB. Foi isso que se conseguiu criar depois que houve a abertura política". Chama atenção sobretudo a desenvoltura conformista da resposta. A expectativa depositada nos adversários do regime militar -vê-se- era uma ilusão que desmanchou no ar.
terça-feira, 22 de maio de 2007
complementando a notícia
Metrópoles querem agir antes no clima
Representando cerca de 250 milhões de pessoas, os prefeitos de 32 cidades dos cinco continentes se reuniram ontem nos EUA para mandar um recado aos governos nacionais: querem ser os verdadeiros protagonistas da luta contra o aquecimento global."Não vamos mais ficar sentados esperando que eles tomem a liderança. As cidades consomem 75% da energia e produzem 80% dos gases-estufa, portanto podem fazer a diferença de fato nessa batalha", afirmou Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, cidade que sediou o encontro."E, para fazer frente a esse desafio, não é necessário utilizar nada que ainda não tenha sido inventado -só é preciso vontade política, e é isso que nós aqui presentes queremos demonstrar", acrescentou Ken Livingstone, prefeito de Londres e presidente do C40. O grupo foi criado no ano passado por quarenta metrópoles interessadas em discutir as mudanças climáticas na Terra e maneiras de evitá-las.Nova York ambiciona ser um exemplo para as outras cidades com o seu plano para cortar em 30% as emissões de gases-estufa até 2030. Além de encorajar a utilização de sistemas mais eficientes de aquecimento e refrigeração nas casas, o plano ainda estabelece um pedágio para veículos que trafegam no centro de Manhattan.Também participaram da reunião de ontem os prefeitos de Tóquio, Seul, Toronto, Cidade do México, Mumbai, Johannesburgo, Melbourne, Berlim e Chicago, entre outras.Do Brasil, foram Gilberto Kassab, de São Paulo, Cesar Maia, do Rio de Janeiro, e Beto Richa, de Curitiba. Richa destacou o sistema de transporte público curitibano. "Os nossos corredores exclusivos para ônibus já foram adotados em Bogotá e Cali, na Colômbia, e também em Los Angeles", comentou. "Um ônibus confortável e uma passagem a preço justo estimulam as pessoas a deixarem o carro em casa."Maia apontou o principal problema do Rio de Janeiro: a elevação do nível do mar em até 50 centímetros até o final deste século. "O sistema de drenagem de regiões baixas, como Jacarepaguá, e em especial Rio das Pedras, precisa ser todo refeito em no máximo dez anos. É prioridade e é urgente", contou. Para as obras, a prefeitura espera conseguir fazer parcerias com a iniciativa privada -potenciais investidores em busca de oportunidades nos países em desenvolvimento também estavam no evento.Para os prefeitos, duas são as suas principais tarefas a partir de agora. Primeiro, combinar as estratégias, pois as cidades se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. "As brasileiras precisam aprender a crescer sem penalizar demais o ambiente", disse Maia. Segundo, convencer a população a mudar os seus hábitos. "Não acho isso difícil, porque todos queremos um futuro melhor. É papel das prefeituras explicar e informar, propor medidas eficientes e executá-las ", afirmou Bloomberg.
Representando cerca de 250 milhões de pessoas, os prefeitos de 32 cidades dos cinco continentes se reuniram ontem nos EUA para mandar um recado aos governos nacionais: querem ser os verdadeiros protagonistas da luta contra o aquecimento global."Não vamos mais ficar sentados esperando que eles tomem a liderança. As cidades consomem 75% da energia e produzem 80% dos gases-estufa, portanto podem fazer a diferença de fato nessa batalha", afirmou Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, cidade que sediou o encontro."E, para fazer frente a esse desafio, não é necessário utilizar nada que ainda não tenha sido inventado -só é preciso vontade política, e é isso que nós aqui presentes queremos demonstrar", acrescentou Ken Livingstone, prefeito de Londres e presidente do C40. O grupo foi criado no ano passado por quarenta metrópoles interessadas em discutir as mudanças climáticas na Terra e maneiras de evitá-las.Nova York ambiciona ser um exemplo para as outras cidades com o seu plano para cortar em 30% as emissões de gases-estufa até 2030. Além de encorajar a utilização de sistemas mais eficientes de aquecimento e refrigeração nas casas, o plano ainda estabelece um pedágio para veículos que trafegam no centro de Manhattan.Também participaram da reunião de ontem os prefeitos de Tóquio, Seul, Toronto, Cidade do México, Mumbai, Johannesburgo, Melbourne, Berlim e Chicago, entre outras.Do Brasil, foram Gilberto Kassab, de São Paulo, Cesar Maia, do Rio de Janeiro, e Beto Richa, de Curitiba. Richa destacou o sistema de transporte público curitibano. "Os nossos corredores exclusivos para ônibus já foram adotados em Bogotá e Cali, na Colômbia, e também em Los Angeles", comentou. "Um ônibus confortável e uma passagem a preço justo estimulam as pessoas a deixarem o carro em casa."Maia apontou o principal problema do Rio de Janeiro: a elevação do nível do mar em até 50 centímetros até o final deste século. "O sistema de drenagem de regiões baixas, como Jacarepaguá, e em especial Rio das Pedras, precisa ser todo refeito em no máximo dez anos. É prioridade e é urgente", contou. Para as obras, a prefeitura espera conseguir fazer parcerias com a iniciativa privada -potenciais investidores em busca de oportunidades nos países em desenvolvimento também estavam no evento.Para os prefeitos, duas são as suas principais tarefas a partir de agora. Primeiro, combinar as estratégias, pois as cidades se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. "As brasileiras precisam aprender a crescer sem penalizar demais o ambiente", disse Maia. Segundo, convencer a população a mudar os seus hábitos. "Não acho isso difícil, porque todos queremos um futuro melhor. É papel das prefeituras explicar e informar, propor medidas eficientes e executá-las ", afirmou Bloomberg.
complementando a notícia
atenção, isto pode ser um argumento interessante: por que é "imperioso" preservar certos tipos de plantas?
Mudança no clima ameaça bancos genéticos naturais
Não bastassem todos os danos que a mudança climática global prenuncia para os países pobres, um novo estudo indica que até mesmo a adaptação de algumas lavouras ao novo clima deve ser prejudicada: diversas variedades selvagens de batata, amendoim e feijão-de-corda podem se extinguir até 2055 devido ao aquecimento, limitando a possibilidade de melhoramento genético das variedades hoje em cultivo.De acordo com a pesquisa, patrocinada pelo CGIAR (Grupo Consultivo sobre Pesquisas Agrícolas Internacionais), até sete de 108 espécies de batata selvagem analisadas no trabalho podem sumir. No caso do amendoim, cujas variedades selvagens vivem sobretudo no cerrado brasileiro, até 31 espécies de 51 podem desaparecer."As plantas de amendoim selvagem crescem em planícies e teriam de migrar uma distância considerável até alcançar climas mais frescos", disse Andy Jarvis, do Ciat (Centro Internacional para Agricultura Tropical), co-autor do estudo.O feijão-de-corda africano tem só duas espécies de 48 ameaçadas. Mesmo que não haja extinção, todas as espécies selvagens estudadas perderão território. A maioria das espécies dos três vegetais perde mais da metade da área que ocupa hoje. Os amendoins podem perder 90% da área, afirma o trabalho, a ser publicado na revista "Climatic Change"."Há uma necessidade imperiosa de coletar e preservar as sementes de espécies selvagens em coleções de diversidade agrícola antes que desapareçam", diz Jarvis.A importância de preservar a biodiversidade natural dessas espécies é que elas possuem os genes que podem conferir às plantas comerciais características como resistência a pragas e tolerância a secas. Isso foi feito para o milho e o trigo durante a chamada Revolução Verde, o esforço de pesquisa agrícola que evitou que milhões morressem de fome após a Segunda Guerra Mundial."O irônico do caso é que os geneticistas vão utilizar, mais do que nunca, as variedades selvagens para desenvolver variedades domesticadas que possam se adaptar às mudanças das condições climáticas", diz Anne Lane, do instituto Bioversity International, sediado em Roma, que também participou do estudo.
Mudança no clima ameaça bancos genéticos naturais
Não bastassem todos os danos que a mudança climática global prenuncia para os países pobres, um novo estudo indica que até mesmo a adaptação de algumas lavouras ao novo clima deve ser prejudicada: diversas variedades selvagens de batata, amendoim e feijão-de-corda podem se extinguir até 2055 devido ao aquecimento, limitando a possibilidade de melhoramento genético das variedades hoje em cultivo.De acordo com a pesquisa, patrocinada pelo CGIAR (Grupo Consultivo sobre Pesquisas Agrícolas Internacionais), até sete de 108 espécies de batata selvagem analisadas no trabalho podem sumir. No caso do amendoim, cujas variedades selvagens vivem sobretudo no cerrado brasileiro, até 31 espécies de 51 podem desaparecer."As plantas de amendoim selvagem crescem em planícies e teriam de migrar uma distância considerável até alcançar climas mais frescos", disse Andy Jarvis, do Ciat (Centro Internacional para Agricultura Tropical), co-autor do estudo.O feijão-de-corda africano tem só duas espécies de 48 ameaçadas. Mesmo que não haja extinção, todas as espécies selvagens estudadas perderão território. A maioria das espécies dos três vegetais perde mais da metade da área que ocupa hoje. Os amendoins podem perder 90% da área, afirma o trabalho, a ser publicado na revista "Climatic Change"."Há uma necessidade imperiosa de coletar e preservar as sementes de espécies selvagens em coleções de diversidade agrícola antes que desapareçam", diz Jarvis.A importância de preservar a biodiversidade natural dessas espécies é que elas possuem os genes que podem conferir às plantas comerciais características como resistência a pragas e tolerância a secas. Isso foi feito para o milho e o trigo durante a chamada Revolução Verde, o esforço de pesquisa agrícola que evitou que milhões morressem de fome após a Segunda Guerra Mundial."O irônico do caso é que os geneticistas vão utilizar, mais do que nunca, as variedades selvagens para desenvolver variedades domesticadas que possam se adaptar às mudanças das condições climáticas", diz Anne Lane, do instituto Bioversity International, sediado em Roma, que também participou do estudo.
complementando a notícia
Decreto de Lula endurece conceito de bebida alcoólica
Presidente deve assinar amanhã texto que inclui cerveja, "cooler" e "ices" na classificação; objetivo é reduzir "consumo indevido'Legislação atual sobre publicidade só considera alcoólicas as bebidas com mais de 13 graus Gay Lussac, como vinho, cachaça e uísque
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar amanhã, em cerimônia no Palácio do Planalto, decreto que muda o conceito de bebida alcoólica para efeito de controle da propaganda e demais medidas destinadas a conter o "consumo indevido" de álcool no país.Pelo texto do decreto, serão consideradas alcoólicas as bebidas com teor de álcool a partir de 0,5 grau Gay Lussac, como cervejas, "ices" e "coolers". Hoje, a legislação que regulamenta a publicidade de fumo e bebidas -em vigor há quase dez anos- só considera alcoólicas as com mais de 13 graus, como vinho, cachaça e uísque. Isso exclui, por exemplo, as cervejas, mercado que fatura R$ 20 bilhões/ano e é o principal alvo da nova regulamentação.O decreto de Lula, a que a Folha teve acesso, instituirá a Política Nacional sobre o Álcool, que, segundo o texto que acompanha o decreto, tem como objetivo explícito reduzir o "consumo indevido de álcool no país, associado a episódios de violência e criminalidade".Entre os pilares dessa política estão novos limites à propaganda de bebidas, por meio de regulamentação a ser aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e proposta de proibição de venda de bebidas nas estradas federais.A Anvisa quer proibir propaganda de cerveja das 8h às 21h no rádio e na TV. Publicidade nos meios de comunicação (jornais, revistas e internet) terá de ser acompanhada de alertas sobre o risco à saúde, como acontece hoje com a do cigarro.A política nacional sobre o álcool é resultado de debate interno do governo iniciado há mais de quatro anos, com um grupo de trabalho interministerial criado em 2003, embora algumas das medidas propostas por ela, como as restrições à venda nas estradas e postos de gasolina, ainda dependam de nova rodada de negociações.Gastos com bebidaNa cerimônia, o governo reforçará a associação entre alcoolismo e acidentes de trânsito e o volume de dinheiro público investido no tratamento de alcoólatras -segundo o governo, esses gastos na rede de saúde superaram R$ 40 milhões em menos de quatro anos.O tratamento de dependentes de álcool e outras drogas em unidades extra-hospitalares consumiu, entre 2002 e 2006, R$ 36,9 milhões do SUS (Sistema Único de Saúde). Outros R$ 4,3 milhões foram gastos em procedimentos hospitalares relacionados ao uso de álcool e de outras drogas nesse período.Esses números são citados na exposição de motivos que acompanha o decreto presidencial. Outra estatística que sustenta a política é o percentual de acidentes de trânsito associados à embriaguez. Pesquisa feita no ano passado pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego) relaciona 61% dos acidentes ao consumo de bebidas alcoólicas.Com a nova política, o governo também espera conter a crescente dependência do álcool, apontada no levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil, em 2005. Promovida pela Secretaria Nacional Antidrogas, a pesquisa apontou que 12,3% dos entrevistados entre 12 e 65 anos ingerem bebidas alcoólicas com freqüência."É imprescindível que o governo institua de imediato uma política nacional sobre o álcool, visando a redução do impacto negativo do uso abusivo desta substância na sociedade brasileira", diz o documento que acompanha o decreto de Lula.
Presidente deve assinar amanhã texto que inclui cerveja, "cooler" e "ices" na classificação; objetivo é reduzir "consumo indevido'Legislação atual sobre publicidade só considera alcoólicas as bebidas com mais de 13 graus Gay Lussac, como vinho, cachaça e uísque
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar amanhã, em cerimônia no Palácio do Planalto, decreto que muda o conceito de bebida alcoólica para efeito de controle da propaganda e demais medidas destinadas a conter o "consumo indevido" de álcool no país.Pelo texto do decreto, serão consideradas alcoólicas as bebidas com teor de álcool a partir de 0,5 grau Gay Lussac, como cervejas, "ices" e "coolers". Hoje, a legislação que regulamenta a publicidade de fumo e bebidas -em vigor há quase dez anos- só considera alcoólicas as com mais de 13 graus, como vinho, cachaça e uísque. Isso exclui, por exemplo, as cervejas, mercado que fatura R$ 20 bilhões/ano e é o principal alvo da nova regulamentação.O decreto de Lula, a que a Folha teve acesso, instituirá a Política Nacional sobre o Álcool, que, segundo o texto que acompanha o decreto, tem como objetivo explícito reduzir o "consumo indevido de álcool no país, associado a episódios de violência e criminalidade".Entre os pilares dessa política estão novos limites à propaganda de bebidas, por meio de regulamentação a ser aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e proposta de proibição de venda de bebidas nas estradas federais.A Anvisa quer proibir propaganda de cerveja das 8h às 21h no rádio e na TV. Publicidade nos meios de comunicação (jornais, revistas e internet) terá de ser acompanhada de alertas sobre o risco à saúde, como acontece hoje com a do cigarro.A política nacional sobre o álcool é resultado de debate interno do governo iniciado há mais de quatro anos, com um grupo de trabalho interministerial criado em 2003, embora algumas das medidas propostas por ela, como as restrições à venda nas estradas e postos de gasolina, ainda dependam de nova rodada de negociações.Gastos com bebidaNa cerimônia, o governo reforçará a associação entre alcoolismo e acidentes de trânsito e o volume de dinheiro público investido no tratamento de alcoólatras -segundo o governo, esses gastos na rede de saúde superaram R$ 40 milhões em menos de quatro anos.O tratamento de dependentes de álcool e outras drogas em unidades extra-hospitalares consumiu, entre 2002 e 2006, R$ 36,9 milhões do SUS (Sistema Único de Saúde). Outros R$ 4,3 milhões foram gastos em procedimentos hospitalares relacionados ao uso de álcool e de outras drogas nesse período.Esses números são citados na exposição de motivos que acompanha o decreto presidencial. Outra estatística que sustenta a política é o percentual de acidentes de trânsito associados à embriaguez. Pesquisa feita no ano passado pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego) relaciona 61% dos acidentes ao consumo de bebidas alcoólicas.Com a nova política, o governo também espera conter a crescente dependência do álcool, apontada no levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil, em 2005. Promovida pela Secretaria Nacional Antidrogas, a pesquisa apontou que 12,3% dos entrevistados entre 12 e 65 anos ingerem bebidas alcoólicas com freqüência."É imprescindível que o governo institua de imediato uma política nacional sobre o álcool, visando a redução do impacto negativo do uso abusivo desta substância na sociedade brasileira", diz o documento que acompanha o decreto de Lula.
dicas - ampliando repertório
Gostaria que vissem este vídeo de 15 anos atrás!!!
É de uma comovente lucidez.
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editorial de terça
No fio da navalha
Há mórbida semelhança entre o atual escândalo e a farra dos sanguessugas, com a agravante de que há mais dinheiro em jogo
Ficou seriamente comprometida a sustentação política do ministro Silas Rondeau, acusado no âmbito da Operação Navalha. Não se trata de condenar de antemão o titular de Minas e Energia. Caberá aos órgãos competentes dar prosseguimento às investigações e à Justiça decidir sobre as eventuais denúncias formuladas contra o ministro, cuja situação no governo permanecia indefinida até o fechamento desta edição.No Estado de Direito -é bom repetir-, qualquer julgamento não pode, por definição, estar subordinado ao calor dos escândalos ou relacionado à variação de humores da opinião pública.Não obstante isso, após as revelações do fim de semana ficou muito difícil compatibilizar a permanência do ministro no governo e os requisitos esperados de quem exerce tão importante função. De resto, parece razoável supor que Rondeau, que se diz vítima de "horrível pré-julgamento", poderá defender-se melhor fora do ministério.Recapitulemos: conforme esta Folha noticiou anteontem, a PF suspeita que o titular de Minas e Energia tenha sido beneficiado com propina de R$ 100 mil em troca de favorecimento à empreiteira Gautama na instalação de uma das etapas, no Piauí, do programa federal Luz Para Todos, a cargo do seu ministério.Interceptações telefônicas feitas pela PF e imagens do circuito interno do prédio de Minas e Energia gravadas em março deste ano, já de conhecimento público, compõem um conjunto de indícios bastante convincente -usado também para embasar o pedido de prisão preventiva do ex-assessor especial de Rondeau, Ivo Almeida Costa.O escopo da Operação Navalha, porém, vai muito além de Minas e Energia, pasta essencial na implantação do PAC. Sabe-se até agora que as ligações promíscuas e alegadamente ilícitas da Gautama com os agentes da administração pública atingem, com diferentes suspeitas e em diversos graus, pelo menos quatro governadores: Teotônio Vilela Filho (PSDB), de Alagoas, e Jackson Lago (PDT), do Maranhão, e os ex-governadores José Reinaldo Tavares (PSB), também do Maranhão, e João Alves Filho (DEM), de Sergipe.Chama atenção, além disso, a composição partidária, muito variada, do elenco de suspeitos. Praticamente todas as legendas políticas mais representativas do país estão contempladas pela Operação Navalha. Há, aqui, uma mórbida semelhança com a farra dos sanguessugas, com a agravante de que, desta vez, as acusações envolvem recursos mais volumosos e implicam mais instâncias da administração e esferas de poder.No Congresso, pelo menos por ora, é tímido o movimento pela instalação de uma CPI da Navalha. A omissão sintomática de parlamentares, na oposição e no campo governista, é indicativa de que muita gente ainda pode ser atingida com o aprofundamento das investigações.Não é outra, porém, a expectativa da opinião pública, que deve, mais do que nunca, exigir das autoridades serenidade e firmeza para cortar na própria carne.
Há mórbida semelhança entre o atual escândalo e a farra dos sanguessugas, com a agravante de que há mais dinheiro em jogo
Ficou seriamente comprometida a sustentação política do ministro Silas Rondeau, acusado no âmbito da Operação Navalha. Não se trata de condenar de antemão o titular de Minas e Energia. Caberá aos órgãos competentes dar prosseguimento às investigações e à Justiça decidir sobre as eventuais denúncias formuladas contra o ministro, cuja situação no governo permanecia indefinida até o fechamento desta edição.No Estado de Direito -é bom repetir-, qualquer julgamento não pode, por definição, estar subordinado ao calor dos escândalos ou relacionado à variação de humores da opinião pública.Não obstante isso, após as revelações do fim de semana ficou muito difícil compatibilizar a permanência do ministro no governo e os requisitos esperados de quem exerce tão importante função. De resto, parece razoável supor que Rondeau, que se diz vítima de "horrível pré-julgamento", poderá defender-se melhor fora do ministério.Recapitulemos: conforme esta Folha noticiou anteontem, a PF suspeita que o titular de Minas e Energia tenha sido beneficiado com propina de R$ 100 mil em troca de favorecimento à empreiteira Gautama na instalação de uma das etapas, no Piauí, do programa federal Luz Para Todos, a cargo do seu ministério.Interceptações telefônicas feitas pela PF e imagens do circuito interno do prédio de Minas e Energia gravadas em março deste ano, já de conhecimento público, compõem um conjunto de indícios bastante convincente -usado também para embasar o pedido de prisão preventiva do ex-assessor especial de Rondeau, Ivo Almeida Costa.O escopo da Operação Navalha, porém, vai muito além de Minas e Energia, pasta essencial na implantação do PAC. Sabe-se até agora que as ligações promíscuas e alegadamente ilícitas da Gautama com os agentes da administração pública atingem, com diferentes suspeitas e em diversos graus, pelo menos quatro governadores: Teotônio Vilela Filho (PSDB), de Alagoas, e Jackson Lago (PDT), do Maranhão, e os ex-governadores José Reinaldo Tavares (PSB), também do Maranhão, e João Alves Filho (DEM), de Sergipe.Chama atenção, além disso, a composição partidária, muito variada, do elenco de suspeitos. Praticamente todas as legendas políticas mais representativas do país estão contempladas pela Operação Navalha. Há, aqui, uma mórbida semelhança com a farra dos sanguessugas, com a agravante de que, desta vez, as acusações envolvem recursos mais volumosos e implicam mais instâncias da administração e esferas de poder.No Congresso, pelo menos por ora, é tímido o movimento pela instalação de uma CPI da Navalha. A omissão sintomática de parlamentares, na oposição e no campo governista, é indicativa de que muita gente ainda pode ser atingida com o aprofundamento das investigações.Não é outra, porém, a expectativa da opinião pública, que deve, mais do que nunca, exigir das autoridades serenidade e firmeza para cortar na própria carne.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
editorial de domingo
Além da Navalha
É todo o sistema político brasileiro que, mais uma vez, desagradavelmente, expõe as suas entranhas com essa operação da PF
Um ex-governador filiado ao PSB do Maranhão; um prefeito do PSDB em Mato Grosso; um prefeito do PT na Bahia; sobrinhos do atual governador maranhense, pedetista; filhos de um ex-governador sergipano, do DEM; um deputado do Distrito Federal, do PMDB. Todos, e muitos mais, foram presos quinta-feira na Operação Navalha da Polícia Federal.Não poderia ser mais eclética a composição partidária dos acusados em mais este escândalo. Amigos e inimigos, apadrinhados e desafetos, nos mais variados níveis da estrutura administrativa, vêem-se flagrados no que tinham em comum: as relações, ao que tudo indica bastante heterodoxas, mantidas com a empreiteira baiana Gautama.O esquema, pelo que se noticiou até agora, perpassava vários ministérios, quatro Estados e duas prefeituras. É todo o sistema político brasileiro, entretanto, que mais uma vez parece desagradavelmente expor suas entranhas com essa operação.Nos últimos anos, nenhuma organização partidária relevante deixou de protagonizar episódios que vão do revoltante ao ridículo, compondo um painel que desafiaria os pincéis do mais enfático adepto do surrealismo.Cuecas, maletas, carros de luxo, máquinas de bingo, em meio a curupiras, navalhas e sanguessugas -para lembrar os nomes, sempre sugestivos, das operações da PF-, acumulam-se diante dos olhos do espectador, que entretanto já não se surpreende.Passou o tempo, com efeito, em que o eleitorado podia ter confiança nos instrumentos típicos da vida política, como a denúncia parlamentar, as CPIs e o próprio voto, para afastar da vida pública os envolvidos em corrupção. O problema se revela endêmico, e não terá sido necessária a Operação Navalha para que, diante da cena de um político acusando seu adversário de desonestidade, venha à mente de qualquer brasileiro o velho refrão segundo o qual se trata do roto rindo do rasgado.Quando vigora um sistema intransparente de financiamento das campanhas, quando o processo de elaboração orçamentária se dá pela barganha de emendas individuais, quando é precário o acesso do eleitor à informação e reduzida a sua capacidade de organização política, nada mais previsível do que a multiplicação dos casos de corrupção.Não escapam do fenômeno, é claro, nações mais desenvolvidas. Num país pobre, todavia, o assalto aos cofres públicos é crime ainda mais revoltante -tanto quanto o clima de impunidade generalizada que o cerca.O componente espetacular das operações da PF atende com eficácia, sem dúvida, às demandas da opinião pública no sentido de que esse clima se dissipe. Para além da atuação policial, entretanto, haveria muito mais a ser feito contra a corrupção, no plano da reforma política e do aperfeiçoamento institucional do Estado. Eis uma esfera, infelizmente, em que não parece existir operação de impacto à vista.
É todo o sistema político brasileiro que, mais uma vez, desagradavelmente, expõe as suas entranhas com essa operação da PF
Um ex-governador filiado ao PSB do Maranhão; um prefeito do PSDB em Mato Grosso; um prefeito do PT na Bahia; sobrinhos do atual governador maranhense, pedetista; filhos de um ex-governador sergipano, do DEM; um deputado do Distrito Federal, do PMDB. Todos, e muitos mais, foram presos quinta-feira na Operação Navalha da Polícia Federal.Não poderia ser mais eclética a composição partidária dos acusados em mais este escândalo. Amigos e inimigos, apadrinhados e desafetos, nos mais variados níveis da estrutura administrativa, vêem-se flagrados no que tinham em comum: as relações, ao que tudo indica bastante heterodoxas, mantidas com a empreiteira baiana Gautama.O esquema, pelo que se noticiou até agora, perpassava vários ministérios, quatro Estados e duas prefeituras. É todo o sistema político brasileiro, entretanto, que mais uma vez parece desagradavelmente expor suas entranhas com essa operação.Nos últimos anos, nenhuma organização partidária relevante deixou de protagonizar episódios que vão do revoltante ao ridículo, compondo um painel que desafiaria os pincéis do mais enfático adepto do surrealismo.Cuecas, maletas, carros de luxo, máquinas de bingo, em meio a curupiras, navalhas e sanguessugas -para lembrar os nomes, sempre sugestivos, das operações da PF-, acumulam-se diante dos olhos do espectador, que entretanto já não se surpreende.Passou o tempo, com efeito, em que o eleitorado podia ter confiança nos instrumentos típicos da vida política, como a denúncia parlamentar, as CPIs e o próprio voto, para afastar da vida pública os envolvidos em corrupção. O problema se revela endêmico, e não terá sido necessária a Operação Navalha para que, diante da cena de um político acusando seu adversário de desonestidade, venha à mente de qualquer brasileiro o velho refrão segundo o qual se trata do roto rindo do rasgado.Quando vigora um sistema intransparente de financiamento das campanhas, quando o processo de elaboração orçamentária se dá pela barganha de emendas individuais, quando é precário o acesso do eleitor à informação e reduzida a sua capacidade de organização política, nada mais previsível do que a multiplicação dos casos de corrupção.Não escapam do fenômeno, é claro, nações mais desenvolvidas. Num país pobre, todavia, o assalto aos cofres públicos é crime ainda mais revoltante -tanto quanto o clima de impunidade generalizada que o cerca.O componente espetacular das operações da PF atende com eficácia, sem dúvida, às demandas da opinião pública no sentido de que esse clima se dissipe. Para além da atuação policial, entretanto, haveria muito mais a ser feito contra a corrupção, no plano da reforma política e do aperfeiçoamento institucional do Estado. Eis uma esfera, infelizmente, em que não parece existir operação de impacto à vista.
sábado, 19 de maio de 2007
complementando a notícia - aquecimento global
Os prefeitos de 46 metrópoles do mundo se dizem decididos a agir contra o aquecimento
Reunidos numa cúpula em Nova York, eles trocaram idéias e compartilharam projetos que visam a reduzir as emanações de gases geradores do efeito-estufa
No final de uma cúpula de quatro dias realizada em Nova York, os prefeitos das grandes cidades do mundo, que garantem estar na linha de frente na luta contra o aquecimento climático, publicaram uma nota, divulgada nesta quinta-feira, 17 de maio. Nesta, eles conclamam os dirigentes dos países industrializados do G8 a "se comprometerem a atuar em função de um objetivo de estabilização em longo prazo das concentrações de gases de efeito-estufa".
Cientes de que as cidades estão na origem de 80% das emissões de gases geradores do efeito-estufa, os representantes de 46 metrópoles, reunidas no quadro de um grupo chamado C40, prometeram agir sem esperar pelas iniciativas dos seus governos, que não raro têm se mostrado pusilânimes em relação a essas questões."O seu comportamento é vergonhoso, mas nós não podemos ficar de braços cruzados", declarou o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que era o anfitrião da cúpula e que recentemente manifestou a sua intenção de transformar a "Big Apple" numa "Green Apple", para transformá-la na cidade a mais "verde" do país.O plano de Bloomberg prevê a redução, antes de 2030, de 30% das emissões de gases geradores do efeito-estufa (produzidos na sua maior parte pelo consumo de energia dos prédios para fins de calefação), além do plantio de um milhão de árvores em dez anos e da instauração de um pedágio para os veículos que quiserem aceder ao centro da cidade - uma medida sem precedente nos Estados Unidos
.A conferência dos prefeitos dos Estados Unidos, que foi realizada em margem do C40, aplaudiu a iniciativa de Michael Bloomberg e anunciou que 500 cidades americanas já haviam se comprometido a reduzir as suas emissões de CO2 para níveis inferiores àqueles que foram registrados em 1990, dentro do mesmo espírito que norteou o protocolo de Kyoto, ao qual Washington não quis subscrever.Para os prefeitos das grandes metrópoles, esta era uma oportunidade para compartilhar idéias. O de Addis Abeba (Etiópia) se disse encantado por poder aprender a utilizar a energia solar. Por sua vez, o seu homólogo de Curitiba (Brasil) contou as vantagens de um sistema de ônibus que apresenta, a um custo menor, as vantagens do metrô, por ser dotado de vias exclusivas e funcionar com paradas rápidas e freqüências elevadas e constantes.O objetivo da cúpula também foi de tranqüilizar os participantes em relação ao possível desgaste político que certas medidas poderiam causar. Ken Livingstone, o prefeito de Londres e presidente do C40, se ofereceu para responder à seguinte pergunta: "Como lutar contra os engarrafamentos e, ainda assim, ser reeleito?", lembrando que quando ele quis implantar um pedágio no centro da cidade, a imprensa se mostrou "hostil numa proporção de 98%" e previu as piores conseqüências políticas.
Reunidos numa cúpula em Nova York, eles trocaram idéias e compartilharam projetos que visam a reduzir as emanações de gases geradores do efeito-estufa
No final de uma cúpula de quatro dias realizada em Nova York, os prefeitos das grandes cidades do mundo, que garantem estar na linha de frente na luta contra o aquecimento climático, publicaram uma nota, divulgada nesta quinta-feira, 17 de maio. Nesta, eles conclamam os dirigentes dos países industrializados do G8 a "se comprometerem a atuar em função de um objetivo de estabilização em longo prazo das concentrações de gases de efeito-estufa".
Cientes de que as cidades estão na origem de 80% das emissões de gases geradores do efeito-estufa, os representantes de 46 metrópoles, reunidas no quadro de um grupo chamado C40, prometeram agir sem esperar pelas iniciativas dos seus governos, que não raro têm se mostrado pusilânimes em relação a essas questões."O seu comportamento é vergonhoso, mas nós não podemos ficar de braços cruzados", declarou o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que era o anfitrião da cúpula e que recentemente manifestou a sua intenção de transformar a "Big Apple" numa "Green Apple", para transformá-la na cidade a mais "verde" do país.O plano de Bloomberg prevê a redução, antes de 2030, de 30% das emissões de gases geradores do efeito-estufa (produzidos na sua maior parte pelo consumo de energia dos prédios para fins de calefação), além do plantio de um milhão de árvores em dez anos e da instauração de um pedágio para os veículos que quiserem aceder ao centro da cidade - uma medida sem precedente nos Estados Unidos
.A conferência dos prefeitos dos Estados Unidos, que foi realizada em margem do C40, aplaudiu a iniciativa de Michael Bloomberg e anunciou que 500 cidades americanas já haviam se comprometido a reduzir as suas emissões de CO2 para níveis inferiores àqueles que foram registrados em 1990, dentro do mesmo espírito que norteou o protocolo de Kyoto, ao qual Washington não quis subscrever.Para os prefeitos das grandes metrópoles, esta era uma oportunidade para compartilhar idéias. O de Addis Abeba (Etiópia) se disse encantado por poder aprender a utilizar a energia solar. Por sua vez, o seu homólogo de Curitiba (Brasil) contou as vantagens de um sistema de ônibus que apresenta, a um custo menor, as vantagens do metrô, por ser dotado de vias exclusivas e funcionar com paradas rápidas e freqüências elevadas e constantes.O objetivo da cúpula também foi de tranqüilizar os participantes em relação ao possível desgaste político que certas medidas poderiam causar. Ken Livingstone, o prefeito de Londres e presidente do C40, se ofereceu para responder à seguinte pergunta: "Como lutar contra os engarrafamentos e, ainda assim, ser reeleito?", lembrando que quando ele quis implantar um pedágio no centro da cidade, a imprensa se mostrou "hostil numa proporção de 98%" e previu as piores conseqüências políticas.
editorial de sábado
Autonomia desfocada
Falsa dicotomia entre liberdade na academia e controle administrativo põe universidades em conflito com gestão Serra
A OCUPAÇÃO da reitoria da Universidade de São Paulo por mais de duas semanas constitui um desses exageros próprios de grupelhos estudantis intoxicados de ideologia, mas vai além. Organizada sob pretexto de defender a autonomia universitária, aparentemente sob ataque do governo José Serra, galvanizou-se com a precipitação de uma pauta interminável de reivindicações.Inebriados com a própria audácia sem foco, os invasores comemoram até a decisão de ignorar a liminar de reintegração de posse concedida pela Justiça. De modo oportunista, funcionários da USP iniciaram uma paralisação. O exemplo foi seguido por parte dos estudantes, depois que ralos 2,5% do corpo discente decretaram sua própria greve.Agora os docentes ameaçam parar. A deliberação deve ocorrer em assembléia na quarta-feira, mesma data da paralisação marcada por professores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).Os reitores das três universidades públicas -USP, Unicamp e Unesp-, afinal, emitiram comunicado afastando o risco de perda de autonomia. A nota se seguiu a uma carta do secretário estadual da Fazenda, Mauro Ricardo Machado Costa, assegurando que um "regime adequado de remanejamento de dotações orçamentárias" será definido somente em comum acordo.O desfecho do conflito entre reitorias e governo, mesmo que não esvazie de pronto a ocupação e as greves, reinstaura algo da serenidade perdida. O estranhamento se iniciara com a decisão do novo governo de criar a Secretaria de Ensino Superior e a ela subordinar as universidades, investindo seu titular (José Aristodemo Pinotti) como presidente do conselho de reitores (Cruesp), medida revertida sob pressão.Depois veio um contingenciamento temporário e mal-explicado de verbas, interpretado por parte da comunidade acadêmica como nova investida do Executivo contra sua autonomia. Em seguida, a determinação de que as universidades passassem a registrar diariamente seus gastos no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios.Assentada parte da poeira levantada por Serra e seus secretários, com manifesto açodamento, as medidas pouco a pouco vão sendo aceitas como justificáveis. Podem ser interpretadas como exigências legais, ou até de transparência desejável em instituições que, há pouco, se escudavam na autonomia para evitar o imperativo da eficiência na aplicação de recursos consideráveis (9,57% da arrecadação).As universidades públicas paulistas não são patrimônio de seus usuários, diferentemente do que parece pensar o punhado de invasores da reitoria da USP. A revitalização do papel cultural e social que elas já tiveram, em especial a USP, não será obtida com arroubos e precipitação movidos por razões ideológicas camufladas sob a capa de uma falsa disjunção entre controle e autonomia.
Falsa dicotomia entre liberdade na academia e controle administrativo põe universidades em conflito com gestão Serra
A OCUPAÇÃO da reitoria da Universidade de São Paulo por mais de duas semanas constitui um desses exageros próprios de grupelhos estudantis intoxicados de ideologia, mas vai além. Organizada sob pretexto de defender a autonomia universitária, aparentemente sob ataque do governo José Serra, galvanizou-se com a precipitação de uma pauta interminável de reivindicações.Inebriados com a própria audácia sem foco, os invasores comemoram até a decisão de ignorar a liminar de reintegração de posse concedida pela Justiça. De modo oportunista, funcionários da USP iniciaram uma paralisação. O exemplo foi seguido por parte dos estudantes, depois que ralos 2,5% do corpo discente decretaram sua própria greve.Agora os docentes ameaçam parar. A deliberação deve ocorrer em assembléia na quarta-feira, mesma data da paralisação marcada por professores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).Os reitores das três universidades públicas -USP, Unicamp e Unesp-, afinal, emitiram comunicado afastando o risco de perda de autonomia. A nota se seguiu a uma carta do secretário estadual da Fazenda, Mauro Ricardo Machado Costa, assegurando que um "regime adequado de remanejamento de dotações orçamentárias" será definido somente em comum acordo.O desfecho do conflito entre reitorias e governo, mesmo que não esvazie de pronto a ocupação e as greves, reinstaura algo da serenidade perdida. O estranhamento se iniciara com a decisão do novo governo de criar a Secretaria de Ensino Superior e a ela subordinar as universidades, investindo seu titular (José Aristodemo Pinotti) como presidente do conselho de reitores (Cruesp), medida revertida sob pressão.Depois veio um contingenciamento temporário e mal-explicado de verbas, interpretado por parte da comunidade acadêmica como nova investida do Executivo contra sua autonomia. Em seguida, a determinação de que as universidades passassem a registrar diariamente seus gastos no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios.Assentada parte da poeira levantada por Serra e seus secretários, com manifesto açodamento, as medidas pouco a pouco vão sendo aceitas como justificáveis. Podem ser interpretadas como exigências legais, ou até de transparência desejável em instituições que, há pouco, se escudavam na autonomia para evitar o imperativo da eficiência na aplicação de recursos consideráveis (9,57% da arrecadação).As universidades públicas paulistas não são patrimônio de seus usuários, diferentemente do que parece pensar o punhado de invasores da reitoria da USP. A revitalização do papel cultural e social que elas já tiveram, em especial a USP, não será obtida com arroubos e precipitação movidos por razões ideológicas camufladas sob a capa de uma falsa disjunção entre controle e autonomia.
complementando a notícia - o estrangeirismo, cada uma!!!!
Colaboração da Anne Caroline
Millôr também processado, ora! Ora!
O caso Diogo Mainardi, condenado pelo MR-8, e o caso de Arnaldo Jabor, processado pela tropa de choque do Chinaglia (cuidado com a pronúncia!), tornaram mais visível o ódio que os donos do puder têm por jornalistas. Conto o último processo contra mim, sem sombra da importância do processo contra Jabor e da ameaça vital contra Mainardi. Mas bem mais ridículo. Autor do processo, para me tomar R$ 32 200: Aldo Rebelo.
Motivo: quando ele, do alto do seu saber lingüístico, propôs decreto proibindo o uso de palavras estrangeiras em nossos escritos, comentei: "Ele sabe do que está falando? Quanta idioletice!".
Eu escrevia na Folha de S.Paulo quando o absoluto ignorantibus me processou. Sugeri à advogada Silvana Takano, do departamento jurídico da Folha, esta base para minha defesa:
1) Pra mim, laico, o processo está "prejudicado" em princípio. O deputado bota como meu este texto: "Ele sabe do que está falando? Quanta idiotice!". Ora, eu escrevi idioletice. O deputado confundiu idioletice com idiotice, o que é uma comprovação da mesma.
2) Parêntesis: A língua é a mais complexa, a mais milagrosa, a mais estranha, a mais gigantesca e variada invenção humana. Nada menos sujeito a tutelas autoritárias. Agora, mais uma vez, vê-se um cidadão, "eleito pelo povo", propor lei proibindo o uso de palavras estrangeiras em nossos escritos.
Péra aí: está na sua proposta de governo que ele teria autoridade para interferir no que eu falo, escrevo ou pinto em minha tabuleta? Ele sabe, literalmente, do que está falando?
Quanta idioletice!
3) Não coloquei o nome do autor, já que não era o caso, em se tratando de um absoluto leigo no assunto (e anônimo no geral) sobre o qual pretendia legislar – a língua nossa. Será que o Vossa Excelência aceitaria pequena sabatina de português tipo primeiro ginasial?
4) Bem, o "comprometimento da honorabilidade" do moço, como ele diz, pra ser tão grave, precisaria, pelo menos, que eu tivesse usado seu nome. Sem uso do nome a desonra fica restrita ao convívio de seus pares (e ímpares), que devem conhecer muito bem sua honra, e cultura lingüística.
5) Imune a tudo, o parlamentar tem direito total ao uso da palavra. Não pode ser condenado por isso (mesmo quando sua palavra é caluniosa). Por que o jornalista, que vive só da palavra, não pode nem discordar da legislação semântica do parlamentar sem ser tungado em R$ 30 200?
6) Embora não seja necessário, devido a se atribuir alto conhecimento da língua que defende, explico aqui ao nobre deputado o que significa a palavra idioletice. É palavra criada por mim com sentido evidente. Mas apenas coloquei a desinência ICE na palavra IDIOLETO.
Mas, afinal, o que é idioleto?
Vejamos:
Aurélio: Idioleto: S.m. E. Ling. 1. A fala de um único indivíduo.
Houaiss (definição mais barroca):
Idioleto: Sistema lingüístico de um único indivíduo, que reflete suas características pessoais, os estímulos a que foi submetido, sua biografia etc. (Pertence ao campo da langue, e não da parole, porque trata de particularidades lingüísticas constantes, não fortuitas. Depreendido de dialeto.)
II Nuovo ZINGARELLI – Vocabolario della Lingua Italiana:
Idiolétto: L'insieme degli usi di una lingua carateristtico di un dato individuo, in un determinato momento.
The Oxford Companion to the English Language:
Idiolect: (1940. From greek, idios personal, and -lect as in dialect.) In linguistics, the language special to an individual, "personal dialect".
The Cambridge Encyclopedia of Language. David Crystal:
Idiolect: Probably no two people are identical in the way they use language or react to the usage of others.
A Supplement to the Oxford English Dictionary:
Idiolect: 1948. B.Bloch in Languages XXIV. 7. The totality of the possible utterances of one speaker at one time in using one language to interact with other speaker is an idiolect.
Diccionario de Uso del Español Actual:
Idiolecto: En lingüístico, modo característico que cada hablante tiene de emplear su lengua.
(Importante, deputado: o prefácio deste dicionário é de Gabriel García Márquez. Vale a pena ler.)
1948. Archivum linguisticum:
Idioletical diversity is an inevitable result of the productivity inherent in every single individual linguistic habits.
P.S. Ah, deputado José Aldo Rebelo, vossa advogada, Dra. Zilah Joly, na página 7, linha 6, antepenúltima palavra da linha, de vosso brilhante arrazoado, usa à (a craseado), que mostra certo desconhecimento da língua normatizada. Eu não ligo não, defendo mesmo a tese de que a crase não existe em português do Brasil, mas tem gente no foro que repara.
Millôr também processado, ora! Ora!
O caso Diogo Mainardi, condenado pelo MR-8, e o caso de Arnaldo Jabor, processado pela tropa de choque do Chinaglia (cuidado com a pronúncia!), tornaram mais visível o ódio que os donos do puder têm por jornalistas. Conto o último processo contra mim, sem sombra da importância do processo contra Jabor e da ameaça vital contra Mainardi. Mas bem mais ridículo. Autor do processo, para me tomar R$ 32 200: Aldo Rebelo.
Motivo: quando ele, do alto do seu saber lingüístico, propôs decreto proibindo o uso de palavras estrangeiras em nossos escritos, comentei: "Ele sabe do que está falando? Quanta idioletice!".
Eu escrevia na Folha de S.Paulo quando o absoluto ignorantibus me processou. Sugeri à advogada Silvana Takano, do departamento jurídico da Folha, esta base para minha defesa:
1) Pra mim, laico, o processo está "prejudicado" em princípio. O deputado bota como meu este texto: "Ele sabe do que está falando? Quanta idiotice!". Ora, eu escrevi idioletice. O deputado confundiu idioletice com idiotice, o que é uma comprovação da mesma.
2) Parêntesis: A língua é a mais complexa, a mais milagrosa, a mais estranha, a mais gigantesca e variada invenção humana. Nada menos sujeito a tutelas autoritárias. Agora, mais uma vez, vê-se um cidadão, "eleito pelo povo", propor lei proibindo o uso de palavras estrangeiras em nossos escritos.
Péra aí: está na sua proposta de governo que ele teria autoridade para interferir no que eu falo, escrevo ou pinto em minha tabuleta? Ele sabe, literalmente, do que está falando?
Quanta idioletice!
3) Não coloquei o nome do autor, já que não era o caso, em se tratando de um absoluto leigo no assunto (e anônimo no geral) sobre o qual pretendia legislar – a língua nossa. Será que o Vossa Excelência aceitaria pequena sabatina de português tipo primeiro ginasial?
4) Bem, o "comprometimento da honorabilidade" do moço, como ele diz, pra ser tão grave, precisaria, pelo menos, que eu tivesse usado seu nome. Sem uso do nome a desonra fica restrita ao convívio de seus pares (e ímpares), que devem conhecer muito bem sua honra, e cultura lingüística.
5) Imune a tudo, o parlamentar tem direito total ao uso da palavra. Não pode ser condenado por isso (mesmo quando sua palavra é caluniosa). Por que o jornalista, que vive só da palavra, não pode nem discordar da legislação semântica do parlamentar sem ser tungado em R$ 30 200?
6) Embora não seja necessário, devido a se atribuir alto conhecimento da língua que defende, explico aqui ao nobre deputado o que significa a palavra idioletice. É palavra criada por mim com sentido evidente. Mas apenas coloquei a desinência ICE na palavra IDIOLETO.
Mas, afinal, o que é idioleto?
Vejamos:
Aurélio: Idioleto: S.m. E. Ling. 1. A fala de um único indivíduo.
Houaiss (definição mais barroca):
Idioleto: Sistema lingüístico de um único indivíduo, que reflete suas características pessoais, os estímulos a que foi submetido, sua biografia etc. (Pertence ao campo da langue, e não da parole, porque trata de particularidades lingüísticas constantes, não fortuitas. Depreendido de dialeto.)
II Nuovo ZINGARELLI – Vocabolario della Lingua Italiana:
Idiolétto: L'insieme degli usi di una lingua carateristtico di un dato individuo, in un determinato momento.
The Oxford Companion to the English Language:
Idiolect: (1940. From greek, idios personal, and -lect as in dialect.) In linguistics, the language special to an individual, "personal dialect".
The Cambridge Encyclopedia of Language. David Crystal:
Idiolect: Probably no two people are identical in the way they use language or react to the usage of others.
A Supplement to the Oxford English Dictionary:
Idiolect: 1948. B.Bloch in Languages XXIV. 7. The totality of the possible utterances of one speaker at one time in using one language to interact with other speaker is an idiolect.
Diccionario de Uso del Español Actual:
Idiolecto: En lingüístico, modo característico que cada hablante tiene de emplear su lengua.
(Importante, deputado: o prefácio deste dicionário é de Gabriel García Márquez. Vale a pena ler.)
1948. Archivum linguisticum:
Idioletical diversity is an inevitable result of the productivity inherent in every single individual linguistic habits.
P.S. Ah, deputado José Aldo Rebelo, vossa advogada, Dra. Zilah Joly, na página 7, linha 6, antepenúltima palavra da linha, de vosso brilhante arrazoado, usa à (a craseado), que mostra certo desconhecimento da língua normatizada. Eu não ligo não, defendo mesmo a tese de que a crase não existe em português do Brasil, mas tem gente no foro que repara.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
editorial de quinta
Retrocesso no Tietê
Quinze anos depois de iniciado o projeto de despoluição do Tietê, a qualidade da água do rio piorou em 2006 e, em alguns trechos, retornou aos mais baixos índices históricos, registrando até ausência de oxigênio, o que inviabiliza a vida da fauna.Apesar de ainda não haver um diagnóstico preciso das razões do retrocesso, está evidente que qualquer esforço de preservação do Tietê deve contar com o trabalho coordenado dos governos do Estado e dos municípios paulistas que jogam dejetos no rio.Esse esforço inclui a interligação das redes de coleta e tratamento de esgoto e a melhoria dos serviços de limpeza urbana. Não existe fórmula mágica que leve à despoluição do rio, se o volume de dejetos que ele recebe diariamente continuar nos alarmantes níveis atuais.O não-tratamento de esgoto em várias regiões da Grande São Paulo está entre as principais causas da degradação da qualidade da água do Tietê.Guarulhos, por exemplo, tem um índice zero de tratamento do esgoto que joga no rio. Em Diadema, o percentual é de pouco mais de 10%, enquanto em São Bernardo do Campo, ele alcança 20%. São números baixos, que envergonham a região mais industrializada do país.Lançado em 1992, o Projeto Tietê teve duas ações principais: o aprofundamento da calha do rio e a ampliação do volume de esgoto tratado.Na primeira fase, foram construídas, pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), estações de tratamento que têm capacidade de processar todo o esgoto produzido na Grande São Paulo.Em seguida, passou-se à etapa de negociação de convênios com os municípios para interligação de suas redes com as estações, por meio de contratos com a Sabesp ou por intermédio de empresas de saneamento locais. Das cidades da Grande São Paulo, a única que ainda continua em negociação é Guarulhos.É fundamental que essas obras de interligação sejam realizadas o mais rapidamente possível, para evitar a repetição do resultado do ano passado, de piora da qualidade das águas do rio, apontada pela própria Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental).A população também continua a dar sua contribuição para a deterioração do Tietê. Toneladas de lixo deixado nas ruas são levadas pelas chuvas para as águas do rio, fenômeno que se agravou com o aumento das precipitações no fim do ano passado.O governo do Estado calcula que 35% da poluição do rio é provoca por essa "carga difusa", cuja redução depende do compromisso de cada cidadão.A secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Dilma Pena, lamenta o resultado do ano passado, mas lembra que já se avançou muito na despoluição do rio, principalmente a jusante da capital. Progressos adicionais dependem do empenho da sociedade da região metropolitana de São Paulo, do Estado e dos municípios. Sem isso, corremos o risco de voltar a ver nova piora dos índices de poluição.
Quinze anos depois de iniciado o projeto de despoluição do Tietê, a qualidade da água do rio piorou em 2006 e, em alguns trechos, retornou aos mais baixos índices históricos, registrando até ausência de oxigênio, o que inviabiliza a vida da fauna.Apesar de ainda não haver um diagnóstico preciso das razões do retrocesso, está evidente que qualquer esforço de preservação do Tietê deve contar com o trabalho coordenado dos governos do Estado e dos municípios paulistas que jogam dejetos no rio.Esse esforço inclui a interligação das redes de coleta e tratamento de esgoto e a melhoria dos serviços de limpeza urbana. Não existe fórmula mágica que leve à despoluição do rio, se o volume de dejetos que ele recebe diariamente continuar nos alarmantes níveis atuais.O não-tratamento de esgoto em várias regiões da Grande São Paulo está entre as principais causas da degradação da qualidade da água do Tietê.Guarulhos, por exemplo, tem um índice zero de tratamento do esgoto que joga no rio. Em Diadema, o percentual é de pouco mais de 10%, enquanto em São Bernardo do Campo, ele alcança 20%. São números baixos, que envergonham a região mais industrializada do país.Lançado em 1992, o Projeto Tietê teve duas ações principais: o aprofundamento da calha do rio e a ampliação do volume de esgoto tratado.Na primeira fase, foram construídas, pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), estações de tratamento que têm capacidade de processar todo o esgoto produzido na Grande São Paulo.Em seguida, passou-se à etapa de negociação de convênios com os municípios para interligação de suas redes com as estações, por meio de contratos com a Sabesp ou por intermédio de empresas de saneamento locais. Das cidades da Grande São Paulo, a única que ainda continua em negociação é Guarulhos.É fundamental que essas obras de interligação sejam realizadas o mais rapidamente possível, para evitar a repetição do resultado do ano passado, de piora da qualidade das águas do rio, apontada pela própria Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental).A população também continua a dar sua contribuição para a deterioração do Tietê. Toneladas de lixo deixado nas ruas são levadas pelas chuvas para as águas do rio, fenômeno que se agravou com o aumento das precipitações no fim do ano passado.O governo do Estado calcula que 35% da poluição do rio é provoca por essa "carga difusa", cuja redução depende do compromisso de cada cidadão.A secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Dilma Pena, lamenta o resultado do ano passado, mas lembra que já se avançou muito na despoluição do rio, principalmente a jusante da capital. Progressos adicionais dependem do empenho da sociedade da região metropolitana de São Paulo, do Estado e dos municípios. Sem isso, corremos o risco de voltar a ver nova piora dos índices de poluição.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
editorial de quarta
Clareza necessária
Na primeira entrevista coletiva deste mandato, Lula condena os abusos grevistas por servidores públicos e nova reeleição
F ORAM NECESSÁRIOS quatro meses e 15 dias para o presidente da República começar a realizar a promessa -feita em outubro de 2006- de se dirigir ao público brasileiro, no segundo mandato, por meio de entrevistas coletivas. O evento de ontem não bastou para "encher a paciência dos jornalistas", como se expressara Lula naquela ocasião. Serviu, porém, para esclarecer questões relevantes, a principiar pela condenação veemente de greves abusivas no setor público.Confrontado com a pergunta sobre o fato de um ex-sindicalista na Presidência preparar-se para endurecer a regulamentação da greve por servidores, fez uso menos inócuo do microfone do que vinha sendo seu hábito e, sem meias palavras, atacou as paralisações prolongadas com pagamento dos dias parados como o que são, "férias".O presidente sinalizou que o projeto em gestação -a ser discutido com as centrais sindicais- exigirá a manutenção de serviços essenciais, pois "as vítimas são os pobres". Por fim, deixou claro que a greve constitui um direito, por certo, mas também um risco, e que se trata de "responsabilizar" seu exercício.Lula também foi incomumente categórico ao recusar uma candidatura em 2010: "Por não brincar com a democracia, não serei, nem pensarei, nem cogitarei qualquer hipótese de terceiro mandato". Questionado sobre a hipótese de a questão surgir no Congresso, desautorizou iniciativas nessa direção: "Acho imprudência, e a minha orientação para a base é de que ninguém apresente qualquer projeto, o que eu acho uma provocação à democracia brasileira".Não restam dúvidas, portanto. Lula reiterou ser favorável a uma reforma política que proíba a reeleição e instaure um mandato presidencial de cinco anos. Só não desanuviou por inteiro o panorama ao se permitir o deslize de afirmar ter sido obrigado a recandidatar-se, por exigência da situação política. Ao menos em tese, deixou aberta uma fresta para que a conjuntura volte a exigir dele tamanho "sacrifício". Confie-se que terá sido só um lapso, incompatível como é com a negativa peremptória.Lula disse mais. Quer fazer o seu sucessor, mesmo que não seja do PT. Espera terminar o governo em condições de subir em qualquer palanque. Prometeu fazer tudo que não fez no primeiro mandato e inundar o país com planos ao estilo do PAC -para a juventude, a segurança pública, a agricultura, a indústria... Com seu pendor para a hipérbole e para congratular-se por taxas de crescimento medíocres, não poderiam ter faltado frases como "nós vivemos o melhor momento da economia de toda a história da República".Arroubos à parte, eis aí a utilidade do ritual periódico das entrevistas coletivas numa democracia real: o governante se submete publicamente a prestar contas de seus atos, planos e convicções. O tempo que decorrer entre esta e as próximas entrevistas permitirá saber se Lula passou a encará-las, enfim, como obrigação a cumprir.
Na primeira entrevista coletiva deste mandato, Lula condena os abusos grevistas por servidores públicos e nova reeleição
F ORAM NECESSÁRIOS quatro meses e 15 dias para o presidente da República começar a realizar a promessa -feita em outubro de 2006- de se dirigir ao público brasileiro, no segundo mandato, por meio de entrevistas coletivas. O evento de ontem não bastou para "encher a paciência dos jornalistas", como se expressara Lula naquela ocasião. Serviu, porém, para esclarecer questões relevantes, a principiar pela condenação veemente de greves abusivas no setor público.Confrontado com a pergunta sobre o fato de um ex-sindicalista na Presidência preparar-se para endurecer a regulamentação da greve por servidores, fez uso menos inócuo do microfone do que vinha sendo seu hábito e, sem meias palavras, atacou as paralisações prolongadas com pagamento dos dias parados como o que são, "férias".O presidente sinalizou que o projeto em gestação -a ser discutido com as centrais sindicais- exigirá a manutenção de serviços essenciais, pois "as vítimas são os pobres". Por fim, deixou claro que a greve constitui um direito, por certo, mas também um risco, e que se trata de "responsabilizar" seu exercício.Lula também foi incomumente categórico ao recusar uma candidatura em 2010: "Por não brincar com a democracia, não serei, nem pensarei, nem cogitarei qualquer hipótese de terceiro mandato". Questionado sobre a hipótese de a questão surgir no Congresso, desautorizou iniciativas nessa direção: "Acho imprudência, e a minha orientação para a base é de que ninguém apresente qualquer projeto, o que eu acho uma provocação à democracia brasileira".Não restam dúvidas, portanto. Lula reiterou ser favorável a uma reforma política que proíba a reeleição e instaure um mandato presidencial de cinco anos. Só não desanuviou por inteiro o panorama ao se permitir o deslize de afirmar ter sido obrigado a recandidatar-se, por exigência da situação política. Ao menos em tese, deixou aberta uma fresta para que a conjuntura volte a exigir dele tamanho "sacrifício". Confie-se que terá sido só um lapso, incompatível como é com a negativa peremptória.Lula disse mais. Quer fazer o seu sucessor, mesmo que não seja do PT. Espera terminar o governo em condições de subir em qualquer palanque. Prometeu fazer tudo que não fez no primeiro mandato e inundar o país com planos ao estilo do PAC -para a juventude, a segurança pública, a agricultura, a indústria... Com seu pendor para a hipérbole e para congratular-se por taxas de crescimento medíocres, não poderiam ter faltado frases como "nós vivemos o melhor momento da economia de toda a história da República".Arroubos à parte, eis aí a utilidade do ritual periódico das entrevistas coletivas numa democracia real: o governante se submete publicamente a prestar contas de seus atos, planos e convicções. O tempo que decorrer entre esta e as próximas entrevistas permitirá saber se Lula passou a encará-las, enfim, como obrigação a cumprir.
terça-feira, 15 de maio de 2007
editorial de terça
Acordo possível
A radicalização na Bolívia enterrou uma década de cooperação energética com o Brasil e pôs fim a um projeto estratégicoDADOS O GRAU de radicalismo e a ausência de racionalidade econômica do governo de Evo Morales, o acordo fechado pela Petrobras para a venda de suas duas refinarias na Bolívia pode ser visto como aceitável, desde que seus termos venham a ser cumpridos pelo país vizinho.A estatal brasileira obteve US$ 112 milhões, valor inferior aos US$ 136 milhões que diz ter despendido na compra e em investimentos nas refinarias, mas bem superior aos US$ 65 milhões pretendidos por Morales.Porém, mais do que considerações contábeis, a experiência da Petrobras na Bolívia deixa lições valiosas para a política externa do governo Lula.A primeira delas é a de que simpatias ideológicas não devem determinar atos de política externa. Morales pode ser radical ou irracional, mas não é imprevisível. Todas as ações que praticou desde a posse, em 2006, foram antecipados em seus discursos e palavras de ordem.O governo brasileiro não escutou porque não quis. Ou, se escutou, julgou que os laços de amizade e identidade ideológica entre Lula e Morales poupariam o Brasil dos arroubos da nova gestão.A invasão das instalações da Petrobras pelo Exército boliviano, no 1º de Maio de 2006, mostrou o equívoco dessa posição.Desde o início, o governo brasileiro careceu de uma atitude mais assertiva na defesa dos interesses nacionais e preferiu o caminho da contemporização. O tom só mudou quando a Bolívia ameaçou expropriar as refinarias da Petrobras.A outra lição diz respeito a futuros investimentos na Bolívia. A eleição de Morales e, antes dela, a aprovação da nacionalização em plebiscito, deixaram clara a profunda desconfiança existente na sociedade boliviana em relação ao capital externo.As "transnacionales chupasangre" têm sido alvo das principais manifestações populares no país. Com a estatização, Morales buscou atender aos anseios de seu público e não há nenhuma indicação de mudança de ventos.Nesse cenário, é altamente desaconselhável a realização de novos investimentos por parte da Petrobras, com exceção daqueles necessários à manutenção das atividades de exploração e transporte de gás, do qual, infelizmente, o Brasil depende.A radicalização da Bolívia enterrou uma década de cooperação energética entre os dois países e pôs fim a um projeto estratégico que trazia benefícios mútuos. O gasoduto Brasil-Bolíva, inaugurado em 1999, criou um mercado até então inexistente para o gás boliviano e permitiu que o Brasil começasse a diversificar sua matriz energética.Resta agora ao Brasil minimizar as perdas e exigir o cumprimento leal do acordo de venda das refinarias da Petrobras.
A radicalização na Bolívia enterrou uma década de cooperação energética com o Brasil e pôs fim a um projeto estratégicoDADOS O GRAU de radicalismo e a ausência de racionalidade econômica do governo de Evo Morales, o acordo fechado pela Petrobras para a venda de suas duas refinarias na Bolívia pode ser visto como aceitável, desde que seus termos venham a ser cumpridos pelo país vizinho.A estatal brasileira obteve US$ 112 milhões, valor inferior aos US$ 136 milhões que diz ter despendido na compra e em investimentos nas refinarias, mas bem superior aos US$ 65 milhões pretendidos por Morales.Porém, mais do que considerações contábeis, a experiência da Petrobras na Bolívia deixa lições valiosas para a política externa do governo Lula.A primeira delas é a de que simpatias ideológicas não devem determinar atos de política externa. Morales pode ser radical ou irracional, mas não é imprevisível. Todas as ações que praticou desde a posse, em 2006, foram antecipados em seus discursos e palavras de ordem.O governo brasileiro não escutou porque não quis. Ou, se escutou, julgou que os laços de amizade e identidade ideológica entre Lula e Morales poupariam o Brasil dos arroubos da nova gestão.A invasão das instalações da Petrobras pelo Exército boliviano, no 1º de Maio de 2006, mostrou o equívoco dessa posição.Desde o início, o governo brasileiro careceu de uma atitude mais assertiva na defesa dos interesses nacionais e preferiu o caminho da contemporização. O tom só mudou quando a Bolívia ameaçou expropriar as refinarias da Petrobras.A outra lição diz respeito a futuros investimentos na Bolívia. A eleição de Morales e, antes dela, a aprovação da nacionalização em plebiscito, deixaram clara a profunda desconfiança existente na sociedade boliviana em relação ao capital externo.As "transnacionales chupasangre" têm sido alvo das principais manifestações populares no país. Com a estatização, Morales buscou atender aos anseios de seu público e não há nenhuma indicação de mudança de ventos.Nesse cenário, é altamente desaconselhável a realização de novos investimentos por parte da Petrobras, com exceção daqueles necessários à manutenção das atividades de exploração e transporte de gás, do qual, infelizmente, o Brasil depende.A radicalização da Bolívia enterrou uma década de cooperação energética entre os dois países e pôs fim a um projeto estratégico que trazia benefícios mútuos. O gasoduto Brasil-Bolíva, inaugurado em 1999, criou um mercado até então inexistente para o gás boliviano e permitiu que o Brasil começasse a diversificar sua matriz energética.Resta agora ao Brasil minimizar as perdas e exigir o cumprimento leal do acordo de venda das refinarias da Petrobras.
complementando a notícia - aborto
Lula diz que não enviará projeto sobre aborto ao Congresso
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje que não vai mandar nenhum projeto sobre a legalização do aborto para o Congresso. Segundo ele, esse assunto e outros considerados polêmicos --como pesquisas com células-tronco embrionárias-- têm que ser discutidos pelos parlamentares."Discutir temas que não estão na ordem do dia para serem discutidos, que têm divergências, como pena de morte, como aborto, como célula-tronco, na medida certa e no tempo certo, os congressistas vão se acertando e vão aprovando as coisas", disse ele em Jundiaí (60 km a noroeste de São Paulo). O presidente afirmou ainda que disse ao papa Bento 16 no encontro da semana passada que o país manterá o caráter de Estado laico --desvinculado da igreja. "O Brasil é um estado laico. Isso é da Constituição. O que eu quero ter como imagem é que a passagem do papa aqui pelo Brasil foi uma coisa extraordinária."Lula participou hoje da inauguração de novas instalações da Siemens, em Jundiaí.A visita do papa Bento 16 ao Brasil reacendeu no Congresso Nacional a discussão sobre a legalização do aborto. Na oposição, os partidos divergem sobre o tema. O PPS divulgou nota para defender a descriminalização do aborto no país, enquanto o DEM (ex-PFL) manifestou nesta segunda-feira posição contrária à prática.O PPS critica, na nota, a ameaça do Vaticano de excomungar políticos favoráveis ao aborto. "Se é o ato da excomunhão um direito inquestionável da igreja, é simbolicamente, nesse contexto, uma interferência indevida da religião em assuntos do Estado", diz a nota. O PPS defende a postura do ministro José Gomes Temporão (Saúde) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de considerar o aborto uma questão de saúde pública. "O governo brasileiro tem assumido posição corajosa, e a nosso ver correta, ao mostrar os perigos do aborto ilegal e clandestino, e se declarar publicamente a favor do debate sobre a legalização do procedimento."O DEM é contrário à legalização do aborto. O partido afirma, em seu blog, que "os democratas são contra o aborto e a favor da vida, sempre". Após a visita do papa, o DEM se mostrou disposto a "enfrentar o governo Lula e o PT no Congresso na votação contra qualquer proposta de legalização do aborto". O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) disse que, apesar da posição manifestada pelo DEM em seu blog, a discussão sobre a legalização do aborto não é questão fechada no partido. "Isso é uma questão da consciência de cada um. O ministro Temporão propôs uma discussão e não se posicionou contra ou a favor", disse.O PSDB não firmou posição oficial em relação ao tema. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse em discurso no plenário do Senado que o país precisa encarar o aborto de forma "realista". Virgílio criticou o recuo do ministro Temporão no debate sobre a descriminalização do aborto. "Estranhei sobremaneira o ministro Temporão, que é uma figura que me parece competente, capaz de exercer um bom Ministério da Saúde, ter dito que forças superiores lhe disseram para não falar mais sobre o tema", afirmou.Católico praticante, Virgílio defendeu a discussão do tema mesmo com a ameaça do Vaticano de excomungar políticos favoráveis à prática. "Eu não teria como deixar de marcar a minha posição nesse episódio e não há nenhuma contradição com a minha fé católica profunda. Não me sinto obrigado a me enquadrar nesses dogmas."
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje que não vai mandar nenhum projeto sobre a legalização do aborto para o Congresso. Segundo ele, esse assunto e outros considerados polêmicos --como pesquisas com células-tronco embrionárias-- têm que ser discutidos pelos parlamentares."Discutir temas que não estão na ordem do dia para serem discutidos, que têm divergências, como pena de morte, como aborto, como célula-tronco, na medida certa e no tempo certo, os congressistas vão se acertando e vão aprovando as coisas", disse ele em Jundiaí (60 km a noroeste de São Paulo). O presidente afirmou ainda que disse ao papa Bento 16 no encontro da semana passada que o país manterá o caráter de Estado laico --desvinculado da igreja. "O Brasil é um estado laico. Isso é da Constituição. O que eu quero ter como imagem é que a passagem do papa aqui pelo Brasil foi uma coisa extraordinária."Lula participou hoje da inauguração de novas instalações da Siemens, em Jundiaí.A visita do papa Bento 16 ao Brasil reacendeu no Congresso Nacional a discussão sobre a legalização do aborto. Na oposição, os partidos divergem sobre o tema. O PPS divulgou nota para defender a descriminalização do aborto no país, enquanto o DEM (ex-PFL) manifestou nesta segunda-feira posição contrária à prática.O PPS critica, na nota, a ameaça do Vaticano de excomungar políticos favoráveis ao aborto. "Se é o ato da excomunhão um direito inquestionável da igreja, é simbolicamente, nesse contexto, uma interferência indevida da religião em assuntos do Estado", diz a nota. O PPS defende a postura do ministro José Gomes Temporão (Saúde) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de considerar o aborto uma questão de saúde pública. "O governo brasileiro tem assumido posição corajosa, e a nosso ver correta, ao mostrar os perigos do aborto ilegal e clandestino, e se declarar publicamente a favor do debate sobre a legalização do procedimento."O DEM é contrário à legalização do aborto. O partido afirma, em seu blog, que "os democratas são contra o aborto e a favor da vida, sempre". Após a visita do papa, o DEM se mostrou disposto a "enfrentar o governo Lula e o PT no Congresso na votação contra qualquer proposta de legalização do aborto". O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) disse que, apesar da posição manifestada pelo DEM em seu blog, a discussão sobre a legalização do aborto não é questão fechada no partido. "Isso é uma questão da consciência de cada um. O ministro Temporão propôs uma discussão e não se posicionou contra ou a favor", disse.O PSDB não firmou posição oficial em relação ao tema. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse em discurso no plenário do Senado que o país precisa encarar o aborto de forma "realista". Virgílio criticou o recuo do ministro Temporão no debate sobre a descriminalização do aborto. "Estranhei sobremaneira o ministro Temporão, que é uma figura que me parece competente, capaz de exercer um bom Ministério da Saúde, ter dito que forças superiores lhe disseram para não falar mais sobre o tema", afirmou.Católico praticante, Virgílio defendeu a discussão do tema mesmo com a ameaça do Vaticano de excomungar políticos favoráveis à prática. "Eu não teria como deixar de marcar a minha posição nesse episódio e não há nenhuma contradição com a minha fé católica profunda. Não me sinto obrigado a me enquadrar nesses dogmas."
segunda-feira, 14 de maio de 2007
editorial de segunda
O lugar dos jovens
Dados sobre riscos da juventude reforçam tese de que prioridade à escola básica pode ser decisiva para o progresso social
NADA EXISTE de mais perverso, em matéria social, do que relegar a juventude à ausência quase completa de perspectivas. No Brasil, essa vinha sendo a realidade vivida por boa parte das gerações nascidas em décadas passadas, especialmente nas grandes cidades. Há sinais, porém, de que o prolongado ciclo de abandono estaria próximo de uma reversão, como sugere o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) apresentado na semana passada em São Paulo.O indicador criado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) se baseia em três tipos de informação associados com a marginalização dessa faixa etária: freqüência escolar, morte por homicídio e gravidez precoce. Colhidos em 96 distritos da capital, os dados reunidos na cifra de 0 a 100 oferecem um instantâneo do nível de risco a que os jovens estão expostos. Quanto maior o número, pior a situação.De 2000 para 2005, o IVJ paulistano caiu de 70 para 51. Tão auspicioso quanto a queda, em si, é seu detalhamento estatístico: deu-se de modo uniforme em todas as regiões do município, ricas ou pobres; nestas, de maneira mais acentuada (24 pontos de decréscimo). O IVJ dos 19 distritos mais desfavorecidos em 2005 (64) era melhor que a própria média da cidade no ano 2000.O dado que chama mais a atenção está no peso da freqüência ao ensino médio, responsável por 8 pontos no recuo total de 19 observado pelo índice. Se em 2000 apenas 52% dos paulistanos de 15 a 17 anos estavam matriculados nesse nível, em 2005 o contingente já se encontrava em 68%. Um progresso considerável, sobretudo quando se tem em conta que as áreas mais pobres seguiram ritmo similar (de 47% para 63%).O segundo fator que mais influiu na melhora, retirando do IVJ cinco pontos no qüinqüênio, foi a queda na taxa de mortalidade por agressão de rapazes entre 15 e 19 anos. De 216 óbitos por 100 mil jovens, desceu para 141. Taxa elevada, decerto, mas a queda é animadora.Embora a correlação entre as duas variáveis não possa ser encarada de pronto como relação de causa e efeito -mais educação levando a menos violência-, há algo de sugestivo. Pode-se dizer, no mínimo, que as causas porventura em ação parecem concorrer para o duplo efeito.Difícil seria imaginar que qualquer progresso social pudesse ser alcançado sem avanço considerável no ensino, em especial num país que, como o Brasil, o viu despencar num abismo de ineficiência. Mostra-se acertada, portanto, a prioridade dada na esfera pública à reforma da educação básica, que impôs ao governo Lula a necessidade de uma resposta, na forma do Plano de Desenvolvimento da Educação.Esta Folha, como tantos setores sociais, deu boas-vindas ao plano e apoiou as metas do movimento Todos pela Educação para o ano 2022. Entre elas, a de que 90% dos jovens de 19 anos completem o ensino médio (hoje são cerca de 39%). O IVJ paulistano vem corroborar que esse é o caminho a seguir, no país todo.
Dados sobre riscos da juventude reforçam tese de que prioridade à escola básica pode ser decisiva para o progresso social
NADA EXISTE de mais perverso, em matéria social, do que relegar a juventude à ausência quase completa de perspectivas. No Brasil, essa vinha sendo a realidade vivida por boa parte das gerações nascidas em décadas passadas, especialmente nas grandes cidades. Há sinais, porém, de que o prolongado ciclo de abandono estaria próximo de uma reversão, como sugere o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) apresentado na semana passada em São Paulo.O indicador criado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) se baseia em três tipos de informação associados com a marginalização dessa faixa etária: freqüência escolar, morte por homicídio e gravidez precoce. Colhidos em 96 distritos da capital, os dados reunidos na cifra de 0 a 100 oferecem um instantâneo do nível de risco a que os jovens estão expostos. Quanto maior o número, pior a situação.De 2000 para 2005, o IVJ paulistano caiu de 70 para 51. Tão auspicioso quanto a queda, em si, é seu detalhamento estatístico: deu-se de modo uniforme em todas as regiões do município, ricas ou pobres; nestas, de maneira mais acentuada (24 pontos de decréscimo). O IVJ dos 19 distritos mais desfavorecidos em 2005 (64) era melhor que a própria média da cidade no ano 2000.O dado que chama mais a atenção está no peso da freqüência ao ensino médio, responsável por 8 pontos no recuo total de 19 observado pelo índice. Se em 2000 apenas 52% dos paulistanos de 15 a 17 anos estavam matriculados nesse nível, em 2005 o contingente já se encontrava em 68%. Um progresso considerável, sobretudo quando se tem em conta que as áreas mais pobres seguiram ritmo similar (de 47% para 63%).O segundo fator que mais influiu na melhora, retirando do IVJ cinco pontos no qüinqüênio, foi a queda na taxa de mortalidade por agressão de rapazes entre 15 e 19 anos. De 216 óbitos por 100 mil jovens, desceu para 141. Taxa elevada, decerto, mas a queda é animadora.Embora a correlação entre as duas variáveis não possa ser encarada de pronto como relação de causa e efeito -mais educação levando a menos violência-, há algo de sugestivo. Pode-se dizer, no mínimo, que as causas porventura em ação parecem concorrer para o duplo efeito.Difícil seria imaginar que qualquer progresso social pudesse ser alcançado sem avanço considerável no ensino, em especial num país que, como o Brasil, o viu despencar num abismo de ineficiência. Mostra-se acertada, portanto, a prioridade dada na esfera pública à reforma da educação básica, que impôs ao governo Lula a necessidade de uma resposta, na forma do Plano de Desenvolvimento da Educação.Esta Folha, como tantos setores sociais, deu boas-vindas ao plano e apoiou as metas do movimento Todos pela Educação para o ano 2022. Entre elas, a de que 90% dos jovens de 19 anos completem o ensino médio (hoje são cerca de 39%). O IVJ paulistano vem corroborar que esse é o caminho a seguir, no país todo.
artigo de opinião
Mulheres, elas mesmas
As últimas leituras deixaram-me desconcertado. De acordo com relatório da ONU, há no mundo 1,1 bilhão de seres humanos vivendo em extrema pobreza (renda inferior a R$ 61 por mês), 800 milhões de pessoas vão dormir famintos ao final de cada dia e, a cada hora, morrem 1.200 crianças atingidas por desnutrição e doenças infecciosas já erradicadas nos países mais sérios. Para aumentar o mal-estar, descobri num estudo da American Cancer Society que a injustiça social produz marcas inaceitáveis. Nos EUA, os ricos vivem mais, têm menos doenças, recebem os melhores tratamentos e morrem com mais conforto. O mal-estar fica quase insuportável quando imagino o que deve estar acontecendo no resto do mundo. Ante estatísticas tão desalentadoras, a ONU organizou em 2000 o Encontro do Milênio, em que se definiram metas para, até 2015, reduzir pela metade a fome e a miséria. Como instrumentos, foram idealizadas ações em educação, saúde, preservação ambiental, acesso à tecnologia e, interessante, de valorização e participação igualitária da mulher na sociedade. Pelo que eu sabia e, sobretudo, pelo que não sabia, resolvi explorar o papel social das mulheres nos países mais desassistidos. Descobri que elas são responsáveis por cerca de 66% do trabalho que sustenta as famílias, colhem de 60% a 80% do alimento da nação e são provedoras quase exclusivas da assistência a vulneráveis, crianças, doentes e idosos. Apesar disso, recebem só 5% ou 10% dos rendimentos do trabalho, de acordo com a Women's International Network. Nessas mesmas sociedades, pais amedrontados com a violência física e sexual afastam suas filhas das escolas, gerando um enorme contingente de mulheres iletradas e fragilizadas. Ademais, por carência absoluta de recursos destinados à saúde, uma quantidade indecente de mulheres morre durante ou após a gestação, número cerca de 125 vezes maior que na Europa desenvolvida. Por essa imperfeição, se, nos países prósperos, o momento do nascimento de um filho se transforma no dia mais feliz da vida de uma mulher, nos países pobres, o dia de um nascimento pode ser também o dia em que a mãe morre. Além do resgate da dignidade humana, ações que valorizam as mulheres produzem avanços incomparáveis nas sociedades que as adotam. Estudo realizado no Peru mostrou que as taxas de filhos escolarizados são 40% maiores quando a mãe é alfabetizada, em contraposição ao pai alfabetizado. Pesquisa na Guatemala mostra que, quando os proventos familiares são gerados e gerenciados pela mulher, e não pelo homem, as despesas com a alimentação dos filhos é 15 vezes menor. Segundo dados do Banco Mundial, para cada ano a mais de escolarização da mãe, o risco de mortalidade infantil diminui de nove em cada mil nascimentos. Mais: empréstimos modestos concedidos pelo governo às mulheres de uma comunidade rural da Índia permitiram a criação de pequenos negócios e a emancipação das participantes. Paralelamente, a taxa de mulheres e meninas vítimas de abuso físico e sexual doméstico caiu de 49% para 7%. Por fim, segundo dados da ONU, programas educacionais de planejamento familiar em comunidades carentes diminuem o número de gestações de risco e reduzem de 20% a 35% os índices de mortalidade materna. Esses pequenos exemplos demonstram que eliminar as desigualdades de gênero é fundamental para produzir a prosperidade de uma nação. Para tanto, é imprescindível que se concedam às mulheres os mesmos direitos desfrutados pelos homens no trabalho, na propriedade e na política, que se facilite seu acesso à educação e à saúde, que se reduza sua vulnerabilidade à violência e, principalmente, que se conceda a elas o direito de controlar seu próprio destino. De quem depende isso? De todos. Dos governos, que devem ter compromisso inegociável com a defesa da condição humana, combatendo com suas poderosas armas as indecências da pobreza e concedendo os direitos às mulheres. Da sociedade, que deve forjar nova construção social, em que a mulher não seja vista como mero instrumento de perpetuação da espécie. E de cada um de nós, que não pode perder a compaixão. Comecei o texto afirmando-me desconcertado. Contribuiu para isso uma investida que fiz no "Aurélio", tentando compreender o significado da palavra "mulher". Fechei rapidamente o compêndio: dos 31 usos dessa palavra, 20 referiam-se à mulher como objeto sexual ou meretriz. Perdôo o "Aurélio" e termino o texto reconfortado. Afinal, mulher se confunde, sobretudo, com a questão eterna da maternidade, o resgate da dignidade humana e a superação da miséria no mundo. Termino não só reconfortado mas, hoje, dirigindo um olhar de gratidão para a minha Ivone a para todas as Ivones do mundo.
MIGUEL SROUGI , 60, pós-graduado em urologia pela Universidade de Harvard (EUA), é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP.
As últimas leituras deixaram-me desconcertado. De acordo com relatório da ONU, há no mundo 1,1 bilhão de seres humanos vivendo em extrema pobreza (renda inferior a R$ 61 por mês), 800 milhões de pessoas vão dormir famintos ao final de cada dia e, a cada hora, morrem 1.200 crianças atingidas por desnutrição e doenças infecciosas já erradicadas nos países mais sérios. Para aumentar o mal-estar, descobri num estudo da American Cancer Society que a injustiça social produz marcas inaceitáveis. Nos EUA, os ricos vivem mais, têm menos doenças, recebem os melhores tratamentos e morrem com mais conforto. O mal-estar fica quase insuportável quando imagino o que deve estar acontecendo no resto do mundo. Ante estatísticas tão desalentadoras, a ONU organizou em 2000 o Encontro do Milênio, em que se definiram metas para, até 2015, reduzir pela metade a fome e a miséria. Como instrumentos, foram idealizadas ações em educação, saúde, preservação ambiental, acesso à tecnologia e, interessante, de valorização e participação igualitária da mulher na sociedade. Pelo que eu sabia e, sobretudo, pelo que não sabia, resolvi explorar o papel social das mulheres nos países mais desassistidos. Descobri que elas são responsáveis por cerca de 66% do trabalho que sustenta as famílias, colhem de 60% a 80% do alimento da nação e são provedoras quase exclusivas da assistência a vulneráveis, crianças, doentes e idosos. Apesar disso, recebem só 5% ou 10% dos rendimentos do trabalho, de acordo com a Women's International Network. Nessas mesmas sociedades, pais amedrontados com a violência física e sexual afastam suas filhas das escolas, gerando um enorme contingente de mulheres iletradas e fragilizadas. Ademais, por carência absoluta de recursos destinados à saúde, uma quantidade indecente de mulheres morre durante ou após a gestação, número cerca de 125 vezes maior que na Europa desenvolvida. Por essa imperfeição, se, nos países prósperos, o momento do nascimento de um filho se transforma no dia mais feliz da vida de uma mulher, nos países pobres, o dia de um nascimento pode ser também o dia em que a mãe morre. Além do resgate da dignidade humana, ações que valorizam as mulheres produzem avanços incomparáveis nas sociedades que as adotam. Estudo realizado no Peru mostrou que as taxas de filhos escolarizados são 40% maiores quando a mãe é alfabetizada, em contraposição ao pai alfabetizado. Pesquisa na Guatemala mostra que, quando os proventos familiares são gerados e gerenciados pela mulher, e não pelo homem, as despesas com a alimentação dos filhos é 15 vezes menor. Segundo dados do Banco Mundial, para cada ano a mais de escolarização da mãe, o risco de mortalidade infantil diminui de nove em cada mil nascimentos. Mais: empréstimos modestos concedidos pelo governo às mulheres de uma comunidade rural da Índia permitiram a criação de pequenos negócios e a emancipação das participantes. Paralelamente, a taxa de mulheres e meninas vítimas de abuso físico e sexual doméstico caiu de 49% para 7%. Por fim, segundo dados da ONU, programas educacionais de planejamento familiar em comunidades carentes diminuem o número de gestações de risco e reduzem de 20% a 35% os índices de mortalidade materna. Esses pequenos exemplos demonstram que eliminar as desigualdades de gênero é fundamental para produzir a prosperidade de uma nação. Para tanto, é imprescindível que se concedam às mulheres os mesmos direitos desfrutados pelos homens no trabalho, na propriedade e na política, que se facilite seu acesso à educação e à saúde, que se reduza sua vulnerabilidade à violência e, principalmente, que se conceda a elas o direito de controlar seu próprio destino. De quem depende isso? De todos. Dos governos, que devem ter compromisso inegociável com a defesa da condição humana, combatendo com suas poderosas armas as indecências da pobreza e concedendo os direitos às mulheres. Da sociedade, que deve forjar nova construção social, em que a mulher não seja vista como mero instrumento de perpetuação da espécie. E de cada um de nós, que não pode perder a compaixão. Comecei o texto afirmando-me desconcertado. Contribuiu para isso uma investida que fiz no "Aurélio", tentando compreender o significado da palavra "mulher". Fechei rapidamente o compêndio: dos 31 usos dessa palavra, 20 referiam-se à mulher como objeto sexual ou meretriz. Perdôo o "Aurélio" e termino o texto reconfortado. Afinal, mulher se confunde, sobretudo, com a questão eterna da maternidade, o resgate da dignidade humana e a superação da miséria no mundo. Termino não só reconfortado mas, hoje, dirigindo um olhar de gratidão para a minha Ivone a para todas as Ivones do mundo.
MIGUEL SROUGI , 60, pós-graduado em urologia pela Universidade de Harvard (EUA), é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP.
editorial de domingo
A utilidade das florestas
A revista norte-americana "Science" lançou pela internet um artigo importante para o debate sobre mudança climática e florestas tropicais. Uma equipe de 11 especialistas defende a redução do desmatamento como ferramenta de combate ao aquecimento global.Destruídas, florestas liberam carbono da biomassa na forma de gases problemáticos para o clima, como dióxido de carbono (CO2). A concentração crescente desses compostos agrava o efeito estufa ao aprisionar radiação na atmosfera, aquecendo-a.A meta é não ultrapassar 2C de aquecimento adicional. Para isso, cumpre estabilizar a concentração de CO2 por volta de 450 ppm (partes por milhão) até 2100 -hoje ela é de 380 ppm.O trabalho na "Science" calculou a contribuição possível da redução do desmatamento em países como Brasil e Indonésia para conter a mudança climática.Pelas contas do grupo, a diminuição -até zerar as taxas em 2050- poderia contribuir com 12% daquele esforço. Além de ser uma maneira barata de cortar emissões, a iniciativa traria benefícios óbvios, como a regularização de chuvas e rios.O Brasil, na condição de país com a maior floresta tropical e também de campeão mundial em desmatamento, pode beneficiar-se muito dessa lógica. O governo reluta, porém, em aceitar ser remunerado por reduzir a destruição irracional, pois isso implicaria metas e monitoramento de compromissos assumidos, ainda que voluntários.Se não moderar essa resistência, o país perderá ainda mais oportunidades no florescente mercado global de carbono do que já vem perdendo.
A revista norte-americana "Science" lançou pela internet um artigo importante para o debate sobre mudança climática e florestas tropicais. Uma equipe de 11 especialistas defende a redução do desmatamento como ferramenta de combate ao aquecimento global.Destruídas, florestas liberam carbono da biomassa na forma de gases problemáticos para o clima, como dióxido de carbono (CO2). A concentração crescente desses compostos agrava o efeito estufa ao aprisionar radiação na atmosfera, aquecendo-a.A meta é não ultrapassar 2C de aquecimento adicional. Para isso, cumpre estabilizar a concentração de CO2 por volta de 450 ppm (partes por milhão) até 2100 -hoje ela é de 380 ppm.O trabalho na "Science" calculou a contribuição possível da redução do desmatamento em países como Brasil e Indonésia para conter a mudança climática.Pelas contas do grupo, a diminuição -até zerar as taxas em 2050- poderia contribuir com 12% daquele esforço. Além de ser uma maneira barata de cortar emissões, a iniciativa traria benefícios óbvios, como a regularização de chuvas e rios.O Brasil, na condição de país com a maior floresta tropical e também de campeão mundial em desmatamento, pode beneficiar-se muito dessa lógica. O governo reluta, porém, em aceitar ser remunerado por reduzir a destruição irracional, pois isso implicaria metas e monitoramento de compromissos assumidos, ainda que voluntários.Se não moderar essa resistência, o país perderá ainda mais oportunidades no florescente mercado global de carbono do que já vem perdendo.
sábado, 12 de maio de 2007
editorial de sábado
A barbárie, um ano depois
Há um ano, o crime organizado lançou seu mais violento ataque às forças de segurança em São Paulo. Em oito dias, deixou um rastro de 373 atentados e 140 mortos no Estado, entre agentes de segurança, civis e pessoas apontadas pelo governo como criminosos. A perplexidade tomou conta do país. A onda de atentados alarmou milhões de habitantes de sua maior cidade.A dimensão dos fatos ocorridos em maio de 2006 contrasta com os tímidos avanços obtidos na punição dos responsáveis. Um único dado basta para demonstrar a inépcia dos órgãos de segurança e do Judiciário diante dos fatos: passados 12 meses dos atentados, foram apresentadas até agora apenas oito denúncias por homicídio.Outro aspecto suspeito é a desproporção entre o perfil das vítimas. Dos 140 mortos entre 12 e 19 de maio de 2006, 43 integravam as forças de segurança, 5 eram civis e 92 foram apontados como criminosos pela polícia. Mas, das oito denúncias, sete dizem respeito a crimes cometidos contra policiais.Em relação à origem dos ataques, o principal avanço é o maior controle do Estado sobre os líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que ordenou os atentados de maio de 2006.A política do governo do Estado parece ter surtido resultados, pois a quadrilha não tem conseguido realizar novos ataques. Depois dos crimes de maio, a facção voltou a perpetrar atentados em julho e em agosto.A maioria dos chefetes -cerca de 600- encontra-se agora na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, de segurança máxima. A transferência de líderes da facção para essa unidade foi o estopim da violência registrada há um ano.Apesar do avanços registrados no combate à criminalidade, o fato é que o PCC sobrevive e mantém poder considerável, dentro e fora das prisões. A quadrilha foi contida, mas não desbaratada.
Há um ano, o crime organizado lançou seu mais violento ataque às forças de segurança em São Paulo. Em oito dias, deixou um rastro de 373 atentados e 140 mortos no Estado, entre agentes de segurança, civis e pessoas apontadas pelo governo como criminosos. A perplexidade tomou conta do país. A onda de atentados alarmou milhões de habitantes de sua maior cidade.A dimensão dos fatos ocorridos em maio de 2006 contrasta com os tímidos avanços obtidos na punição dos responsáveis. Um único dado basta para demonstrar a inépcia dos órgãos de segurança e do Judiciário diante dos fatos: passados 12 meses dos atentados, foram apresentadas até agora apenas oito denúncias por homicídio.Outro aspecto suspeito é a desproporção entre o perfil das vítimas. Dos 140 mortos entre 12 e 19 de maio de 2006, 43 integravam as forças de segurança, 5 eram civis e 92 foram apontados como criminosos pela polícia. Mas, das oito denúncias, sete dizem respeito a crimes cometidos contra policiais.Em relação à origem dos ataques, o principal avanço é o maior controle do Estado sobre os líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que ordenou os atentados de maio de 2006.A política do governo do Estado parece ter surtido resultados, pois a quadrilha não tem conseguido realizar novos ataques. Depois dos crimes de maio, a facção voltou a perpetrar atentados em julho e em agosto.A maioria dos chefetes -cerca de 600- encontra-se agora na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, de segurança máxima. A transferência de líderes da facção para essa unidade foi o estopim da violência registrada há um ano.Apesar do avanços registrados no combate à criminalidade, o fato é que o PCC sobrevive e mantém poder considerável, dentro e fora das prisões. A quadrilha foi contida, mas não desbaratada.
artigo de opinião
É correta a posição da Igreja Católica em relação ao aborto?
NÃO
Em defesa das liberdades laicas
Não é papel do Estado fomentar doutrinas religiosas. Quanto ao aborto, seguir ou não a orientação da igreja é decisão que cada brasileira tomará ao enfrentar o dilema de interromper uma gravidez indesejada. A laicidade do Estado impõe que a decisão seja acolhida pelo Ministério da Saúde, garantindo o pré-natal ou o acesso a um aborto legal e seguro. O fato de vivermos em um Estado laico é que garante às brasileiras o acesso a informações sobre métodos contraceptivos e relações sexuais protegidas por preservativos. Essas informações permitem que a mulher, livre e conscientemente, tome suas próprias decisões. Se uma mulher católica não quiser usar a pílula ou se proteger, não está obrigada a fazê-lo. O Estado laico respeita sua decisão, mas ela não perde sua liberdade para mudar de idéia quando quiser. O debate sobre o aborto não produz consenso. Como resultado, nas sociedades democráticas, as mulheres não são obrigadas a abortar, pois gozam de autonomia reprodutiva. Pelo mesmo fundamento, não são obrigadas a levar a termo a gravidez indesejada. A recente descriminalização do aborto pela sociedade mexicana (88% de católicos) traz bom ensinamento. O fato de a maioria ser católica não impede que se respeitem as minorias. Ser católico não impede que se seja laico, isto é, que se aceite que existem pessoas que pensam diferente e que também essas pessoas devem ter seus direitos garantidos pelo Estado. A reação adversa à proposta de descriminalização do aborto expõe nossa cultura jurídica monárquica, tão afeiçoada à desigualdade. Governantes, legisladores e juízes não sentem necessidade de descriminalizar o aborto pois, ante uma gravidez indesejada, independentemente do que pensem a respeito, têm liberdade para acessar um aborto legal (de fato) e seguro. Compreender como opera essa lógica excludente contribui para enfrentar a questão. Tomemos o exemplo do ensino religioso na escola pública. Nós, das elites, não somos atingidos, pois pagamos escolas privadas. Compramos a liberdade de escolher se nossos filhos terão educação confessional ou laica. Se outras pessoas não podem pagar por escolas laicas e são obrigadas a enviar os filhos a escolas públicas confessionais, onde se convertem em minorias estigmatizadas, é problema delas. Se suas consciências e crenças estão protegidas como garantias fundamentais na Constituição, é problema delas. Se a dignidade dessas famílias é violada a cada dia letivo, é problema delas. Numa interpretação jurídica simplória, admite-se o ensino público religioso, aplicando-se uma regra (art. 210, parágrafo 1º, CF) que viola o princípio da dignidade da pessoa humana, assegurado no primeiro artigo da Constituição. Num paralelo entre nosso ordenamento jurídico e o sistema solar, equivale a dar maior importância a Plutão do que ao próprio sol. Como se forja uma cultura jurídica tão insensível às liberdades do outro? Impondo às minorias um tratamento desigual desde os primeiros dias na escola. Privilegiando um determinado pertencimento religioso em detrimento de outras crenças -ou da não-crença. Submetendo crianças e adolescentes a um tratamento desigual durante gerações, formamos uma sociedade indiferente à desigualdade. Quatro séculos de ditadura religiosa debilitaram nossa capacidade de lutar pelos direitos de quem pensa de forma diferente de nós. O respeito à pluralidade é condição para um enfrentamento da questão do aborto que fortaleça a cidadania. O Estado é o responsável pela formação da consciência cívica das futuras gerações do nosso povo, valorizando as diferenças, em vez e hierarquizá-las. Daí a necessidade de um ensino público laico e inclusivo. A concordata proposta pela Igreja Católica ofende a laicidade afirmada no artigo 19, I, da CF, e exige soberano repúdio do Estado brasileiro, que é laico e tem por objetivo promover uma sociedade livre
NÃO
Em defesa das liberdades laicas
Não é papel do Estado fomentar doutrinas religiosas. Quanto ao aborto, seguir ou não a orientação da igreja é decisão que cada brasileira tomará ao enfrentar o dilema de interromper uma gravidez indesejada. A laicidade do Estado impõe que a decisão seja acolhida pelo Ministério da Saúde, garantindo o pré-natal ou o acesso a um aborto legal e seguro. O fato de vivermos em um Estado laico é que garante às brasileiras o acesso a informações sobre métodos contraceptivos e relações sexuais protegidas por preservativos. Essas informações permitem que a mulher, livre e conscientemente, tome suas próprias decisões. Se uma mulher católica não quiser usar a pílula ou se proteger, não está obrigada a fazê-lo. O Estado laico respeita sua decisão, mas ela não perde sua liberdade para mudar de idéia quando quiser. O debate sobre o aborto não produz consenso. Como resultado, nas sociedades democráticas, as mulheres não são obrigadas a abortar, pois gozam de autonomia reprodutiva. Pelo mesmo fundamento, não são obrigadas a levar a termo a gravidez indesejada. A recente descriminalização do aborto pela sociedade mexicana (88% de católicos) traz bom ensinamento. O fato de a maioria ser católica não impede que se respeitem as minorias. Ser católico não impede que se seja laico, isto é, que se aceite que existem pessoas que pensam diferente e que também essas pessoas devem ter seus direitos garantidos pelo Estado. A reação adversa à proposta de descriminalização do aborto expõe nossa cultura jurídica monárquica, tão afeiçoada à desigualdade. Governantes, legisladores e juízes não sentem necessidade de descriminalizar o aborto pois, ante uma gravidez indesejada, independentemente do que pensem a respeito, têm liberdade para acessar um aborto legal (de fato) e seguro. Compreender como opera essa lógica excludente contribui para enfrentar a questão. Tomemos o exemplo do ensino religioso na escola pública. Nós, das elites, não somos atingidos, pois pagamos escolas privadas. Compramos a liberdade de escolher se nossos filhos terão educação confessional ou laica. Se outras pessoas não podem pagar por escolas laicas e são obrigadas a enviar os filhos a escolas públicas confessionais, onde se convertem em minorias estigmatizadas, é problema delas. Se suas consciências e crenças estão protegidas como garantias fundamentais na Constituição, é problema delas. Se a dignidade dessas famílias é violada a cada dia letivo, é problema delas. Numa interpretação jurídica simplória, admite-se o ensino público religioso, aplicando-se uma regra (art. 210, parágrafo 1º, CF) que viola o princípio da dignidade da pessoa humana, assegurado no primeiro artigo da Constituição. Num paralelo entre nosso ordenamento jurídico e o sistema solar, equivale a dar maior importância a Plutão do que ao próprio sol. Como se forja uma cultura jurídica tão insensível às liberdades do outro? Impondo às minorias um tratamento desigual desde os primeiros dias na escola. Privilegiando um determinado pertencimento religioso em detrimento de outras crenças -ou da não-crença. Submetendo crianças e adolescentes a um tratamento desigual durante gerações, formamos uma sociedade indiferente à desigualdade. Quatro séculos de ditadura religiosa debilitaram nossa capacidade de lutar pelos direitos de quem pensa de forma diferente de nós. O respeito à pluralidade é condição para um enfrentamento da questão do aborto que fortaleça a cidadania. O Estado é o responsável pela formação da consciência cívica das futuras gerações do nosso povo, valorizando as diferenças, em vez e hierarquizá-las. Daí a necessidade de um ensino público laico e inclusivo. A concordata proposta pela Igreja Católica ofende a laicidade afirmada no artigo 19, I, da CF, e exige soberano repúdio do Estado brasileiro, que é laico e tem por objetivo promover uma sociedade livre
artigo de opinião
Já aviso: texto difícil, requer bom domínio de língua culta, muito usada nos meios acadêmicos. Aconselho ler em voz alta, porque falar facilita o entendimento.
O texto é muito bom: a partir da pesquisa sobre religião, um sociólogo analisa a crescente expansão das igrejas evangélicas no Brasil. Análise extremamente lúcida e pertinente. Mas é para quem tem fôlego
Brasil vira terreno fértil para expansão dos neopentecostais e declínio católico
Pesquisa do Datafolha confirma as tendências de declínio católico e de expansão pentecostal. Para dissabor do pontífice católico, a eficiência proselitista e o dinamismo do pentecostalismo, que já abriga 17% dos brasileiros, tornaram o Brasil o segundo maior país evangélico do mundo. Por diversas razões, o Brasil constitui terreno dos mais férteis para seu avanço. A liberdade religiosa, assegurada pela separação jurídica entre Estado e igreja, garantiu a legitimação e dilatação do pluralismo e a consolidação de um mercado religioso competitivo. Na esfera cultural, a permanência de forte substrato religioso de matriz cristã (verificável nas elevadas taxas de brasileiros que afirmam crer em Deus, Diabo, nascimento virginal e ressurreição de Cristo) permite que a prédica pentecostal construa pontes com a religiosidade popular, embora com menor êxito nos lugares onde o catolicismo popular é enraizado e mobilizado institucionalmente, caso do Nordeste. No campo religioso, a fragilidade institucional da Igreja Católica, expressa no pequeno número de sacerdotes e no alto contingente de católicos não praticantes, ou alheios aos poderes eclesiásticos, diminui o custo pessoal da apostasia, facilita o trânsito religioso e o trabalho dos concorrentes. No plano político, candidatos, partidos e governantes demandam apoio eleitoral e político dos líderes pentecostais a cada pleito e em votações no Legislativo, reforçando, assim, o poder de barganha, a participação política e a influência destes religiosos na esfera pública (de cujo impacto se ressentem grupos feministas, homossexuais e afro-brasileiros). No plano socioeconômico, vigoram altos índices de desemprego e de informalidade no mercado de trabalho, precarização da educação pública e das condições de trabalho sob o capitalismo flexível, vexaminosa desigualdade social, explosão da criminalidade. Nada mais providencial para uma religião que cresce majoritariamente na pobreza, nas periferias desassistidas das regiões metropolitanas e nas frentes migratórias. Tal contexto, porém, não é responsável por seu sucesso, que é, acima de tudo, fruto de sua capacidade de explorá-lo. Facilita seu proselitismo, liderado por um sem-número de pastores desprovidos de erudição teológica, mas peritos na língua e nos interesses materiais e ideais dos pobres. Ativismo religioso do qual também se encarregam diligentemente os leigos. Pragmáticos, seus líderes hipertrofiam as promessas de cura e prosperidade, adaptam a mensagem mágico-religiosa às demandas de fiéis e virtuais conversos, provendo-os de sentido para lidar com infortúnios e aflições, mudar a subjetividade e elevar a auto-estima. Daí os rituais de descarrego e libertação de demônios, a alta voltagem emocional dos cultos, a estridência da música gospel e a criação de igrejas que possuem gestão empresarial, utilizam técnicas de marketing, fixam metas de produtividade, sistematizam a oferta de serviços mágicos e investem pesado no evangelismo eletrônico. Mas seu apelo conversionista encerra notórios limites de classe. Seus pendores contraculturais, ascéticos, moralistas e antiintelectualistas encontram baixa receptividade na classe média mais escolarizada, indisposta a mudar hábitos por causa de motivos religiosos, como declaram tê-lo feito 54% dos pentecostais. Liberalizar costumes, estratégia neopentecostal, permitiu recrutar, timidamente, pessoas de classe média. Além da barreira de classe, sua pretensão identitária totalizante enfrenta embaraços frente a mudanças culturais em curso, como a difusão do relativismo cultural, do individualismo e do hedonismo, a pluralização e fragmentação das identidades, a multiplicação das pertenças sociais e a autonomização dos indivíduos das autoridades e instituições religiosas. Por possibilitar maior controle comunitário dos fiéis, sua condição de religião minoritária e sectária consegue deter, embora muito parcialmente, os efeitos licenciosos dessas mudanças. Para tanto, contribui a relação carnal entre pentecostalismo e pobreza, dada a dependência do laço e da submissão religiosos que esta última fomenta.
RICARDO MARIANO é sociólogo, professor da PUC-RS e autor de "Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil" (Loyola)
quinta-feira, 10 de maio de 2007
complementando a notícia
Ministro quer vetar artistas em propaganda de cerveja
Proposta, diz Temporão, deve ser incluída no pacote de novas regras da AnvisaMinistro da Saúde diz que novas normas devem restringir horário e conteúdo da publicidade de bebidas alcoólicas. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu ontem a proibição da aparição de "pessoas famosas, artistas e atletas" na veiculação de propagandas e peças publicitárias de bebidas alcoólicas. A proposta deve ser incluída no pacote de novas regras que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) prepara para aprovar no fim deste mês.A proposta do ministro foi feita durante audiência na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, após ser indagado pelo senador Flávio Arns (PT-PR) sobre uma propaganda de cerveja na qual o sambista Zeca Pagodinho "elege" um dia da semana para que as pessoas consumam a bebida."Pelas pesquisas, é um dia da semana [quarta-feira] em que as pessoas bebem menos. E, por isso mesmo, fez-se a campanha para incentivar o consumo de bebida", disse Arns.O ministro, então, fez a defesa da nova proposta. "Quando o Zeca Pagodinho protagoniza uma propaganda de cerveja é uma coisa dramática. Gosto dele como artista, mas é preciso pedir para ele parar. É patético, constrangedor", disse.A proposta de vetar a aparição de "celebridades" nas propagandas não recebeu mais comentários dos senadores que, no entanto, elogiaram a atitude do ministro no episódio da quebra de patente do medicamento anti-Aids Efavirenz, na semana passada.Temporão afirmou que são duas as linhas que pautam a regulamentação da publicidade de bebidas alcoólicas: "A primeira, que regula o horário de veiculação, e a segunda, que diz respeito ao conteúdo das propagandas. De que maneira colocam o produto no mercado? As estratégias publicitárias focadas em jovens e adolescentes são inadmissíveis", afirmou."A proibição da aparição de pessoas famosas [artistas e atletas] em propagandas de bebidas alcoólicas vai ser proposta pela Anvisa, com certeza, é uma proposta nossa."O Ministério da Saúde foi questionado, por meio de sua assessoria de imprensa, qual seria o critério para definir quem seriam as pessoas proibidas de atuar nas propagandas e qual seria a punição caso uma dessas pessoas infringisse a proibição. Não houve resposta.O Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) foi procurado, mas não quis se pronunciar sobre a declaração do ministro.Próximo Texto: Para advogado, veto a famosos é irregularÍndice
Proposta, diz Temporão, deve ser incluída no pacote de novas regras da AnvisaMinistro da Saúde diz que novas normas devem restringir horário e conteúdo da publicidade de bebidas alcoólicas. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu ontem a proibição da aparição de "pessoas famosas, artistas e atletas" na veiculação de propagandas e peças publicitárias de bebidas alcoólicas. A proposta deve ser incluída no pacote de novas regras que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) prepara para aprovar no fim deste mês.A proposta do ministro foi feita durante audiência na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, após ser indagado pelo senador Flávio Arns (PT-PR) sobre uma propaganda de cerveja na qual o sambista Zeca Pagodinho "elege" um dia da semana para que as pessoas consumam a bebida."Pelas pesquisas, é um dia da semana [quarta-feira] em que as pessoas bebem menos. E, por isso mesmo, fez-se a campanha para incentivar o consumo de bebida", disse Arns.O ministro, então, fez a defesa da nova proposta. "Quando o Zeca Pagodinho protagoniza uma propaganda de cerveja é uma coisa dramática. Gosto dele como artista, mas é preciso pedir para ele parar. É patético, constrangedor", disse.A proposta de vetar a aparição de "celebridades" nas propagandas não recebeu mais comentários dos senadores que, no entanto, elogiaram a atitude do ministro no episódio da quebra de patente do medicamento anti-Aids Efavirenz, na semana passada.Temporão afirmou que são duas as linhas que pautam a regulamentação da publicidade de bebidas alcoólicas: "A primeira, que regula o horário de veiculação, e a segunda, que diz respeito ao conteúdo das propagandas. De que maneira colocam o produto no mercado? As estratégias publicitárias focadas em jovens e adolescentes são inadmissíveis", afirmou."A proibição da aparição de pessoas famosas [artistas e atletas] em propagandas de bebidas alcoólicas vai ser proposta pela Anvisa, com certeza, é uma proposta nossa."O Ministério da Saúde foi questionado, por meio de sua assessoria de imprensa, qual seria o critério para definir quem seriam as pessoas proibidas de atuar nas propagandas e qual seria a punição caso uma dessas pessoas infringisse a proibição. Não houve resposta.O Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) foi procurado, mas não quis se pronunciar sobre a declaração do ministro.Próximo Texto: Para advogado, veto a famosos é irregularÍndice
complementando a notícia
Papa defende excomunhão de políticos a favor do aborto
O papa discursa pouco depois das 18h da sacada do mosteiro de São Bento, onde foi recebido por aproximadamente 15 mil pessoas Bento 16 pede "respeito pela vida" em sua chegada ao Brasil Em dia frio, 15 mil pessoas esperam religioso em mosteiroPAPA BENTO 16 criticou o aborto logo no seu primeiro discurso no Brasil. Ele chegou a São Paulo às 16h23. Antes, em entrevista no avião, Joseph Ratzinger apoiou os bispos mexicanos que excomungaram os deputados da Cidade do México que votaram a favor do aborto. "O direito de matar um inocente é incompatível com estar em comunhão com o corpo de Cristo", disse. No Brasil, o aborto voltou à pauta após o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defender plebiscito sobre o assunto. O papa defendeu a promoção do "respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio", em referência também à eutanásia.Lula não polemizou. Ressaltou o programa de combate à fome, a família e a educação. No primeiro contato com o público, às 18h, Bento 16 discursou no mosteiro de São Bento, onde foi saudado por cerca de 15 mil pessoas. Em dia frio e chuvoso, o trânsito não foi afetado pela visita, mas houve problema no metrô.
O papa discursa pouco depois das 18h da sacada do mosteiro de São Bento, onde foi recebido por aproximadamente 15 mil pessoas Bento 16 pede "respeito pela vida" em sua chegada ao Brasil Em dia frio, 15 mil pessoas esperam religioso em mosteiroPAPA BENTO 16 criticou o aborto logo no seu primeiro discurso no Brasil. Ele chegou a São Paulo às 16h23. Antes, em entrevista no avião, Joseph Ratzinger apoiou os bispos mexicanos que excomungaram os deputados da Cidade do México que votaram a favor do aborto. "O direito de matar um inocente é incompatível com estar em comunhão com o corpo de Cristo", disse. No Brasil, o aborto voltou à pauta após o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defender plebiscito sobre o assunto. O papa defendeu a promoção do "respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio", em referência também à eutanásia.Lula não polemizou. Ressaltou o programa de combate à fome, a família e a educação. No primeiro contato com o público, às 18h, Bento 16 discursou no mosteiro de São Bento, onde foi saudado por cerca de 15 mil pessoas. Em dia frio e chuvoso, o trânsito não foi afetado pela visita, mas houve problema no metrô.
complentando a notícia - aquecimento global
Dois anos para salvar o planeta
Há uma semana, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) deu em Bancoc, Tailândia, um recado pouco auspicioso: se quiserem evitar os piores efeitos do aquecimento global, os governos do mundo inteiro precisam fazer as emissões de gases de efeito estufa começarem a declinar após 2015. Os países-membros da Convenção do Clima da ONU se preparam para fechar até 2009 um acordo substituto ao Protocolo de Kyoto, o importante, mas pífio, tratado internacional de proteção do clima. Kyoto levou quase uma década sendo negociado, e seu período de aplicação real só começa no ano que vem (e vai até 2012). As emissões de CO2, dos anos 1990 para cá, subiram 24% em vez de cair. O resumo dessa equação é que o mundo tem dois anos para produzir um acordo que seja muito mais ambicioso que o de Kyoto e comece a rodar em muito menos tempo, reduzindo em pelo menos 50% as emissões do planeta. Questionado sobre se a conta fechava, um dos líderes do painel do clima sorriu amarelo: "Estamos tentando passar uma mensagem positiva". Os termos do pós-Kyoto começam a ser decididos em tese em dezembro, em Bali, e na prática no mês que vem, na Alemanha -num encontro que reunirá os maiores poluidores do passado (as nações do G8) e os cinco maiores poluidores do futuro próximo (China, Índia, México, África do Sul e Brasil). Na mesa de negociações do G8+5 estarão assuntos espinhosos. O principal deles é a adoção de metas de redução de emissões obrigatórias para os EUA (que as rejeita) e para os países pobres (aos quais Kyoto deu o direito de poluir, em nome de seu desenvolvimento). A UE, que se comprometeu a cortar 20% de seus gases-estufa até 2020, tenta pressionar ambos os blocos. Permeando a conversa está a maneira como os países deverão proceder ao corte de emissões. Aqui, o relatório divulgado pelo IPCC em Bancoc na última sexta-feira traz uma verdade inconveniente: de longe, medidas de eficiência energética (grosso modo, trocar lâmpadas) têm o maior potencial de redução de emissões. Parece uma boa notícia, mas este não é um mercado muito sexy para países como os EUA, que querem condicionar sua ação climática a negócios bilionários, que envolvam tecnologias exportáveis. A energia nuclear, uma dessas tecnologias, foi considerada uma opção real, mas de potencial baixo (deve crescer 2% até 2030, contra até 17% de crescimento das energias renováveis, segundo o IPCC). Os países pobres, por sua vez, deverão condicionar sua participação no pós-Kyoto a investimentos maciços das nações desenvolvidas. Se 2007 não vir um sinal de fim desse impasse, melhor desistir de comprar aquela casa na praia.
CLAUDIO ANGELO é editor de Ciência da Folha
Há uma semana, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) deu em Bancoc, Tailândia, um recado pouco auspicioso: se quiserem evitar os piores efeitos do aquecimento global, os governos do mundo inteiro precisam fazer as emissões de gases de efeito estufa começarem a declinar após 2015. Os países-membros da Convenção do Clima da ONU se preparam para fechar até 2009 um acordo substituto ao Protocolo de Kyoto, o importante, mas pífio, tratado internacional de proteção do clima. Kyoto levou quase uma década sendo negociado, e seu período de aplicação real só começa no ano que vem (e vai até 2012). As emissões de CO2, dos anos 1990 para cá, subiram 24% em vez de cair. O resumo dessa equação é que o mundo tem dois anos para produzir um acordo que seja muito mais ambicioso que o de Kyoto e comece a rodar em muito menos tempo, reduzindo em pelo menos 50% as emissões do planeta. Questionado sobre se a conta fechava, um dos líderes do painel do clima sorriu amarelo: "Estamos tentando passar uma mensagem positiva". Os termos do pós-Kyoto começam a ser decididos em tese em dezembro, em Bali, e na prática no mês que vem, na Alemanha -num encontro que reunirá os maiores poluidores do passado (as nações do G8) e os cinco maiores poluidores do futuro próximo (China, Índia, México, África do Sul e Brasil). Na mesa de negociações do G8+5 estarão assuntos espinhosos. O principal deles é a adoção de metas de redução de emissões obrigatórias para os EUA (que as rejeita) e para os países pobres (aos quais Kyoto deu o direito de poluir, em nome de seu desenvolvimento). A UE, que se comprometeu a cortar 20% de seus gases-estufa até 2020, tenta pressionar ambos os blocos. Permeando a conversa está a maneira como os países deverão proceder ao corte de emissões. Aqui, o relatório divulgado pelo IPCC em Bancoc na última sexta-feira traz uma verdade inconveniente: de longe, medidas de eficiência energética (grosso modo, trocar lâmpadas) têm o maior potencial de redução de emissões. Parece uma boa notícia, mas este não é um mercado muito sexy para países como os EUA, que querem condicionar sua ação climática a negócios bilionários, que envolvam tecnologias exportáveis. A energia nuclear, uma dessas tecnologias, foi considerada uma opção real, mas de potencial baixo (deve crescer 2% até 2030, contra até 17% de crescimento das energias renováveis, segundo o IPCC). Os países pobres, por sua vez, deverão condicionar sua participação no pós-Kyoto a investimentos maciços das nações desenvolvidas. Se 2007 não vir um sinal de fim desse impasse, melhor desistir de comprar aquela casa na praia.
CLAUDIO ANGELO é editor de Ciência da Folha
editorial de quinta
Acordo sigiloso
A regra da publicidade dos atos dos governantes exige que Lula explicite o que está em sua pauta de negociação com o papaA CHEGADA do papa Bento 16 é motivo de justo júbilo para os católicos brasileiros. Além da visita do sumo pontífice, o país vai ganhar o primeiro santo genuinamente nacional na figura de frei Galvão, que será canonizado amanhã em São Paulo.A viagem papal traz também motivos para preocupação. Há informações de que a Santa Sé prepara secretamente com o Brasil uma concordata, isto é, um acordo diplomático para tratar de "interesses comuns".A existência de negociações entre os dois Estados foi confirmada à Folha pelo próprio dom Tarcisio cardeal Bertone, que ocupa a segunda posição na hierarquia da Igreja Católica. Os termos do tratado, entretanto, permanecem envoltos num manto de sigilo.É justamente aí que reside o problema. Se envolve governos e é secreto, deve ser ruim. O princípio republicano da transparência dos atos do poder público exige que as autoridades brasileiras informem os cidadãos do que está em pauta.Pelo que a Folha conseguiu apurar, a Santa Sé pede que o Brasil torne as aulas de religião no ensino fundamental (1ª a 8ª séries) público obrigatórias -hoje elas são optativas para o aluno-, crie mecanismos constitucionais que dificultem uma eventual ampliação dos casos de aborto legal -hoje ele é permitido se a gravidez ameaçar a vida da mãe ou resultar de estupro- e encontre formas de evitar que a igreja sofra ações na Justiça, principalmente trabalhistas.O Vaticano tem, por certo, o direito de propor ao Brasil o que bem lhe aprouver, mas os três pleitos apresentados são, do ponto de vista de um Estado laico e republicano, inaceitáveis.Impor a todos os alunos aulas de religião é uma flagrante e intolerável violação ao inciso VI do artigo 5º da Constituição, que assegura a liberdade de consciência e o livre exercício dos cultos religiosos. No mais, a introdução das aulas de religião na rede pública, ainda que facultativa para o aluno, é um dos erros da Carta de 1988 que o Congresso Nacional deveria rever.No que diz respeito ao controverso tema do aborto, os argumentos em favor da descriminalização são contundentes. Não apenas a igreja mas qualquer ser humano dotado de um mínimo de sensibilidade é contra o procedimento. Daí não se segue que as mulheres que o fazem clandestinamente devam ser colocadas na cadeia. O assunto precisa ser tratado como uma questão de saúde pública, não de moral.Também é impossível ao Brasil atender ao pedido de isentar a igreja de prestar contas à Justiça. Fazê-lo implicaria rasgar toda a Constituição.Felizmente, existem indícios de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alertado das implicações pelo Itamaraty, não tem nenhuma intenção de acatar a proposta de concordata. Lula deverá dizer hoje um polido "não" ao papa ou, na pior das hipóteses, prolongar as negociações "in saecula saeculorum". E, nisso, a atual administração é especialista.
A regra da publicidade dos atos dos governantes exige que Lula explicite o que está em sua pauta de negociação com o papaA CHEGADA do papa Bento 16 é motivo de justo júbilo para os católicos brasileiros. Além da visita do sumo pontífice, o país vai ganhar o primeiro santo genuinamente nacional na figura de frei Galvão, que será canonizado amanhã em São Paulo.A viagem papal traz também motivos para preocupação. Há informações de que a Santa Sé prepara secretamente com o Brasil uma concordata, isto é, um acordo diplomático para tratar de "interesses comuns".A existência de negociações entre os dois Estados foi confirmada à Folha pelo próprio dom Tarcisio cardeal Bertone, que ocupa a segunda posição na hierarquia da Igreja Católica. Os termos do tratado, entretanto, permanecem envoltos num manto de sigilo.É justamente aí que reside o problema. Se envolve governos e é secreto, deve ser ruim. O princípio republicano da transparência dos atos do poder público exige que as autoridades brasileiras informem os cidadãos do que está em pauta.Pelo que a Folha conseguiu apurar, a Santa Sé pede que o Brasil torne as aulas de religião no ensino fundamental (1ª a 8ª séries) público obrigatórias -hoje elas são optativas para o aluno-, crie mecanismos constitucionais que dificultem uma eventual ampliação dos casos de aborto legal -hoje ele é permitido se a gravidez ameaçar a vida da mãe ou resultar de estupro- e encontre formas de evitar que a igreja sofra ações na Justiça, principalmente trabalhistas.O Vaticano tem, por certo, o direito de propor ao Brasil o que bem lhe aprouver, mas os três pleitos apresentados são, do ponto de vista de um Estado laico e republicano, inaceitáveis.Impor a todos os alunos aulas de religião é uma flagrante e intolerável violação ao inciso VI do artigo 5º da Constituição, que assegura a liberdade de consciência e o livre exercício dos cultos religiosos. No mais, a introdução das aulas de religião na rede pública, ainda que facultativa para o aluno, é um dos erros da Carta de 1988 que o Congresso Nacional deveria rever.No que diz respeito ao controverso tema do aborto, os argumentos em favor da descriminalização são contundentes. Não apenas a igreja mas qualquer ser humano dotado de um mínimo de sensibilidade é contra o procedimento. Daí não se segue que as mulheres que o fazem clandestinamente devam ser colocadas na cadeia. O assunto precisa ser tratado como uma questão de saúde pública, não de moral.Também é impossível ao Brasil atender ao pedido de isentar a igreja de prestar contas à Justiça. Fazê-lo implicaria rasgar toda a Constituição.Felizmente, existem indícios de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alertado das implicações pelo Itamaraty, não tem nenhuma intenção de acatar a proposta de concordata. Lula deverá dizer hoje um polido "não" ao papa ou, na pior das hipóteses, prolongar as negociações "in saecula saeculorum". E, nisso, a atual administração é especialista.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
crônica do dia - violência urbana
Balas perdidas têm remetente
Com tanto projétil sem transponder a cortar o ar por aqui, costumo brincar com os colegas de São Paulo dizendo que participo das reuniões de pauta, via teleconferência, instalado embaixo da mesa. Exagero? Nem tanto. Anteontem, por muito pouco não esbarrei num baleado no corredor do prédio onde moro.Explico: um baterista nada inspirado impedia, na vizinhança, que minha filha de seis meses pegasse no sono. Fui embalá-la no corredor do edifício e dei de cara com um PM, pistola prateada na mão, levando algemado um sujeito com a camisa toda ensangüentada. O estrangeiro alugou apartamento por temporada em Ipanema, se meteu em confusão, foi ferido e acabou preso onde eu ninava a pequenina e sorridente Julia.O carioca, que costuma expressar indignação com bom humor, incorporou balas perdidas ao vocabulário. Lulu Santos, ao vivo, deixou de se sentir "uma mola encolhida", trocada pela expressão de rima óbvia e mais atual em "Toda Forma de Amor". Uma garota da turma de outro filho -este adolescente-, de tão disponível nas baladas, ganhou apelido: chamam-na de "Bala Perdida". Depois de várias tragédias no início do ano, o Estado resolveu contar as balas que acha. No primeiro mês, deu uma por dia. Para o próximo levantamento oficial, vão no pacote mais de 30 casos só em uma semana de conflitos na Penha.Reconhecer os casos facilita indenizações, mas não resolve o problema. Sabe-se onde as balas ferem, falta descobrir o momento em que se desviam até lá. Seria interessante refazer o caminho das balas perdidas. A trajetória terá mesma imprecisão com que são disparadas. A quantidade de vezes em que o ricochete de volta apontará, como origem, alguma fonte oficial aqui ou além-fronteiras, vai empurrar todos para embaixo das mesas.
Com tanto projétil sem transponder a cortar o ar por aqui, costumo brincar com os colegas de São Paulo dizendo que participo das reuniões de pauta, via teleconferência, instalado embaixo da mesa. Exagero? Nem tanto. Anteontem, por muito pouco não esbarrei num baleado no corredor do prédio onde moro.Explico: um baterista nada inspirado impedia, na vizinhança, que minha filha de seis meses pegasse no sono. Fui embalá-la no corredor do edifício e dei de cara com um PM, pistola prateada na mão, levando algemado um sujeito com a camisa toda ensangüentada. O estrangeiro alugou apartamento por temporada em Ipanema, se meteu em confusão, foi ferido e acabou preso onde eu ninava a pequenina e sorridente Julia.O carioca, que costuma expressar indignação com bom humor, incorporou balas perdidas ao vocabulário. Lulu Santos, ao vivo, deixou de se sentir "uma mola encolhida", trocada pela expressão de rima óbvia e mais atual em "Toda Forma de Amor". Uma garota da turma de outro filho -este adolescente-, de tão disponível nas baladas, ganhou apelido: chamam-na de "Bala Perdida". Depois de várias tragédias no início do ano, o Estado resolveu contar as balas que acha. No primeiro mês, deu uma por dia. Para o próximo levantamento oficial, vão no pacote mais de 30 casos só em uma semana de conflitos na Penha.Reconhecer os casos facilita indenizações, mas não resolve o problema. Sabe-se onde as balas ferem, falta descobrir o momento em que se desviam até lá. Seria interessante refazer o caminho das balas perdidas. A trajetória terá mesma imprecisão com que são disparadas. A quantidade de vezes em que o ricochete de volta apontará, como origem, alguma fonte oficial aqui ou além-fronteiras, vai empurrar todos para embaixo das mesas.
editorial de quarta
Chacina na praça
Desde o início do ano, foram registradas no Estado de São Paulo 13 chacinas. Em outras cifras, uma a cada oito dias. A contabilidade macabra registra 52 mortos e 12 feridos, mas apenas uma das matanças foi solucionada -a primeira, de 14 de janeiro- e redundou na prisão de um policial militar.O último e mais letal desses episódios ocorreu domingo e tirou a vida de sete jovens numa praça do bairro do Jaraguá. Quase tão rápida quanto a ação dos facínoras foi a formulação de uma hipótese pela autoridade policial: acerto de contas relacionado com o tráfico de drogas.É a explicação padronizada para esses casos, fruto talvez da experiência acumulada por agentes da Polícia Civil encarregados de elucidá-los. Produto da investigação propriamente dita não pode ser, decerto. Não parece ter havido tempo hábil para corroborar a hipótese com provas materiais e testemunhais.Conclusões baseadas em experiência, e não em evidência, sempre implicam risco de precipitação e preconceito, segundo as sábias regras cartesianas. "Isso é briga de vagabundo", apressou-se a dizer o chefe do distrito onde se registrou a ocorrência. Além de comportar ofensa descabida à memória das vítimas, tais palavras denotam na ação policial o oposto do que deveria ser.Há também testemunhos de que policiais militares teriam comparecido à cena do crime minutos depois do fato e contribuído para descaracterizá-la. São versões que sugerem participação policial na mortandade, tão carentes de comprovação ou refutação quanto a tese do acerto de contas. Cabe à polícia investigar todas as possibilidades, sem atitude preconcebida, para não alongar ainda mais a lista das chacinas paulistas sem solução.
Desde o início do ano, foram registradas no Estado de São Paulo 13 chacinas. Em outras cifras, uma a cada oito dias. A contabilidade macabra registra 52 mortos e 12 feridos, mas apenas uma das matanças foi solucionada -a primeira, de 14 de janeiro- e redundou na prisão de um policial militar.O último e mais letal desses episódios ocorreu domingo e tirou a vida de sete jovens numa praça do bairro do Jaraguá. Quase tão rápida quanto a ação dos facínoras foi a formulação de uma hipótese pela autoridade policial: acerto de contas relacionado com o tráfico de drogas.É a explicação padronizada para esses casos, fruto talvez da experiência acumulada por agentes da Polícia Civil encarregados de elucidá-los. Produto da investigação propriamente dita não pode ser, decerto. Não parece ter havido tempo hábil para corroborar a hipótese com provas materiais e testemunhais.Conclusões baseadas em experiência, e não em evidência, sempre implicam risco de precipitação e preconceito, segundo as sábias regras cartesianas. "Isso é briga de vagabundo", apressou-se a dizer o chefe do distrito onde se registrou a ocorrência. Além de comportar ofensa descabida à memória das vítimas, tais palavras denotam na ação policial o oposto do que deveria ser.Há também testemunhos de que policiais militares teriam comparecido à cena do crime minutos depois do fato e contribuído para descaracterizá-la. São versões que sugerem participação policial na mortandade, tão carentes de comprovação ou refutação quanto a tese do acerto de contas. Cabe à polícia investigar todas as possibilidades, sem atitude preconcebida, para não alongar ainda mais a lista das chacinas paulistas sem solução.
terça-feira, 8 de maio de 2007
atualizando a notícia - propagandas de bebidas alcoólicas
Governo conclui decreto contra consumo de álcool
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar na próxima semana o decreto que institui a Política Nacional sobre o Álcool, um conjunto de medidas para prevenir o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e ampliar o acesso a tratamento para pessoas dependentes.O texto do decreto, sob análise na Casa Civil, não traz definições sobre o tema mais polêmico de toda a estratégia, a restrição de horário para propaganda de todas as bebidas alcoólicas. O decreto prevê que a regulamentação da propaganda deverá ser feita por uma resolução - cujo texto já está pronto para publicação. A medida, considerada indispensável por especialistas na área de saúde, atingiria em cheio a indústria de cerveja, que hoje não tem restrição para veiculação de propaganda.Ministérios que integraram o grupo de trabalho para criação da política ficarão encarregados, assim que o decreto for assinado, de criar medidas específicas para pôr em prática as diretrizes. Entre elas, a proibição da venda de bebidas alcoólicas ao longo das rodovias federais e a criação de mecanismos para incentivar as cidades a impedir a venda de bebidas em pontos próximos de escolas e hospitais. As informações são de O Estado de S.Paulo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar na próxima semana o decreto que institui a Política Nacional sobre o Álcool, um conjunto de medidas para prevenir o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e ampliar o acesso a tratamento para pessoas dependentes.O texto do decreto, sob análise na Casa Civil, não traz definições sobre o tema mais polêmico de toda a estratégia, a restrição de horário para propaganda de todas as bebidas alcoólicas. O decreto prevê que a regulamentação da propaganda deverá ser feita por uma resolução - cujo texto já está pronto para publicação. A medida, considerada indispensável por especialistas na área de saúde, atingiria em cheio a indústria de cerveja, que hoje não tem restrição para veiculação de propaganda.Ministérios que integraram o grupo de trabalho para criação da política ficarão encarregados, assim que o decreto for assinado, de criar medidas específicas para pôr em prática as diretrizes. Entre elas, a proibição da venda de bebidas alcoólicas ao longo das rodovias federais e a criação de mecanismos para incentivar as cidades a impedir a venda de bebidas em pontos próximos de escolas e hospitais. As informações são de O Estado de S.Paulo.
complentando a notícia - aborto
Estado não pode ignorar o aborto, diz Lula
Presidente afirma que é contra a interrupção voluntária da gravidez, mas que não pode desconhecer uma questão de saúde pública.
Às vésperas da chegada do papa ao Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em entrevista a 154 emissoras de rádio católicas, que o Estado não pode ficar alheio ao problema do aborto, embora ele próprio seja contrário à interrupção voluntária da gravidez.Na entrevista, Lula disse que os jornais não têm "ética" para se desculpar com aqueles que foram acusados injustamente, rebateu as críticas da CNBB à política econômica, atacou indiretamente o MST e afirmou que pedirá à base do governo que não aprove a redução da maioridade pena para 16 anos:ABORTO"Eu tenho duas posições. Eu tenho a posição de pai e de marido, e de cidadão, e tenho um comportamento de presidente da República. São duas coisas totalmente distintas. Primeiro, eu tenho dito, na minha vida política, que sou contra o aborto. Tenho dito publicamente. E tenho dito publicamente que não acredito que ninguém faça aborto por opção ou por prazer. É importante que a gente saiba dimensionar quando uma jovem desesperada, numa gravidez indesejada, corre à procura de um aborto... Se nós tivéssemos, no Brasil, um bom processo de planejamento familiar, de educação sexual, possivelmente nós não tivéssemos a quantidade de gravidez indesejada que temos no Brasil hoje. Entretanto, quando ela existe, o Estado precisa tratar isso como uma questão de saúde pública, porque a história também nos ensina que, muitas vezes, no desespero e por falta de orientação, muitas meninas se matam precocemente. Eu conheço casos de meninas que perfuraram o útero com agulha de fazer tricô... O Estado não pode ficar alheio a uma coisa que existe, que é real, e não dar assistência para essas pessoas."
Presidente afirma que é contra a interrupção voluntária da gravidez, mas que não pode desconhecer uma questão de saúde pública.
Às vésperas da chegada do papa ao Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em entrevista a 154 emissoras de rádio católicas, que o Estado não pode ficar alheio ao problema do aborto, embora ele próprio seja contrário à interrupção voluntária da gravidez.Na entrevista, Lula disse que os jornais não têm "ética" para se desculpar com aqueles que foram acusados injustamente, rebateu as críticas da CNBB à política econômica, atacou indiretamente o MST e afirmou que pedirá à base do governo que não aprove a redução da maioridade pena para 16 anos:ABORTO"Eu tenho duas posições. Eu tenho a posição de pai e de marido, e de cidadão, e tenho um comportamento de presidente da República. São duas coisas totalmente distintas. Primeiro, eu tenho dito, na minha vida política, que sou contra o aborto. Tenho dito publicamente. E tenho dito publicamente que não acredito que ninguém faça aborto por opção ou por prazer. É importante que a gente saiba dimensionar quando uma jovem desesperada, numa gravidez indesejada, corre à procura de um aborto... Se nós tivéssemos, no Brasil, um bom processo de planejamento familiar, de educação sexual, possivelmente nós não tivéssemos a quantidade de gravidez indesejada que temos no Brasil hoje. Entretanto, quando ela existe, o Estado precisa tratar isso como uma questão de saúde pública, porque a história também nos ensina que, muitas vezes, no desespero e por falta de orientação, muitas meninas se matam precocemente. Eu conheço casos de meninas que perfuraram o útero com agulha de fazer tricô... O Estado não pode ficar alheio a uma coisa que existe, que é real, e não dar assistência para essas pessoas."
a vinda do Papa...
Notícia
Assistentes sociais da subprefeitura da Sé removeram, na madrugada desta terça-feira, 8, moradores de rua da Praça da Sé e do Pátio do Colégio. Os funcionários que realizaram a retirada afirmam que esta é uma atividade rotineira, por conta da proximidade do início do inverno.
De acordo com a subprefeitura, a ação é feita diariamente, em locais onde há pessoas dormindo nas ruas. Os moradores são convidados a se dirigir a um albergue. A ação dos assistentes durante a madrugada foi feita na Praça da República, na região da Bela Vista e principalmente na Praça da Sé.
A assessoria da subprefeitura não divulgou o número de pessoas retiradas nem para quais albergues elas foram levadas, mas segundo informações eles teriam sido encaminhados a um albergue na Barra Funda, na zona oeste da cidade.
Questionado se a remoção teria ligação com a visita do papa, ele chega na quarta-feira, 9, e fica até domingo, 13, os funcionários da Prefeitura negaram a relação. Bento XVI ficará hospedado no Mosteiro de São Bento, região central da cidade, próximo à Sé e ao Pátio do Colégio.
Assistentes sociais da subprefeitura da Sé removeram, na madrugada desta terça-feira, 8, moradores de rua da Praça da Sé e do Pátio do Colégio. Os funcionários que realizaram a retirada afirmam que esta é uma atividade rotineira, por conta da proximidade do início do inverno.
De acordo com a subprefeitura, a ação é feita diariamente, em locais onde há pessoas dormindo nas ruas. Os moradores são convidados a se dirigir a um albergue. A ação dos assistentes durante a madrugada foi feita na Praça da República, na região da Bela Vista e principalmente na Praça da Sé.
A assessoria da subprefeitura não divulgou o número de pessoas retiradas nem para quais albergues elas foram levadas, mas segundo informações eles teriam sido encaminhados a um albergue na Barra Funda, na zona oeste da cidade.
Questionado se a remoção teria ligação com a visita do papa, ele chega na quarta-feira, 9, e fica até domingo, 13, os funcionários da Prefeitura negaram a relação. Bento XVI ficará hospedado no Mosteiro de São Bento, região central da cidade, próximo à Sé e ao Pátio do Colégio.
artigo de opinião
Um falso dilema na educação
MARIA ALICE SETUBAL
Alcançamos algo que parecia inatingível: colocar a educação como valor a ser preservado pela sociedade brasileiraA EXTENSA cobertura da mídia e a repercussão alcançada pelo Plano de Desenvolvimento da Educação e pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) parecem indicar que finalmente a educação passou a ser um valor para a sociedade brasileira e que a melhoria da qualidade do ensino é uma prioridade a ser atingida. Embora esse fato traga enorme satisfação para os que militam na área da educação, a complexidade da questão educacional não permite conclusões aligeiradas a partir de um caso isolado de sucesso ou de fracasso. Nesse contexto se insere o falso dilema: "Gestão eficiente ou mais recursos?". Para alguns setores da sociedade, os grandes desafios da educação brasileira se resumem a destinar mais recursos para a área. Para a outra ponta da corrente, a saída é adotar um choque de eficiência na gestão. A análise dos dados do Ideb mostra que bons resultados foram alcançados por municípios grandes e pequenos, tanto por aqueles que destinam muitos recursos à educação quanto pelos que destinam poucos. No entanto, não nos parece coincidência que todos os mil municípios que obtiveram os piores resultados sejam pobres e estejam localizados nas regiões Norte e Nordeste e, em contrapartida, entre os melhores resultados, todos se situem nas regiões Sul e Sudeste. A experiência acumulada nos mostra que o bom funcionamento de uma escola exige instalações físicas adequadas -biblioteca, computadores, laboratório. Entretanto, sabemos também que essa é uma condição necessária, mas não suficiente. Se olharmos o universo das empresas privadas bem-sucedidas, muitas vezes citadas como exemplo de gestão eficiente, certamente encontraremos entre os principais fatores do sucesso a existência de um quadro de funcionários competentes. A busca e retenção de talentos é hoje um dos campos de maior investimento e competição entre as empresas, pois elas sabem que recurso humano é um fator diferencial para alcançar metas e bons resultados. Fazendo uma analogia com a área da educação, nossos talentos são os professores, os coordenadores e os diretores de escola. Eles devem ser valorizados com salários dignos, planos de carreira e capacitação continuada. A contrapartida que têm com a sociedade é o compromisso com o aprendizado de todos os alunos e, portanto, com resultados e metas. Todos esses aspectos pressupõem recursos e gestão -ambos são fatores fundamentais, e não excludentes. A boa governança -termo tão utilizado atualmente- aplicada à educação supõe a existência de bons produtos, cumprimento de metas e obtenção de resultados mensuráveis, mas, principalmente, transparência, participação e prestação de contas para a comunidade escolar e para a sociedade em geral. O impacto de uma educação de qualidade não diz respeito só ao aluno ou à escola mas sobretudo ao território onde a escola se insere. A boa formação de crianças e jovens traz melhorias para toda a comunidade. Nesse sentido, além dos fatores internos à escola e à aprendizagem, uma educação de qualidade exige um sistema de avaliação e, especialmente, a ampla divulgação dos resultados educacionais. Entretanto, é preciso fazer com que dados de pesquisas e avaliações possam ser traduzidos em uma linguagem acessível para que todos possam entendê-los. Apenas assim pais e comunidade saberão o que nossas crianças devem aprender em cada série e, assim, acompanhar de perto as escolas e os professores. A boa governança educacional pressupõe recursos e gestão. Porém, de nada adianta possuir esses requisitos se não tivermos a consciência de que a questão central deve ser o desenvolvimento do ser humano. A educação de qualidade deve servir para tornar o ser humano mais generoso, e as nossas relações sociais, mais solidárias, além de ampliar nossa capacidade de escolha, nossa liberdade. Alcançamos algo que parecia inatingível: colocar a educação como valor a ser preservado pela sociedade brasileira. A educação está como a bola da vez. Não podemos perder a oportunidade de acreditar nessa utopia possível.
MARIA ALICE SETUBAL
Alcançamos algo que parecia inatingível: colocar a educação como valor a ser preservado pela sociedade brasileiraA EXTENSA cobertura da mídia e a repercussão alcançada pelo Plano de Desenvolvimento da Educação e pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) parecem indicar que finalmente a educação passou a ser um valor para a sociedade brasileira e que a melhoria da qualidade do ensino é uma prioridade a ser atingida. Embora esse fato traga enorme satisfação para os que militam na área da educação, a complexidade da questão educacional não permite conclusões aligeiradas a partir de um caso isolado de sucesso ou de fracasso. Nesse contexto se insere o falso dilema: "Gestão eficiente ou mais recursos?". Para alguns setores da sociedade, os grandes desafios da educação brasileira se resumem a destinar mais recursos para a área. Para a outra ponta da corrente, a saída é adotar um choque de eficiência na gestão. A análise dos dados do Ideb mostra que bons resultados foram alcançados por municípios grandes e pequenos, tanto por aqueles que destinam muitos recursos à educação quanto pelos que destinam poucos. No entanto, não nos parece coincidência que todos os mil municípios que obtiveram os piores resultados sejam pobres e estejam localizados nas regiões Norte e Nordeste e, em contrapartida, entre os melhores resultados, todos se situem nas regiões Sul e Sudeste. A experiência acumulada nos mostra que o bom funcionamento de uma escola exige instalações físicas adequadas -biblioteca, computadores, laboratório. Entretanto, sabemos também que essa é uma condição necessária, mas não suficiente. Se olharmos o universo das empresas privadas bem-sucedidas, muitas vezes citadas como exemplo de gestão eficiente, certamente encontraremos entre os principais fatores do sucesso a existência de um quadro de funcionários competentes. A busca e retenção de talentos é hoje um dos campos de maior investimento e competição entre as empresas, pois elas sabem que recurso humano é um fator diferencial para alcançar metas e bons resultados. Fazendo uma analogia com a área da educação, nossos talentos são os professores, os coordenadores e os diretores de escola. Eles devem ser valorizados com salários dignos, planos de carreira e capacitação continuada. A contrapartida que têm com a sociedade é o compromisso com o aprendizado de todos os alunos e, portanto, com resultados e metas. Todos esses aspectos pressupõem recursos e gestão -ambos são fatores fundamentais, e não excludentes. A boa governança -termo tão utilizado atualmente- aplicada à educação supõe a existência de bons produtos, cumprimento de metas e obtenção de resultados mensuráveis, mas, principalmente, transparência, participação e prestação de contas para a comunidade escolar e para a sociedade em geral. O impacto de uma educação de qualidade não diz respeito só ao aluno ou à escola mas sobretudo ao território onde a escola se insere. A boa formação de crianças e jovens traz melhorias para toda a comunidade. Nesse sentido, além dos fatores internos à escola e à aprendizagem, uma educação de qualidade exige um sistema de avaliação e, especialmente, a ampla divulgação dos resultados educacionais. Entretanto, é preciso fazer com que dados de pesquisas e avaliações possam ser traduzidos em uma linguagem acessível para que todos possam entendê-los. Apenas assim pais e comunidade saberão o que nossas crianças devem aprender em cada série e, assim, acompanhar de perto as escolas e os professores. A boa governança educacional pressupõe recursos e gestão. Porém, de nada adianta possuir esses requisitos se não tivermos a consciência de que a questão central deve ser o desenvolvimento do ser humano. A educação de qualidade deve servir para tornar o ser humano mais generoso, e as nossas relações sociais, mais solidárias, além de ampliar nossa capacidade de escolha, nossa liberdade. Alcançamos algo que parecia inatingível: colocar a educação como valor a ser preservado pela sociedade brasileira. A educação está como a bola da vez. Não podemos perder a oportunidade de acreditar nessa utopia possível.
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