Sangria no Senado
O caso Renan Calheiros se arrasta a olhos vistos, agora com a participação do STF e menos espaço de manobra parlamentar
QUANDO JÁ não parecia haver como se agravar o constrangimento que cerca o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), sua margem de defesa decorosa passou a estreitar-se ainda mais. Em questão de horas, acumularam-se fatos inconciliáveis com a magnitude de seu cargo: um presidente do Senado e do Congresso sob inquérito criminal solicitado pela Procuradoria Geral da República e chancelado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que ainda determinou a quebra de seu sigilo fiscal.Já eram passados mais de dois meses de investigação, na atmosfera amigável da Casa que Renan Calheiros preside, sobre a origem dos recursos com que pagava R$ 12 mil mensais à mãe de uma filha -e logo por intermédio de um lobista de empreiteira. O senador vinha de longe emaranhado num carrascal de transações bovinas, notas frias e empresas fantasmas para corroborar os desembolsos, que o Conselho de Ética do Senado e uma fieira de cinco relatores só a custo se dispuseram a deslindar, agora com o concurso de peritos da Polícia Federal.Com a entrada em cena do STF, o investigado perde o pouco de controle que ainda pudesse almejar sobre os desdobramentos da enrascada em que se meteu. No próprio Senado surgem indicações de que sua permanência no comando dos trabalhos tende a prolongar e não a resolver a crise, reduzindo a capacidade de deliberação do corpo de senadores e travando -mais que o usual- o funcionamento da Casa. Até o governo federal também já parece se dar conta de que o aliado caminha para tornar-se um fardo, pondo em risco a tramitação de matérias que toma por urgentes, como a renovação da CPMF.Apesar desse encolhimento visível do espaço para manobras, Renan Calheiros deu novas mostras de que não mede nem medirá esforços para preservar, se não o cargo de presidente, ao menos o mandato de senador.Ainda na presidência, permitiu-se uma altercação com José Agripino Maia (DEM-RN) em que aludiu a negócios, concessões e financiamentos do oposicionista que, alegadamente, não resistiriam a uma investigação. Não explicitou nem substanciou que transações seriam essas, desencadeando reação inflamada de Maia e estimulando a interpretação de que sua fala comportava, em realidade, uma ameaça.Não é fácil imaginar cena mais constrangedora no Senado Federal. Sem conseguir justificar os pagamentos -em dinheiro vivo, sempre é oportuno lembrar- e apenas produzindo explicações e documentação cada vez mais intricadas e inverossímeis, Renan Calheiros estica a cada momento a corda a que se agarrou no comando da Casa. Mais dia, menos dia, a instituição terá de decidir se pode prosseguir indefinidamente nesse processo que já foi definido como sangramento.Em paralelo, a participação do STF reaviva a expectativa de que o caso se conduza enfim a algum tipo de esclarecimento e conseqüência, coisa que o Senado ainda não foi capaz de fazer.
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