domingo, 19 de agosto de 2007

editorial de domingo

Estagnação

ERA CONSTANTE , em outros tempos, relacionar qualquer impasse administrativo ou problema crônico da sociedade brasileira à inexistência de "vontade política" por parte dos governantes. Quando estavam na oposição, Lula e o PT abusavam desse recurso retórico. Da alta taxa de juros à péssima pavimentação das rodovias federais, do analfabetismo à febre aftosa, mazela nenhuma havia que não pudesse ser resolvida rapidamente caso as autoridades se imbuíssem desse mágico atributo.O contato com uma realidade infinitamente mais complexa do que os discursos eleitorais logo determinou, por invalidez, o abandono desse refrão. Seria até natural, na melancólica opereta a que se assemelha a vida partidária brasileira, que PSDB e DEM viessem agora a entoá-lo, num dueto de renovado ímpeto.De todos os lados, entretanto, o tema da "vontade política" parece ter entrado em desuso, e não apenas pelo que havia de mítico em sua invocação. O que pudesse haver no termo de apelo concreto à mudança, à discussão de alternativas, à formulação de projetos viáveis para o país também desaparece de vista.É sintomático, desse ponto de vista, que setores inconformados da sociedade civil não tenham adotado, em seus protestos contra o descontrole aéreo e a corrupção, nada mais que o vago e descolorido lema do "cansei".Cansaram-se todos, na verdade, a começar pelo próprio governo Lula. Projetos de maior envergadura de reforma tributária, política e penal encontram-se estagnados -não apenas no Executivo e no Congresso mas também nos debates da própria opinião pública.A vida política reduziu-se, nos últimos tempos, à administração das crises internas da base governista e ao importante, mas limitado, terreno das apurações de sempre em torno dos escândalos da véspera.As prioridades do Executivo agora se concentram no esforço de obter a prorrogação da CPMF no Congresso. A manutenção "ad aeternum" de uma alíquota provisória sobre a movimentação financeira se torna como que o símbolo de um modelo político em que nenhuma solução de longo prazo é discutida e aprovada, em que o temporário se torna crônico, em que os cuidados do varejo predominam sobre a visão de Estado e em que a velha "vontade política" se traduz, em toda parte, no desejo de ocupar mais postos de poder.Trocam-se emendas por migalhas, negocia-se com esforço a manutenção da mesma coisa, órgãos públicos são entregues de "porteira fechada" a pecuaristas virtuais, para manter intocadas as fontes de recursos à disposição de uma estrutura parasitária e ineficiente.De republicana e democrática, a vida política brasileira parece assim transformar-se numa espécie de reedição do patrimonialismo colonial: distribuem-se capitanias aos favorecidos, organizam-se periódicas derramas tributárias, o país estagna, e a corte se diverte.

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