– Se ela aparecer de blusa com botões na frente, é a dica. Desabotoa no escurinho!
Eu tremia ao esperá-la. Depois de desabotoar, o que faria? Dali a pouco, ela chegou. De gola rulê! Assistimos ao filme, imóveis. Na saída, em vez de refrigerante, ela pediu milk-shake. Meu dinheiro deu contado. Humilhação!
– Arruma o do ônibus? – tive de pedir.
Nunca mais falou comigo!
No Dia dos Namorados, meu irmão ganhou perfume. Um colega de classe, camisas. A garota mais bonita, noiva de um engenheiro, uma jóia. Fiquei de mãos abanando. Aos poucos, perdia até o romantismo. Já nem fazia questão de amar como nos livros. Queria namorar fosse quem fosse. Como quem conquista um troféu!
Mas, quanto mais sonhava, menos acontecia!
Até a festa de aniversário de um amigo. Sanduíches. Bolo. Refrigerantes. Muita cerveja. Nunca fui de beber. Até hoje. Naquela noite, fui fundo. Nem sei quantas garrafas entornei. Lembro vagamente do que aconteceu em seguida. Restam, depois de tanto tempo, apenas algumas imagens. Eu, no centro de uma roda, cercado pelo pessoal da classe, convidados, e muita gente surpresa. Minha timidez explodia como um balão. Falava da minha solidão. Aos gritos, anunciava:
– Não quero mais ficar sozinho! Quero arrumar uma namorada!
Várias pessoas me agarraram ao mesmo tempo.
– Ele está muito mal!
– Leva para o banheiro! Bota a cabeça pra baixo!
– Café, ele tem de tomar café!
De repente – e essa é a imagem mais forte – ouvi uma voz.
– Larguem dele!
Percebi rapidamente dois grandes olhos verdes. No banheiro, ela me lavou o rosto. Meu amigo, dono da casa, cedeu seu quarto. Com alguma ajuda, ela me levou até lá.
– Eu cuido dele! – avisou.
Nem convidada era, como eu soube depois. Fora à festa por acaso. Na cama, desmaiei. Dormia e acordava, confuso. Sentia mãos na testa, me acalmando. Acordei com a maior dor de cabeça da minha vida. Ela dormia na poltrona. Despertou quando me mexi. Era mais velha que eu, mas só alguns anos. Cabelo longo, escuro. Os olhos. Linda. Havia sido, inclusive, musa de um cantor. Mas naquele momento eu não tinha a mais vaga idéia de quem fosse.
– Quem é você?
– Também quero amar de verdade – explicou.
Sentou-se a meu lado na cama. Acariciou meu rosto. Beijou-me.
– Meu nome é Ana Maria.
Sorrimos um para o outro, e minha vida mudou.
Foi meu primeiro grande amor. Nunca mais a esqueci.
Walcyr Carrasco
Um comentário:
Ler essa crônica me deu uma certa nostalgia dos tempos em que apenas um sentimento mútuo podia unir as pessoas. Não que eu ja tenha experimentado isso, mas não deixo de me sentir nostálgico vendo como hoje em dia coisas como diversão, interesse, ou mesmo o dinheiro substituiram o sentimento.
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