RUY CASTRO
Mais anos "dourados"
RIO DE JANEIRO - Outro dia, ousei defender a idéia de que os "anos dourados" -os anos 50, pelos quais tanta gente suspira- nunca foram tão bons quanto vistos de hoje. O tempo é que se encarregou de melhorá-los. Alguns nostálgicos saltaram das pantufas e argumentaram que, por mais superestimados, os "anos dourados" eram melhores que os dias atuais. Para eles, nada pode ser pior que os dias atuais. Eu diria que a pior coisa dos dias de hoje, para esses meus amigos, é que eles já não são jovens como nos "anos dourados". E que, mesmo naquela época, os jovens tinham muito que reclamar. Por exemplo, eram poucas as carreiras a seguir: direito, medicina, engenharia e, talvez, arquitetura ou farmácia. Não se conheciam (ou se reconheciam) profissões hoje corriqueiras, como as de sociólogo, designer, publicitário, aspone ou carnavalesco.Só aos pobres ou muito pobres era permitido cantar, tocar violão ou jogar futebol como profissional. Da classe média para cima, nem pensar em viver dessas atividades. Ter vocação para jornalista também não contava muitos pontos entre as tias mais velhas.As moças se dividiam em "de família" e as outras. As primeiras usavam meias soquetes, tinham namorado firme e estavam destinadas ao magistério. As outras se divertiam muito mais. Mas ninguém tinha direito à vida pessoal. Esperava-se que as pessoas se casassem antes dos 30, e os solteirões eram malvistos -as mulheres, como encalhadas; os homens, como enrustidos.Enfim, os "anos dourados" eram fabulosos -para os que não os conheceram em primeira mão ou já se esqueceram de como era viver sem água, luz, telefone e outros confortos. E também sem o excesso de informação que hoje nos intoxica 24 horas por dia e faz o mundo parecer ainda pior do que ele é.
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