terça-feira, 13 de março de 2007

articulista da folha

JANIO DE FREITAS
Em nome das vovós

OS AVÓS PARECEM mais calmos. É só um jeito mais experiente, facilitado pelo cansaço e mascarado pelas rugas, de represar em relação aos netos as suas mesmas aflições de pais. Não é difícil imaginar a aflição opressora da vovó anônima que se dera ao cuidado de levar o neto para a sua própria casa, acompanhá-lo todas as noites até ao colégio, na esperança de fazê-lo estudar, e de repente é despertada a chamado de uma delegacia.Foi na madrugada de sábado. Pouco depois que cinco pessoas assaltaram e agrediram um motorista de táxi, roubaram-lhe o carro, assaltaram um casal em outro carro, empurraram em tempo o menino que dormia no banco de trás e lutaram a bala com dois policiais que o acaso aproximara. A vovó anônima precisava reconhecer um dos cinco. O netinho de 14 anos que se juntara a dois outros "dimenor", de 16 e 17 anos, e a dois maiores, de uns 30 e de 18 anos, para assaltos à mão armada que não se prometiam menos frutuosos que o costumeiro.A vovó anônima sentiu-se tão atingida que implorou, de vergonha, por seu anonimato: não suportava a idéia de ver-se reconhecida no emprego como "aquela" avó, "naquela" situação, "daquele" neto. Parte da sua dor ninguém poderia atenuar. Mas a outra não precisava ser tão perversa, a dor transbordante nestas palavras espichadas por um futuro longo e nem encerradas: "Agora quero ver o que ele vai fazer..."A vovó mora na favela Pára-Pedro, no enganoso subúrbio carioca que ostenta o nome de Colégio. Em tal situação, é compreensível que vovó anônima não esteja informada dos códigos que velam pelos meninos como seu netinho e pelos companheiros adolescentes. Ninguém a poupara da penosa visão do futuro, dando-lhe lá atrás a conveniente informação legal de que daqui a três anos e pouco, nestes tempos tão velozes, seu netinho já estará de volta a Colégio, embora não para o colégio. Em três anos e pouco, completará 18 anos, a generosa maioridade que presenteia, por lei, a liberdade aos "dimenores" criminosos.Não basta que os "dimenores" conheçam essa minúcia da legislação -nem precisam conhecer outra. É preciso, por caridade, divulgar esse saber ilustrativo da maneira como as leis e as instituições brasileiras protegem a infância e a adolescência. E, admitido que aí estão avós do futuro, podem aliviar vovós do presente.

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