O cheiro do medo
Durante 30 anos, Santiago Badariotti Merlo, argentino de origem italiana, serviu à família do banqueiro Walter Moreira Salles, como mordomo, na mansão da Gávea - hoje sede do instituto que leva o nome de seu antigo dono. Santiago morreu em 1994. Antes de morrer, serviu mais uma vez ao filho do patrão, como personagem-título de um filme em preto-e-branco.O filme é um antidocumentário, pois o diretor não parece interessado em retratar seu herói de diferentes ângulos. Nada no filme revela que o cineasta tenha procurado levantar informações sobre a infância do mordomo, investigar suas raízes ou falar com pessoas que o conheceram. Nada indica que tenha conversado com o dono da banca de jornal na esquina, para traçar um retrato um pouco mais redondo da vida que Santiago levava depois de se mudar para o Leblon.O homem bizarro parece ser apenas um pretexto para a reflexão de João Moreira Salles sobre suas angústias. Angústia ante as próprias manipulações cinematográficas. Angústias ante a passagem do tempo e a finitude da vida, que se refletem nas imagens do casarão abandonado, dos baús empilhados e esquecidos num canto da casa vazia, da folha morta que cai e flutua na piscina.Uma narração didática explica cada tomada, numa inútil tentativa de controle. Inútil. Pois, de alguma forma, a pessoa de Santiago escapa ao controle do diretor. Talvez por isso mesmo o ex-mordomo me interesse. Ou talvez me interesse porque me perturba e me provoca um profundo desconforto. Santiago comove. Provoca meu riso quando revela uma presença de espírito inesperada. Outras vezes me causa repulsa. Mas, sobretudo, suscita pena. Por que o aperto no peito? Por que essa enorme compaixão?Santiago é a vítima que esconde o sofrimento e procura fazer, das trevas, luz.O elevador que sobe para seu apartamento tem grades e uma parede bloqueia nossa visão. Como se não lhe bastasse ser prisioneiro de si mesmo no apartamento pequenino, ele será prisioneiro também dos enquadramentos severos e formais que o diretor escolhe para capturá-lo.A Santiago não se permite circular. Pode mover as mãos, mas ficará preso num canto da cozinha, sentado na beirada da banheira, esmagado entre a privada e a pia, na beirada da cama, entre duas paredes.Enquadrado, ele fala. Declama em latim duas orações que decorou na infância. Mostra as pilhas imensas de páginas datilografadas, com listas de reis, aristocratas, chefes indígenas e astros de Hollywood. O que eles têm em comum? São celebridades. Santiago vive de fantasias como uma mariposa ao redor da lamparina.Santiago faz listas. Vive das sobras. E, assim, sobrevive num mundo do qual ele é o mais perfeito exemplo da exclusão. Imigrante, não pertence ao país em que vive. Separado da casa onde nasceu e cresceu, não pertence àquela na qual trabalhou 30 anos. Membro de um grupo maldito, não constituiu família própria. Está sozinho.Mas, de repente, Santiago me surpreende. Seu melhor momento é a superioridade que assume, por estar vivo, ao falar das antigas celebridades. “Todos mortos”, diz, com muxoxo de pouco-caso. E repete: “Todos mortos.” Assim, desmente a teoria do diretor, que, no começo do filme, igualara vida e reminiscências, numa alusão à idéia de que o homem vive se é lembrado.Vã metafísica. O diretor tem medo da morte? Seu filme não o fará imortal. Mas talvez ele tenha ainda mais medo da proximidade de Santiago. E medo de espectadores livres, pois coloca, entre eles e suas imagens, mea-culpa e explicações. Uma mulher sente o cheiro do medo.Num teste realizado num laboratório do Instituto de Antropologia da Universidade de Viena, os pesquisadores mostraram filmes de terror a um grupo de voluntários e filmes neutros a um grupo de controle. Os participantes de ambos os grupos usaram chumaços de algodão nas axilas. Pelo cheiro dos chumaços, algumas mulheres separaram os indivíduos que haviam visto os filmes de terror dos que pertenciam ao grupo de controle. A pesquisa indica que o medo tem cheiro e que uma mulher é capaz de identificá-lo.A enciclopédia informa que o medo é uma reação saudável que nos protege do perigo. Mas seria difícil discernir o medo-prudência do medo que impede o movimento em direção ao outro ou do medo que, segundo Alan Greenspan, está por trás das turbulências econômicas.Na introdução de A Era da Turbulência - um livro que mistura notas autobiográficas com um real interesse pelo mundo e pelas pessoas com quem o autor conviveu antes e durante os 20 anos em que esteve à frente do Fed -, Greenspan escreve: “O medo é a reação automática de todos nós ao que ameaça a mais profunda de nossas propensões inatas - nossa vontade de viver. Também é a base de muitas de nossas reações econômicas. É o fundamento da aversão ao risco (...) que, em situações extremas, nos induz a nos desatrelarmos dos mercados, precipitando quedas abruptas da atividade econômica.”Os investidores na bolsa que se cuidem. O que a exuberância irracional eleva aos céus o medo se encarrega de derrubar. Quando, não se sabe. Como não se sabe quanto tempo deve durar o regime de terror econômico entre a China (que depende da demanda americana) e os EUA (que dependem do financiamento chinês). Talvez por muito tempo, disse Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano, pois a guerra fria provou que sistemas baseados no medo mútuo podem perdurar por décadas.Lamentável que a estabilidade fundada no medo ofereça muita incerteza e pouca alegria. Seria melhor um mundo econômico onde o Banco da China e o Fed se entendessem? Talvez. Mas isso parece tão difícil de acontecer quanto era para João aproximar-se de Santiago enquanto o mordomo ainda estivesse vivo.
Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGVSite: www.elianacardoso.com
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