sábado, 27 de outubro de 2007

editorial de sábado

Recrutamento nos albergues

O Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou nos albergues onde se abrigam moradores de rua com a intenção de recrutá-los para os objetivos da facção. Ex-presidiários, que devem favores ao PCC e se sentem sem perspectivas de reinserção na sociedade, socorrem-se dessas entidades e, para pagar suas dívidas com o grupo criminoso, aliciam albergados. Na maior parte das vezes, esses se transformam nas chamadas “mulas”, pessoas que se dispõem a transportar drogas em troca de bom dinheiro. Reportagem de Marici Capitelli no Jornal da Tarde (JT) relatou casos como o de uma dupla de albergados que ganhou R$ 10 mil cada um para ir ao Paraguai a mando do PCC para trazer entorpecentes. A facção costuma providenciar casas para quem sai da prisão e, em troca, incumbe-se do gerenciamento de pontos-de-venda de drogas. É um emprego, afinal, que no mercado formal de trabalho é quase impossível para um ex-presidiário.Neste ano, pelo menos 23 mil pessoas deixarão os presídios do Estado. Até agora, 7 mil já procuraram auxílio nas dez centrais de atendimento aos egressos do sistema prisional, um serviço prestado pelo Departamento de Reintegração Social da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SAP). Querem orientações sobre como recompor suas vidas. Querem seus documentos, um endereço para morar e um trabalho para sobreviver. Na quase totalidade, nada conseguem. O mercado de trabalho em geral não os aceita e, assim, acabam por se misturar aos moradores de rua nos abrigos administrados por instituições conveniadas com a Prefeitura. A SAP oferece a todos os que deixam os presídios uma cartilha com orientações sobre como reorganizar a vida após o período de prisão. Já foram distribuídas 70 mil unidades no Estado. A teoria é distribuída aos montes, mas falta colocá-la em prática.O diretor do Departamento de Reintegração Social da SAP, Mauro Rogério Bittencourt, admite que para muitos ex-presidiários o primeiro passo é a ida para albergues ou entidades conveniadas. E, assim, onde o Estado não se faz presente, o crime organizado comparece. Sem preparo para atender esse público nem segurança adequada, as entidades se tornam manancial de “mão-de-obra” para o PCC. O secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, afirma que são fortes os indícios de articulação do crime organizado nos albergues de São Paulo: há movimentação estranha entre os albergados e são vários os casos de apreensão de drogas nos abrigos. O secretário diz que não descarta ações da polícia nos albergues. Nem deve. Afinal, nesses locais não há revista nem exigência de identificação dos que buscam abrigo. Moradores de rua e funcionários de entidades correm sérios riscos. Na Baixada do Glicério, no centro, há um mês, dois homens que se diziam membros do PCC ameaçaram funcionários da entidade São Francisco, que atende 300 moradores de rua da região. O gerente da unidade lembrou, em entrevista ao JT, que, em outras ocasiões, a tensão já havia tomado conta do lugar. Entre os ex-presidiários e os sem-teto do local, propagou-se a ordem de “virar o abrigo”, o mesmo tipo de grito de guerra nos motins nas penitenciárias (“virar a cadeia”).O Estado e Prefeitura precisam adotar medidas de segurança nesses locais. O secretário Floriano Pesaro anuncia que fechará o cerco e cobrará das organizações sociais o controle eficiente da entrada de albergados e maior rigor no acompanhamento dessas pessoas durante o tempo em que permanecem no abrigo. “As entidades recebem recursos da Prefeitura para prestar o atendimento”, considera. Por atendimento, deve-se entender assistência real e não apenas refeições e cama.Do Estado, espera-se a mesma determinação. Mais do que cartilha de orientação sobre como retomar a vida, é preciso oferecer efetivamente um caminho a ser percorrido para a reinserção social. Para esse público, a assistência também deve ir além de teto, comida e banho. Os governos estadual e municipal não podem permitir que o PCC cuide de oferecer empregos.

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