STF reintegra desembargador de PE acusado de seqüestro
Por dois votos a um, a 2ª Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) determinou nesta terça-feira (30/10) que Etério Galvão voltará a exercer a função de desembargador no TJ-PE (Tribunal de Justiça de Pernambuco). Ele foi afastado do cargo pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), onde responde a uma ação penal por seqüestro e outros crimes.Ex-presidente do TJ-PE, o desembargador Etério Galvão foi acusado pelo Ministério Público Federal de cometer diversos crimes contra a médica anestesista Maria Soraia Elias Pereira, com quem teria tido um envolvimento amoroso. Segundo a denúncia, o desembargador tentou provocar um aborto na médica e, depois, teria efetivamente realizado o aborto sem consentimento da gestante. Além dessas acusações, ele também responde por subtração de incapaz.A decisão foi tomada no julgamento de um habeas corpus impetrado em defesa do desembargador. Os ministros Gilmar Mendes e Eros Grau votaram pela reintegração do desembargador ao cargo.Eles entenderam que há excesso de prazo no andamento da ação penal já que, mais de quatro anos após o recebimento da denúncia pelo STJ, a instrução criminal do caso ainda não foi finalizada. No STJ, a denúncia foi recebida no dia 19 de março de 2003, data em que Etério Galvão foi afastado do cargo.Gilmar Mendes, relator do HC e primeiro a votar favoravelmente ao réu, disse que o afastamento do desembargador “tem perdurado por lapso temporal excessivo”.O ministro Cezar Peluso defendeu que o desembargador deveria continuar afastado do cargo. Segundo ele, a medida é importante para resguardar o réu e o Poder Judiciário. “Se trata aqui de uma medida de caráter cautelar que tende a resguardar a própria condição do réu no seu exercício funcional, como o prestígio da Justiça”, afirmou Peluso.O habeas corpus também pedia o arquivamento da ação penal em curso contra o desembargador, sob alegação de inépcia da denúncia. Nenhum ministro acolheu a solicitação da defesa nesse ponto.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
sábado, 27 de outubro de 2007
editorial de sábado
Recrutamento nos albergues
O Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou nos albergues onde se abrigam moradores de rua com a intenção de recrutá-los para os objetivos da facção. Ex-presidiários, que devem favores ao PCC e se sentem sem perspectivas de reinserção na sociedade, socorrem-se dessas entidades e, para pagar suas dívidas com o grupo criminoso, aliciam albergados. Na maior parte das vezes, esses se transformam nas chamadas “mulas”, pessoas que se dispõem a transportar drogas em troca de bom dinheiro. Reportagem de Marici Capitelli no Jornal da Tarde (JT) relatou casos como o de uma dupla de albergados que ganhou R$ 10 mil cada um para ir ao Paraguai a mando do PCC para trazer entorpecentes. A facção costuma providenciar casas para quem sai da prisão e, em troca, incumbe-se do gerenciamento de pontos-de-venda de drogas. É um emprego, afinal, que no mercado formal de trabalho é quase impossível para um ex-presidiário.Neste ano, pelo menos 23 mil pessoas deixarão os presídios do Estado. Até agora, 7 mil já procuraram auxílio nas dez centrais de atendimento aos egressos do sistema prisional, um serviço prestado pelo Departamento de Reintegração Social da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SAP). Querem orientações sobre como recompor suas vidas. Querem seus documentos, um endereço para morar e um trabalho para sobreviver. Na quase totalidade, nada conseguem. O mercado de trabalho em geral não os aceita e, assim, acabam por se misturar aos moradores de rua nos abrigos administrados por instituições conveniadas com a Prefeitura. A SAP oferece a todos os que deixam os presídios uma cartilha com orientações sobre como reorganizar a vida após o período de prisão. Já foram distribuídas 70 mil unidades no Estado. A teoria é distribuída aos montes, mas falta colocá-la em prática.O diretor do Departamento de Reintegração Social da SAP, Mauro Rogério Bittencourt, admite que para muitos ex-presidiários o primeiro passo é a ida para albergues ou entidades conveniadas. E, assim, onde o Estado não se faz presente, o crime organizado comparece. Sem preparo para atender esse público nem segurança adequada, as entidades se tornam manancial de “mão-de-obra” para o PCC. O secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, afirma que são fortes os indícios de articulação do crime organizado nos albergues de São Paulo: há movimentação estranha entre os albergados e são vários os casos de apreensão de drogas nos abrigos. O secretário diz que não descarta ações da polícia nos albergues. Nem deve. Afinal, nesses locais não há revista nem exigência de identificação dos que buscam abrigo. Moradores de rua e funcionários de entidades correm sérios riscos. Na Baixada do Glicério, no centro, há um mês, dois homens que se diziam membros do PCC ameaçaram funcionários da entidade São Francisco, que atende 300 moradores de rua da região. O gerente da unidade lembrou, em entrevista ao JT, que, em outras ocasiões, a tensão já havia tomado conta do lugar. Entre os ex-presidiários e os sem-teto do local, propagou-se a ordem de “virar o abrigo”, o mesmo tipo de grito de guerra nos motins nas penitenciárias (“virar a cadeia”).O Estado e Prefeitura precisam adotar medidas de segurança nesses locais. O secretário Floriano Pesaro anuncia que fechará o cerco e cobrará das organizações sociais o controle eficiente da entrada de albergados e maior rigor no acompanhamento dessas pessoas durante o tempo em que permanecem no abrigo. “As entidades recebem recursos da Prefeitura para prestar o atendimento”, considera. Por atendimento, deve-se entender assistência real e não apenas refeições e cama.Do Estado, espera-se a mesma determinação. Mais do que cartilha de orientação sobre como retomar a vida, é preciso oferecer efetivamente um caminho a ser percorrido para a reinserção social. Para esse público, a assistência também deve ir além de teto, comida e banho. Os governos estadual e municipal não podem permitir que o PCC cuide de oferecer empregos.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) se infiltrou nos albergues onde se abrigam moradores de rua com a intenção de recrutá-los para os objetivos da facção. Ex-presidiários, que devem favores ao PCC e se sentem sem perspectivas de reinserção na sociedade, socorrem-se dessas entidades e, para pagar suas dívidas com o grupo criminoso, aliciam albergados. Na maior parte das vezes, esses se transformam nas chamadas “mulas”, pessoas que se dispõem a transportar drogas em troca de bom dinheiro. Reportagem de Marici Capitelli no Jornal da Tarde (JT) relatou casos como o de uma dupla de albergados que ganhou R$ 10 mil cada um para ir ao Paraguai a mando do PCC para trazer entorpecentes. A facção costuma providenciar casas para quem sai da prisão e, em troca, incumbe-se do gerenciamento de pontos-de-venda de drogas. É um emprego, afinal, que no mercado formal de trabalho é quase impossível para um ex-presidiário.Neste ano, pelo menos 23 mil pessoas deixarão os presídios do Estado. Até agora, 7 mil já procuraram auxílio nas dez centrais de atendimento aos egressos do sistema prisional, um serviço prestado pelo Departamento de Reintegração Social da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SAP). Querem orientações sobre como recompor suas vidas. Querem seus documentos, um endereço para morar e um trabalho para sobreviver. Na quase totalidade, nada conseguem. O mercado de trabalho em geral não os aceita e, assim, acabam por se misturar aos moradores de rua nos abrigos administrados por instituições conveniadas com a Prefeitura. A SAP oferece a todos os que deixam os presídios uma cartilha com orientações sobre como reorganizar a vida após o período de prisão. Já foram distribuídas 70 mil unidades no Estado. A teoria é distribuída aos montes, mas falta colocá-la em prática.O diretor do Departamento de Reintegração Social da SAP, Mauro Rogério Bittencourt, admite que para muitos ex-presidiários o primeiro passo é a ida para albergues ou entidades conveniadas. E, assim, onde o Estado não se faz presente, o crime organizado comparece. Sem preparo para atender esse público nem segurança adequada, as entidades se tornam manancial de “mão-de-obra” para o PCC. O secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, afirma que são fortes os indícios de articulação do crime organizado nos albergues de São Paulo: há movimentação estranha entre os albergados e são vários os casos de apreensão de drogas nos abrigos. O secretário diz que não descarta ações da polícia nos albergues. Nem deve. Afinal, nesses locais não há revista nem exigência de identificação dos que buscam abrigo. Moradores de rua e funcionários de entidades correm sérios riscos. Na Baixada do Glicério, no centro, há um mês, dois homens que se diziam membros do PCC ameaçaram funcionários da entidade São Francisco, que atende 300 moradores de rua da região. O gerente da unidade lembrou, em entrevista ao JT, que, em outras ocasiões, a tensão já havia tomado conta do lugar. Entre os ex-presidiários e os sem-teto do local, propagou-se a ordem de “virar o abrigo”, o mesmo tipo de grito de guerra nos motins nas penitenciárias (“virar a cadeia”).O Estado e Prefeitura precisam adotar medidas de segurança nesses locais. O secretário Floriano Pesaro anuncia que fechará o cerco e cobrará das organizações sociais o controle eficiente da entrada de albergados e maior rigor no acompanhamento dessas pessoas durante o tempo em que permanecem no abrigo. “As entidades recebem recursos da Prefeitura para prestar o atendimento”, considera. Por atendimento, deve-se entender assistência real e não apenas refeições e cama.Do Estado, espera-se a mesma determinação. Mais do que cartilha de orientação sobre como retomar a vida, é preciso oferecer efetivamente um caminho a ser percorrido para a reinserção social. Para esse público, a assistência também deve ir além de teto, comida e banho. Os governos estadual e municipal não podem permitir que o PCC cuide de oferecer empregos.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
quem sabe... novas profissões
Curso inusitado amplia oportunidade
O peso da tradição aliado à incerteza gerada pelo vestibular faz com que muitos estudantes optem por carreiras mais convencionais, como medicina e direito. No entanto, um mercado em expansão, formado por graduações de nomes um tanto esquisitos, pode representar boas oportunidades de crescimento profissional.Um exemplo é a quiropraxia, técnica de massagem para ajuste da postura que surgiu no final do século 19, mas só chegou ao Brasil como graduação em 2000. "É uma profissão da área de saúde que funciona como alternativa para cirurgias ou medicamentos", explica Song Kim, coordenador do curso da Universidade Anhembi Morumbi. Em quatro anos e meio, o aluno vê disciplinas como anatomia e fisiologia.Julia Pontes, 21, está no oitavo semestre e é apaixonada pela área. "Sempre quis fazer algo ligado à coluna. Pensei em fisioterapia, mas meu avô descobriu, pela televisão, a quiropraxia e resolvi fazer o curso."Outro curso inusitado é o tecnólogo de manutenção de aeronaves oferecido pela UniSant'Anna. O objetivo é preparar um profissional com conhecimentos técnicos, capaz de gerenciar equipes e administrar processos na área da aviação.O aluno, que será um intermediário entre técnico e engenheiro, aprende sobre motores aeronáuticos, estruturas e sistemas de aeronaves, prevenção de acidentes, aerodinâmica e helicópteros.A Uniplan (Universidade do Planalto Catarinense) tem o curso de engenharia industrial madeireira, com duração de cinco anos. "É voltado para quem quer atuar na transformação mecânica e química da madeira, em processos industriais, que vão da produção de partículas para papel a movelaria", diz o coordenador Antônio Carlos Néri, coordenador.No curso de comunicação das artes do corpo, o universitário pode escolher entre três habilitações: teatro, dança e performance. "Difere de artes cênicas porque tem uma carga teórica bem mais significativa", afirma Naira Ciotti, coordenadora pedagógica do curso da PUC-SP, criado há nove anos.Existem carreiras mais antigas até, mas que ainda não foram "descobertas" pelos estudantes, apesar de haver grande procura pelo profissional. É o caso de ciências atuariais. A PUC-SP oferece o curso desde 1952. O atuário desenvolve planos de seguros e de previdência e avalia riscos, inclusive de investimentos em bolsa. "Pelo déficit de profissional, quem sai da faculdade sai empregado. Com cinco anos de formado, chega-se a ganhar R$ 10 mil", diz Antonio Carlos Lopes Alvares, coordenador do curso.No fornoEm 2008, os vestibulandos terão mais opções pouco ortodoxas. Na Anhembi Morumbi, o curso de tecnologia em bebidas ensinará desde produção e desenvolvimento do produto até gestão e serviço de bebidas alcoólicas e não-alcoólicas.Também começará a primeira turma de visagismo e terapia capilar. O nome vem de "visage", que significa rosto em francês. O curso foca nos cuidados com a haste capilar e o couro cabeludo e prepara o profissional para trabalhar com a imagem pessoal do cliente.Na FMU, serão oferecidos os cursos de tecnologia em segurança da informação, desenvolvimento de jogos digitais e sistemas para a internet, com enfoque no comércio eletrônico.
O peso da tradição aliado à incerteza gerada pelo vestibular faz com que muitos estudantes optem por carreiras mais convencionais, como medicina e direito. No entanto, um mercado em expansão, formado por graduações de nomes um tanto esquisitos, pode representar boas oportunidades de crescimento profissional.Um exemplo é a quiropraxia, técnica de massagem para ajuste da postura que surgiu no final do século 19, mas só chegou ao Brasil como graduação em 2000. "É uma profissão da área de saúde que funciona como alternativa para cirurgias ou medicamentos", explica Song Kim, coordenador do curso da Universidade Anhembi Morumbi. Em quatro anos e meio, o aluno vê disciplinas como anatomia e fisiologia.Julia Pontes, 21, está no oitavo semestre e é apaixonada pela área. "Sempre quis fazer algo ligado à coluna. Pensei em fisioterapia, mas meu avô descobriu, pela televisão, a quiropraxia e resolvi fazer o curso."Outro curso inusitado é o tecnólogo de manutenção de aeronaves oferecido pela UniSant'Anna. O objetivo é preparar um profissional com conhecimentos técnicos, capaz de gerenciar equipes e administrar processos na área da aviação.O aluno, que será um intermediário entre técnico e engenheiro, aprende sobre motores aeronáuticos, estruturas e sistemas de aeronaves, prevenção de acidentes, aerodinâmica e helicópteros.A Uniplan (Universidade do Planalto Catarinense) tem o curso de engenharia industrial madeireira, com duração de cinco anos. "É voltado para quem quer atuar na transformação mecânica e química da madeira, em processos industriais, que vão da produção de partículas para papel a movelaria", diz o coordenador Antônio Carlos Néri, coordenador.No curso de comunicação das artes do corpo, o universitário pode escolher entre três habilitações: teatro, dança e performance. "Difere de artes cênicas porque tem uma carga teórica bem mais significativa", afirma Naira Ciotti, coordenadora pedagógica do curso da PUC-SP, criado há nove anos.Existem carreiras mais antigas até, mas que ainda não foram "descobertas" pelos estudantes, apesar de haver grande procura pelo profissional. É o caso de ciências atuariais. A PUC-SP oferece o curso desde 1952. O atuário desenvolve planos de seguros e de previdência e avalia riscos, inclusive de investimentos em bolsa. "Pelo déficit de profissional, quem sai da faculdade sai empregado. Com cinco anos de formado, chega-se a ganhar R$ 10 mil", diz Antonio Carlos Lopes Alvares, coordenador do curso.No fornoEm 2008, os vestibulandos terão mais opções pouco ortodoxas. Na Anhembi Morumbi, o curso de tecnologia em bebidas ensinará desde produção e desenvolvimento do produto até gestão e serviço de bebidas alcoólicas e não-alcoólicas.Também começará a primeira turma de visagismo e terapia capilar. O nome vem de "visage", que significa rosto em francês. O curso foca nos cuidados com a haste capilar e o couro cabeludo e prepara o profissional para trabalhar com a imagem pessoal do cliente.Na FMU, serão oferecidos os cursos de tecnologia em segurança da informação, desenvolvimento de jogos digitais e sistemas para a internet, com enfoque no comércio eletrônico.
sábado, 20 de outubro de 2007
Diversão dá lugar à matemática em 98% das cidades do paísDa redaçãoEm São Paulo
Sábado é considerado um dia de lazer para a maioria das crianças e adolescentes, mas este 20 de outubro foi diferente para cerca de 780 mil estudantes brasileiros. Em 98% dos municípios do país, a diversão deu lugar às difíceis questões da 3ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Em sua segunda fase, a 3ª Obmep apresentou seis questões dissertativas para serem resolvidas em três horas.Em São Paulo, as dependências de um cursinho na rua Vergueiro foi o local de aplicação das provas para mil estudantes de ensinos fundamental e médio. Antes de começar o teste, a concentração era grande em frente ao prédio.Grupos de estudantes repassavam fórmulas e equações que poderiam ser abordadas durante o teste. A equipe do UOL Educação esteve no local e conversou com esses apaixonados pela matemática.
O estudante da Escola Municipal de Ensino Fundamental Jackson de Figueiredo, Henrique Coelho Muhriger, 11, sabe muito bem como aplicar a matemática no dia-a-dia. Calcula seu dinheiro para não gastar mais do que possui e ajuda os parentes a fazer contas 'de cabeça'. "Assim eu aprendo mais rápido", diz. O garoto, que ficou entre os melhores de sua escola na primeira fase da Obmep, está confiante que conseguirá passar para a terceira. "Eu quero ganhar as Olimpíadas", disse.Se experiência contasse na hora de responder a prova, a de Arthur Borges Monteiro de Toledo, 12, o levaria aos primeiros lugares da olimpíada. O estudante da 6ª série da Escola Estadual Visconde de Congonhas do Campo, no Tatuapé, já participou até de programa de auditório. Ele foi selecionado para representar a escola em um quadro de perguntas de conhecimentos gerais - sua equipe terminou a competição em segundo lugar. Arthur também conquistou medalha de prata em uma olimpíada de matemática promovida pela cidade de São Paulo, em 2005. Ano passado, participou da Obmep, mas foi desclassificado na segunda fase. "Este ano, eu espero chegar até a final".Outro estudante que se destaca em competições de matemática é Brian Lopes Sandez, 14. Aluno da Escola Estadual Neli Carboniere, ele conquistou o primeiro lugar de um concurso de matemática organizado pela escola. Com o bom desempenho, Brian ficou em 6º lugar na cidade de São Paulo. "Minhas notas caíram, mas posso melhorá-las. É só não responder as questões usando fone de ouvido", diz Brian, que é fã de rock metal.
Como funciona a Obmep
A olimpíada conta com duas fases, realizada em todo o Brasil. A primeira ocorre dentro das escolas públicas e seleciona os melhores de cada uma. Participam da segunda etapa 5% dos estudantes mais bem colocados na primeira fase, de cada nível de ensino, em cada escola. A competição abrange três níveis de ensino: o primeiro é voltado aos alunos matriculados na 5ª ou 6ª séries do ensino fundamental; o segundo corresponde aos estudantes de 7ª e 8ª séries do fundamental; e o terceiro é destinado aos matriculados no ensino médio.O exame deste sábado começou às 14h30 e os alunos tiveram até três horas para responder seis questões discursivas. É preciso exibir os cálculos e explicar o raciocínio usado na resolução de cada item.O padrão de respostas oficial deve ser divulgado no início de novembro e o resultado, em 10 de dezembro. Segundo a assessoria da Obmep, as provas serão corrigidas pelos coordenadores regionais do concurso, todos com grande conhecimento da matéria.
Premiação aos melhores
A competição premiará 300 alunos com medalhas de ouro, 600 com medalhas de prata e 2.100 com bronze. Além disso, serão distribuídos 30 mil certificados de menção honrosa. Os três mil melhores classificados receberão do programa de Iniciação Científica Júnior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) uma bolsa de R$ 100 cada, durante um ano.Os professores serão classificados de acordo com o rendimento de seus alunos. Os 127 melhores participarão de cursos de aperfeiçoamento no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no Rio de Janeiro. As escolas que tiverem os alunos mais bem colocados em cada Estado receberão um notebook com datashow, livros para a composição de uma biblioteca básica em matemática, laboratórios de informática e certificados de mérito nacional. Para os municípios serão concedidos troféus aos 50 que obtiverem maior pontuação.
A prova existe em 80 países. No Brasil, é feita em escolas particulares desde a década de 1970, mas só foi criada nas escolas públicas há três anos. Neste terceiro ano de olimpíada, 17.340.895 alunos se inscreveram em todo país, em 38.453 escolas. O número de candidatos em 2007 alcançou, em alguns Estados, quase a totalidade das escolas públicas: 93% no Mato Grosso do Sul, 81% em Minas Gerais e 86% no Distrito Federal. São Paulo obteve o maior número de inscrições: 3.558.208 alunos.Na edição anterior, em 2006, inscreveram-se na competição 14 milhões de estudantes de 32.655 escolas de todos os Estados do país. A edição teve quatro milhões de alunos a mais do que a primeira, realizada em 2005.
Sábado é considerado um dia de lazer para a maioria das crianças e adolescentes, mas este 20 de outubro foi diferente para cerca de 780 mil estudantes brasileiros. Em 98% dos municípios do país, a diversão deu lugar às difíceis questões da 3ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Em sua segunda fase, a 3ª Obmep apresentou seis questões dissertativas para serem resolvidas em três horas.Em São Paulo, as dependências de um cursinho na rua Vergueiro foi o local de aplicação das provas para mil estudantes de ensinos fundamental e médio. Antes de começar o teste, a concentração era grande em frente ao prédio.Grupos de estudantes repassavam fórmulas e equações que poderiam ser abordadas durante o teste. A equipe do UOL Educação esteve no local e conversou com esses apaixonados pela matemática.
O estudante da Escola Municipal de Ensino Fundamental Jackson de Figueiredo, Henrique Coelho Muhriger, 11, sabe muito bem como aplicar a matemática no dia-a-dia. Calcula seu dinheiro para não gastar mais do que possui e ajuda os parentes a fazer contas 'de cabeça'. "Assim eu aprendo mais rápido", diz. O garoto, que ficou entre os melhores de sua escola na primeira fase da Obmep, está confiante que conseguirá passar para a terceira. "Eu quero ganhar as Olimpíadas", disse.Se experiência contasse na hora de responder a prova, a de Arthur Borges Monteiro de Toledo, 12, o levaria aos primeiros lugares da olimpíada. O estudante da 6ª série da Escola Estadual Visconde de Congonhas do Campo, no Tatuapé, já participou até de programa de auditório. Ele foi selecionado para representar a escola em um quadro de perguntas de conhecimentos gerais - sua equipe terminou a competição em segundo lugar. Arthur também conquistou medalha de prata em uma olimpíada de matemática promovida pela cidade de São Paulo, em 2005. Ano passado, participou da Obmep, mas foi desclassificado na segunda fase. "Este ano, eu espero chegar até a final".Outro estudante que se destaca em competições de matemática é Brian Lopes Sandez, 14. Aluno da Escola Estadual Neli Carboniere, ele conquistou o primeiro lugar de um concurso de matemática organizado pela escola. Com o bom desempenho, Brian ficou em 6º lugar na cidade de São Paulo. "Minhas notas caíram, mas posso melhorá-las. É só não responder as questões usando fone de ouvido", diz Brian, que é fã de rock metal.
Como funciona a Obmep
A olimpíada conta com duas fases, realizada em todo o Brasil. A primeira ocorre dentro das escolas públicas e seleciona os melhores de cada uma. Participam da segunda etapa 5% dos estudantes mais bem colocados na primeira fase, de cada nível de ensino, em cada escola. A competição abrange três níveis de ensino: o primeiro é voltado aos alunos matriculados na 5ª ou 6ª séries do ensino fundamental; o segundo corresponde aos estudantes de 7ª e 8ª séries do fundamental; e o terceiro é destinado aos matriculados no ensino médio.O exame deste sábado começou às 14h30 e os alunos tiveram até três horas para responder seis questões discursivas. É preciso exibir os cálculos e explicar o raciocínio usado na resolução de cada item.O padrão de respostas oficial deve ser divulgado no início de novembro e o resultado, em 10 de dezembro. Segundo a assessoria da Obmep, as provas serão corrigidas pelos coordenadores regionais do concurso, todos com grande conhecimento da matéria.
Premiação aos melhores
A competição premiará 300 alunos com medalhas de ouro, 600 com medalhas de prata e 2.100 com bronze. Além disso, serão distribuídos 30 mil certificados de menção honrosa. Os três mil melhores classificados receberão do programa de Iniciação Científica Júnior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) uma bolsa de R$ 100 cada, durante um ano.Os professores serão classificados de acordo com o rendimento de seus alunos. Os 127 melhores participarão de cursos de aperfeiçoamento no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no Rio de Janeiro. As escolas que tiverem os alunos mais bem colocados em cada Estado receberão um notebook com datashow, livros para a composição de uma biblioteca básica em matemática, laboratórios de informática e certificados de mérito nacional. Para os municípios serão concedidos troféus aos 50 que obtiverem maior pontuação.
A prova existe em 80 países. No Brasil, é feita em escolas particulares desde a década de 1970, mas só foi criada nas escolas públicas há três anos. Neste terceiro ano de olimpíada, 17.340.895 alunos se inscreveram em todo país, em 38.453 escolas. O número de candidatos em 2007 alcançou, em alguns Estados, quase a totalidade das escolas públicas: 93% no Mato Grosso do Sul, 81% em Minas Gerais e 86% no Distrito Federal. São Paulo obteve o maior número de inscrições: 3.558.208 alunos.Na edição anterior, em 2006, inscreveram-se na competição 14 milhões de estudantes de 32.655 escolas de todos os Estados do país. A edição teve quatro milhões de alunos a mais do que a primeira, realizada em 2005.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
boa notícia
Nova vacina para malária mostra eficácia de 65%
Imunizante protegeu bebês em teste na África
DONALD McNEIL JR.
Imunizante protegeu bebês em teste na África
DONALD McNEIL JR.
"NEW YORK TIMES"
A vacina mais promissora já desenvolvida contra a malária funcionou em bebês com menos de um ano de idade, o grupo mais vulnerável de pacientes da doença, de acordo com um estudo publicado ontem.A pesquisa, descrita na revista médica britânica "The Lancet", teve escopo limitado: apenas 214 bebês em Moçambique. Sua intenção era apenas confirmar se a vacina é segura para aplicação em crianças tão novas. Mas ela também indicou que o risco de pegar malária foi reduzido em 65% depois de três doses da imunização."Nós agora estamos um passo mais próximo da consolidação de uma vacina capaz de proteger bebês africanos", disse Pedro Alonso, médico da Universidade de Barcelona que dirige os testes clínicos da vacina, produzida pela multinacional GlaxoSmithKline.Se o imunizante passar por testes clínicos de grande escala -que devem começar em sete países diferentes no ano que vem-, e for aceita pelas agências reguladoras, pode começar a ser distribuída em 2012, afirmou Ripley Ballou, vice-presidente para testes clínicos internacionais da Glaxo.Em 2004, Alonso mostrou pela primeira vez que a vacina poderia proteger crianças contra a infecção ou a morte. Esse estudo, que envolveu 2.022 crianças de um a quatro anos, mostrou na época uma proteção de 45% contra a infecção.Esse nível de imunização relativamente baixo não seria aceito no Ocidente, mas a malária é uma das principais causas de morte infantil na África, então mesmo uma cobertura imperfeita seria útil.A vacina, nomeada comercialmente Mosquirix, é uma fusão da proteína externa do protozoário Plasmodium falciparum (um dos parasitas da malária, que é diferente do que existe no Brasil) com um trecho do vírus da hepatite B.Há pelo menos nove vacinas contra a malária em fase de desenvolvimento hoje, mas a Mosquirix é aquela em estágio mais avançado. A Glaxo trabalhou no imunizante por mais de 20 anos e diz que os gastos com o projeto até a vacina chegar ao mercado somarão US$ 600 milhões. Um sexto desse valor foi doado pela Fundação Bill e Melinda Gates.Nenhuma decisão foi tomada ainda a respeito do preço que a vacina terá para governos de países em desenvolvimento e para organizações internacionais de saúde pública. "Se uma criança puder se beneficiar, o preço não será um obstáculo", afirma Christian Loucq, diretor do projeto de desenvolvimento da Mosquirix.
complementando a notícia
Henry Sobel anuncia saída de presidência de rabinato
Henry Sobel, 63, deixou nesta semana, oficialmente, a presidência do rabinato da Congregação Israelita Paulista.Ele permaneceu por 37 anos como rabino da instituição e mais de 20 como presidente do rabinato -cargo do qual havia se afastado, temporariamente, em março, por licença médica, depois de ter sido flagrado furtando quatro gravatas de grife em Palm Beach, nos EUA.Segundo a CIP, houve uma solicitação do próprio Sobel para deixar a função, mas a decisão foi tomada em conjunto com os representantes da instituição. O motivo, afirma a congregação, está ligado aos problemas por que ele passou no primeiro semestre deste ano.O cargo de presidente do rabinato será extinto, mas a CIP está procurando um novo rabino que deve substituir as funções internas de Sobel -que, ao se desligar, acabou nomeado rabino emérito da entidade.Mesmo desligado da congregação, Sobel deverá continuar com as suas atividades religiosas, como a celebração de casamentos e de bar mitzvah.Procurado ontem pela reportagem, que deixou recado durante a tarde em sua residência, ele não havia respondido até a conclusão desta edição.No começo do mês, em entrevista à Folha, Sobel revelou estar escrevendo uma autobiografia. Em relação ao episódio do furto de gravatas nos EUA, ele declarou: "Eu não estava consciente, tanto que fiz tratamento de desintoxicação de medicamentos". Sobel sempre foi visto como liberal dentro do judaísmo e defendeu a aproximação entre as religiões.
Henry Sobel, 63, deixou nesta semana, oficialmente, a presidência do rabinato da Congregação Israelita Paulista.Ele permaneceu por 37 anos como rabino da instituição e mais de 20 como presidente do rabinato -cargo do qual havia se afastado, temporariamente, em março, por licença médica, depois de ter sido flagrado furtando quatro gravatas de grife em Palm Beach, nos EUA.Segundo a CIP, houve uma solicitação do próprio Sobel para deixar a função, mas a decisão foi tomada em conjunto com os representantes da instituição. O motivo, afirma a congregação, está ligado aos problemas por que ele passou no primeiro semestre deste ano.O cargo de presidente do rabinato será extinto, mas a CIP está procurando um novo rabino que deve substituir as funções internas de Sobel -que, ao se desligar, acabou nomeado rabino emérito da entidade.Mesmo desligado da congregação, Sobel deverá continuar com as suas atividades religiosas, como a celebração de casamentos e de bar mitzvah.Procurado ontem pela reportagem, que deixou recado durante a tarde em sua residência, ele não havia respondido até a conclusão desta edição.No começo do mês, em entrevista à Folha, Sobel revelou estar escrevendo uma autobiografia. Em relação ao episódio do furto de gravatas nos EUA, ele declarou: "Eu não estava consciente, tanto que fiz tratamento de desintoxicação de medicamentos". Sobel sempre foi visto como liberal dentro do judaísmo e defendeu a aproximação entre as religiões.
opinião - Nelson Motta
As chaves do fracasso
Quando Chávez não renovou a concessão da RCTV, a emissora tinha 30% da audiência nacional. Seus estúdios e transmissores foram transferidos para a Televisora Venezolana Social, a TV pública bolivariana, com uma programação feita para elevar a cultura da população e ser um bom exemplo para os outros canais, onde o povo pudesse se ver, respeitando a pluralidade e o gosto popular: a população decidiria o que quer ver. Em setembro, a TVS tinha caído para 4,6%, e, em outubro, para 3,6%. A audiência da RCTV migrou para outros canais privados, e a TV chavista tem muito dinheiro e apoio político, só não tem público.Programas sobre artesanato, danças folclóricas, escolas comunitárias, saúde da mulher, música nativista, celebração de heróis nacionais, entremeados por propaganda governamental, não estão conseguindo agradar o público, que continua preferindo as novelas, os telejornais e as séries americanas das TVs privadas.O que ganharam os venezuelanos com isso? Mais opções de diversão? Mais qualidade de informação?A TVS é ótimo exemplo de tudo o que uma boa TV pública não deve ser. Uma emissora movida a dinheiro de impostos tem que ter metas de desempenho que justifiquem os seus investimentos e os salários de seus funcionários e gestores, chegando ao público que menos tem e mais precisa de informação e diversão. Não basta que alguém ou algum conselho diga que os programas são "bons". É o público que vai julgar, vendo ou mudando de canal. E aí, mudem-se os programas, não o público.Num país de 190 milhões de habitantes, quando um programa de televisão, por "melhor" que seja, é visto só por 5 mil pessoas (a média diária das TVs estatais), o dinheiro de todos está pagando o privilégio de poucos. Em vão.
Quando Chávez não renovou a concessão da RCTV, a emissora tinha 30% da audiência nacional. Seus estúdios e transmissores foram transferidos para a Televisora Venezolana Social, a TV pública bolivariana, com uma programação feita para elevar a cultura da população e ser um bom exemplo para os outros canais, onde o povo pudesse se ver, respeitando a pluralidade e o gosto popular: a população decidiria o que quer ver. Em setembro, a TVS tinha caído para 4,6%, e, em outubro, para 3,6%. A audiência da RCTV migrou para outros canais privados, e a TV chavista tem muito dinheiro e apoio político, só não tem público.Programas sobre artesanato, danças folclóricas, escolas comunitárias, saúde da mulher, música nativista, celebração de heróis nacionais, entremeados por propaganda governamental, não estão conseguindo agradar o público, que continua preferindo as novelas, os telejornais e as séries americanas das TVs privadas.O que ganharam os venezuelanos com isso? Mais opções de diversão? Mais qualidade de informação?A TVS é ótimo exemplo de tudo o que uma boa TV pública não deve ser. Uma emissora movida a dinheiro de impostos tem que ter metas de desempenho que justifiquem os seus investimentos e os salários de seus funcionários e gestores, chegando ao público que menos tem e mais precisa de informação e diversão. Não basta que alguém ou algum conselho diga que os programas são "bons". É o público que vai julgar, vendo ou mudando de canal. E aí, mudem-se os programas, não o público.Num país de 190 milhões de habitantes, quando um programa de televisão, por "melhor" que seja, é visto só por 5 mil pessoas (a média diária das TVs estatais), o dinheiro de todos está pagando o privilégio de poucos. Em vão.
opinião - Folha
Enfim, uma boa notícia
A gravidez, o parto, a amamentação, os banhos, tudo isso a mulher que trabalha fora tira de letra. Até com profundo prazer. Doído mesmo é deixar um bebezinho de quatro meses, tão indefeso, nas mãos de outras pessoas para manter o salário, a carreira, as legítimas ambições. Toda mulher sabe do que estou falando. A maioria dos homens, também. A decisão de ontem do Senado, possibilitando o aumento da licença-maternidade de quatro para seis meses, tem tudo para passar na Câmara, sem alterações. É uma vitória da sociedade brasileira. Se é uma questão econômica? É também, porque pode aumentar a carga já tão pesada das empresas e, em conseqüência, desestimular o emprego de trabalhadoras. Mas é, antes de tudo, uma questão social de alta relevância. E de saúde pública, como defende o ministro da área, José Gomes Temporão. O projeto da OAB e da Sociedade Brasileira de Pediatria, encampado pela senadora Patrícia Saboya, foi engenhoso ao equilibrar o objetivo social com a preocupação econômica. A ampliação é facultativa, e as empresas que aderirem terão isenção fiscal pelos dois meses que extrapolarem os pagos pelo INSS. É um começo. O próximo passo, um dia, será a ampliação obrigatória, inclusive para o setor público. Pesquisas mundiais comprovam que, quanto maior o tempo da mãe com o bebê, menor é a mortalidade infantil. E esse tempo, se inclui carinho e amamentação, é determinante no desenvolvimento físico, intelectual e emocional da criança. Depois de tantas notícias desagradáveis, o Congresso enfim acerta uma. O aumento da licença-maternidade não é um favor individual, é uma vitória coletiva. Bebês são uma responsabilidade da sociedade e do Estado. Não pertencem a suas mães. Pertencem ao seu povo, ao seu país e, enfim, ao mundo. Quanto mais bem cuidados forem, melhor será o mundo amanhã.
elianec@uol.com.br
A gravidez, o parto, a amamentação, os banhos, tudo isso a mulher que trabalha fora tira de letra. Até com profundo prazer. Doído mesmo é deixar um bebezinho de quatro meses, tão indefeso, nas mãos de outras pessoas para manter o salário, a carreira, as legítimas ambições. Toda mulher sabe do que estou falando. A maioria dos homens, também. A decisão de ontem do Senado, possibilitando o aumento da licença-maternidade de quatro para seis meses, tem tudo para passar na Câmara, sem alterações. É uma vitória da sociedade brasileira. Se é uma questão econômica? É também, porque pode aumentar a carga já tão pesada das empresas e, em conseqüência, desestimular o emprego de trabalhadoras. Mas é, antes de tudo, uma questão social de alta relevância. E de saúde pública, como defende o ministro da área, José Gomes Temporão. O projeto da OAB e da Sociedade Brasileira de Pediatria, encampado pela senadora Patrícia Saboya, foi engenhoso ao equilibrar o objetivo social com a preocupação econômica. A ampliação é facultativa, e as empresas que aderirem terão isenção fiscal pelos dois meses que extrapolarem os pagos pelo INSS. É um começo. O próximo passo, um dia, será a ampliação obrigatória, inclusive para o setor público. Pesquisas mundiais comprovam que, quanto maior o tempo da mãe com o bebê, menor é a mortalidade infantil. E esse tempo, se inclui carinho e amamentação, é determinante no desenvolvimento físico, intelectual e emocional da criança. Depois de tantas notícias desagradáveis, o Congresso enfim acerta uma. O aumento da licença-maternidade não é um favor individual, é uma vitória coletiva. Bebês são uma responsabilidade da sociedade e do Estado. Não pertencem a suas mães. Pertencem ao seu povo, ao seu país e, enfim, ao mundo. Quanto mais bem cuidados forem, melhor será o mundo amanhã.
elianec@uol.com.br
A deterioração do estudo
Somente 15,9% dos bacharéis em direito que fizeram o exame 133 da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo) receberão carteira de advogado. Dos 17.871 candidatos que participaram do exame, somente 2.848 foram aprovados na 2ª fase da avaliação, realizada no último dia 16 de setembro. O índice de reprovação (84,1%) geral do concurso foi ainda maior do que o registrado na 1ª fase de provas, quando 77,2% foram excluídos da avaliação e somente 22,8% (4.237 candidatos) conseguiram ser aprovados para a última etapa do exame. Além disso, o índice de aprovados neste concurso é metade do registrado no exame anterior, que teve 30,43% de aprovações.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
para médicos
Atualizações
Oa progressos da medicina são cada vez mais rápidos. Calcula-se que, hoje, o que um médico sabe no fim de sua residência estará, em boa parte (aproximadamente a metade), ultrapassado dez anos mais tarde.Felizmente, depois de mais dez anos, o saber originário de um médico não será reduzido a um quarto. Há partes desse saber que resistem ao tempo. Além do mais, a experiência aprimora o clínico. Um gastroenterologista que não se atualizasse durante uma década ignoraria eventuais possibilidades de cura e procedimentos diagnósticos novos, mas, em compensação, sua arte de apalpar e auscultar seria melhor do que em começo de carreira. Para estancar a corrosão do saber pelo tempo, nos EUA, por exemplo, os médicos são obrigados a comprovar que, a cada ano, passam 25 horas em cursos, congressos etc. (um princípio análogo se aplica, aliás, a psicólogos e psicoterapeutas). Essa norma é, por sua vez, desatualizada: qualquer médico dedica muito mais de 25 horas por ano à tentativa de manter seu saber em dia. Não é uma tarefa fácil. Volumes de atualização das diferentes especialidades são publicados regularmente, mas, na hora da publicação (geralmente um ano depois da redação dos textos), uma parte do conteúdo já está ultrapassada. O mesmo vale para os periódicos. O instrumento mais adaptado à velocidade da evolução do saber é a internet. Recentemente, a universidade Stanford lançou "Skolar", um serviço online de consulta atualizada para médicos. As inscrições foram tantas que o serviço teve que ser fortalecido pela integração com outro (o endereço é agora www.ovid.com/clinicalresource). A questão da atualização do saber é um bom critério para separar as ciências "exatas" das "humanas". Nas exatas, em princípio, o saber perde sua validade automaticamente (e sem objeções) quando surgem experiências e dados novos e confirmados. Na elaboração do saber das humanas, os dados são tão importantes quanto a interpretação que lhes dá uma significação. E, na interpretação, o peso do viés, das esperanças e das apostas subjetivas é grande demais para que as "atualizações" sejam acatadas imediatamente. Um exemplo. No fim dos anos 60, na ilha de Korcula (então Iugoslávia) houve uma reunião de estudo para quadros do Partido Comunista Italiano. Pesquisas sociológicas recentes acabavam de constatar que os operários italianos se consideravam exponentes da classe média, e não do proletariado; além disso, suas ambições diziam respeito ao padrão de vida, não à vontade de se apoderar dos meios de produção, inventando o socialismo. A assembléia se dividiu. Houve os que queriam que o partido e o sindicado representassem a vontade dos trabalhadores assim como ela se expressava e, portanto, passassem a promover reivindicações essencialmente quantitativas, de salário, bônus etc. No outro extremo, houve os que declararam que as pesquisas eram reacionárias (note-se: não erradas, mas reacionárias) e só mostravam que a classe operária dos anos 60 era "alienada": ela precisava, portanto, de uma vanguarda que lhe lembrasse sua "vocação" revolucionária. Os exponentes do primeiro grupo foram as levas iniciais do que, mais tarde, foi chamado de "terceira via" social-democrata. Alguns exponentes do segundo, poucos anos depois, confluíram numa luta armada que estropiou e assassinou militantes sindicais "alienados". Mais duas observações: 1) Nessa divisão entre ciências exatas e humanas, estabelecida pelo caráter irrefutável ou não das atualizações, a psicologia é um híbrido, "mezzo" alici, "mezzo" mozzarella. Deve ser por isso que ela não pára de me fascinar. 2) É óbvio que as artes, embora constituam propriamente um saber, não sofrem de nenhuma maneira o mesmo desgaste do saber científico: o último romance publicado não compromete nem "Moby Dick", nem o "Orlando Furioso". Mas isso não significa que não haja uma espécie de exigência de atualização nas artes. Como assim? Na homenagem a Paulo Autran que aconteceu no sábado passado, durante as Satyrianas, na praça Roosevelt, em São Paulo, alguém lembrou que Paulo Autran, até o fim, não parava de se interessar pelo trabalho de jovens atores, dramaturgos, diretores etc. e de assistir às peças que eles montavam. O grande artista é sempre sedento de conhecer e apreciar o trabalho dos que vêm depois dele.
ccalligari@uol.com.br
Oa progressos da medicina são cada vez mais rápidos. Calcula-se que, hoje, o que um médico sabe no fim de sua residência estará, em boa parte (aproximadamente a metade), ultrapassado dez anos mais tarde.Felizmente, depois de mais dez anos, o saber originário de um médico não será reduzido a um quarto. Há partes desse saber que resistem ao tempo. Além do mais, a experiência aprimora o clínico. Um gastroenterologista que não se atualizasse durante uma década ignoraria eventuais possibilidades de cura e procedimentos diagnósticos novos, mas, em compensação, sua arte de apalpar e auscultar seria melhor do que em começo de carreira. Para estancar a corrosão do saber pelo tempo, nos EUA, por exemplo, os médicos são obrigados a comprovar que, a cada ano, passam 25 horas em cursos, congressos etc. (um princípio análogo se aplica, aliás, a psicólogos e psicoterapeutas). Essa norma é, por sua vez, desatualizada: qualquer médico dedica muito mais de 25 horas por ano à tentativa de manter seu saber em dia. Não é uma tarefa fácil. Volumes de atualização das diferentes especialidades são publicados regularmente, mas, na hora da publicação (geralmente um ano depois da redação dos textos), uma parte do conteúdo já está ultrapassada. O mesmo vale para os periódicos. O instrumento mais adaptado à velocidade da evolução do saber é a internet. Recentemente, a universidade Stanford lançou "Skolar", um serviço online de consulta atualizada para médicos. As inscrições foram tantas que o serviço teve que ser fortalecido pela integração com outro (o endereço é agora www.ovid.com/clinicalresource). A questão da atualização do saber é um bom critério para separar as ciências "exatas" das "humanas". Nas exatas, em princípio, o saber perde sua validade automaticamente (e sem objeções) quando surgem experiências e dados novos e confirmados. Na elaboração do saber das humanas, os dados são tão importantes quanto a interpretação que lhes dá uma significação. E, na interpretação, o peso do viés, das esperanças e das apostas subjetivas é grande demais para que as "atualizações" sejam acatadas imediatamente. Um exemplo. No fim dos anos 60, na ilha de Korcula (então Iugoslávia) houve uma reunião de estudo para quadros do Partido Comunista Italiano. Pesquisas sociológicas recentes acabavam de constatar que os operários italianos se consideravam exponentes da classe média, e não do proletariado; além disso, suas ambições diziam respeito ao padrão de vida, não à vontade de se apoderar dos meios de produção, inventando o socialismo. A assembléia se dividiu. Houve os que queriam que o partido e o sindicado representassem a vontade dos trabalhadores assim como ela se expressava e, portanto, passassem a promover reivindicações essencialmente quantitativas, de salário, bônus etc. No outro extremo, houve os que declararam que as pesquisas eram reacionárias (note-se: não erradas, mas reacionárias) e só mostravam que a classe operária dos anos 60 era "alienada": ela precisava, portanto, de uma vanguarda que lhe lembrasse sua "vocação" revolucionária. Os exponentes do primeiro grupo foram as levas iniciais do que, mais tarde, foi chamado de "terceira via" social-democrata. Alguns exponentes do segundo, poucos anos depois, confluíram numa luta armada que estropiou e assassinou militantes sindicais "alienados". Mais duas observações: 1) Nessa divisão entre ciências exatas e humanas, estabelecida pelo caráter irrefutável ou não das atualizações, a psicologia é um híbrido, "mezzo" alici, "mezzo" mozzarella. Deve ser por isso que ela não pára de me fascinar. 2) É óbvio que as artes, embora constituam propriamente um saber, não sofrem de nenhuma maneira o mesmo desgaste do saber científico: o último romance publicado não compromete nem "Moby Dick", nem o "Orlando Furioso". Mas isso não significa que não haja uma espécie de exigência de atualização nas artes. Como assim? Na homenagem a Paulo Autran que aconteceu no sábado passado, durante as Satyrianas, na praça Roosevelt, em São Paulo, alguém lembrou que Paulo Autran, até o fim, não parava de se interessar pelo trabalho de jovens atores, dramaturgos, diretores etc. e de assistir às peças que eles montavam. O grande artista é sempre sedento de conhecer e apreciar o trabalho dos que vêm depois dele.
ccalligari@uol.com.br
editorial de quarta - Folha
Epidemia oficial
AGORA É OFICIAL. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, convocou rede nacional de rádio e TV para anunciar que o Brasil vive uma epidemia de dengue. De janeiro a setembro, registraram-se 481.316 casos da moléstia, contra 321.368 em igual período do ano passado. É um aumento de 50%.O que mais preocupa é a questão da dengue hemorrágica (DH). Por razões não de todo conhecidas, certos indivíduos infectados por algum dos quatro sorotipos do vírus DEN desenvolvem a forma hemorrágica da doença, que pode ser fatal. Até setembro, 1.076 pacientes haviam evoluído para esse quadro, dos quais 121 (11%) morreram.É uma taxa muito elevada. Para a Organização Mundial da Saúde, com condutas médicas adequadas é possível manter a mortalidade da DH abaixo de 1%. O sistema público de saúde não está sendo capaz de diagnosticar e tratar os pacientes a tempo. É preciso oferecer uma rápida reciclagem aos médicos. O período de chuvas no Sudeste está para começar, e o número de casos tende a aumentar.Há evidências de que pessoas que sofram uma segunda infecção por um sorotipo diferente do da contaminação original têm maior predisposição para a DH. Assim, a cada epidemia aumenta o contingente populacional em maior risco de contrair a forma hemorrágica. Não por acaso, a grande epidemia de 2002 (794 mil casos) coincidiu com a chegada do sorotipo DEN-3 ao Brasil. Por aqui já circulavam as cepas DEN-1 e DEN-2. A quarta espécie, o DEN-4, ainda não apareceu, mas já está à espreita em outros países da América do Sul.Nos próximos anos, a dengue deverá tornar-se um problema cada vez mais ameaçador. Além de aparelhar o sistema de saúde, é necessário manter os focos do mosquito Aedes aegypti -vetor da moléstia- sob controle.
AGORA É OFICIAL. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, convocou rede nacional de rádio e TV para anunciar que o Brasil vive uma epidemia de dengue. De janeiro a setembro, registraram-se 481.316 casos da moléstia, contra 321.368 em igual período do ano passado. É um aumento de 50%.O que mais preocupa é a questão da dengue hemorrágica (DH). Por razões não de todo conhecidas, certos indivíduos infectados por algum dos quatro sorotipos do vírus DEN desenvolvem a forma hemorrágica da doença, que pode ser fatal. Até setembro, 1.076 pacientes haviam evoluído para esse quadro, dos quais 121 (11%) morreram.É uma taxa muito elevada. Para a Organização Mundial da Saúde, com condutas médicas adequadas é possível manter a mortalidade da DH abaixo de 1%. O sistema público de saúde não está sendo capaz de diagnosticar e tratar os pacientes a tempo. É preciso oferecer uma rápida reciclagem aos médicos. O período de chuvas no Sudeste está para começar, e o número de casos tende a aumentar.Há evidências de que pessoas que sofram uma segunda infecção por um sorotipo diferente do da contaminação original têm maior predisposição para a DH. Assim, a cada epidemia aumenta o contingente populacional em maior risco de contrair a forma hemorrágica. Não por acaso, a grande epidemia de 2002 (794 mil casos) coincidiu com a chegada do sorotipo DEN-3 ao Brasil. Por aqui já circulavam as cepas DEN-1 e DEN-2. A quarta espécie, o DEN-4, ainda não apareceu, mas já está à espreita em outros países da América do Sul.Nos próximos anos, a dengue deverá tornar-se um problema cada vez mais ameaçador. Além de aparelhar o sistema de saúde, é necessário manter os focos do mosquito Aedes aegypti -vetor da moléstia- sob controle.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
editorial de quarta - Folha
Diplomacia e ditadura
A BOA DIPLOMACIA reside na difícil arte de equilibrar-se entre o pragmatismo exigido pelos interesses comerciais e estratégicos do país e o apego a certos princípios universais, como a solução pacífica de conflitos e o respeito aos direitos humanos.A política externa da gestão Lula coleciona alguns equívocos. Mesmo assim, é exagerada a crítica de setores da oposição a seu atual périplo africano. Censura-se o presidente por visitar ditaduras. Dos quatro países no roteiro, dois (República Popular do Congo-Brazzaville e Angola) são classificados como não-livres pela Freedom House -tradicional fundação americana criada em 1941 por Eleanor Roosevelt. Um (Burkina Fasso) é considerado parcialmente livre, e apenas a África do Sul constitui uma sociedade aberta.Não faz sentido exigir que o presidente Lula ponha os pés apenas em nações democráticas. Nenhum presidente do mundo se utiliza desse critério, assim como não o fez Fernando Henrique Cardoso, que visitou templos da tirania como a China e Cuba. A crer na classificação da Freedom House, só 90 dos 193 Estados do planeta podem ser considerados livres.Isso não significa, é claro, que o Itamaraty esteja autorizado a esquecer os compromissos do Brasil com a democracia e os direitos humanos. O Ministério das Relações Exteriores ensaiou alguns passos nessa direção no auge de sua obsessiva campanha por uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU. Em busca de apoio, o Brasil depositou alguns dos votos mais vergonhosos da história de sua diplomacia, como abster-se na moção que exigia o julgamentos dos responsáveis pelo genocídio de Darfur (Sudão).Não existe receita para chegar ao equilíbrio entre pragmatismo e princípios, mas ele é possível. Passa por cobrar de forma tão clara quanto a cortesia permita avanços institucionais e reagir com firmeza a episódios específicos de violações.Na África, o próprio Lula encontrou uma fórmula interessante ao exaltar o papel da democracia e criticar, ainda que timidamente, o "exercício abusivo do poder" diante de seu anfitrião burquinense. Diga-se, "en passant", que o Itamaraty deveria ter poupado Lula de comparecer à celebração dos 20 anos do golpe que levou o atual presidente ao poder. É perfeitamente legítimo visitar países não-democráticos e com eles travar relações comerciais, mas daí não segue que seja boa política participar dos festejos de um golpe de Estado.No caso de países latino-americanos que integram, com o Brasil, associações em que vigora a cláusula democrática -como a Organização dos Estados Americanos e o Mercosul-, a atenção brasileira às liberdades civis deve ser maior. O país deveria também, em instâncias como o Conselho de Direitos Humanos da ONU, abandonar a conivência com os abusos perpetrados pela ditadura cubana.
A BOA DIPLOMACIA reside na difícil arte de equilibrar-se entre o pragmatismo exigido pelos interesses comerciais e estratégicos do país e o apego a certos princípios universais, como a solução pacífica de conflitos e o respeito aos direitos humanos.A política externa da gestão Lula coleciona alguns equívocos. Mesmo assim, é exagerada a crítica de setores da oposição a seu atual périplo africano. Censura-se o presidente por visitar ditaduras. Dos quatro países no roteiro, dois (República Popular do Congo-Brazzaville e Angola) são classificados como não-livres pela Freedom House -tradicional fundação americana criada em 1941 por Eleanor Roosevelt. Um (Burkina Fasso) é considerado parcialmente livre, e apenas a África do Sul constitui uma sociedade aberta.Não faz sentido exigir que o presidente Lula ponha os pés apenas em nações democráticas. Nenhum presidente do mundo se utiliza desse critério, assim como não o fez Fernando Henrique Cardoso, que visitou templos da tirania como a China e Cuba. A crer na classificação da Freedom House, só 90 dos 193 Estados do planeta podem ser considerados livres.Isso não significa, é claro, que o Itamaraty esteja autorizado a esquecer os compromissos do Brasil com a democracia e os direitos humanos. O Ministério das Relações Exteriores ensaiou alguns passos nessa direção no auge de sua obsessiva campanha por uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU. Em busca de apoio, o Brasil depositou alguns dos votos mais vergonhosos da história de sua diplomacia, como abster-se na moção que exigia o julgamentos dos responsáveis pelo genocídio de Darfur (Sudão).Não existe receita para chegar ao equilíbrio entre pragmatismo e princípios, mas ele é possível. Passa por cobrar de forma tão clara quanto a cortesia permita avanços institucionais e reagir com firmeza a episódios específicos de violações.Na África, o próprio Lula encontrou uma fórmula interessante ao exaltar o papel da democracia e criticar, ainda que timidamente, o "exercício abusivo do poder" diante de seu anfitrião burquinense. Diga-se, "en passant", que o Itamaraty deveria ter poupado Lula de comparecer à celebração dos 20 anos do golpe que levou o atual presidente ao poder. É perfeitamente legítimo visitar países não-democráticos e com eles travar relações comerciais, mas daí não segue que seja boa política participar dos festejos de um golpe de Estado.No caso de países latino-americanos que integram, com o Brasil, associações em que vigora a cláusula democrática -como a Organização dos Estados Americanos e o Mercosul-, a atenção brasileira às liberdades civis deve ser maior. O país deveria também, em instâncias como o Conselho de Direitos Humanos da ONU, abandonar a conivência com os abusos perpetrados pela ditadura cubana.
editorial de terça - Folha
Sem plano de vôo
O PRESIDENTE Luiz Inácio Lula da Silva, que vai contemplar a curvatura da Terra num caça da FAB a 45 mil pés, continua sem plano de vôo até 2010. Advoga que um governante deve ter tempo para "concluir um projeto", mas não diz que projeto sua gestão tem a concluir.Na entrevista concedida a Kennedy Alencar, repórter desta Folha, Lula aparece como um virtuose da tática política. O estilo traduz bem o que tem sido sua administração até aqui: a arte de contornar -e aproveitar-se de- contingências.José Dirceu foi um bom "quadro", mas cometeu "erros políticos" e teve de deixar o governo. É a Justiça que vai decidir se houve mensalão, "se alguém deu, alguém recebeu, vão ser condenados". Financiamento ilegal de campanha, o caixa dois, "é outra história; é crime eleitoral". Na campanha, Lula carimbou em Geraldo Alckmin o selo da privatização, leiloou sete rodovias federais na semana passada, mas diz agora que nunca criticou privatização "de estrada".Não há fisiologismo na relação com o Congresso, o loteamento da máquina decorre da opção por um "governo de coalizão". Cobrar mais imposto dos brasileiros em 2003 -para aumentar a poupança pública que paga os juros- foi um "esforço gigantesco que nós fizemos". Diminuir as despesas federais, depreende-se, não é essencial porque o presidente está investido da missão de desmistificar "essa coisa do gasto público".São piruetas e loopings conhecidos. Os brasileiros, contudo, esperam de oito anos de gestão algo mais que essa contínua exibição da esquadrilha da fumaça.Na sua opção preferencial pela tática, o governo Lula obteve alguns êxitos. Acertou ao reforçar a macroeconomia herdada do segundo governo FHC, ao enterrar o Fome Zero e aferrar-se ao Bolsa Família, ao incentivar o crédito consignado. Já a condução política no Congresso, além de ter lançado mão de métodos mafiosos, foi desastrosa -e a abertura total ao fisiologismo, agora, não dá mostras de ter melhorado a situação.O presidente petista foi sobretudo abençoado pela sorte: os ventos favoráveis da economia mundial -não sopravam assim havia 30 anos- sustentam a melhora de todos os indicadores do Brasil. Permanece a dúvida, porém, sobre o que restará de ganho permanente quando a bonança passar.Onde está a "revolução educacional" que países como a Coréia do Sul souberam projetar e executar rapidamente para emancipar-se do subdesenvolvimento? Onde está a política de inovação capaz de agregar setores novíssimos ao parque produtivo nacional? Onde estão os dispositivos para elevar a produtividade e a qualidade dos serviços públicos? Onde estão as ações para tirar da inércia o ritmo de acesso da maioria da população a habitação e saneamento?Tudo o que não estiver sob a lógica do imediatismo é estranho à gestão Lula. Mas o presidente, este voa. Voa no Aerolula, voa no jato da FAB e já pensa em rasantes na sucessão de 2014.
O PRESIDENTE Luiz Inácio Lula da Silva, que vai contemplar a curvatura da Terra num caça da FAB a 45 mil pés, continua sem plano de vôo até 2010. Advoga que um governante deve ter tempo para "concluir um projeto", mas não diz que projeto sua gestão tem a concluir.Na entrevista concedida a Kennedy Alencar, repórter desta Folha, Lula aparece como um virtuose da tática política. O estilo traduz bem o que tem sido sua administração até aqui: a arte de contornar -e aproveitar-se de- contingências.José Dirceu foi um bom "quadro", mas cometeu "erros políticos" e teve de deixar o governo. É a Justiça que vai decidir se houve mensalão, "se alguém deu, alguém recebeu, vão ser condenados". Financiamento ilegal de campanha, o caixa dois, "é outra história; é crime eleitoral". Na campanha, Lula carimbou em Geraldo Alckmin o selo da privatização, leiloou sete rodovias federais na semana passada, mas diz agora que nunca criticou privatização "de estrada".Não há fisiologismo na relação com o Congresso, o loteamento da máquina decorre da opção por um "governo de coalizão". Cobrar mais imposto dos brasileiros em 2003 -para aumentar a poupança pública que paga os juros- foi um "esforço gigantesco que nós fizemos". Diminuir as despesas federais, depreende-se, não é essencial porque o presidente está investido da missão de desmistificar "essa coisa do gasto público".São piruetas e loopings conhecidos. Os brasileiros, contudo, esperam de oito anos de gestão algo mais que essa contínua exibição da esquadrilha da fumaça.Na sua opção preferencial pela tática, o governo Lula obteve alguns êxitos. Acertou ao reforçar a macroeconomia herdada do segundo governo FHC, ao enterrar o Fome Zero e aferrar-se ao Bolsa Família, ao incentivar o crédito consignado. Já a condução política no Congresso, além de ter lançado mão de métodos mafiosos, foi desastrosa -e a abertura total ao fisiologismo, agora, não dá mostras de ter melhorado a situação.O presidente petista foi sobretudo abençoado pela sorte: os ventos favoráveis da economia mundial -não sopravam assim havia 30 anos- sustentam a melhora de todos os indicadores do Brasil. Permanece a dúvida, porém, sobre o que restará de ganho permanente quando a bonança passar.Onde está a "revolução educacional" que países como a Coréia do Sul souberam projetar e executar rapidamente para emancipar-se do subdesenvolvimento? Onde está a política de inovação capaz de agregar setores novíssimos ao parque produtivo nacional? Onde estão os dispositivos para elevar a produtividade e a qualidade dos serviços públicos? Onde estão as ações para tirar da inércia o ritmo de acesso da maioria da população a habitação e saneamento?Tudo o que não estiver sob a lógica do imediatismo é estranho à gestão Lula. Mas o presidente, este voa. Voa no Aerolula, voa no jato da FAB e já pensa em rasantes na sucessão de 2014.
domingo, 14 de outubro de 2007
editorial de domingo
Brasil sem Nobel
É quase anedótica a frustração de brasileiros com o falta de um Nobel. Cientistas nacionais já chegaram perto, como César Lattes (1924-2005) com seu méson-pi, partícula atômica que detectou em 1947. Aconteceu de novo neste ano com o prêmio aos físicos Albert Fert (França) e Peter Grünberg (Alemanha) pela descoberta da magnetorresistência gigante.As medições cruciais no laboratório de Fert foram realizadas pelo brasileiro Mario Norberto Baibich, em 1988. Ele aparecia como primeiro autor do artigo que levaria ao Nobel, mas encarou com grandeza a premiação apenas do chefe da equipe: "Não me sinto injustiçado. O Nobel não vem da descoberta em si, é dado pelo conjunto da obra. E, depois que eu voltei para o Brasil, tive problemas técnicos que me impediram de continuar me dedicando com a mesma intensidade a essa linha de pesquisa".Baibich desfiou o rol de obstáculos proverbiais de todo pesquisador brasileiro: falta de equipamentos, dificuldade para aprovar projetos de pesquisa caros e inovadores, reticência de agências de fomento etc.Mais que um Nobel, falta ao Brasil melhorar o ambiente de investigação. Um começo seria descomplicar a importação de aparelhos e materiais e a administração de verbas, além de criar mais postos de trabalho fixos, com salários dignos.
É quase anedótica a frustração de brasileiros com o falta de um Nobel. Cientistas nacionais já chegaram perto, como César Lattes (1924-2005) com seu méson-pi, partícula atômica que detectou em 1947. Aconteceu de novo neste ano com o prêmio aos físicos Albert Fert (França) e Peter Grünberg (Alemanha) pela descoberta da magnetorresistência gigante.As medições cruciais no laboratório de Fert foram realizadas pelo brasileiro Mario Norberto Baibich, em 1988. Ele aparecia como primeiro autor do artigo que levaria ao Nobel, mas encarou com grandeza a premiação apenas do chefe da equipe: "Não me sinto injustiçado. O Nobel não vem da descoberta em si, é dado pelo conjunto da obra. E, depois que eu voltei para o Brasil, tive problemas técnicos que me impediram de continuar me dedicando com a mesma intensidade a essa linha de pesquisa".Baibich desfiou o rol de obstáculos proverbiais de todo pesquisador brasileiro: falta de equipamentos, dificuldade para aprovar projetos de pesquisa caros e inovadores, reticência de agências de fomento etc.Mais que um Nobel, falta ao Brasil melhorar o ambiente de investigação. Um começo seria descomplicar a importação de aparelhos e materiais e a administração de verbas, além de criar mais postos de trabalho fixos, com salários dignos.
domingo - Dimenstein na Folha
Rolex de Huck dá lição de jornalismo
Está gerando interesse na mídia a monumental repercussão, verificada pelo número de cartas enviadas à Folha, sobre o artigo do apresentador Luciano Huck, no qual relatou como foi vítima de assalto em que levaram seu Rolex. Raras vezes um artigo, publicado neste espaço nobre da página 3, produziu tanto barulho. Existe aí uma dica sobre jornalismo.
Tirando o fato de Huck ser uma celebridade, há uma tendência, visível em todo o mundo, de maior valorização do local, do cotidiano, do que está mais próximo do consumidor de notícias. Talvez, quem sabe, seja até uma reação à impessoalidade da globalização. No caso do Brasil, ainda temos uma agravante: o noticiário de política está insuportável, limitado, essencialmente, a denúncias de corrupção e articulações sucessórias distantes. É como se fosse uma mesma novela sem fim, na qual já confundimos todos os personagens.
O relógio de Huck é, neste caso, mais do que um relógio. Traduz a insegurança, o caos urbano, a desigualdade social, o desemprego, a impunidade, a educação, a falta de democracia e a miséria. Os leitores estão sedentos para discutir esses temas, mas menos pelo que vem embolado de Brasília e mais pelo que sai das ruas.
Tenho visto jovens, muitas vezes acusados de alienados, despertarem rapidamente para o debate sobre coisas públicas quando a política se traduz em seu cotidiano, trazida de forma apropriada para sala de aula.
Um dos problemas de nós, jornalistas, é que vivemos muito no meio de jornalistas.
*
Está gerando interesse na mídia a monumental repercussão, verificada pelo número de cartas enviadas à Folha, sobre o artigo do apresentador Luciano Huck, no qual relatou como foi vítima de assalto em que levaram seu Rolex. Raras vezes um artigo, publicado neste espaço nobre da página 3, produziu tanto barulho. Existe aí uma dica sobre jornalismo.
Tirando o fato de Huck ser uma celebridade, há uma tendência, visível em todo o mundo, de maior valorização do local, do cotidiano, do que está mais próximo do consumidor de notícias. Talvez, quem sabe, seja até uma reação à impessoalidade da globalização. No caso do Brasil, ainda temos uma agravante: o noticiário de política está insuportável, limitado, essencialmente, a denúncias de corrupção e articulações sucessórias distantes. É como se fosse uma mesma novela sem fim, na qual já confundimos todos os personagens.
O relógio de Huck é, neste caso, mais do que um relógio. Traduz a insegurança, o caos urbano, a desigualdade social, o desemprego, a impunidade, a educação, a falta de democracia e a miséria. Os leitores estão sedentos para discutir esses temas, mas menos pelo que vem embolado de Brasília e mais pelo que sai das ruas.
Tenho visto jovens, muitas vezes acusados de alienados, despertarem rapidamente para o debate sobre coisas públicas quando a política se traduz em seu cotidiano, trazida de forma apropriada para sala de aula.
Um dos problemas de nós, jornalistas, é que vivemos muito no meio de jornalistas.
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sexta-feira, 12 de outubro de 2007
editorial de sexta
Amostra de anacronismo
A 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ)retomou esta semana um julgamento que é mais uma amostra do anacronismo do sistema jurídico-judicial brasileiro e de seu impacto negativo sobre o desenvolvimento econômico do País. Trata-se do recurso judicial que discute o destino de mais de 70 ações populares impetradas contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, consumada em leilão realizado em maio de 1997, durante o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. O que espanta nesse julgamento não é apenas a morosidade com que essas ações populares - interpostas com objetivos meramente políticos por movimentos sociais, sindicatos e partidos, sob a alegação de que a Vale foi vendida por preço vil e, além disso, não poderia ser privatizada por atuar num setor estratégico para a “soberania nacional”- vêm tramitando. Pior que isso é a impossibilidade de essas ações virem a receber uma sentença definitiva em prazo razoável. Até o momento, não se sabe nem mesmo quais são as decisões já tomadas pelas instâncias inferiores da Justiça Federal com relação a esse litígio que continuam válidas. Em 1997, o STJ decidiu que o julgamento de 27 das mais de 70 ações populares ajuizadas contra a privatização da Vale deveria ser centralizado pela 4ª Vara da Justiça Federal de Belém (Pará). As demais ações tramitaram paralelamente em outras comarcas. Das 27 ações protocoladas na 4ª Vara da Justiça Federal de Belém, 2 receberam sentenças favoráveis à venda da Vale, 2 ainda estão aguardando julgamento e as demais tiveram sentenças condenatórias da privatização da empresa. Diante dessa confusão judicial, que resulta do anacronismo da legislação processual, com sua complexa sistemática de prazos, recursos e jurisdições, a Vale recorreu ao STJ, pedindo que as duas sentenças favoráveis a ela sirvam de parâmetro para o julgamento de todas as demais ações populares. A empresa também pleiteia que todos os processos que não tramitaram na 4ª Vara da Justiça Federal de Belém sejam sumariamente extintos. É esse recurso que o STJ voltou a discutir esta semana, após um pedido de vista do ministro João Otávio Noronha. O que estará em julgamento não será a privatização em si, mas a reunião de todas as ações populares impetradas contra a privatização da Vale numa única vara, com o objetivo de evitar decisões contraditórias. Ao justificar seu pedido de vista, Noronha invocou os problemas que a incerteza jurídica costuma acarretar para a iniciativa privada. “Estamos discutindo há anos o que já foi decidido na época da privatização e depois ficamos bravos quando os investidores falam que no Brasil não há segurança jurídica”, disse ele. Segundo o site Consultor Jurídico, o relator do caso, ministro Luiz Fux, deu parecer favorável às pretensões da Vale. E outro ministro que já apresentou seu voto, José Delgado, propôs que todas as ações populares contra a privatização da empresa sejam reunidas em um único processo e julgadas por um único juiz.Os votos dos ministros Noronha, Fux e Delgado, propondo a centralização dos processos num só juízo, como, aliás, o STJ havia decidido há 11 anos, primam pela racionalidade jurídica e pelo bom senso político. Contudo, essa decisão ainda tem de ser referendada pelos demais integrantes da 1ª Seção da corte. Esse litígio, seja qual for o julgamento definitivo, é uma nova demonstração de que o sistema jurídico-judicial brasileiro está em descompasso com uma economia aberta e dinâmica. Com a morosidade na tramitação dos processos e a interferência de magistrados de diferentes comarcas e instâncias no julgamento de uma mesma matéria, além do emaranhado de regras pouco precisas no âmbito da legislação substantiva, dissemina-se a insegurança jurídica entre os agentes econômicos, o que inibe investimentos e obriga as empresas a desviar recursos da atividade-fim para custear os onerosos litígios judiciais. Daí a necessidade de se modernizar o quanto antes as estruturas jurídico-judiciais do País. Para funcionar bem, a economia precisa de uma Justiça rápida, eficiente e previsível.
A 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ)retomou esta semana um julgamento que é mais uma amostra do anacronismo do sistema jurídico-judicial brasileiro e de seu impacto negativo sobre o desenvolvimento econômico do País. Trata-se do recurso judicial que discute o destino de mais de 70 ações populares impetradas contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, consumada em leilão realizado em maio de 1997, durante o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. O que espanta nesse julgamento não é apenas a morosidade com que essas ações populares - interpostas com objetivos meramente políticos por movimentos sociais, sindicatos e partidos, sob a alegação de que a Vale foi vendida por preço vil e, além disso, não poderia ser privatizada por atuar num setor estratégico para a “soberania nacional”- vêm tramitando. Pior que isso é a impossibilidade de essas ações virem a receber uma sentença definitiva em prazo razoável. Até o momento, não se sabe nem mesmo quais são as decisões já tomadas pelas instâncias inferiores da Justiça Federal com relação a esse litígio que continuam válidas. Em 1997, o STJ decidiu que o julgamento de 27 das mais de 70 ações populares ajuizadas contra a privatização da Vale deveria ser centralizado pela 4ª Vara da Justiça Federal de Belém (Pará). As demais ações tramitaram paralelamente em outras comarcas. Das 27 ações protocoladas na 4ª Vara da Justiça Federal de Belém, 2 receberam sentenças favoráveis à venda da Vale, 2 ainda estão aguardando julgamento e as demais tiveram sentenças condenatórias da privatização da empresa. Diante dessa confusão judicial, que resulta do anacronismo da legislação processual, com sua complexa sistemática de prazos, recursos e jurisdições, a Vale recorreu ao STJ, pedindo que as duas sentenças favoráveis a ela sirvam de parâmetro para o julgamento de todas as demais ações populares. A empresa também pleiteia que todos os processos que não tramitaram na 4ª Vara da Justiça Federal de Belém sejam sumariamente extintos. É esse recurso que o STJ voltou a discutir esta semana, após um pedido de vista do ministro João Otávio Noronha. O que estará em julgamento não será a privatização em si, mas a reunião de todas as ações populares impetradas contra a privatização da Vale numa única vara, com o objetivo de evitar decisões contraditórias. Ao justificar seu pedido de vista, Noronha invocou os problemas que a incerteza jurídica costuma acarretar para a iniciativa privada. “Estamos discutindo há anos o que já foi decidido na época da privatização e depois ficamos bravos quando os investidores falam que no Brasil não há segurança jurídica”, disse ele. Segundo o site Consultor Jurídico, o relator do caso, ministro Luiz Fux, deu parecer favorável às pretensões da Vale. E outro ministro que já apresentou seu voto, José Delgado, propôs que todas as ações populares contra a privatização da empresa sejam reunidas em um único processo e julgadas por um único juiz.Os votos dos ministros Noronha, Fux e Delgado, propondo a centralização dos processos num só juízo, como, aliás, o STJ havia decidido há 11 anos, primam pela racionalidade jurídica e pelo bom senso político. Contudo, essa decisão ainda tem de ser referendada pelos demais integrantes da 1ª Seção da corte. Esse litígio, seja qual for o julgamento definitivo, é uma nova demonstração de que o sistema jurídico-judicial brasileiro está em descompasso com uma economia aberta e dinâmica. Com a morosidade na tramitação dos processos e a interferência de magistrados de diferentes comarcas e instâncias no julgamento de uma mesma matéria, além do emaranhado de regras pouco precisas no âmbito da legislação substantiva, dissemina-se a insegurança jurídica entre os agentes econômicos, o que inibe investimentos e obriga as empresas a desviar recursos da atividade-fim para custear os onerosos litígios judiciais. Daí a necessidade de se modernizar o quanto antes as estruturas jurídico-judiciais do País. Para funcionar bem, a economia precisa de uma Justiça rápida, eficiente e previsível.
Males da vida moderna
Pais preferem TV a brincar com filhos, diz estudo
Pais afirmam ter mais prazer de assistir à TV do que passear ou brincar com os filhos. Ao mesmo tempo, só 14% deles vêem as brincadeiras como aliadas no desenvolvimento infantil. Os dados são de um estudo com 1.014 pais e mães de crianças entre seis e 12 anos de todas as regiões do país, feito pela Ipsos Public Affairs para a multinacional Unilever.Entre as dez atividades mais prazerosas citadas pelos pais, passear com os filhos aparece em quarto lugar (com 22% das preferências), atrás de assistir à TV (48%), ouvir música (27%) e ficar com a família (25%). As mães relatam ter mais prazer nessa atividade (25% contra 19% dos pais), e o Sudeste é onde a taxa de prazer em sair com os filhos é maior (30% contra 10% no Norte e Centro Oeste).Quando se trata de brincar com os filhos, o prazer fica ainda mais distante, em sétimo lugar -com 14%-, atrás de atividades como ir à igreja/culto (19%) e sair com amigos (17%). Neste quesito, os pais se saem melhor (16% contra 13%).Assistir à TV também é a brincadeira mais freqüente para 97% das crianças, à frente de atividades como desenhar (81%), brincar de pega-pega (65%) e ler histórias (59%).A escola é citada por 46% dos pais como o local onde as crianças mais brincam fora de casa. A rua foi mencionada por 40% deles -48% das classes D e E contra 19% das classes A e B.Os dados da pesquisa integram a publicação "A Descoberta do Brincar", um estudo inédito sobre as relações entre o brincar e o desenvolvimento da criança brasileira, que teve como relatora e consultora Maria Ângela Barbato Carneiro, educadora da PUC-SP.Para ela, ao assistir à TV, os pais não interagem com os filhos e não se preocupam em criar atividades que interessem e motivem os pequenos. "Há o problema da passividade, a criança não reflete. Isso não significa deixar a criança alienada, mas ela deve ser orientada para refletir sobre o que vê."Segundo a educadora Adriana Friedmann, co-fundadora da Aliança para a Infância no Brasil, em muitas famílias, a TV já se transformou em um canal de comunicação entre pais e filhos. "A culpa da não-presença fica mitigada em colocar a criança na frente da TV, que tem efeito de hipnose."Na última década, diz ela, a conduta do educador tem sido mais de aceitar que a TV é um personagem na vida das famílias e lutar pela qualidade da programação.Um dado que chamou a atenção dos educadores na pesquisa foi que apenas 14% dos pais vêem, espontaneamente, as brincadeiras como importantes aliadas no desenvolvimento infantil. Para 51%, a principal função do brincar é "deixar as crianças mais felizes"."É um misto de falta de conhecimento e de questão cultural. Nossa sociedade acha que brincar é perda de tempo ou só serve para divertir, não enxerga os benefícios", diz Marilena Flores, presidente da Associação pelo Direito de Brincar.Maria Ângela Carneiro acrescenta que os adultos desvalorizam as brincadeiras por acharem que elas não ensinam conteúdos às crianças. "Os pais estão preocupados com o futuro de seus filhos e pensam que os conteúdos escolares são os mais importantes."Para ela, o pior são os professores que também não valorizam as brincadeiras com parte do aprendizado. "Eles têm estudado muito o desenvolvimento infantil, graças às descobertas da psicologia, e ignoram sua prática na escola."
Mães afirmam que jornada exaustiva de trabalho dificulta brincadeiras
Excesso de trabalho é a explicação que algumas mães dão por não brincarem muito com seus filhos. Depois de uma jornada pesada fora de casa, elas voltam só à noite, cansadas, e não agüentam ajoelhar no chão e encarar uma maratona de bonecas ou carrinhos."Não tenho pique mesmo. Não consigo brincar depois de um dia de trabalho, com pressão e desgaste", diz Ana Paula Lomba, 39, gerente bancária. Ela sai de casa às 7h45 e só volta por volta das 20h, quando sua caçula, de cinco anos, já está quase dormindo. Toma banho e chama a primogênita, de nove anos, para ver o "Jornal Nacional" e uma novela. "Sei que brincar é importante na formação delas, mas, vendo o quanto eu me esforço, elas aprenderam a ser responsáveis."Situação parecida vive a psicóloga Ana Lúcia Funari, 37. Depois de 12 horas de trabalho diárias, ela só agüenta deitar na cama para ver um filme com as filhas. "Fico lá, tentando ver, mas sempre durmo", diz. "É o preço. Estou fazendo o melhor, que é dar qualidade de vida."A também psicóloga Patrícia Proença, 32, escolheu o outro lado da moeda. "Abri mão de ter mais dinheiro pela minha filha", diz ela, que se encaixa nos 14% que preferem brincar com os filhos a assistir à TV."Dedico 100% de mim à minha filha." E também aos filhos das amigas, já que Patrícia costuma se reunir com algumas amigas-mães: "Vamos ao parque ou brincamos com os nossos filhos aqui em casa".Amiga de Patrícia, Cristina Rocha, psicóloga, pediu afastamento do trabalho quando seu caçula nasceu para poder cuidar dele e da filha maior. Mas ela assume: "É muito cansativo. É até mais pesado do que trabalhar fora. Filho é 24 horas por dia, sete dias por semana".
Pais afirmam ter mais prazer de assistir à TV do que passear ou brincar com os filhos. Ao mesmo tempo, só 14% deles vêem as brincadeiras como aliadas no desenvolvimento infantil. Os dados são de um estudo com 1.014 pais e mães de crianças entre seis e 12 anos de todas as regiões do país, feito pela Ipsos Public Affairs para a multinacional Unilever.Entre as dez atividades mais prazerosas citadas pelos pais, passear com os filhos aparece em quarto lugar (com 22% das preferências), atrás de assistir à TV (48%), ouvir música (27%) e ficar com a família (25%). As mães relatam ter mais prazer nessa atividade (25% contra 19% dos pais), e o Sudeste é onde a taxa de prazer em sair com os filhos é maior (30% contra 10% no Norte e Centro Oeste).Quando se trata de brincar com os filhos, o prazer fica ainda mais distante, em sétimo lugar -com 14%-, atrás de atividades como ir à igreja/culto (19%) e sair com amigos (17%). Neste quesito, os pais se saem melhor (16% contra 13%).Assistir à TV também é a brincadeira mais freqüente para 97% das crianças, à frente de atividades como desenhar (81%), brincar de pega-pega (65%) e ler histórias (59%).A escola é citada por 46% dos pais como o local onde as crianças mais brincam fora de casa. A rua foi mencionada por 40% deles -48% das classes D e E contra 19% das classes A e B.Os dados da pesquisa integram a publicação "A Descoberta do Brincar", um estudo inédito sobre as relações entre o brincar e o desenvolvimento da criança brasileira, que teve como relatora e consultora Maria Ângela Barbato Carneiro, educadora da PUC-SP.Para ela, ao assistir à TV, os pais não interagem com os filhos e não se preocupam em criar atividades que interessem e motivem os pequenos. "Há o problema da passividade, a criança não reflete. Isso não significa deixar a criança alienada, mas ela deve ser orientada para refletir sobre o que vê."Segundo a educadora Adriana Friedmann, co-fundadora da Aliança para a Infância no Brasil, em muitas famílias, a TV já se transformou em um canal de comunicação entre pais e filhos. "A culpa da não-presença fica mitigada em colocar a criança na frente da TV, que tem efeito de hipnose."Na última década, diz ela, a conduta do educador tem sido mais de aceitar que a TV é um personagem na vida das famílias e lutar pela qualidade da programação.Um dado que chamou a atenção dos educadores na pesquisa foi que apenas 14% dos pais vêem, espontaneamente, as brincadeiras como importantes aliadas no desenvolvimento infantil. Para 51%, a principal função do brincar é "deixar as crianças mais felizes"."É um misto de falta de conhecimento e de questão cultural. Nossa sociedade acha que brincar é perda de tempo ou só serve para divertir, não enxerga os benefícios", diz Marilena Flores, presidente da Associação pelo Direito de Brincar.Maria Ângela Carneiro acrescenta que os adultos desvalorizam as brincadeiras por acharem que elas não ensinam conteúdos às crianças. "Os pais estão preocupados com o futuro de seus filhos e pensam que os conteúdos escolares são os mais importantes."Para ela, o pior são os professores que também não valorizam as brincadeiras com parte do aprendizado. "Eles têm estudado muito o desenvolvimento infantil, graças às descobertas da psicologia, e ignoram sua prática na escola."
Mães afirmam que jornada exaustiva de trabalho dificulta brincadeiras
Excesso de trabalho é a explicação que algumas mães dão por não brincarem muito com seus filhos. Depois de uma jornada pesada fora de casa, elas voltam só à noite, cansadas, e não agüentam ajoelhar no chão e encarar uma maratona de bonecas ou carrinhos."Não tenho pique mesmo. Não consigo brincar depois de um dia de trabalho, com pressão e desgaste", diz Ana Paula Lomba, 39, gerente bancária. Ela sai de casa às 7h45 e só volta por volta das 20h, quando sua caçula, de cinco anos, já está quase dormindo. Toma banho e chama a primogênita, de nove anos, para ver o "Jornal Nacional" e uma novela. "Sei que brincar é importante na formação delas, mas, vendo o quanto eu me esforço, elas aprenderam a ser responsáveis."Situação parecida vive a psicóloga Ana Lúcia Funari, 37. Depois de 12 horas de trabalho diárias, ela só agüenta deitar na cama para ver um filme com as filhas. "Fico lá, tentando ver, mas sempre durmo", diz. "É o preço. Estou fazendo o melhor, que é dar qualidade de vida."A também psicóloga Patrícia Proença, 32, escolheu o outro lado da moeda. "Abri mão de ter mais dinheiro pela minha filha", diz ela, que se encaixa nos 14% que preferem brincar com os filhos a assistir à TV."Dedico 100% de mim à minha filha." E também aos filhos das amigas, já que Patrícia costuma se reunir com algumas amigas-mães: "Vamos ao parque ou brincamos com os nossos filhos aqui em casa".Amiga de Patrícia, Cristina Rocha, psicóloga, pediu afastamento do trabalho quando seu caçula nasceu para poder cuidar dele e da filha maior. Mas ela assume: "É muito cansativo. É até mais pesado do que trabalhar fora. Filho é 24 horas por dia, sete dias por semana".
Para a criançada brasileira
Que infância estamos construindo?
"NÃO ESQUEÇA a minha Caloi". "Compre Batom". "Danoninho vale mais do que um bifinho"... Não é de hoje que os apelos publicitários interferem na formação de nossos filhos. No Dia das Crianças nos sentimos compelidos a refletir. Que infância estamos construindo? As crianças sumiram das ruas, das praças e dos colos e se refugiaram nos shoppings ou nas telas. "Filho, você comeu direito?". "Não esquece o casaco!". "Só mais uma história". "Já sei andar de bicicleta sem rodinhas!". Onde estão essas palavras? Está cada vez mais difícil escutarmos o riso das crianças, assim como suas verdadeiras necessidades. Vivemos imersos em imagens e sons que nos atravessam sem nos pedir permissão. A palavra foi substituída pela imagem. A coleção, pela aquisição. A atenção, pelo presente. O medo do lobo mau, pelo medo da realidade. O abraço, pelo objeto. O desejo, pela necessidade, e a criança, pelo consumidor -antes mesmo de se tornar cidadã. O ter prevalece sobre o ser. Esse é o tempo do consumo e da descartabilidade. No Brasil, 12 de outubro convencionou-se como o Dia das Crianças, mas a que preço? O que de fato celebramos nessa data: a criança ou o consumo? Parece-nos que esse hábito é vivido pela maioria das famílias como um simples dever ao consumo. O 12 de outubro foi proposto pelo deputado federal Galdino do Valle Filho em 1920 e oficializado como Dia das Crianças pelo presidente Arthur Bernardes em 1924. Porém, o dia passou a ser comemorado só em 1960, depois que a fábrica de brinquedos Estrela e a Johnson & Johnson criaram a Semana do Bebê Robusto. Um convite ao consumismo precoce. Se fôssemos comemorar realmente a criança, por que não fazer em 20 de novembro, data da aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças? No mês das crianças, a publicidade surge com força total. Quando vemos que o valor gasto no Brasil em publicidade dirigida ao público infantil foi de aproximadamente R$ 210 milhões (Ibope) e que o valor do investimento no Programa Federal de Desenvolvimento da Educação Infantil (FNDE) foi de aproximadamente R$ 28 milhões, ficamos pasmos. A publicidade participa da formação de nossas crianças tanto quanto a escola. O que é mais importante, esses objetos que prometem a felicidade ou a educação? As crianças são desde cedo incitadas a participar da lógica de mercado. A forma como são olhadas e investidas pelos outros passa pela cultura do consumo. As expectativas em torno do nascimento, a escolha do nome e dos objetos e a reorganização da casa circunscrevem o lugar social no qual se constituirão a identidade e os valores do bebê. As imagens publicitárias dirigem-se às crianças, o que é extremamente abusivo, pois até os 12 anos não têm capacidade crítica de entender o caráter persuasivo das mensagens. Até os quatro anos as crianças não conseguem diferenciar publicidade de programas. Conforme pesquisa norte-americana, bastam apenas 30 segundos para uma marca influenciá-las. Se pensarmos que a criança brasileira passa em média cinco horas por dia em frente à TV (Ibope, 2005), quanta influência da mídia ela sofre? Esse problema se soma ao afastamento das brincadeiras. Quem precisa de dez sapatos, três bolsas ou saber usar batom? Os pais foram desautorizados do poder, ou melhor, do seu saber, e a mídia se ocupou do papel de transmitir os caminhos da infância. Porém, o mercado -mídia ou anunciantes- assumiu isso pensando no lucro imediato, e não nas crianças ou no futuro da nação. A infância não pode ser aprisionada pela falsa felicidade que a sociedade de consumo nos vende. Criança precisa de olhar, de palavras e de escuta. Precisa ter infância para ser criança. E os pais sabem o que é melhor para os filhos. Nesse Dia das Crianças, troquemos o shopping pelo parque. Façamos brinquedos, em vez de comprá-los prontos. Troquemos as guloseimas pelo bolo feito no calor da cozinha. Paremos para refletir. Olhemos para a infância que nos circunda e rememoremos nossa experiência infantil. Assim, talvez possamos subverter a ordem estabelecida do consumismo desenfreado e encontrar uma forma mais sincera de homenagearmos nossas crianças.
LAIS FONTENELLE PEREIRA, 29, mestre em psicologia clínica pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), é psicóloga do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.
"NÃO ESQUEÇA a minha Caloi". "Compre Batom". "Danoninho vale mais do que um bifinho"... Não é de hoje que os apelos publicitários interferem na formação de nossos filhos. No Dia das Crianças nos sentimos compelidos a refletir. Que infância estamos construindo? As crianças sumiram das ruas, das praças e dos colos e se refugiaram nos shoppings ou nas telas. "Filho, você comeu direito?". "Não esquece o casaco!". "Só mais uma história". "Já sei andar de bicicleta sem rodinhas!". Onde estão essas palavras? Está cada vez mais difícil escutarmos o riso das crianças, assim como suas verdadeiras necessidades. Vivemos imersos em imagens e sons que nos atravessam sem nos pedir permissão. A palavra foi substituída pela imagem. A coleção, pela aquisição. A atenção, pelo presente. O medo do lobo mau, pelo medo da realidade. O abraço, pelo objeto. O desejo, pela necessidade, e a criança, pelo consumidor -antes mesmo de se tornar cidadã. O ter prevalece sobre o ser. Esse é o tempo do consumo e da descartabilidade. No Brasil, 12 de outubro convencionou-se como o Dia das Crianças, mas a que preço? O que de fato celebramos nessa data: a criança ou o consumo? Parece-nos que esse hábito é vivido pela maioria das famílias como um simples dever ao consumo. O 12 de outubro foi proposto pelo deputado federal Galdino do Valle Filho em 1920 e oficializado como Dia das Crianças pelo presidente Arthur Bernardes em 1924. Porém, o dia passou a ser comemorado só em 1960, depois que a fábrica de brinquedos Estrela e a Johnson & Johnson criaram a Semana do Bebê Robusto. Um convite ao consumismo precoce. Se fôssemos comemorar realmente a criança, por que não fazer em 20 de novembro, data da aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças? No mês das crianças, a publicidade surge com força total. Quando vemos que o valor gasto no Brasil em publicidade dirigida ao público infantil foi de aproximadamente R$ 210 milhões (Ibope) e que o valor do investimento no Programa Federal de Desenvolvimento da Educação Infantil (FNDE) foi de aproximadamente R$ 28 milhões, ficamos pasmos. A publicidade participa da formação de nossas crianças tanto quanto a escola. O que é mais importante, esses objetos que prometem a felicidade ou a educação? As crianças são desde cedo incitadas a participar da lógica de mercado. A forma como são olhadas e investidas pelos outros passa pela cultura do consumo. As expectativas em torno do nascimento, a escolha do nome e dos objetos e a reorganização da casa circunscrevem o lugar social no qual se constituirão a identidade e os valores do bebê. As imagens publicitárias dirigem-se às crianças, o que é extremamente abusivo, pois até os 12 anos não têm capacidade crítica de entender o caráter persuasivo das mensagens. Até os quatro anos as crianças não conseguem diferenciar publicidade de programas. Conforme pesquisa norte-americana, bastam apenas 30 segundos para uma marca influenciá-las. Se pensarmos que a criança brasileira passa em média cinco horas por dia em frente à TV (Ibope, 2005), quanta influência da mídia ela sofre? Esse problema se soma ao afastamento das brincadeiras. Quem precisa de dez sapatos, três bolsas ou saber usar batom? Os pais foram desautorizados do poder, ou melhor, do seu saber, e a mídia se ocupou do papel de transmitir os caminhos da infância. Porém, o mercado -mídia ou anunciantes- assumiu isso pensando no lucro imediato, e não nas crianças ou no futuro da nação. A infância não pode ser aprisionada pela falsa felicidade que a sociedade de consumo nos vende. Criança precisa de olhar, de palavras e de escuta. Precisa ter infância para ser criança. E os pais sabem o que é melhor para os filhos. Nesse Dia das Crianças, troquemos o shopping pelo parque. Façamos brinquedos, em vez de comprá-los prontos. Troquemos as guloseimas pelo bolo feito no calor da cozinha. Paremos para refletir. Olhemos para a infância que nos circunda e rememoremos nossa experiência infantil. Assim, talvez possamos subverter a ordem estabelecida do consumismo desenfreado e encontrar uma forma mais sincera de homenagearmos nossas crianças.
LAIS FONTENELLE PEREIRA, 29, mestre em psicologia clínica pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), é psicóloga do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.
crônica - Nelson Motta
Escárnios e escórcios
A última estratégia de sobrevivência de Renan Calheiros é escarafunchar a vida dos senadores que insistem em julgá-lo e investigar os seus parentes e amigos em busca de sujeiras capazes de provar, não a sua inocência, mas a sua tese: ninguém ali tem autoridade moral para condená-lo. Uma tese que honra, eleva e consola o Senado que ele presidia.Sabe-se que cerca de um terço dos senadores são donos, direta ou indiretamente, de emissoras de rádio e televisão, arma tradicional dos políticos brasileiros, concessões dadas pelos diversos governos em troca de outras concessões, políticas e fisiológicas. Será que isso os desqualifica para julgar e condenar um colega que comprou -com laranjas e dinheiro de origem duvidosa- uma rádio e um jornal em Alagoas?"Eu odeio a hipocrisia, é a mentira da mentira". A frase não é nem poderia ser de nenhum político brasileiro, mas do filósofo carioca Tim Maia, certamente o mais indicado para dar embasamento acadêmico à tese renanziana. Ou à sua antítese: ninguém mais qualificado para julgar bandidos do que outros bandidos, experts no ramo, mais difíceis de enganar do que os juízes honestos.Entre chantagens, intimidações e coações, o Senado chafurda na lama. Seu ex-presidente não pode sair às ruas em nenhum lugar do Brasil, fora Murici, sem ouvir escárnios e escórcios. Nem seu ex-líder Collor foi tão esculachado e desmoralizado na mídia conservadora ou progressista; nenhum político, nem Severino ou Maluf, foi tão ridicularizado por humoristas e cartunistas. Quase chega a dar pena.O corolário da tese calheiro-gramsciana da "culpa coletiva" e da "desqualificação moral" de seus julgadores é que, se alguém como ele pôde presidir o Senado do Brasil, então tudo é permitido.
A última estratégia de sobrevivência de Renan Calheiros é escarafunchar a vida dos senadores que insistem em julgá-lo e investigar os seus parentes e amigos em busca de sujeiras capazes de provar, não a sua inocência, mas a sua tese: ninguém ali tem autoridade moral para condená-lo. Uma tese que honra, eleva e consola o Senado que ele presidia.Sabe-se que cerca de um terço dos senadores são donos, direta ou indiretamente, de emissoras de rádio e televisão, arma tradicional dos políticos brasileiros, concessões dadas pelos diversos governos em troca de outras concessões, políticas e fisiológicas. Será que isso os desqualifica para julgar e condenar um colega que comprou -com laranjas e dinheiro de origem duvidosa- uma rádio e um jornal em Alagoas?"Eu odeio a hipocrisia, é a mentira da mentira". A frase não é nem poderia ser de nenhum político brasileiro, mas do filósofo carioca Tim Maia, certamente o mais indicado para dar embasamento acadêmico à tese renanziana. Ou à sua antítese: ninguém mais qualificado para julgar bandidos do que outros bandidos, experts no ramo, mais difíceis de enganar do que os juízes honestos.Entre chantagens, intimidações e coações, o Senado chafurda na lama. Seu ex-presidente não pode sair às ruas em nenhum lugar do Brasil, fora Murici, sem ouvir escárnios e escórcios. Nem seu ex-líder Collor foi tão esculachado e desmoralizado na mídia conservadora ou progressista; nenhum político, nem Severino ou Maluf, foi tão ridicularizado por humoristas e cartunistas. Quase chega a dar pena.O corolário da tese calheiro-gramsciana da "culpa coletiva" e da "desqualificação moral" de seus julgadores é que, se alguém como ele pôde presidir o Senado do Brasil, então tudo é permitido.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
opiniões
De flores e Rolex
Beatrice Gakuba, 51 anos, deveria estar roubando Rolex em Ruanda, se é que alguém usa Rolex em Ruanda. Ela é tutsi, etnia que foi massacrada pelos hutus no genocídio de 1994, um dos grandes horrores da história. Calcula-se que, em pouco mais de três meses, morreram cerca de 800 mil pessoas, entre elas uma boa parte da família de Beatrice. Ela escapou porque testemunhava outras violências, em Angola por exemplo, como funcionária do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Passou 20 anos nesse braço da ONU, trabalhando em programas contra a pobreza, até voltar para sua terra, quando a violência foi posta sob controle, um conceito sempre relativo em áreas de rivalidades tribais. Largou uma bem-sucedida carreira de 20 anos como funcionária internacional, qualificada pela formação em humanidades e por falar inglês, francês, italiano e até português, apreendido em Angola. Até hoje, Beatrice não consegue explicar por que voltou. Seus antigos chefes em organismos internacionais lhe
perguntaram várias vezes os motivos. Um deles chegou a lhe dizer que não iria embora de Ruanda enquanto ela não lhe explicasse as razões. "Não sei. Veio daqui, ó" (e aponta para o ventre). Voltou para vingar-se? Nem pensar. Comprou uma pequena firma de flores (a Rwanda Flora), virtualmente falida, e transformou-a em uma usina de exportar rosas para a Holanda, que absorve 90% da produção. Dá emprego para 200 mulheres e lançou um programa de treinamento sobre plantios para exportação para 40 jovens sobreviventes do genocídio e/ou órfãos de portadores do vírus da Aids, uma epidemia na África. Pergunto se houve pelo menos um minuto de arrependimento pela troca feita. "Não, nunca. Sei que lá eu posso fazer a diferença.
Painel do Leitor
Ferréz e Huck
"O senhor Luciano Huck acreditava que, por ser famoso e ajudar algumas pessoas em seu programa e em sua ONG, não seria vítima da violência, pois o criminoso o reconheceria e saberia que se trata de pessoa pública e altruísta. Ledo engano. Assim, indignou-se e escreveu um artigo que gerou a revolta de muitos. Até aí, tudo bem, mas ao ler o artigo de Ferréz ("Pensamentos de um correria", 8/10), fiquei assustado, pois o autor pretende entender e legitimar a ação criminosa. Esqueceu-se o articulista, ao dizer que o "rolo foi justo", que o assalto não se relaciona somente ao assaltante e à vítima. Há a necessidade de colocar a sociedade nesse contexto. Para que o rolo atingisse a perfeição -ainda que o relógio não fosse recuperado e tivesse a destinação social trazida por Ferréz-, haveria a necessidade de que a polícia prendesse o assaltante. Este deveria ser julgado e devidamente condenado. Só então se poderia falar em Justiça."
MARCELO FERNANDES DOS SANTOS (Alfenas, MG)
Nunca antes na história deste país a Folha refletiu nos textos de seus colunistas esse viés tão pequeno-burguês como no caso do texto de Fernando de Barros e Silva de 8/10 ("Qual é, Mano Huck?'). A polêmica dele é falsa. Como na maioria das vezes, reflete a psique da pequeno-burguesia, que não sabe olhar além do umbigo. O Ferréz está correto em sua análise, bem mais ampla do que a desse moço, Barros e Silva. Infelizmente, parece ser coisa de classe social mesmo. Isso para um jornalista que se pretende um intelectual não pega bem, inclusive pelo estilo pobre e rançoso, por não aceitar as conquistas dos outros. Nunca antes na história deste país a Folha esteve tão em conflito consigo mesma como parece estar hoje."
ILSON LIMA (São Paulo, SP)
"Nasci e me criei em São Miguel Paulista, periferia da zona leste. Nos anos 70, freqüentei a escola pública e orgulho-me de nunca ter sido reprovado -naquela época isso era mérito, não decreto. Ao concluir o primeiro grau, trabalhei como office-boy para custear o segundo grau -meu pai era mascate de feira livre, e minha mãe, faxineira. Após três anos trabalhando, voltei aos estudos. Fiz o último ano ao mesmo tempo em que prestava serviço militar obrigatório. Trabalhei mais seis anos para poder pagar uma faculdade, e concluí em cinco anos o curso de administração de empresas. Hoje sou casado, não tenho filhos, tenho minha casa, meu carro e um salário razoável. Lendo o artigo do escritor Ferréz, me pergunto o que um desses "heróis" que abordam uma pessoa para sustentar seus dependentes com um assalto fizeram na história da vida deles? Qual a diferença entre mim e eles? Seria um daqueles garotos que debochavam de mim quando eu ia para a escola? Por fim, pergunto ao Ferréz: quem compra o livro dele? O que está no carro sendo assaltado ou o que está na moto assaltando?"
MILTON BATISTUCI DE SOUZA (Guarulhos, SP)
"Com relação ao texto de Ferréz, só tenho uma coisa a dizer: enquanto existir esse pensamento primitivo e cheio de apologia ao crime e ao criminoso, as coisas só irão piorar. Quanto ao Luciano Huck, é fácil entender seu espanto. Uma vida e uma família destroçada por causa de um relógio. Sou motoboy e já vi oito pessoas serem assaltadas em um único dia. Já pensou se todas tivessem a oportunidade de escrever no jornal sobre sua indignação? Não haveria espaço para outras notícias. Lamento muito por Huck, mas lamento mais ainda por aqueles que defendem uma camada da nossa sociedade que gosta de se fazer de coitadinha, de excluída. Diante de tudo isso, só posso dizer que nós, os menos favorecidos, somos vítimas da nossa própria negligência e comodismo. O pior de tudo é que isso só vai mudar quando atingir cada vez mais pessoas da elite, como o nosso querido Luciano Huck."
FÁBIO BATISTA DA SILVA (São Paulo, SP)
"Presidir uma ONG não deixará Luciano Huck livre de ser assaltado e não resolverá os problemas sociais que afligem as camadas mais pobres da população. Não só Huck mas todas as emissoras de TV deveriam refletir sobre sua programação. Será que se houvesse programas que incentivassem um pensamento mais critico em relação a problemas sociais, políticos etc. não haveria uma cobrança maior da população em relação ao governo? Em vez de ficar pensando que poderia ter morrido ou botar a culpa nas pessoas marginalizadas que vêem apenas o crime como meio de vida, não só Huck mas todas as pessoas que de algum modo atingem um grande público deveriam refletir sobre a responsabilidade que têm quando um assalto ou outro tipo de crime acontece."
HENRIQUE STECANELLA CID (São Paulo, SP)
Beatrice Gakuba, 51 anos, deveria estar roubando Rolex em Ruanda, se é que alguém usa Rolex em Ruanda. Ela é tutsi, etnia que foi massacrada pelos hutus no genocídio de 1994, um dos grandes horrores da história. Calcula-se que, em pouco mais de três meses, morreram cerca de 800 mil pessoas, entre elas uma boa parte da família de Beatrice. Ela escapou porque testemunhava outras violências, em Angola por exemplo, como funcionária do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Passou 20 anos nesse braço da ONU, trabalhando em programas contra a pobreza, até voltar para sua terra, quando a violência foi posta sob controle, um conceito sempre relativo em áreas de rivalidades tribais. Largou uma bem-sucedida carreira de 20 anos como funcionária internacional, qualificada pela formação em humanidades e por falar inglês, francês, italiano e até português, apreendido em Angola. Até hoje, Beatrice não consegue explicar por que voltou. Seus antigos chefes em organismos internacionais lhe
perguntaram várias vezes os motivos. Um deles chegou a lhe dizer que não iria embora de Ruanda enquanto ela não lhe explicasse as razões. "Não sei. Veio daqui, ó" (e aponta para o ventre). Voltou para vingar-se? Nem pensar. Comprou uma pequena firma de flores (a Rwanda Flora), virtualmente falida, e transformou-a em uma usina de exportar rosas para a Holanda, que absorve 90% da produção. Dá emprego para 200 mulheres e lançou um programa de treinamento sobre plantios para exportação para 40 jovens sobreviventes do genocídio e/ou órfãos de portadores do vírus da Aids, uma epidemia na África. Pergunto se houve pelo menos um minuto de arrependimento pela troca feita. "Não, nunca. Sei que lá eu posso fazer a diferença.
Painel do Leitor
Ferréz e Huck
"O senhor Luciano Huck acreditava que, por ser famoso e ajudar algumas pessoas em seu programa e em sua ONG, não seria vítima da violência, pois o criminoso o reconheceria e saberia que se trata de pessoa pública e altruísta. Ledo engano. Assim, indignou-se e escreveu um artigo que gerou a revolta de muitos. Até aí, tudo bem, mas ao ler o artigo de Ferréz ("Pensamentos de um correria", 8/10), fiquei assustado, pois o autor pretende entender e legitimar a ação criminosa. Esqueceu-se o articulista, ao dizer que o "rolo foi justo", que o assalto não se relaciona somente ao assaltante e à vítima. Há a necessidade de colocar a sociedade nesse contexto. Para que o rolo atingisse a perfeição -ainda que o relógio não fosse recuperado e tivesse a destinação social trazida por Ferréz-, haveria a necessidade de que a polícia prendesse o assaltante. Este deveria ser julgado e devidamente condenado. Só então se poderia falar em Justiça."
MARCELO FERNANDES DOS SANTOS (Alfenas, MG)
Nunca antes na história deste país a Folha refletiu nos textos de seus colunistas esse viés tão pequeno-burguês como no caso do texto de Fernando de Barros e Silva de 8/10 ("Qual é, Mano Huck?'). A polêmica dele é falsa. Como na maioria das vezes, reflete a psique da pequeno-burguesia, que não sabe olhar além do umbigo. O Ferréz está correto em sua análise, bem mais ampla do que a desse moço, Barros e Silva. Infelizmente, parece ser coisa de classe social mesmo. Isso para um jornalista que se pretende um intelectual não pega bem, inclusive pelo estilo pobre e rançoso, por não aceitar as conquistas dos outros. Nunca antes na história deste país a Folha esteve tão em conflito consigo mesma como parece estar hoje."
ILSON LIMA (São Paulo, SP)
"Nasci e me criei em São Miguel Paulista, periferia da zona leste. Nos anos 70, freqüentei a escola pública e orgulho-me de nunca ter sido reprovado -naquela época isso era mérito, não decreto. Ao concluir o primeiro grau, trabalhei como office-boy para custear o segundo grau -meu pai era mascate de feira livre, e minha mãe, faxineira. Após três anos trabalhando, voltei aos estudos. Fiz o último ano ao mesmo tempo em que prestava serviço militar obrigatório. Trabalhei mais seis anos para poder pagar uma faculdade, e concluí em cinco anos o curso de administração de empresas. Hoje sou casado, não tenho filhos, tenho minha casa, meu carro e um salário razoável. Lendo o artigo do escritor Ferréz, me pergunto o que um desses "heróis" que abordam uma pessoa para sustentar seus dependentes com um assalto fizeram na história da vida deles? Qual a diferença entre mim e eles? Seria um daqueles garotos que debochavam de mim quando eu ia para a escola? Por fim, pergunto ao Ferréz: quem compra o livro dele? O que está no carro sendo assaltado ou o que está na moto assaltando?"
MILTON BATISTUCI DE SOUZA (Guarulhos, SP)
"Com relação ao texto de Ferréz, só tenho uma coisa a dizer: enquanto existir esse pensamento primitivo e cheio de apologia ao crime e ao criminoso, as coisas só irão piorar. Quanto ao Luciano Huck, é fácil entender seu espanto. Uma vida e uma família destroçada por causa de um relógio. Sou motoboy e já vi oito pessoas serem assaltadas em um único dia. Já pensou se todas tivessem a oportunidade de escrever no jornal sobre sua indignação? Não haveria espaço para outras notícias. Lamento muito por Huck, mas lamento mais ainda por aqueles que defendem uma camada da nossa sociedade que gosta de se fazer de coitadinha, de excluída. Diante de tudo isso, só posso dizer que nós, os menos favorecidos, somos vítimas da nossa própria negligência e comodismo. O pior de tudo é que isso só vai mudar quando atingir cada vez mais pessoas da elite, como o nosso querido Luciano Huck."
FÁBIO BATISTA DA SILVA (São Paulo, SP)
"Presidir uma ONG não deixará Luciano Huck livre de ser assaltado e não resolverá os problemas sociais que afligem as camadas mais pobres da população. Não só Huck mas todas as emissoras de TV deveriam refletir sobre sua programação. Será que se houvesse programas que incentivassem um pensamento mais critico em relação a problemas sociais, políticos etc. não haveria uma cobrança maior da população em relação ao governo? Em vez de ficar pensando que poderia ter morrido ou botar a culpa nas pessoas marginalizadas que vêem apenas o crime como meio de vida, não só Huck mas todas as pessoas que de algum modo atingem um grande público deveriam refletir sobre a responsabilidade que têm quando um assalto ou outro tipo de crime acontece."
HENRIQUE STECANELLA CID (São Paulo, SP)
Vencedor passou infância entre o orfanato e as ruas
O Nobel que o ítalo-americano Mario Capecchi, de 70 anos, recebe é o ápice de uma vida dedicada à ciência, apesar da infância difícil. Ele passou dos 4 aos 9 anos vagando pela Itália, entre orfanatos e a rua, após sua mãe, Lucy, ser levada ao campo de concentração nazista de Dachau, na Alemanha.Em entrevista dada em 1997 a uma revista da Universidade de Utah, onde ainda hoje trabalha, ele contou que, até os 4 anos, viveu com sua mãe - poliglota e poetisa - nos Alpes italianos. Quando a 2ª Guerra Mundial começou, ela se antecipou à prisão, vendeu seus bens e mandou o filho e recursos para que amigos cuidassem dele.“De alguma maneira, o dinheiro que minha mãe me deixou acabou”, conta Capecchi.Ele vagou pelo país até ser hospitalizado com desnutrição severa na cidade de Reggio Emelia, onde sua mãe, liberta de Dachau, o encontrou, após um ano de buscas, no dia do seu nono aniversário. Os dois partiram para os EUA. Lá Capecchi foi matriculado pela primeira vez em uma escola, já na 3ª série - apesar de não saber falar inglês. Em 1961, formou-se em física e química - biologia aprendeu na prática, em laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).Sua mãe, lembra, nunca se recuperou dos traumas da guerra. “Ela mudou imensamente. Ficou irreconhecível. Viveu essencialmente em um mundo de imaginação.”
O Nobel que o ítalo-americano Mario Capecchi, de 70 anos, recebe é o ápice de uma vida dedicada à ciência, apesar da infância difícil. Ele passou dos 4 aos 9 anos vagando pela Itália, entre orfanatos e a rua, após sua mãe, Lucy, ser levada ao campo de concentração nazista de Dachau, na Alemanha.Em entrevista dada em 1997 a uma revista da Universidade de Utah, onde ainda hoje trabalha, ele contou que, até os 4 anos, viveu com sua mãe - poliglota e poetisa - nos Alpes italianos. Quando a 2ª Guerra Mundial começou, ela se antecipou à prisão, vendeu seus bens e mandou o filho e recursos para que amigos cuidassem dele.“De alguma maneira, o dinheiro que minha mãe me deixou acabou”, conta Capecchi.Ele vagou pelo país até ser hospitalizado com desnutrição severa na cidade de Reggio Emelia, onde sua mãe, liberta de Dachau, o encontrou, após um ano de buscas, no dia do seu nono aniversário. Os dois partiram para os EUA. Lá Capecchi foi matriculado pela primeira vez em uma escola, já na 3ª série - apesar de não saber falar inglês. Em 1961, formou-se em física e química - biologia aprendeu na prática, em laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).Sua mãe, lembra, nunca se recuperou dos traumas da guerra. “Ela mudou imensamente. Ficou irreconhecível. Viveu essencialmente em um mundo de imaginação.”
opinião - Folha
Qual é, Mano Huck?
Nunca antes na história deste país um Rolex roubado provocou tanto barulho. O "Painel do Leitor" da Folha se transformou no palco de uma discussão quente como há muito não se via, na qual, a despeito das nuances, prevaleceram duas posições antagônicas: 1. Luciano Huck é a cara da elite brasileira e precisou ser assaltado para cair na real; 2. o apresentador foi agredido duas vezes, pelo ladrão e pelos leitores -e acabou pagando por ser rico e famoso.Não vamos brincar de mocinho e bandido. Nem com os sinais invertidos. É interessante, sem dúvida, que Ferréz, o escritor do Capão, dramatize o episódio pela ótica do assaltante (na página ao lado). Mas a conclusão de que "todos saíram ganhando" e, afinal, "num mundo indefensável, até que o rolo foi justo para ambas as partes" equivale a fazer a apologia do crime e da barbárie em nome de uma suposta crítica das injustiças sociais. O texto chocará muita gente de boa-fé e joga água no moinho do preconceito contra pobres, pretos e motoboys, à revelia das intenções do autor.Menos chocante para muitos talvez tenha sido a biografia edificante que Huck fez de si. Primeiro diz que paga todos os seus impostos -"uma fortuna". A seguir, mostra-se preocupado com o Brasil: "Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente". Por fim, declara uma opção de vida: "Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia". Um cara tão legal... O mundo não é justo.Mas podia ser pior. Entrevistado pela "Veja", Huck frustra a pauta de sempre da revista. Mostra-se tolerante, defende o ensino público e ainda minimiza o papel do Estado penal no combate à criminalidade.É divertido ver como as respostas são melhores que as intenções da entrevista. Mas que traição de classe. Mano Huck resolveu bancar o progressista otário justamente nas páginas amarelas. Chama o ladrão!
Nunca antes na história deste país um Rolex roubado provocou tanto barulho. O "Painel do Leitor" da Folha se transformou no palco de uma discussão quente como há muito não se via, na qual, a despeito das nuances, prevaleceram duas posições antagônicas: 1. Luciano Huck é a cara da elite brasileira e precisou ser assaltado para cair na real; 2. o apresentador foi agredido duas vezes, pelo ladrão e pelos leitores -e acabou pagando por ser rico e famoso.Não vamos brincar de mocinho e bandido. Nem com os sinais invertidos. É interessante, sem dúvida, que Ferréz, o escritor do Capão, dramatize o episódio pela ótica do assaltante (na página ao lado). Mas a conclusão de que "todos saíram ganhando" e, afinal, "num mundo indefensável, até que o rolo foi justo para ambas as partes" equivale a fazer a apologia do crime e da barbárie em nome de uma suposta crítica das injustiças sociais. O texto chocará muita gente de boa-fé e joga água no moinho do preconceito contra pobres, pretos e motoboys, à revelia das intenções do autor.Menos chocante para muitos talvez tenha sido a biografia edificante que Huck fez de si. Primeiro diz que paga todos os seus impostos -"uma fortuna". A seguir, mostra-se preocupado com o Brasil: "Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente". Por fim, declara uma opção de vida: "Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia". Um cara tão legal... O mundo não é justo.Mas podia ser pior. Entrevistado pela "Veja", Huck frustra a pauta de sempre da revista. Mostra-se tolerante, defende o ensino público e ainda minimiza o papel do Estado penal no combate à criminalidade.É divertido ver como as respostas são melhores que as intenções da entrevista. Mas que traição de classe. Mano Huck resolveu bancar o progressista otário justamente nas páginas amarelas. Chama o ladrão!
complementando a notícia - Elio Gaspari na Folha
O socialismo precisa de um Rolex
O cidadão terminou suas pesquisas na biblioteca de Londres e vai para casa, no Soho (rua Dean, 23). Passa um sujeito, mostra-lhe uma faca e pede o relógio. Ao narrar o caso à sua mulher, ele diz:"Estou com 41 anos e a expectativa de vida neste inferno capitalista é de 40. A nossa dieta ultrapassa as 2.300 calorias que o proletariado consome. As condições de higiene e saúde desta cidade são infernais. Aos jovens restam poucas alternativas fora da sífilis e das prisões australianas. São as contradições do capitalismo e, por causa delas, fui assaltado por um garoto".Pode ser que Karl Marx tenha dito diferente:"Jenny, um lúmpen roubou meu relógio".Pobre Luciano Huck. Foi assaltado por dois sujeitos que, de revólver na mão, tomaram-lhe o Rolex. Reclamou num artigo publicado na Folha do dia 1º e teria feito melhor negócio se saísse por aí, cumprindo "missões" em cima de motoqueiros. Foi acusado de ganhar muito e, portanto, ser fonte da violência. Mais: quem manda "pendurar o equivalente a várias casas populares no pulso"? Disse que "isso não está certo" e perguntaram-lhe o que devem dizer as pessoas que vivem de salário mínimo. Fechando o ciclo, num artigo marginal-chique, o rapper Ferréz respondeu com o olhar dos assaltantes e os óculos de Madre Teresa de Calcutá: "Não vejo motivo para reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo para ambas as partes".Está mais ou menos entendido que o partido democrata perdeu a confiança dos americanos nos anos 80 porque deixou-se confundir com os defensores de bandidos. Cada um pode achar o que quiser (desde que não tome o relógio alheio), mas nesse caminho a discussão da segurança pública brasileira caminha para a formação de duas tropas, ambas julgando-se elite do seja lá o que for. Grita-se, para que tudo continue como está. O filme ensina: o traficante foucaultiano da PUC não foi para a cadeia e o PM larápio e covarde voltou para a tropa.Por ser um profissional bem-sucedido e ter ganho um Rolex de presente da mulher (a apresentadora Angélica, igualmente bem-sucedida), Huck foi transformado num obelisco da desigualdade social brasileira.Infelizmente, assaltos não melhoram o índice de Gini. No caso do Rolex do apresentador, especular o destino do dinheiro de sua venda é um exercício carnavalesco. Pode-se sonhar que tenha ido para uma família carente, mas é mais provável que tenha servido para fechar um trato de droga. Que tal as duas coisas, meio a meio? Uma coisa é certa, o Rolex voltará ao pulso de alguém disposto a pagar por ele.Quis o Padre Eterno que esse debate indigente acontecesse logo na semana do 40º aniversário da execução de Ernesto Che Guevara, o Guerrilheiro Heróico. Se Angélica dissesse que deu o Rolex a Huck como parte dessas celebrações, a discussão ganharia um denso conteúdo ideológico.Quando o Che foi assassinado, no mato boliviano, tinha dois Rolex. Um, modelo GMT Master, era dele. O outro, marcado com um X, era uma lembrança que tirara do pulso de um combatente agonizante. (O índice de com-Rolex dos guerrilheiros cubanos na Bolívia era de 12%, certamente um dos mais altos do mundo.)Os relógios eram dois, mas há três por aí. Quem quiser pesquisar a herança de Guevara, pode começar investigando esse mistério
O cidadão terminou suas pesquisas na biblioteca de Londres e vai para casa, no Soho (rua Dean, 23). Passa um sujeito, mostra-lhe uma faca e pede o relógio. Ao narrar o caso à sua mulher, ele diz:"Estou com 41 anos e a expectativa de vida neste inferno capitalista é de 40. A nossa dieta ultrapassa as 2.300 calorias que o proletariado consome. As condições de higiene e saúde desta cidade são infernais. Aos jovens restam poucas alternativas fora da sífilis e das prisões australianas. São as contradições do capitalismo e, por causa delas, fui assaltado por um garoto".Pode ser que Karl Marx tenha dito diferente:"Jenny, um lúmpen roubou meu relógio".Pobre Luciano Huck. Foi assaltado por dois sujeitos que, de revólver na mão, tomaram-lhe o Rolex. Reclamou num artigo publicado na Folha do dia 1º e teria feito melhor negócio se saísse por aí, cumprindo "missões" em cima de motoqueiros. Foi acusado de ganhar muito e, portanto, ser fonte da violência. Mais: quem manda "pendurar o equivalente a várias casas populares no pulso"? Disse que "isso não está certo" e perguntaram-lhe o que devem dizer as pessoas que vivem de salário mínimo. Fechando o ciclo, num artigo marginal-chique, o rapper Ferréz respondeu com o olhar dos assaltantes e os óculos de Madre Teresa de Calcutá: "Não vejo motivo para reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo para ambas as partes".Está mais ou menos entendido que o partido democrata perdeu a confiança dos americanos nos anos 80 porque deixou-se confundir com os defensores de bandidos. Cada um pode achar o que quiser (desde que não tome o relógio alheio), mas nesse caminho a discussão da segurança pública brasileira caminha para a formação de duas tropas, ambas julgando-se elite do seja lá o que for. Grita-se, para que tudo continue como está. O filme ensina: o traficante foucaultiano da PUC não foi para a cadeia e o PM larápio e covarde voltou para a tropa.Por ser um profissional bem-sucedido e ter ganho um Rolex de presente da mulher (a apresentadora Angélica, igualmente bem-sucedida), Huck foi transformado num obelisco da desigualdade social brasileira.Infelizmente, assaltos não melhoram o índice de Gini. No caso do Rolex do apresentador, especular o destino do dinheiro de sua venda é um exercício carnavalesco. Pode-se sonhar que tenha ido para uma família carente, mas é mais provável que tenha servido para fechar um trato de droga. Que tal as duas coisas, meio a meio? Uma coisa é certa, o Rolex voltará ao pulso de alguém disposto a pagar por ele.Quis o Padre Eterno que esse debate indigente acontecesse logo na semana do 40º aniversário da execução de Ernesto Che Guevara, o Guerrilheiro Heróico. Se Angélica dissesse que deu o Rolex a Huck como parte dessas celebrações, a discussão ganharia um denso conteúdo ideológico.Quando o Che foi assassinado, no mato boliviano, tinha dois Rolex. Um, modelo GMT Master, era dele. O outro, marcado com um X, era uma lembrança que tirara do pulso de um combatente agonizante. (O índice de com-Rolex dos guerrilheiros cubanos na Bolívia era de 12%, certamente um dos mais altos do mundo.)Os relógios eram dois, mas há três por aí. Quem quiser pesquisar a herança de Guevara, pode começar investigando esse mistério
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
sempre na frente - Japão
Japão exibe um futuro mais verde
Sustentabilidade está no coração das novas tecnologias mostradas durante a Ceatec, maior feira de eletrônicos da Ásia
No mundo todo, Japão é sinônimo de inovação tecnológica e miniaturização. O novo desafio nipônico é inserir a preocupação com a ecologia no cerne do desenvolvimento de novos equipamentos e de seu estilo de vida ultra high-tech. Esse foi o ponto mais marcante da Ceatec 2007, maior feira de tecnologia da Ásia, que reuniu em Tóquio a nata da indústria eletrônica mundial.Além de brigarem para mostrar as maiores telas possíveis - como LCDs de mais de 100 polegadas - os fabricantes faziam questão de dar detalhes sobre o consumo energético dos novos aparelhos. Uma das novidades foi a finíssima - e inédita - tela da Sony com tecnologia OLED, em que pigmentos orgânicos com luz própria formam as imagens, resultando em menos consumo de energia e lixo tóxico.A Panasonic mostrou um sistema de gerenciamento de iluminação, exclusivo de seus plasmas, que diminui a intensidade da luz de acordo com a imagem, com média de consumo inferior aos das telas de LCD. Verde, fino e super-avançado. Bem-vindo ao Japão ecologicamente correto.O repórter viajou a Tóquio a convite da Panasonic
Sustentabilidade está no coração das novas tecnologias mostradas durante a Ceatec, maior feira de eletrônicos da Ásia
No mundo todo, Japão é sinônimo de inovação tecnológica e miniaturização. O novo desafio nipônico é inserir a preocupação com a ecologia no cerne do desenvolvimento de novos equipamentos e de seu estilo de vida ultra high-tech. Esse foi o ponto mais marcante da Ceatec 2007, maior feira de tecnologia da Ásia, que reuniu em Tóquio a nata da indústria eletrônica mundial.Além de brigarem para mostrar as maiores telas possíveis - como LCDs de mais de 100 polegadas - os fabricantes faziam questão de dar detalhes sobre o consumo energético dos novos aparelhos. Uma das novidades foi a finíssima - e inédita - tela da Sony com tecnologia OLED, em que pigmentos orgânicos com luz própria formam as imagens, resultando em menos consumo de energia e lixo tóxico.A Panasonic mostrou um sistema de gerenciamento de iluminação, exclusivo de seus plasmas, que diminui a intensidade da luz de acordo com a imagem, com média de consumo inferior aos das telas de LCD. Verde, fino e super-avançado. Bem-vindo ao Japão ecologicamente correto.O repórter viajou a Tóquio a convite da Panasonic
opinião - Estadão
O cheiro do medo
Durante 30 anos, Santiago Badariotti Merlo, argentino de origem italiana, serviu à família do banqueiro Walter Moreira Salles, como mordomo, na mansão da Gávea - hoje sede do instituto que leva o nome de seu antigo dono. Santiago morreu em 1994. Antes de morrer, serviu mais uma vez ao filho do patrão, como personagem-título de um filme em preto-e-branco.O filme é um antidocumentário, pois o diretor não parece interessado em retratar seu herói de diferentes ângulos. Nada no filme revela que o cineasta tenha procurado levantar informações sobre a infância do mordomo, investigar suas raízes ou falar com pessoas que o conheceram. Nada indica que tenha conversado com o dono da banca de jornal na esquina, para traçar um retrato um pouco mais redondo da vida que Santiago levava depois de se mudar para o Leblon.O homem bizarro parece ser apenas um pretexto para a reflexão de João Moreira Salles sobre suas angústias. Angústia ante as próprias manipulações cinematográficas. Angústias ante a passagem do tempo e a finitude da vida, que se refletem nas imagens do casarão abandonado, dos baús empilhados e esquecidos num canto da casa vazia, da folha morta que cai e flutua na piscina.Uma narração didática explica cada tomada, numa inútil tentativa de controle. Inútil. Pois, de alguma forma, a pessoa de Santiago escapa ao controle do diretor. Talvez por isso mesmo o ex-mordomo me interesse. Ou talvez me interesse porque me perturba e me provoca um profundo desconforto. Santiago comove. Provoca meu riso quando revela uma presença de espírito inesperada. Outras vezes me causa repulsa. Mas, sobretudo, suscita pena. Por que o aperto no peito? Por que essa enorme compaixão?Santiago é a vítima que esconde o sofrimento e procura fazer, das trevas, luz.O elevador que sobe para seu apartamento tem grades e uma parede bloqueia nossa visão. Como se não lhe bastasse ser prisioneiro de si mesmo no apartamento pequenino, ele será prisioneiro também dos enquadramentos severos e formais que o diretor escolhe para capturá-lo.A Santiago não se permite circular. Pode mover as mãos, mas ficará preso num canto da cozinha, sentado na beirada da banheira, esmagado entre a privada e a pia, na beirada da cama, entre duas paredes.Enquadrado, ele fala. Declama em latim duas orações que decorou na infância. Mostra as pilhas imensas de páginas datilografadas, com listas de reis, aristocratas, chefes indígenas e astros de Hollywood. O que eles têm em comum? São celebridades. Santiago vive de fantasias como uma mariposa ao redor da lamparina.Santiago faz listas. Vive das sobras. E, assim, sobrevive num mundo do qual ele é o mais perfeito exemplo da exclusão. Imigrante, não pertence ao país em que vive. Separado da casa onde nasceu e cresceu, não pertence àquela na qual trabalhou 30 anos. Membro de um grupo maldito, não constituiu família própria. Está sozinho.Mas, de repente, Santiago me surpreende. Seu melhor momento é a superioridade que assume, por estar vivo, ao falar das antigas celebridades. “Todos mortos”, diz, com muxoxo de pouco-caso. E repete: “Todos mortos.” Assim, desmente a teoria do diretor, que, no começo do filme, igualara vida e reminiscências, numa alusão à idéia de que o homem vive se é lembrado.Vã metafísica. O diretor tem medo da morte? Seu filme não o fará imortal. Mas talvez ele tenha ainda mais medo da proximidade de Santiago. E medo de espectadores livres, pois coloca, entre eles e suas imagens, mea-culpa e explicações. Uma mulher sente o cheiro do medo.Num teste realizado num laboratório do Instituto de Antropologia da Universidade de Viena, os pesquisadores mostraram filmes de terror a um grupo de voluntários e filmes neutros a um grupo de controle. Os participantes de ambos os grupos usaram chumaços de algodão nas axilas. Pelo cheiro dos chumaços, algumas mulheres separaram os indivíduos que haviam visto os filmes de terror dos que pertenciam ao grupo de controle. A pesquisa indica que o medo tem cheiro e que uma mulher é capaz de identificá-lo.A enciclopédia informa que o medo é uma reação saudável que nos protege do perigo. Mas seria difícil discernir o medo-prudência do medo que impede o movimento em direção ao outro ou do medo que, segundo Alan Greenspan, está por trás das turbulências econômicas.Na introdução de A Era da Turbulência - um livro que mistura notas autobiográficas com um real interesse pelo mundo e pelas pessoas com quem o autor conviveu antes e durante os 20 anos em que esteve à frente do Fed -, Greenspan escreve: “O medo é a reação automática de todos nós ao que ameaça a mais profunda de nossas propensões inatas - nossa vontade de viver. Também é a base de muitas de nossas reações econômicas. É o fundamento da aversão ao risco (...) que, em situações extremas, nos induz a nos desatrelarmos dos mercados, precipitando quedas abruptas da atividade econômica.”Os investidores na bolsa que se cuidem. O que a exuberância irracional eleva aos céus o medo se encarrega de derrubar. Quando, não se sabe. Como não se sabe quanto tempo deve durar o regime de terror econômico entre a China (que depende da demanda americana) e os EUA (que dependem do financiamento chinês). Talvez por muito tempo, disse Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano, pois a guerra fria provou que sistemas baseados no medo mútuo podem perdurar por décadas.Lamentável que a estabilidade fundada no medo ofereça muita incerteza e pouca alegria. Seria melhor um mundo econômico onde o Banco da China e o Fed se entendessem? Talvez. Mas isso parece tão difícil de acontecer quanto era para João aproximar-se de Santiago enquanto o mordomo ainda estivesse vivo.
Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGVSite: www.elianacardoso.com
Durante 30 anos, Santiago Badariotti Merlo, argentino de origem italiana, serviu à família do banqueiro Walter Moreira Salles, como mordomo, na mansão da Gávea - hoje sede do instituto que leva o nome de seu antigo dono. Santiago morreu em 1994. Antes de morrer, serviu mais uma vez ao filho do patrão, como personagem-título de um filme em preto-e-branco.O filme é um antidocumentário, pois o diretor não parece interessado em retratar seu herói de diferentes ângulos. Nada no filme revela que o cineasta tenha procurado levantar informações sobre a infância do mordomo, investigar suas raízes ou falar com pessoas que o conheceram. Nada indica que tenha conversado com o dono da banca de jornal na esquina, para traçar um retrato um pouco mais redondo da vida que Santiago levava depois de se mudar para o Leblon.O homem bizarro parece ser apenas um pretexto para a reflexão de João Moreira Salles sobre suas angústias. Angústia ante as próprias manipulações cinematográficas. Angústias ante a passagem do tempo e a finitude da vida, que se refletem nas imagens do casarão abandonado, dos baús empilhados e esquecidos num canto da casa vazia, da folha morta que cai e flutua na piscina.Uma narração didática explica cada tomada, numa inútil tentativa de controle. Inútil. Pois, de alguma forma, a pessoa de Santiago escapa ao controle do diretor. Talvez por isso mesmo o ex-mordomo me interesse. Ou talvez me interesse porque me perturba e me provoca um profundo desconforto. Santiago comove. Provoca meu riso quando revela uma presença de espírito inesperada. Outras vezes me causa repulsa. Mas, sobretudo, suscita pena. Por que o aperto no peito? Por que essa enorme compaixão?Santiago é a vítima que esconde o sofrimento e procura fazer, das trevas, luz.O elevador que sobe para seu apartamento tem grades e uma parede bloqueia nossa visão. Como se não lhe bastasse ser prisioneiro de si mesmo no apartamento pequenino, ele será prisioneiro também dos enquadramentos severos e formais que o diretor escolhe para capturá-lo.A Santiago não se permite circular. Pode mover as mãos, mas ficará preso num canto da cozinha, sentado na beirada da banheira, esmagado entre a privada e a pia, na beirada da cama, entre duas paredes.Enquadrado, ele fala. Declama em latim duas orações que decorou na infância. Mostra as pilhas imensas de páginas datilografadas, com listas de reis, aristocratas, chefes indígenas e astros de Hollywood. O que eles têm em comum? São celebridades. Santiago vive de fantasias como uma mariposa ao redor da lamparina.Santiago faz listas. Vive das sobras. E, assim, sobrevive num mundo do qual ele é o mais perfeito exemplo da exclusão. Imigrante, não pertence ao país em que vive. Separado da casa onde nasceu e cresceu, não pertence àquela na qual trabalhou 30 anos. Membro de um grupo maldito, não constituiu família própria. Está sozinho.Mas, de repente, Santiago me surpreende. Seu melhor momento é a superioridade que assume, por estar vivo, ao falar das antigas celebridades. “Todos mortos”, diz, com muxoxo de pouco-caso. E repete: “Todos mortos.” Assim, desmente a teoria do diretor, que, no começo do filme, igualara vida e reminiscências, numa alusão à idéia de que o homem vive se é lembrado.Vã metafísica. O diretor tem medo da morte? Seu filme não o fará imortal. Mas talvez ele tenha ainda mais medo da proximidade de Santiago. E medo de espectadores livres, pois coloca, entre eles e suas imagens, mea-culpa e explicações. Uma mulher sente o cheiro do medo.Num teste realizado num laboratório do Instituto de Antropologia da Universidade de Viena, os pesquisadores mostraram filmes de terror a um grupo de voluntários e filmes neutros a um grupo de controle. Os participantes de ambos os grupos usaram chumaços de algodão nas axilas. Pelo cheiro dos chumaços, algumas mulheres separaram os indivíduos que haviam visto os filmes de terror dos que pertenciam ao grupo de controle. A pesquisa indica que o medo tem cheiro e que uma mulher é capaz de identificá-lo.A enciclopédia informa que o medo é uma reação saudável que nos protege do perigo. Mas seria difícil discernir o medo-prudência do medo que impede o movimento em direção ao outro ou do medo que, segundo Alan Greenspan, está por trás das turbulências econômicas.Na introdução de A Era da Turbulência - um livro que mistura notas autobiográficas com um real interesse pelo mundo e pelas pessoas com quem o autor conviveu antes e durante os 20 anos em que esteve à frente do Fed -, Greenspan escreve: “O medo é a reação automática de todos nós ao que ameaça a mais profunda de nossas propensões inatas - nossa vontade de viver. Também é a base de muitas de nossas reações econômicas. É o fundamento da aversão ao risco (...) que, em situações extremas, nos induz a nos desatrelarmos dos mercados, precipitando quedas abruptas da atividade econômica.”Os investidores na bolsa que se cuidem. O que a exuberância irracional eleva aos céus o medo se encarrega de derrubar. Quando, não se sabe. Como não se sabe quanto tempo deve durar o regime de terror econômico entre a China (que depende da demanda americana) e os EUA (que dependem do financiamento chinês). Talvez por muito tempo, disse Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano, pois a guerra fria provou que sistemas baseados no medo mútuo podem perdurar por décadas.Lamentável que a estabilidade fundada no medo ofereça muita incerteza e pouca alegria. Seria melhor um mundo econômico onde o Banco da China e o Fed se entendessem? Talvez. Mas isso parece tão difícil de acontecer quanto era para João aproximar-se de Santiago enquanto o mordomo ainda estivesse vivo.
Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGVSite: www.elianacardoso.com
opinião - Estadão
Fábrica de celebridades
O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos têm ocupado espaço em alguns setores da mídia. No imenso shopping das futilidades, promovido pela força do negócio do entretenimento que tudo banaliza e transforma em espetáculo, há prateleiras para todos os gostos. Vivemos sob o domínio do inconsistente e sucumbimos à tirania do politicamente correto. O fenômeno, no entanto, não admite explicações unilaterais. Existe, freqüentemente, uma forte relação de amor e ódio, uma paradoxal cumplicidade entre a mídia, suas estrelas e a opinião pública.O décimo aniversário da morte da princesa Diana, evocado em agosto deste ano, ainda repercute na Europa. Lady Di, mítica combinação de charme e tragédia, foi um paradigma de fenômeno midiático. Reações emocionais e julgamentos precipitados prejudicaram, à época, a análise da cobertura. Os paparazzi, cortejados pelo subjornalismo, foram lançados ao fosso da execração pública. Não se trata, agora, de tentar absolver o comportamento aético desses profissionais do drama humano. Mas não é razoável reduzir todo o show midiático ao cruel pragmatismo dos representantes do jornalismo mundo-cão. A fábrica das celebridades, então e agora, depende de uma complexa linha de montagem: a síndrome de Cinderela, o sensacionalismo da imprensa e a intensa demanda social de frivolidade.Diana sucumbiu à síndrome de Cinderela. Vítima de uma situação para a qual não estava preparada, acabou se transformando num produto do show business. Embora lamentasse o assédio dos paparazzi, Lady Di, num paradoxal movimento de autodestruição da sua intimidade, procurava o flash dos tablóides. Suas atitudes não se distinguiam das de outras musas do teatro das vaidades. Ela era uma figura pública que escancarava seus próprios segredos. Basta pensar, por exemplo, nas surpreendentes revelações sobre sua vida íntima ao repórter Andrew Morton. Ela foi uma vítima de sua própria, voluntária e misteriosa exposição à mídia.Mas a fábrica das celebridades não se esgota no mágico e dramático itinerário das Cinderelas. O sensacionalismo transforma a vida num contínuo programa de auditório. A obsessão seletiva pelo underground da vida tem transformado páginas de comportamento num autêntico compêndio freudiano. Biografias não-autorizadas não têm repercutido apenas nas páginas dos tablóides. Maledicência e agressões abusivas à intimidade parecem estar imunes aos critérios de qualidade editorial. O strip-tease da intimidade, ridículo e forçado, ganha status de informação relevante. O que importa é chocar.A lembrança da trágica morte de Diana escancarou também outro ângulo da fábrica de celebridades: a crescente demanda social de futilidade. Muitos dos que choraram o triste destino da princesa de Gales foram os mesmos que se deleitaram com as suas aventuras amorosas. Rigorosamente os mesmos que compravam os jornais que depois condenaram. A indignação da opinião pública contra setores da imprensa, compreensível e lógica, não pode ocultar o seu lado hipócrita e esquizofrênico. Como disse alguém, se fizermos uma análise séria, descobriremos nesse caso, e em outros análogos, para além dos fotógrafos, dos jornais, das celebridades, um culpado maior: a sociedade contemporânea, que se compraz na frivolidade, na vulgaridade e nas aparências.É preciso, contudo, fazer uma ressalva: o mercado não pode ser um álibi para justificar a prática de verdadeiras delinqüências editoriais. Não devemos atuar à margem do mercado, mas não podemos sobrevalorizá-lo. Jornalismo desvinculado do mercado gera moralismo e chatice. Mas jornalismo refém do mercado escorrega fácil para a irresponsabilidade editorial. O culto da frivolidade indica inconsistência editorial. A passionalização da notícia, festejada num primeiro momento, acaba produzindo cicatrizes irreparáveis na credibilidade. Os jornais precisam captar os sinais de uma demanda reprimida de qualidade informativa.Meus freqüentes contatos com repórteres, editores, professores e estudantes, em seminários, reuniões e consultorias, têm sido um observatório privilegiado para mirar e pulsar o sentimento de um público qualificado. Segundo alguns, o jornal, tradicionalmente forte no tratamento da informação, tem sucumbido às regras ditadas pelo mundo do entretenimento. O esforço para conquistar novos leitores, legítimo, urgente e necessário, tem partido de uma premissa estratégica equivocada: tentar imitar o modelo eletrônico.Na verdade, é preciso travar a batalha dos conteúdos. O que vai agregar novos consumidores é uma ágil e moderna prestação de serviços, é o resgate da reportagem de qualidade, é a matéria que ultrapassa a superficialidade televisiva, é a denúncia bem fundamentada, a pauta criativa, o texto elegante e bem escrito. É necessário surpreender o leitor com matérias que rompem a monotonia do jornalismo de registro.A imprensa européia, especialmente a espanhola, tem avançado magnificamente no jornalismo de cidadania. A cobertura oficialista e declaratória tem sido substituída pelo levantamento dos problemas reais que afetam a vida das pessoas. Menos Brasília e mais Brasil real, diríamos aí. É uma fórmula que aproxima os leitores dos seus jornais. Não devemos imitar a televisão, nem ceder ao seu inigualável poder de fabricar celebridades. O nosso negócio é outro. É oferecer informação útil e qualificada para a navegação num mundo cada vez mais complexo e fragmentado.O show business é uma realidade, mas ainda há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia E-mail: difranco@ceu.org.br
O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos têm ocupado espaço em alguns setores da mídia. No imenso shopping das futilidades, promovido pela força do negócio do entretenimento que tudo banaliza e transforma em espetáculo, há prateleiras para todos os gostos. Vivemos sob o domínio do inconsistente e sucumbimos à tirania do politicamente correto. O fenômeno, no entanto, não admite explicações unilaterais. Existe, freqüentemente, uma forte relação de amor e ódio, uma paradoxal cumplicidade entre a mídia, suas estrelas e a opinião pública.O décimo aniversário da morte da princesa Diana, evocado em agosto deste ano, ainda repercute na Europa. Lady Di, mítica combinação de charme e tragédia, foi um paradigma de fenômeno midiático. Reações emocionais e julgamentos precipitados prejudicaram, à época, a análise da cobertura. Os paparazzi, cortejados pelo subjornalismo, foram lançados ao fosso da execração pública. Não se trata, agora, de tentar absolver o comportamento aético desses profissionais do drama humano. Mas não é razoável reduzir todo o show midiático ao cruel pragmatismo dos representantes do jornalismo mundo-cão. A fábrica das celebridades, então e agora, depende de uma complexa linha de montagem: a síndrome de Cinderela, o sensacionalismo da imprensa e a intensa demanda social de frivolidade.Diana sucumbiu à síndrome de Cinderela. Vítima de uma situação para a qual não estava preparada, acabou se transformando num produto do show business. Embora lamentasse o assédio dos paparazzi, Lady Di, num paradoxal movimento de autodestruição da sua intimidade, procurava o flash dos tablóides. Suas atitudes não se distinguiam das de outras musas do teatro das vaidades. Ela era uma figura pública que escancarava seus próprios segredos. Basta pensar, por exemplo, nas surpreendentes revelações sobre sua vida íntima ao repórter Andrew Morton. Ela foi uma vítima de sua própria, voluntária e misteriosa exposição à mídia.Mas a fábrica das celebridades não se esgota no mágico e dramático itinerário das Cinderelas. O sensacionalismo transforma a vida num contínuo programa de auditório. A obsessão seletiva pelo underground da vida tem transformado páginas de comportamento num autêntico compêndio freudiano. Biografias não-autorizadas não têm repercutido apenas nas páginas dos tablóides. Maledicência e agressões abusivas à intimidade parecem estar imunes aos critérios de qualidade editorial. O strip-tease da intimidade, ridículo e forçado, ganha status de informação relevante. O que importa é chocar.A lembrança da trágica morte de Diana escancarou também outro ângulo da fábrica de celebridades: a crescente demanda social de futilidade. Muitos dos que choraram o triste destino da princesa de Gales foram os mesmos que se deleitaram com as suas aventuras amorosas. Rigorosamente os mesmos que compravam os jornais que depois condenaram. A indignação da opinião pública contra setores da imprensa, compreensível e lógica, não pode ocultar o seu lado hipócrita e esquizofrênico. Como disse alguém, se fizermos uma análise séria, descobriremos nesse caso, e em outros análogos, para além dos fotógrafos, dos jornais, das celebridades, um culpado maior: a sociedade contemporânea, que se compraz na frivolidade, na vulgaridade e nas aparências.É preciso, contudo, fazer uma ressalva: o mercado não pode ser um álibi para justificar a prática de verdadeiras delinqüências editoriais. Não devemos atuar à margem do mercado, mas não podemos sobrevalorizá-lo. Jornalismo desvinculado do mercado gera moralismo e chatice. Mas jornalismo refém do mercado escorrega fácil para a irresponsabilidade editorial. O culto da frivolidade indica inconsistência editorial. A passionalização da notícia, festejada num primeiro momento, acaba produzindo cicatrizes irreparáveis na credibilidade. Os jornais precisam captar os sinais de uma demanda reprimida de qualidade informativa.Meus freqüentes contatos com repórteres, editores, professores e estudantes, em seminários, reuniões e consultorias, têm sido um observatório privilegiado para mirar e pulsar o sentimento de um público qualificado. Segundo alguns, o jornal, tradicionalmente forte no tratamento da informação, tem sucumbido às regras ditadas pelo mundo do entretenimento. O esforço para conquistar novos leitores, legítimo, urgente e necessário, tem partido de uma premissa estratégica equivocada: tentar imitar o modelo eletrônico.Na verdade, é preciso travar a batalha dos conteúdos. O que vai agregar novos consumidores é uma ágil e moderna prestação de serviços, é o resgate da reportagem de qualidade, é a matéria que ultrapassa a superficialidade televisiva, é a denúncia bem fundamentada, a pauta criativa, o texto elegante e bem escrito. É necessário surpreender o leitor com matérias que rompem a monotonia do jornalismo de registro.A imprensa européia, especialmente a espanhola, tem avançado magnificamente no jornalismo de cidadania. A cobertura oficialista e declaratória tem sido substituída pelo levantamento dos problemas reais que afetam a vida das pessoas. Menos Brasília e mais Brasil real, diríamos aí. É uma fórmula que aproxima os leitores dos seus jornais. Não devemos imitar a televisão, nem ceder ao seu inigualável poder de fabricar celebridades. O nosso negócio é outro. É oferecer informação útil e qualificada para a navegação num mundo cada vez mais complexo e fragmentado.O show business é uma realidade, mas ainda há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia E-mail: difranco@ceu.org.br
sábado, 6 de outubro de 2007
dicas - dicionário
Pai, companheiro ou amante?
Que dicionário comprar? A resposta mais adequada é... É "depende". Se for para uso "fora de casa", um míni ou mídi vão bem. E, nesse território, não faltam (boas) alternativas.E por que "fora de casa"? Porque dicionário pequeno é como certos cachorros, que são amados, bem tratados etc., mas não colocam o focinho dentro de casa. Dicionário pequeno é quebra-galho, por isso não pode entrar em casa, para que não se tenha a doce ilusão de que se tem dicionário no lar.Pequeno, nãoO dicionário de casa tem de ser dos grandes. Para aqueles que não se contentam com pouco o acervo é vasto.Vai dos brasileiros encontradiços ("Aurélio", "Michaelis", "Houaiss", o [ótimo] da Unesp, dirigido pelo professor Francisco Borba) aos portugueses (também encontrados por aqui -o da Academia das Ciências de Lisboa, o da Texto Editora, o da Porto etc.).Feita a escolha, mãos à obra! Vá logo para a(s) palavra(s) que você quer... Não vá, não. O dicionário será seu companheiro, seu amigo, seu amante, por isso, antes de começar a explorá-lo, saiba como proceder. Leia as páginas iniciais, em que estão todas as explicações dos símbolos e abreviaturas empregados na obra. Sem esse conhecimento, o resultado da consulta pode ser decepcionante.Sem pressaOutra orientação importante diz respeito ao tempo da consulta. Lembre-se: o dicionário será seu amante, por isso nada de pressa. Quem quer saber se deve escrever "à-toa" ou "à toa" pode sair da consulta pior do que entrou. "À toa" é expressão adverbial; significa "a esmo", "sem ter o que fazer" ("Estava à toa na vida..."). "À-toa" é adjetivo; significa "inútil", "desprezível" ("Um filmezinho à-toa").Moral da história: leia até o fim do verbete. E siga as instruções.Ele é velho, mas é básicoDurante muito tempo, o rei dos dicionários brasileiros foi um português.Gerações e gerações consultaram o dicionário de Caldas Aulete, que tinha nada mais nada menos do que cinco volumes e foi editado até a década de 60. Recentemente, a Nova Fronteira adquiriu os direitos de explorar a "marca" Caldas Aulete e lançou um ótimo minidicionário (mais mídi do que míni). Com o fim do reinado do Caldas Aulete, o trono passou para o "Aurélio", que há pelo menos 40 anos é sinônimo de dicionário. A obra não tem a mesma profundidade do "Houaiss", mas atende as necessidades básicas de quem o consulta.É claro que pode escapar um ou outro termo mais recente, mas o velho "Aurélio" foi revisto e atualizado recentemente. Se você não precisa do caráter enciclopédico do "Houaiss", vá de "Aurelião", como é chamado há décadas. Quase uma enciclopédiaDos três dicionários grandes mais vendidos no Brasil, o "Houaiss" é, de longe, o melhor, ou, para usar uma expressão comum hoje em dia, "o mais completo". Na verdade, esse grande dicionário é quase uma enciclopédia (por favor, note a inversão dicionário grande/grande dicionário).O consulente do "Houaiss" encontra vastíssima explicação sobre a origem dos vocábulos, os níveis de uso (formal, informal), os aspectos gramaticais mais importantes etc. Encontra também a data de entrada no idioma de muitas palavras listadas, fator que norteia a ordem das acepções apresentadas.Mas nem tudo são flores. O primeiro entrave é o preço. O segundo é a complexidade das explicações, que assusta os neófitos. Se você quer ir fundo, vá de "Houaiss". Mas nada de preguiça!E nada de "caprichar" na pronúncia. Diga "Uáis" mesmo. Se você quer ir direto ao pontoO dicionário "Michaelis" é o mais "simples" dos três, o que não quer dizer que faça feio ou deixe na mão quem o consulta.Só não se pode esperar desse dicionário a profundidade característica do "Houaiss" ou a abrangência do "Aurelião".Publicado pela Melhoramentos, tradicional casa do mercado editorial brasileiro, o "Michaelis" é quase um pequeno-grande: um dicionário prático, básico, conciso, como os pequenos, e recheado com muito mais verbetes, como os grandes.O dicionário "Michaelis" tem ainda alguns diferenciais interessantes, como a divisão silábica de todas as palavras, e a inclusão de apêndices úteis, como o que traz expressões latinas, regras gramaticais importantes etc.Se você prefere o "direto ao ponto", o básico com algum tempero, vá de "Michaelis".
Que dicionário comprar? A resposta mais adequada é... É "depende". Se for para uso "fora de casa", um míni ou mídi vão bem. E, nesse território, não faltam (boas) alternativas.E por que "fora de casa"? Porque dicionário pequeno é como certos cachorros, que são amados, bem tratados etc., mas não colocam o focinho dentro de casa. Dicionário pequeno é quebra-galho, por isso não pode entrar em casa, para que não se tenha a doce ilusão de que se tem dicionário no lar.Pequeno, nãoO dicionário de casa tem de ser dos grandes. Para aqueles que não se contentam com pouco o acervo é vasto.Vai dos brasileiros encontradiços ("Aurélio", "Michaelis", "Houaiss", o [ótimo] da Unesp, dirigido pelo professor Francisco Borba) aos portugueses (também encontrados por aqui -o da Academia das Ciências de Lisboa, o da Texto Editora, o da Porto etc.).Feita a escolha, mãos à obra! Vá logo para a(s) palavra(s) que você quer... Não vá, não. O dicionário será seu companheiro, seu amigo, seu amante, por isso, antes de começar a explorá-lo, saiba como proceder. Leia as páginas iniciais, em que estão todas as explicações dos símbolos e abreviaturas empregados na obra. Sem esse conhecimento, o resultado da consulta pode ser decepcionante.Sem pressaOutra orientação importante diz respeito ao tempo da consulta. Lembre-se: o dicionário será seu amante, por isso nada de pressa. Quem quer saber se deve escrever "à-toa" ou "à toa" pode sair da consulta pior do que entrou. "À toa" é expressão adverbial; significa "a esmo", "sem ter o que fazer" ("Estava à toa na vida..."). "À-toa" é adjetivo; significa "inútil", "desprezível" ("Um filmezinho à-toa").Moral da história: leia até o fim do verbete. E siga as instruções.Ele é velho, mas é básicoDurante muito tempo, o rei dos dicionários brasileiros foi um português.Gerações e gerações consultaram o dicionário de Caldas Aulete, que tinha nada mais nada menos do que cinco volumes e foi editado até a década de 60. Recentemente, a Nova Fronteira adquiriu os direitos de explorar a "marca" Caldas Aulete e lançou um ótimo minidicionário (mais mídi do que míni). Com o fim do reinado do Caldas Aulete, o trono passou para o "Aurélio", que há pelo menos 40 anos é sinônimo de dicionário. A obra não tem a mesma profundidade do "Houaiss", mas atende as necessidades básicas de quem o consulta.É claro que pode escapar um ou outro termo mais recente, mas o velho "Aurélio" foi revisto e atualizado recentemente. Se você não precisa do caráter enciclopédico do "Houaiss", vá de "Aurelião", como é chamado há décadas. Quase uma enciclopédiaDos três dicionários grandes mais vendidos no Brasil, o "Houaiss" é, de longe, o melhor, ou, para usar uma expressão comum hoje em dia, "o mais completo". Na verdade, esse grande dicionário é quase uma enciclopédia (por favor, note a inversão dicionário grande/grande dicionário).O consulente do "Houaiss" encontra vastíssima explicação sobre a origem dos vocábulos, os níveis de uso (formal, informal), os aspectos gramaticais mais importantes etc. Encontra também a data de entrada no idioma de muitas palavras listadas, fator que norteia a ordem das acepções apresentadas.Mas nem tudo são flores. O primeiro entrave é o preço. O segundo é a complexidade das explicações, que assusta os neófitos. Se você quer ir fundo, vá de "Houaiss". Mas nada de preguiça!E nada de "caprichar" na pronúncia. Diga "Uáis" mesmo. Se você quer ir direto ao pontoO dicionário "Michaelis" é o mais "simples" dos três, o que não quer dizer que faça feio ou deixe na mão quem o consulta.Só não se pode esperar desse dicionário a profundidade característica do "Houaiss" ou a abrangência do "Aurelião".Publicado pela Melhoramentos, tradicional casa do mercado editorial brasileiro, o "Michaelis" é quase um pequeno-grande: um dicionário prático, básico, conciso, como os pequenos, e recheado com muito mais verbetes, como os grandes.O dicionário "Michaelis" tem ainda alguns diferenciais interessantes, como a divisão silábica de todas as palavras, e a inclusão de apêndices úteis, como o que traz expressões latinas, regras gramaticais importantes etc.Se você prefere o "direto ao ponto", o básico com algum tempero, vá de "Michaelis".
editorial de sábado
Seis meses depois
ORGANIZAÇÕES não-governamentais, paragovernamentais ou parapartidárias?
A CPI das ONGs, finalmente instalada mais de seis meses após sua aprovação no Senado, deveria, como princípio, ajudar a separar o joio do trigo na relação entre o poder público e essas entidades da sociedade civil.Muitos programas estatais de sucesso seriam inviáveis sem a participação de ONGs e associações similares. Tal relação ficou patente, por exemplo, na ação da Pastoral da Criança e sua rede nacional de voluntários contra a desnutrição infantil. Outro experimento em geral positivo é a transferência da gestão de hospitais estatais para fundações.Mas alguns atributos que proporcionam às ONGs uma relativa agilidade -como o fato de serem menos sujeitas à burocracia de prestação de contas típica do setor público- oferecem também oportunidades a políticos e empresários inescrupulosos. Uma entidade que recebe dinheiro do governo ou de uma estatal para treinar trabalhadores, por exemplo, pode ser apenas a fachada para o financiamento ilegal de campanhas.A CPI do Senado começará em alta temperatura, embalada pelas suspeitas que relacionam a líder do PT na Casa, Ideli Salvatti, a uma ONG catarinense que recebeu mais de R$ 5 milhões do governo federal desde 2003. Os petistas, por seu turno, prometem questionar repasses a entidades civis durante a gestão FHC. A comissão tem mandato para investigar casos suspeitos de 1999 a 2006, período em que os cofres públicos federais destinaram R$ 34 bilhões a ONGs.Que as ameaças mútuas redundem na ampliação dos casos suspeitos investigados com profundidade pela CPI, e não em mais um pacto pela impunidade.
ORGANIZAÇÕES não-governamentais, paragovernamentais ou parapartidárias?
A CPI das ONGs, finalmente instalada mais de seis meses após sua aprovação no Senado, deveria, como princípio, ajudar a separar o joio do trigo na relação entre o poder público e essas entidades da sociedade civil.Muitos programas estatais de sucesso seriam inviáveis sem a participação de ONGs e associações similares. Tal relação ficou patente, por exemplo, na ação da Pastoral da Criança e sua rede nacional de voluntários contra a desnutrição infantil. Outro experimento em geral positivo é a transferência da gestão de hospitais estatais para fundações.Mas alguns atributos que proporcionam às ONGs uma relativa agilidade -como o fato de serem menos sujeitas à burocracia de prestação de contas típica do setor público- oferecem também oportunidades a políticos e empresários inescrupulosos. Uma entidade que recebe dinheiro do governo ou de uma estatal para treinar trabalhadores, por exemplo, pode ser apenas a fachada para o financiamento ilegal de campanhas.A CPI do Senado começará em alta temperatura, embalada pelas suspeitas que relacionam a líder do PT na Casa, Ideli Salvatti, a uma ONG catarinense que recebeu mais de R$ 5 milhões do governo federal desde 2003. Os petistas, por seu turno, prometem questionar repasses a entidades civis durante a gestão FHC. A comissão tem mandato para investigar casos suspeitos de 1999 a 2006, período em que os cofres públicos federais destinaram R$ 34 bilhões a ONGs.Que as ameaças mútuas redundem na ampliação dos casos suspeitos investigados com profundidade pela CPI, e não em mais um pacto pela impunidade.
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
editorial de quinta - Folha
A cana e a Amazônia
NO DISCURSO que proferiu na abertura da 62ª Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula prometeu "um completo zoneamento agroecológico do país para definir quais áreas agricultáveis podem ser destinadas à produção de biocombustíveis". Treze dias antes, em Estocolmo, havia afirmado: "Quem conhece a Amazônia sabe que o solo amazônico não serve para o plantio da cana".O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, não parece ter dado a devida atenção aos discursos. Chegou a anunciar que um zoneamento agrícola para a cana-de-açúcar, previsto para 2008, daria incentivos para plantio, ainda que em áreas degradadas, na Amazônia. Mencionou até "área de savana" em Roraima, hoje usada como pastagem.Bastaram cinco dias para o ministro recuar. Diante da repercussão negativa e do temor de que o cultivo de cana na Amazônia venha se somar à grilagem, à extração ilegal de madeira, à pecuária e à soja para aumentar o desmatamento na região, após três anos de queda, disse que havia sido mal interpretado: o zoneamento permitirá cultivo de cana só em áreas já desmatadas.O ministro de fato escorregara ao menosprezar a savana, que no Brasil é chamada de cerrado. Não é por ser usada como pasto que essa paisagem, das mais ameaçadas e ricas em espécies do país, merece ser ainda mais devastada.Um verdadeiro zoneamento agroecológico deve levar em conta as condições de topografia, solo, clima e infra-estrutura para dirigir o plantio às áreas potencialmente mais produtivas para as diversas culturas. Também deve ser instrumento para impedir que a expansão dos biocombustíveis, uma oportunidade para o país, se faça desordenadamente. Sempre há o risco de cultivos mais rentáveis empurrarem agricultores descapitalizados a avançar sobre habitats naturais com prioridade de preservação.É por essa razão que o zoneamento, como disse Lula, tem de ser completo e considerar todos os vetores do agronegócio, não só a commodity em ascensão.
NO DISCURSO que proferiu na abertura da 62ª Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula prometeu "um completo zoneamento agroecológico do país para definir quais áreas agricultáveis podem ser destinadas à produção de biocombustíveis". Treze dias antes, em Estocolmo, havia afirmado: "Quem conhece a Amazônia sabe que o solo amazônico não serve para o plantio da cana".O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, não parece ter dado a devida atenção aos discursos. Chegou a anunciar que um zoneamento agrícola para a cana-de-açúcar, previsto para 2008, daria incentivos para plantio, ainda que em áreas degradadas, na Amazônia. Mencionou até "área de savana" em Roraima, hoje usada como pastagem.Bastaram cinco dias para o ministro recuar. Diante da repercussão negativa e do temor de que o cultivo de cana na Amazônia venha se somar à grilagem, à extração ilegal de madeira, à pecuária e à soja para aumentar o desmatamento na região, após três anos de queda, disse que havia sido mal interpretado: o zoneamento permitirá cultivo de cana só em áreas já desmatadas.O ministro de fato escorregara ao menosprezar a savana, que no Brasil é chamada de cerrado. Não é por ser usada como pasto que essa paisagem, das mais ameaçadas e ricas em espécies do país, merece ser ainda mais devastada.Um verdadeiro zoneamento agroecológico deve levar em conta as condições de topografia, solo, clima e infra-estrutura para dirigir o plantio às áreas potencialmente mais produtivas para as diversas culturas. Também deve ser instrumento para impedir que a expansão dos biocombustíveis, uma oportunidade para o país, se faça desordenadamente. Sempre há o risco de cultivos mais rentáveis empurrarem agricultores descapitalizados a avançar sobre habitats naturais com prioridade de preservação.É por essa razão que o zoneamento, como disse Lula, tem de ser completo e considerar todos os vetores do agronegócio, não só a commodity em ascensão.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
editorial de quarta - Folha
Erros em série
PASSADO UM ANO do trágico choque entre o jato Legacy e o Boeing da Gol, que provocou a queda desta aeronave e a morte de 154 pessoas, a colunista Eliane Cantanhêde, desta Folha, teve acesso ao Inquérito Policial Militar (IPM) em que a Aeronáutica indiciou cinco controladores por "materialidade e indícios de autoria de crime". O IPM é uma peça duplamente interessante, pelo que relata e pelo que mantém sob o manto do silêncio.
Embora a Justiça Militar tenha rejeitado a denúncia contra os controladores, alegando fraqueza na imputação criminal, o IPM descreve com precisão 11 "fatores preponderantes" para o acidente. São erros básicos de procedimento cometidos pelos militares e pelos pilotos do Legacy. O inquérito se vale de termos como "displicência" e "demora excessiva" para qualificar a ação dos controladores. Em relação aos norte-americanos, usa a expressão "conduta omissiva".
Como costuma acontecer em acidentes dessa natureza, a tragédia foi determinada por uma sucessão de eventos, que inclui repetidas falhas de comunicação entre os envolvidos, não-observância do plano de vôo e problemas no rádio e no transponder.
O IPM tem o mérito de indicar uma atribuição de responsabilidades baseada em fatos, não em especulações ou preferências ideológicas. Nos dias que se sucederam ao desastre, uma espécie de histeria coletiva tomou conta de parte da opinião pública e de algumas autoridades policiais, que culpavam os norte-americanos por tudo.
O inquérito marca também uma mudança de atitude da própria Aeronáutica. Ainda que de modo oblíquo, a FAB agora admite que ocorreram falhas no sistema de controle aéreo.
É nesse ponto que certos silêncios do IPM se tornam eloqüentes. Não há referência à sobrecarga de trabalho dos controladores ou às suas deficiências de formação. Muitos deles não são capazes de manter uma conversação em inglês. A crer no advogado de defesa dos militares indiciados, um deles não estava qualificado para operar na função, mas foi obrigado a fazê-lo por "determinação superior".
O inquérito tampouco menciona a deterioração e a obsolescência de equipamentos do controle do espaço aéreo -razão dos famosos "buracos negros" de que tanto se falou ao longo dos últimos 12 meses.
Outro ponto "esquecido" é o da falta de investimentos. Embora o passageiro pague pesadas taxas de embarque que ajudam a constituir os fundos aeronáutico e aeroviário, destinados a promover a segurança do setor, essas verbas não são plenamente utilizadas. Elas são mantidas no caixa do governo para cumprir a meta de ajuste fiscal.
Talvez não caiba mesmo a um inquérito policial apontar causas estruturais ou que não tiveram relação imediata com o acidente, mas não há dúvida de que elas são importantíssimas quando se trata de discutir -e melhorar- a segurança aérea do país. É nisso que as autoridades aeronáuticas devem centrar esforços
PASSADO UM ANO do trágico choque entre o jato Legacy e o Boeing da Gol, que provocou a queda desta aeronave e a morte de 154 pessoas, a colunista Eliane Cantanhêde, desta Folha, teve acesso ao Inquérito Policial Militar (IPM) em que a Aeronáutica indiciou cinco controladores por "materialidade e indícios de autoria de crime". O IPM é uma peça duplamente interessante, pelo que relata e pelo que mantém sob o manto do silêncio.
Embora a Justiça Militar tenha rejeitado a denúncia contra os controladores, alegando fraqueza na imputação criminal, o IPM descreve com precisão 11 "fatores preponderantes" para o acidente. São erros básicos de procedimento cometidos pelos militares e pelos pilotos do Legacy. O inquérito se vale de termos como "displicência" e "demora excessiva" para qualificar a ação dos controladores. Em relação aos norte-americanos, usa a expressão "conduta omissiva".
Como costuma acontecer em acidentes dessa natureza, a tragédia foi determinada por uma sucessão de eventos, que inclui repetidas falhas de comunicação entre os envolvidos, não-observância do plano de vôo e problemas no rádio e no transponder.
O IPM tem o mérito de indicar uma atribuição de responsabilidades baseada em fatos, não em especulações ou preferências ideológicas. Nos dias que se sucederam ao desastre, uma espécie de histeria coletiva tomou conta de parte da opinião pública e de algumas autoridades policiais, que culpavam os norte-americanos por tudo.
O inquérito marca também uma mudança de atitude da própria Aeronáutica. Ainda que de modo oblíquo, a FAB agora admite que ocorreram falhas no sistema de controle aéreo.
É nesse ponto que certos silêncios do IPM se tornam eloqüentes. Não há referência à sobrecarga de trabalho dos controladores ou às suas deficiências de formação. Muitos deles não são capazes de manter uma conversação em inglês. A crer no advogado de defesa dos militares indiciados, um deles não estava qualificado para operar na função, mas foi obrigado a fazê-lo por "determinação superior".
O inquérito tampouco menciona a deterioração e a obsolescência de equipamentos do controle do espaço aéreo -razão dos famosos "buracos negros" de que tanto se falou ao longo dos últimos 12 meses.
Outro ponto "esquecido" é o da falta de investimentos. Embora o passageiro pague pesadas taxas de embarque que ajudam a constituir os fundos aeronáutico e aeroviário, destinados a promover a segurança do setor, essas verbas não são plenamente utilizadas. Elas são mantidas no caixa do governo para cumprir a meta de ajuste fiscal.
Talvez não caiba mesmo a um inquérito policial apontar causas estruturais ou que não tiveram relação imediata com o acidente, mas não há dúvida de que elas são importantíssimas quando se trata de discutir -e melhorar- a segurança aérea do país. É nisso que as autoridades aeronáuticas devem centrar esforços
crônica - Ruy Castro
De cabeça para baixo
A obrigação de quem está sob prisão preventiva ou domiciliar é fugir; lugar de tarado é na rua; e colar em exame é legal. Tudo isso com o beneplácito da autoridade. Eis aí três histórias recentes do Brasil que, se forem contadas como piada em Portugal, provocarão boas risadas.
O suíço naturalizado Mike Niggli, por exemplo, autor de golpes no valor de US$ 80 milhões, beneficiou-se da liberalidade do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que o transferiu de uma cela da Polinter no subúrbio de Campo Grande para um apartamento de frente para o oceano Atlântico, no Leblon. Pois, não contente com a vista que tinha das janelas, Niggli escafedeu-se em agosto último, nem a Interpol sabe para onde.
Em 2000, o ministro já mandara soltar o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, autor de um rombo de US$ 1,5 bilhão nos cofres públicos, por considerar que sua culpa não estava formada. Ao se ver na rua, o ingrato Cacciola fugiu para a Itália. Mas o ministro é magnânimo: acha que, enquanto puder recorrer de uma condenação, nenhum acusado pode ser preso. Ao contrário, tem o "direito natural de fugir".
Ademir Oliveira do Rosário, suspeito de ter matado e violentado dois garotos na Cantareira, outro dia, em São Paulo, tinha autorização médica para sair de sua internação no hospital psiquiátrico, em Franco da Rocha, e visitar a família. Nas dez vezes em que gozou dessa liberdade, dedicou-se a atacar meninos -já se sabe de 21 vítimas.
E um defensor público e professor de um cursinho preparatório para exames na Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, está sendo acusado de orientar seus alunos -futuros advogados- a colar nas provas da Ordem.
Quando Tom Jobim dizia que somos um país de cabeça para baixo, não estava brincando.
A obrigação de quem está sob prisão preventiva ou domiciliar é fugir; lugar de tarado é na rua; e colar em exame é legal. Tudo isso com o beneplácito da autoridade. Eis aí três histórias recentes do Brasil que, se forem contadas como piada em Portugal, provocarão boas risadas.
O suíço naturalizado Mike Niggli, por exemplo, autor de golpes no valor de US$ 80 milhões, beneficiou-se da liberalidade do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que o transferiu de uma cela da Polinter no subúrbio de Campo Grande para um apartamento de frente para o oceano Atlântico, no Leblon. Pois, não contente com a vista que tinha das janelas, Niggli escafedeu-se em agosto último, nem a Interpol sabe para onde.
Em 2000, o ministro já mandara soltar o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, autor de um rombo de US$ 1,5 bilhão nos cofres públicos, por considerar que sua culpa não estava formada. Ao se ver na rua, o ingrato Cacciola fugiu para a Itália. Mas o ministro é magnânimo: acha que, enquanto puder recorrer de uma condenação, nenhum acusado pode ser preso. Ao contrário, tem o "direito natural de fugir".
Ademir Oliveira do Rosário, suspeito de ter matado e violentado dois garotos na Cantareira, outro dia, em São Paulo, tinha autorização médica para sair de sua internação no hospital psiquiátrico, em Franco da Rocha, e visitar a família. Nas dez vezes em que gozou dessa liberdade, dedicou-se a atacar meninos -já se sabe de 21 vítimas.
E um defensor público e professor de um cursinho preparatório para exames na Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, está sendo acusado de orientar seus alunos -futuros advogados- a colar nas provas da Ordem.
Quando Tom Jobim dizia que somos um país de cabeça para baixo, não estava brincando.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Fernando Bonassi - literatura
Quinze anos dessa noite
Foram 111 os presuntos desossados ao fim de tudo, segundo as autoridades
DOIS MALANDROS que se acham "muito espertos" -considerando que os "mais inteligentes" mesmo têm advogados para não ficar presos - brigam pelo espaço de um varal no pátio de uma cadeia superlotada de bandidos pobres.É ridículo, mas é só uma cueca o que um deles quer pendurar para secar. E, folgando, vai enfiando o troço... Acontece que há tanta roupa pra arranjar pro domingo que se avizinha que o vizinho resolve não deixar. E joga o treco no chão.Os dois discutem. Todos estão agitados para ficar bonitos. Há mulheres para receber, filhos para beijar, alguns lances para acertar e mesmo falar de outras coisas, que de más intenções o lugar esteve cheio a semana toda.Aquela besteira entre eles não vai acabar bem, mas ainda é cedo para saber. Por enquanto são os dois que se partem nas pernadas.Logo os outros que se chutavam no campo de futebol juntam-se a eles, no que são seguidos por muitos outros, curiosos e torcedores de ver até onde o circo ia queimar. Todos vão se danar neste inferno, mas estão acostumados a lidar com a vida assim, do jeito que as suas vidas lidaram com eles.Os guardas, protegidos pelos muros e cancelas, se assustam com o tamanho da balbúrdia. As feras soltas são muitas e nem estão domesticadas! Resolvessem virar bichos, não haveria grade ou guarda penitenciária para conter a sua fúria sanguinária!Por isso os funcionários chamam a polícia detestada pela maioria daqueles outros lá de baixo, onde a briga degenera em bandalheira, como a guerra fratricida da realidade brasileira.Chegam os assessores engravatados e telefonemas atrapalhados são disparados até atingirem os maiores líderes dentre eles, que estão ocupados com tudo num dia de eleição, menos com aqueles que não votam, não se elegem e, no máximo, representam os milhões que votarão com o estômago e o intestino.É uma porcaria mesmo. Esse era o valor da vida então...Aqui não é diferente agora, mas o acerto de contas, naquela hora, sai do varal do quintal e contagia dentro da "Casa", invadindo o pavilhão, as alas e as celas onde os "reeducandos" deveriam repousar e aprender.São capazes de aprender a apanhar! E o pau segue comendo como se fosse a coisa mais natural do mundo em que nasceram.O mais burro -ou seria apenas ingênuo demais de não imaginar o que mais poderia acontecer?- ainda se tranca e dá a chave ao carcereiro! Disse que "iriam resolver a coisa entre eles", como se houvesse assunto privado na latrina em que se encontravam.Não há reféns, nem bandidos armados, mas os coturnos dos homens blindados são ouvidos.Estão prestes a serem servidos...O banquete será longo, seco e obscuro.A luz foi cortada. A água que sobrou está minando na parede como se mandasse um recado aos experientes, mas parece que só mesmo os insanos conseguem dar ouvidos às súplicas dos inocentes.As súplicas serão caladas na porrada.Há baionetas improvisadas, facas e estiletes para serem arremessados e espetados uns nos outros, que essa convivência nunca foi fácil para ninguém.De um lado estão mais de três centenas e meia de agentes da lei com carteira assinada por salários suicidas; do outro, mais de mil iletrados desempregados que tiveram o azar de nascer no lugar errado ou terem se desencaminhado na insatisfação mesquinha dos seus desejos.Mesquinharia, de todo modo, ainda está por vir... Porque apesar de ninguém ter nada a perder, resolveram deixar a sanha da morte pegar tudo o que pudesse ganhar, numas rajadas de ignorância que fizeram as escolas e bibliotecas da região fecharem de vergonha da civilização que defendem em seus livros!Todos puderam ouvir os gritos que os cachorros deram, bem como os latidos dos homens que ajudavam, ganindo desesperados pelos corredores.Foram 111 os presuntos desossados ao fim de tudo, segundo as autoridades. "Eram mais de 400", segundo alguns malucos miseráveis que asseguraram ter visto cadáveres como eles arremessados no lixo!As cadeias de TV ficaram agitadas para o deleite da insegurança.Algumas cabeças foram cortadas e assessores perderam o emprego, mas ganharam imunidades e aposentadoria... Ainda hoje são condecorados por bravura. Policiais, é claro. Quanto aos 111 empilhados do outro lado e que exalam há 15 anos nesta longa noite dos paulistanos, o Estado tapa o nariz, a justiça os olhos e o cidadão dorme o sono que merece...E ai de quem discordar, não é mesmo?
Foram 111 os presuntos desossados ao fim de tudo, segundo as autoridades
DOIS MALANDROS que se acham "muito espertos" -considerando que os "mais inteligentes" mesmo têm advogados para não ficar presos - brigam pelo espaço de um varal no pátio de uma cadeia superlotada de bandidos pobres.É ridículo, mas é só uma cueca o que um deles quer pendurar para secar. E, folgando, vai enfiando o troço... Acontece que há tanta roupa pra arranjar pro domingo que se avizinha que o vizinho resolve não deixar. E joga o treco no chão.Os dois discutem. Todos estão agitados para ficar bonitos. Há mulheres para receber, filhos para beijar, alguns lances para acertar e mesmo falar de outras coisas, que de más intenções o lugar esteve cheio a semana toda.Aquela besteira entre eles não vai acabar bem, mas ainda é cedo para saber. Por enquanto são os dois que se partem nas pernadas.Logo os outros que se chutavam no campo de futebol juntam-se a eles, no que são seguidos por muitos outros, curiosos e torcedores de ver até onde o circo ia queimar. Todos vão se danar neste inferno, mas estão acostumados a lidar com a vida assim, do jeito que as suas vidas lidaram com eles.Os guardas, protegidos pelos muros e cancelas, se assustam com o tamanho da balbúrdia. As feras soltas são muitas e nem estão domesticadas! Resolvessem virar bichos, não haveria grade ou guarda penitenciária para conter a sua fúria sanguinária!Por isso os funcionários chamam a polícia detestada pela maioria daqueles outros lá de baixo, onde a briga degenera em bandalheira, como a guerra fratricida da realidade brasileira.Chegam os assessores engravatados e telefonemas atrapalhados são disparados até atingirem os maiores líderes dentre eles, que estão ocupados com tudo num dia de eleição, menos com aqueles que não votam, não se elegem e, no máximo, representam os milhões que votarão com o estômago e o intestino.É uma porcaria mesmo. Esse era o valor da vida então...Aqui não é diferente agora, mas o acerto de contas, naquela hora, sai do varal do quintal e contagia dentro da "Casa", invadindo o pavilhão, as alas e as celas onde os "reeducandos" deveriam repousar e aprender.São capazes de aprender a apanhar! E o pau segue comendo como se fosse a coisa mais natural do mundo em que nasceram.O mais burro -ou seria apenas ingênuo demais de não imaginar o que mais poderia acontecer?- ainda se tranca e dá a chave ao carcereiro! Disse que "iriam resolver a coisa entre eles", como se houvesse assunto privado na latrina em que se encontravam.Não há reféns, nem bandidos armados, mas os coturnos dos homens blindados são ouvidos.Estão prestes a serem servidos...O banquete será longo, seco e obscuro.A luz foi cortada. A água que sobrou está minando na parede como se mandasse um recado aos experientes, mas parece que só mesmo os insanos conseguem dar ouvidos às súplicas dos inocentes.As súplicas serão caladas na porrada.Há baionetas improvisadas, facas e estiletes para serem arremessados e espetados uns nos outros, que essa convivência nunca foi fácil para ninguém.De um lado estão mais de três centenas e meia de agentes da lei com carteira assinada por salários suicidas; do outro, mais de mil iletrados desempregados que tiveram o azar de nascer no lugar errado ou terem se desencaminhado na insatisfação mesquinha dos seus desejos.Mesquinharia, de todo modo, ainda está por vir... Porque apesar de ninguém ter nada a perder, resolveram deixar a sanha da morte pegar tudo o que pudesse ganhar, numas rajadas de ignorância que fizeram as escolas e bibliotecas da região fecharem de vergonha da civilização que defendem em seus livros!Todos puderam ouvir os gritos que os cachorros deram, bem como os latidos dos homens que ajudavam, ganindo desesperados pelos corredores.Foram 111 os presuntos desossados ao fim de tudo, segundo as autoridades. "Eram mais de 400", segundo alguns malucos miseráveis que asseguraram ter visto cadáveres como eles arremessados no lixo!As cadeias de TV ficaram agitadas para o deleite da insegurança.Algumas cabeças foram cortadas e assessores perderam o emprego, mas ganharam imunidades e aposentadoria... Ainda hoje são condecorados por bravura. Policiais, é claro. Quanto aos 111 empilhados do outro lado e que exalam há 15 anos nesta longa noite dos paulistanos, o Estado tapa o nariz, a justiça os olhos e o cidadão dorme o sono que merece...E ai de quem discordar, não é mesmo?
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