quarta-feira, 28 de março de 2007

editorial de quarta

Bagatelas jurídicas
SÃO APENAS seis os casos, numa amostra de 2.600, mas que casos: pessoas processadas pelo furto de bens no valor de R$ 1. Com a quantia envolvida elevada a R$ 8, registraram-se 26 processos, dos quais 19 resultaram em prisão. Em contraste, cada preso custa ao poder público R$ 33 por dia.O flagrante kafkiano da Justiça brasileira consta do levantamento acadêmico efetuado em cinco capitais pela promotora Fabiana Costa Oliveira Barreto, de Brasília. A pesquisa reportada ontem nesta Folha constatou que tais processos se arrastam por até dois anos, consumindo energia e recursos de um Judiciário por toda parte reconhecido como tardo e falho.A autora do trabalho sugere que os furtos de valor reduzido sejam postos sob a competência dos Juizados Especiais Criminais, nos quais os processos são mais informais, econômicos e acelerados. Pelo artigo 61 da lei 9.099, podem neles ser julgadas "infrações penais de menor potencial ofensivo", ou seja, contravenções penais e crimes para os quais a lei comine pena máxima não superior a dois anos.Incluir furtos de baixo valor explicitamente no escopo desses juizados evitaria que congestionem ainda mais a pauta das varas criminais comuns. Para muitos especialistas, no entanto, já existem meios legais bastantes para impedir que se perca tempo e dinheiro com esses processos fúteis: a figura do "crime de bagatela", amparado na jurisprudência e na doutrina. Tal é a opinião, entre outros, de Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).Mesmo que se trate de exceções, tais processos-bagatela revelam o excesso de formalismo que ainda orienta a conduta de muitos juízes e membros do Ministério Público. Eles deveriam ser os primeiros a dar o exemplo e rejeitar ações ociosas.

terça-feira, 27 de março de 2007

Novidade!!!!!

27/03/2007 - 19h43
USP terá curso de direito em Ribeirão Preto em 2008
Da redação em São Paulo
O Conselho Universitário da USP (Universidade de São Paulo) aprovou nesta terça (27) a criação da Faculdade de Direito no campus de Ribeirão Preto. A partir de 2008, o curso será oferecido em período integral e terá cem vagas. A graduação terá a duração de cinco anos, sendo dois semestres de ciclo básico, seis de ciclo institucional e dois com disciplinas obrigatórias e optativas de acordo com a área de especialização. Além disso, haverá o estudo de idiomas pertinentes ao sistema romano-germânico do direito (latim, alemão e italiano) e questões relativas aos negócios agrários e a propriedade intelectual, biotecnologia e responsabilidade civil nas atividades ligadas à saúde. Para os cinco primeiros anos, está prevista a contratação de 40 novos professores, 70% deles em período integral, e de 18 funcionários técnico-administrativos. Após três anos de início do curso, deverá ser analisada a abertura da graduação também no período noturno.

segunda-feira, 26 de março de 2007

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Show de violências
SÃO PAULO - A percepção de que a violência passou a figurar no topo das aflições dos brasileiros era algo óbvio para quem acompanha os rumos do noticiário nacional nos últimos meses. Faltava-lhe apenas a confirmação estatística, obtida pelo Datafolha e divulgada ontem por este jornal. O desemprego, que reinou durante todo o primeiro mandato de Lula como maior problema do país, foi desbancado: hoje 31% dos brasileiros pedem em primeiro lugar por segurança; eram 16% em dezembro. Sim, algo mudou de figura muito rapidamente.O que isso nos faz pensar? Seria decerto simplista atribuir tal resultado apenas à exposição do assunto na mídia. Mas ignorar o alcance desse aspecto seria outro erro, maior. Parece claro, para dar logo nome aos bois, que a Rede Globo capitaneia, pelo menos desde a morte de João Hélio, uma campanha por "justiça já" que só tende a reforçar, ainda que involuntariamente, o caldo de cultura a favor do aprofundamento das injustiças do país.Há no ar (e na TV) um clima de "justiça justiceira", uma mistura de clamor punitivo com alarmismo social cultivado pela mídia. Serve como exemplo o reality show macabro protagonizado diariamente em horário nobre pelos pais do menino brutalmente assassinado. O "JN" os transformou em celebridades. A hiperexposição perversa do casal faz com que a dor inominável daquela família seja triturada num liqüidificador emocional até o ponto de servir de alimento ao desejo coletivo de vingança e morte.Só num ambiente social assim, de pernas para o ar, pode-se considerar a estranhíssima "demonstração de força" da Polícia Civil na última sexta como um gesto a favor da segurança e dos cidadãos. O que se viu -sobretudo em São Paulo, onde a operação foi idealizada e de fato executada- pareceu antes de mais nada uma mistura de manobra midiática com demanda corporativa, sugerindo como saldo quase um recado das forças de repressão do Estado ao governador. Algo como: "Estamos aí, chefia".

domingo, 25 de março de 2007

um pouco de humor

Diz que Rui Barbosa, ao chegar em casa certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, dizendo-lhe:- "Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada."
E o ladrão, confuso, diz:
- "Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

a moda dos românticos - bárbaro!

O movimento romântico foi mais do que uma nova maneira de vestir, mais do que uma aparência; foi a manifestação de uma visão de mundo que dominou a cultura européia durante o século XIX. É difícil fixar uma data exata do momento em que uma moda aparece, como também sua paternidade.
Moda total, o Romantismo era um traje, uma estética uma fisionomia, uma sinfonia de cores, um sistema de mitos e idéias feitas, um panteão de heróis reais e imaginários, mas também um modo de vida que se imiscuía em todos os atos e legislava sobre todos os assuntos.
Para Wilson (1989), o início da grande onda romântica, do século XIX pode ser situado através de suas manifestações mais espetaculares: a representação triunfal da peça de Alexandre Dumas, Henri III e sa Cour, levada ao palco na Comédie-Française, no dia 11 de fevereiro de 1829. Nasceu ali uma verdadeira febre historicista que se apoderou de todas as manifestações artísticas. Seria a representação de um pouco de toda a história da França dos séculos XIV, XV, e XVI confundidos que se exibiria nas ruas.
Subitamente o estilo Idade Média tornou-se moda. Em alguns meses, Paris encheu-se de moças borgonhesas vestidas de saias compridas com caudas, feitas de tecido estampado com motivos heráldicos e corselete de mangas bufantes e de jovens cavaleiros vestidos de calças curtas e gibão com recortes sob casacos de arminho. Os moços usando uma cabeleira merovíngea enfeitada com boné de veludo denteado de arqueiro, mostravam uma barba de rei assírio e uma adaga de Toledo enfiada no cinto.
As moças usavam cabelos compridos que penteavam lisos repartidos ao meio e presos na testa por correntes de ouro ou prata, competindo para ver quem usava o sapato com bico mais fino e mais pontudo, ou então a gola mais pregueada tipo Henrique IV, em roda moinho.
O teatro e a literatura, em pleno período históricista, alimentavam as modas fantasmas; cada peça, cada romance atualizava os trajes de seus heróis. Os rapazes queriam ser corsários, cavaleiros, cruzados. As moças sonhavam em ser Margarida de Borgonha, Lucrécia Bórgia, Maria Stuart.
Essa onda medieval atingira todas as camadas da sociedade. A exatidão histórica não era primordial, alguns se inspiravam nos quadros e gravuras de época. Nas semanas que precediam às noites de gala muitos faziam fila no depósito de estampas da Biblioteca Nacional, para copiarem aqueles documentos inspirados nos quais as modistas trabalhavam.
Deste período é famosa a invenção da manga presunto. Reminiscência do traje da Renascença. Eram sustentadas por barbatanas ou bolas cheias de pluma. Os ombros das mulheres cresciam. Não importava se para a noite ou para o dia, o vestido só estaria completo se as mangas fossem periodicamente inchadas e, para equilibrar a silhueta, as saias eram bufantes e os chapéus gigantescos. Também para reforçar a releitura das modas do século XVI, usavam sobre o vestido as “berthes”, espécie de golas-chale de renda delicada e aventais de tecido suntuosamente bordados. Amarravam na cintura as “algibeiras”, pequenas bolsas de couro usadas nos séculos XIV e XV.

http://vintagetextile.com/victorian.htm
Tudo era feito para proporcionar à mulher a aparência de um ser saído de um mundo encantado, como fantasma de lendas. Os chapéus de abas largas erguiam sobre a cabeça como torres que subiam aos céus como catedrais, como os chapéus de bruxa que conhecemos hoje, orgulhosamente exibidos à castelhana. O conjunto se mostrava imerso numa desordem de gaze e musselina sobre uma cabeleira arrepiada e ondulada, como revolta por uma ventania. Tudo se organizava como fragilidade, imaterialidade, ou seja, da sua inacessibilidade feminina, afinal, a Idade Média tinha sido o tempo do amor cortes, e isto havia que ser lembrado.
No mobiliário e na arquitetura deu-se o início da moda neo-gótica e normanda. Redesenhavam as janelas com arco de ogiva e acrescentavam-lhes vitrais. Os rapazes da sociedade sonhavam em morar num apartamento escuro como uma cripta, com acústica de catedral. Todos queriam ter seu castelo; um cenário entre o real e o imaginário começava a surgir. Na ourivesaria, a jóia romântica lançou cenas em miniatura que representavam cavaleiros com armadura, cercados de pajens e galgos, complementando o conjunto com enfeites de escudos e emblemas senhoriais.
A moda também encontrava eco na vida cotidiana; era o máximo do requinte corresponder-se com bilhetinhos escritos em francês arcaico, cheios de palavras raras, confiados a pombos correios. Pseudônimos da época latinizavam os nome, Pierre se tornou Petrus.
O linguajar corriqueiro seguia o movimento, à moda dos personagens das peças históricas de Alexandre Dumas e de Victor Hugo, com expressões como: Por Belzebu! Pelos chifres de Auroch, inferno e danação, terra e céu. A idéia de retorno ao medievalismo chegou até o ponto proposto pelo escritor Roger de Beauvoir, de transformar o jardim de Tivoli num campo de torneio, onde jovens se enfrentariam até a morte, como verdadeiros cavaleiros, armados de lança, vestindo armadura e cota de malha.
Para Bollon (1993:57), a priori nada de muito sério nisso tudo - a não ser um grande revival como os que acontecem regularmente nas sociedades carregadas de passado, em épocas em que sua identidade acha-se incerta, afetada por mutações fundamentais. Um vento de nostalgia dominante que avivara o efeito de imitação…concebido pelas artes dominantes: a literatura e o teatro, no ápice da sua influência popular.
Para o autor, esta situação refletia a volta da aristocracia ao primeiro plano na realidade do poder que celebrava o fantasma de um passado glorioso de tradição, sendo que após a morte de Luís XVIII, isto chegou a tomar um aspecto de revanche do Antigo Regime; em suma, era de bom tom ser aristocrata e, a moda refletia isso e, toda uma lenda napoleônica começava a surgir e de todos os lados transbordavam imagens históricas.
Na literatura a evolução romântica foi mais profunda. Através das obras de lorde Byron e sir Walter Scott, as literaturas nacionais reatavam com seus antigos fundamentos históricos e mitológicos, tentando, como todos os acontecimentos importantes, reescrever sua história a partir deles mesmos. Era como se as nações sentissem a necessidade de mergulhar novamente em suas raízes imemoriais para recuperar as tradições nacionais, que, após as grandes mudanças políticas e sociais do final do século XVIII e início do século XIX, da Revolução e do Império, tinham sido substituídas por universais.
Na Alemanha, o caso chegara a tomar proporções políticas, quando os jovens estudantes adeptos de Sturn und Drang, logo no início do século, decidiram usar novamente seus trajes regionais que, para eles, era um modo de afirmar a existência de uma identidade nacional alemã que faltava criar.
Bollon (1993) afirma que nesta evolução se encontrava tanto o reflexo da idéia de povo soberano, herdado da Revolução Francesa e do Império Napoleônico, quanto uma contestação propriamente reacionária à condição política que vivia, curiosa mistura que a Idade Média enquadrava e expressava num estilo único, o gótico. Para ele: “o Romantismo seria a evocação nostálgica de um passado, de uma reapropiação coletiva de uma história recalcada, ou bem a recusa de um mundo prosaico ou até a fuga deliberada para um universo imaginário, estético e lendário”.
A passagem da moda para um movimento cultural se deu em 1830 quando o estilo Idade Média se fundiu ao grande movimento romântico. A batalha de Hernani, no dia 23 de fevereiro daquele ano trouxe a volta de uma Idade Média fantasmática, vista como uma época heróica e principalmente natural, onde a autenticidade dos sentimentos tinha primazia sobre os compromissos com a razão e entrava em sintonia com os princípios de uma “Arte Nova” que, tanto no teatro como nas demais formas de expressão, queria abolir as regras clássicas e as divisões entre os gêneros para parecer mais verdadeiro, mais próximo da vida, reencontrando através do teatro, o caminho de um descomedimento da paixão e de uma força de sentimento que acabara de descobrir em Shakespeare.
Bruscamente as cores dos trajes desbotaram. Se a referência à Idade Média permanecia, seu sentido mudou: em vez de veicular uma pura nostalgia do passado, ela passou a ser uma recusa confessa do mundo presente, acompanhando a contestação do universo da razão, contestando, é claro, a burguesia emergente que veria seu triunfo depois da segunda metade do século XIX.
Para os jovens franceses, em breve o mundo iria se dividir em dois: de um lado os românticos e, do outro, o resto do mundo, rejeitado como os burgueses. Uma divisão que a moda se esforçaria para representar nos mínimos detalhes por todo um sistema de oposição.
Como todas as grandes modas, o Romantismo era também, uma fisionomia que tinha cânones. Bollon (1993:62) os descreve assim:
Era preciso ser moreno, quase escuro, com a pele azeitonada, mouresca, o corpo seco e nervoso, o olhar selvagem e os olhos brilhantes de paixão, parecer fatal, sombrio, maldito, esmagado sob o peso de um destino abominável, devorado pelas paixões e pelo remorso, desiludido. Em uma palavra: bayroniano ou então mefistofélico, perverso, obcecado pelos poderes do mal e da noite. Antiburguês por excelência, o verdadeiro romântico era um boêmio que não usava colarinho. Seu colete deveria apertar o peito de tal forma que não deixasse aparecer nenhuma mancha branca da camisa, porque essa dava a impressão de algo enquadrado, a camisa branca traia os filisteus. O mesmo se diga dos guarda-chuvas, pelos quais se mostrava um santo horror. O verdadeiro romântico era um ser da natureza e se ridicularizaria se exibisse aquela proteção burguesa contra a fúria dos elementos, como apregoava Patrus Borel.
Enquanto o clássico dândi se exibia com cabelos raros, o romântico exibia sua cabeleira imensa abundante, como um matagal ou revolta em tempestade, quando não com aspecto leonino, pois queriam imitar a natureza em sua beleza selvagem.Lavavam os cabelos com infusão de cássis, para obter um tom Otelo, um tom azinhavre ou de nogueira. Raspavam os cabelos para desguarnecer as têmporas a fim de conseguirem uma testa maior, onde só poderiam se alojar pensamentos geniais e de uma profundidade abissal. Depilavam as sobrancelhas para torná-las mais arqueadas, mais ferozes. Aparavam os bigodes revirados em croque e, usavam a barba pontuda para obterem um ar satânico, tipo Mefistófeles.
A barba era cerrada, friccionada com gordura de urso ou camelo. A forma da barba se revestia de um significado político; as largas suíças sinalizavam o partidário do regime inaugurado pela revolução fracassada, a pontiaguda traía o bonapartista, a barba inteira, não aparada, era, junto com o colete Robespierre, o chapéu pontudo de abas largas e o cabelo a la Titus, o atributo do republicano.
A natureza e a revolta num único símbolo trouxeram para a moda os tons sombrios, os da melancolia e das paixões devoradoras: o verde ruço, o fundo de garrafa, o marrom avermelhado, o puro etíope, a fumaça de Moscou, o hábito de capuchinho ou o negro das asas da graúna.
Quanto às moças, queriam ser morenas, ardentes, espanholas, com tom de pele oriental, ou, ao contrário, transparentes, diáfanas, com uma palidez cadavérica, de uma fragilidade ideal, de vapor de bruma, com cintura de vespa, pescoço de cisne e grandes olhos, desbotados, úmidos e ultramarinos. Vaiavam as sólidas burguesas vitorianas, de traseiro e quadris avantajados.
Quando não possuíam essas qualidades inventavam os meios de obtê-las, bebiam litros de vinagre e comiam dúzias de limões para obter uma tez pálida e doentia. Espremiam suas curvas naturais em impiedosos corpetes entrelaçados e deixavam de comer. Nos jantares beliscavam apenas, desprezavam as carnes vermelhas e os molhos por demais nutritivos ou então chupavam demoradamente uma modesta fruta.
Se preciso, faziam uma verdadeira refeição antes de comparecerem a estes jantares e prendiam as bochechas com os dentes para cavá-las artificialmente; nada mais desolador que um aspecto bem alimentado. Era preciso ter aspecto cansado, desenganado, um desiludido adorável, como sinal de que pertencia a outro mundo; diferente deste nosso, aspecto sustentado com alimentos infinitamente espirituais.
Para alcançar este mundo espiritual, recorriam também a efeitos especiais: enchiam-se de infusão de beladona e fumavam datura que, além de leve efeito alucinógeno, proporcionava um olhar vago e fixidez mística, aquela prostração que chamavam de desesperanza. Por pouco teriam acolhido com alegria a tuberculose como aspecto agonizante por demais chic.
A embriaguez era bem vinda porque fornecia a chave daquele mundo mais além daquele em que sofriam. Viravam as costas à realidade medíocre e dolorosa para substituí-la pela entrada num universo mais imaginário, sonhavam em levar uma vida desregrada, desleixada, de devassidão. Era a total revolta contra os hábitos estabelecidos pelo universo burguês, prosaico de todo dia.
O vocabulário refletia esse apelo por uma dimensão maior que o real. Reino do exagerado, frenético, tudo era ou se tornava estupendo, transcendental, fulminante, piramidal, babilônico, dantesco, maquiavélico, mefistofélico, satânico.
Existiam vários graus nesta revolta. Se alguns se contentavam em vivê-la por procuração, no imaginário e no mito, os mais radicais elegeram o bairro de Montmartre para viver em comunidade. O “Camp des Tatares” tornou-se assim o berço de todos as loucuras românticas. Ali recitavam poemas e bebiam ponche. A desordem noturna era permanente. Escandalizavam os burgueses passeando nus de dia na praça.
Adeptos de uma espécie de comunidade primitiva imitavam os bárbaros, prontos a invadirem a capital clássica para regenerá-la por suas obras e costumes com uma revolta naturalista que foi posteriormente vivida pelos movimentos beat de 1950.
Em 1830 o movimento começou a definhar dentro de seu próprio meio. Para muitos deles, o Romantismo fora apenas uma espécie de férias de adolescentes antes da integração social.
Os primeiros romances de George Sand fizeram surgir, por volta de 1830, o mito da leoa, cavaleira e caçadora, de botas e chibatas na mão. Falando alto e forte, a leoa era a anti-romântica. Dando adeus às berthes, as moças queriam viver novamente no presente, comiam, bebiam, fumavam levavam a vida com desenvoltura, exibindo modos e trajes masculinos, eram as garçonnières.
A moda romântica tivera sua época real e, efêmera como todas as modas, faltava-lhe cumprir seu destino simbólico, o mais importante entre todos e sua verdadeira revanche sobre o tempo. Como manifestação social influenciou todas as sensações, percepções e idéias, estruturando tanto a realidade quanto o universo das representações.
Amplamente reabilitado no nosso século, teve em Baudelaire um dos primeiros herdeiros. Revisitado pelos dadaístas e surrealistas, também pelos movimentos beat e existencialistas pós-guerra da Coréia e, na a partir de 1980, pelos movimentos dark e góticos da moda inglesa, como estilo historicista, acaba por ser, até o momento, a maior fonte de interpretações revivalistas do fenômeno da moda.
Em 1836, o Romantismo enquanto moda já pertencia ao passado, desaparecendo no momento em que seus valores estavam sendo digeridos pela sociedade. Em resumo, todos eram românticos. O ódio ao burguês passava como herança sensível de toda uma geração e explicaria em parte a revolução política de 1848. Morto na realidade, o romantismo continuaria obcecando a sociedade como mito e como estilo: imagem de uma revolta contra o ambiente e contra o tempo presente.
Este mito fez nascer, no início do século XX, o conceito de adolescente como período problemático e cheio de revolta pelo qual todo jovem deve passar. É com esse fundamento histórico que entendemos os movimentos de estilo que se estruturaram como movimentos de juventude e que hoje reconhecemos como tribos urbanas, que se expressa dentro do segmento de moda vestuário como Streetwear.

sábado, 24 de março de 2007

uma crônica sobre o tempo

O jovem de hoje não é muito diferente do jovem da minha época. Uma das coisas de que mais nos acusavam era da falta de idealismo, acusação comum entre as duas gerações. Também tem o individualismo exacerbado decorrente do hiper-consumo infantil, superproteção e desinteresse pelo mundo em geral.
Confesso que isso nunca me abalou porque nunca me senti parte desse grupo, olhar para o outro solidariamente, entendendo as dificuldades da vida sempre fez parte do meu caráter.
Por isso,quando vejo essa nova geração, não a vejo com o mesmo ceticismo que muitos desses jovens demonstram quando indagados a respeito.
Uma coisa que eu percebo é que são mais infantis, porque tenho a impressão que a adolescência já está indo até os 30 anos, por outro lado são mais batalhadores, não têm medo do trabalho e são perfeccionistas. É claro que têm aqueles mais desligados, mas todos fazemos parte da massa humana.
É a geração que criou o invejável "ficar", só isso já merece nota. Quando eu era adolescente, bastava um beijinho e já tinha de namorar, nem que fosse uma semana. Eu achava isso ridículo, mas não tinha muito o que fazer, eram os costumes...
Mas o que eu mais admiro nessa turma é a imensa capacidade de afeto. É a geração que tirou de vez o compromisso do eu te amo e transformou-o em algo corriqueiro, todo mundo passou a amar todo mundo, o que é ótimo.
Descobrimos finalmente que o amor tem muitas formas e intensidades. Gostar nem sempre traduz a estima que queremos demosntrar.

editorial do sábado - a educação em mãos petistas

Desapreço pela educação
"UM FATO sociológico." Foi assim que o secretário da Educação da Bahia, Adeum Sauer, procurou justificar sua absurda decisão de permitir que partidos políticos indiquem apaniguados para os postos de diretor e vice-diretor das 1.856 escolas estaduais (apaniguados: protegidos, apadrinhados).

Não espanta que tamanha sandice tenha vindo de uma gestão petista. É um fato, embora não propriamente sociológico, que no poder a legenda se celebrizou por tentar "aparelhar" todo e qualquer cargo ao alcance.Indicações políticas para diretores de escola são uma chaga dolorosamente comum no país. Levantamento feito pelo Ministério da Educação (MEC) a pedido da Folha em 2004 mostrou que 59,8% dos titulares haviam sido escolhidos dessa maneira.Só que a repetição de erros não os justifica -tampouco serve para abonar uma "política" de apadrinhamento. Ao contrário, a alta freqüência apenas reforça a necessidade de combatê-los.Tal exigência se torna urgente quando se considera que o apadrinhamento traz rapidamente impactos negativos mensuráveis. Em todas as provas do Saeb (teste-padrão do MEC) de 2003, alunos de colégios comandados por "políticos" se saíram sistematicamente pior do que os de instituições cujos diretores haviam sido selecionados por outros critérios.Talvez servisse de consolo o fato de que o secretário Adeum Sauer não pretende manter essa sistemática para sempre. As indicações políticas só vão perdurar até que as eleições diretas para diretor estejam implementadas. Ou seja, o secretário vai trocar a pior forma de escolha pela segunda pior."Fatos sociológicos" como o desapreço das autoridades pela educação precisam ser combatidos. A tarefa é difícil, mas não impossível. Até a varíola, fato biológico, mais "orgânico" do que manifestações sociológicas, foi com sucesso erradicada

quinta-feira, 22 de março de 2007

editorial da quinta

Bons sinais

O jogo da democracia, ao que parece, vai encaminhando a bom porto a discussão sobre a emenda três -o dispositivo que barrava fiscalização abusiva de contratos de prestação de serviço, vetado pelo presidente Lula na semana passada.Diante da disposição do Congresso de derrubar o veto presidencial, o governo pôs-se a negociar com deputados e senadores a proposição de um projeto de lei para regulamentar o tema. É um sinal de reconhecimento, pelo Planalto, de que a sua tática anterior -de confrontar uma demanda legítima por modernização na gestão de recursos humanos- estava fora de esquadro.Como se sabe, a emenda três atribuía exclusivamente ao Judiciário o poder de desconsiderar pessoas jurídicas nos casos em que contratos de prestação de serviço encobrissem vínculo empregatício. Desse modo, apenas explicitava princípios já estabelecidos na Carta e na legislação contra uma interpretação abusiva -a de que o fisco também teria essa prerrogativa.O trecho fora acrescido pelos parlamentares ao projeto do Executivo criando a Super-Receita -a união das máquinas fiscalizadoras da Previdência e da Receita Federal. Atendendo a pressões de sua base sindical e de olho na arrecadação, Lula resolveu anular a emenda.Abre-se agora, diante da perspectiva da derrubada do veto, uma nova fase nesse processo, que tem tudo para tornar-se mais construtiva. A expectativa é que se chegue a um regulamento abrangente do espaço de atuação dos prestadores de serviço, sem aumento de imposto.E, se a refrega tiver mesmo valor pedagógico para o Planalto, que esse seja o primeiro passo na direção de uma reforma rumo à desoneração das contratações no Brasil. O país precisa encontrar um modelo adequado ao século 21, para que possa empregar mais cidadãos no setor formal.

quarta-feira, 21 de março de 2007

rui castro

Ponte aérea
RIO DE JANEIRO - Ano que vem, espero completar 30 anos de ponte aérea. Digo espero porque pretendo estar firme no balcão do aeroporto com meu e-ticket para pegar um cartão de embarque e tomar o avião. Só não sei se, dentro de um ano, ainda teremos balcão, aeroporto ou avião.Em 1978, eu próprio estava com 30 anos, morara na Europa e já tinha ido a Nova York, a trabalho ou à toa, sei lá quantas vezes. Mas não conhecia São Paulo -era possível isso. Em meados daquele ano, um convite de uma revista para uma reunião me levou à Paulicéia pela primeira vez. E, no fim do ano, outra revista me ofereceu sua editoria de cultura, o que significava pegar a mulher, as filhas, a mobília e me instalar. Fui.Minha idéia era passar três anos em São Paulo. Por vários motivos, nem todos profissionais, passei 17. Mas a natureza do trabalho e a minha própria fizeram com que eu nunca ficasse longe do Rio. À média de 1,5 viagem por mês, eram 18 viagens por ano -ou 306 em 17 anos. Com os vôos de ida e volta, multiplique por dois e teremos 612, o número de vezes em que subi ou desci no Santos Dumont ou em Congonhas nesse período. Por baixo.E quase sempre no Electra, com sua saleta perto da cauda, preferida pelos habitués da ponte. Éramos amigos das aeromoças, dos pilotos e do pessoal de terra. A Varig, a Cruzeiro, a Vasp e a Transbrasil faziam 66 vôos por dia, um vôo a cada 15 minutos. Perdia-se um e tomava-se outro. Poucas vezes fiquei empacado num dos aeroportos. Os quais eram modestos, mas eficientes e acolhedores.De novo no Rio desde 1995, agora faço o inverso: vou com freqüência a São Paulo. Ultimamente, menos do que deveria. Não vejo muita graça no risco de um apagão com dez aviões, entre eles o meu, sobrevoando a cidade na fila para pousar.

editorial de quarta

Quatro anos de desventura
HÁ QUATRO anos, sob ordens do presidente George W. Bush, tropas norte-americanas invadiam o Iraque. Poucas vezes se viu uma intervenção militar tão desastrada.Nenhuma das razões alegadas para a guerra se confirmou. As armas de destruição em massa, com as quais Saddam Hussein ameaçaria a região, não existiam. Tampouco era verdade que o ditador mantinha laços estreitos com a rede terrorista Al Qaeda.A operação, que para a Casa Branca deveria inaugurar uma era de democracia e respeito aos direitos humanos no Iraque, acabou por lançar o país numa guerra sectária que já provocou dezenas de milhares de mortes.Bush, ademais, esperava que a utilização do Exército norte-americano no Oriente Médio servisse para moderar grupos e países islâmicos radicais. Verificou-se, entretanto, que o Iraque se converteu num grande centro de treinamento de terroristas e que o fracasso dos EUA fortaleceu países como o Irã e a Síria e facções extremistas como Hizbollah e Hamas.Para completar o malogro, os EUA se envolveram num tipo de conflito para o qual não parece haver saída. A essa altura é improvável que sua presença possa dissolver o confronto entre xiitas e sunitas. E uma retirada imediata poderia levar à fragmentação do Iraque, com imprevisíveis seqüelas geopolíticas.A Bush restam poucas opções além de torcer para que nenhuma ação espetacular contra as tropas ocorra até janeiro de 2009 -quando entregará a encrenca a seu sucessor.Já a oposição democrata emprega uma dura retórica antiguerra, mas não apresenta nenhuma saída para a enrascada. A criação de um Estado iraquiano xiita ligado ao Irã -um dos resultados possíveis da divisão do país- não está nos planos de republicanos nem de democratas.

terça-feira, 20 de março de 2007

Editorial da terça

Mais equilíbrio
NO INÍCIO do mês, a ministra Ellen Gracie, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o Estado de Alagoas não está obrigado a atender a todo pedido de fornecimento de remédios que lhe chegar por via judicial.A decisão mobilizou, de um lado, secretários de Saúde, que há muito se queixam da excessiva ingerência de juízes, e, de outro, associações de pacientes, que temem ver tratamentos caros vetados pela burocracia.A decisão do STF faz sentido. Não cabe à Justiça, que trata de casos individuais, traçar políticas voltadas para o conjunto da população. E o acúmulo de decisões da Justiça em favor de pacientes específicos vem afetando a capacidade das autoridades de planejar e executar programas.Como escreveu nesta Folha o secretário da Saúde de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Barata, a pasta gasta hoje R$ 960 milhões por ano na distribuição de remédios a pacientes crônicos, dos quais cerca de 30% determinados por decisões judiciais.Muitas dessas decisões são tomadas sem critério médico. Há desde casos estapafúrdios até situações mais comuns em que são comprados medicamentos cuja eficácia ainda não foi demonstrada. Como as demandas são ilimitadas, e os recursos, finitos, a população menos esclarecida, que padece de doenças corriqueiras como a hipertensão arterial, acaba mais prejudicada pela falta de tratamento.É importante, porém, que o acerto da decisão do Supremo não dê lugar a um outro exagero, só que no sentido contrário. Vale lembrar que o hoje mundialmente celebrado programa brasileiro de assistência à Aids só teve início graças a decisões judiciais, combatidas pelos burocratas de então.Em princípio, cabe à autoridade política traçar e executar ações em saúde pública. É função da Justiça, porém, arbitrar os casos omissos e contrabalançar a inércia administrativa. Espera-se que o precedente estabelecido pelo STF contribua para esse necessário equilíbrio.

Rubem Alves fala sobre casamento nesta terça na folha

A praga
É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: "O segundo casamento é uma praga!"Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: "E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar..."Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: "O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato". Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura... Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra "conjugal": do latim, "com"= junto e "jugus"= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga os obriga, sob pena do ferrão...Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela... Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina...A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga...

segunda-feira, 19 de março de 2007

editorial de segunda

Aparelho na TV
Lula e o PT querem deixar sua marca particular no telecoronelismo criando um canal do Executivo; proposta é descabida
A PRIMEIRA resposta do governo Lula aos reclamos petistas pela "democratização" da mídia foi anunciar a criação de uma TV chapa-branca. Só a título de implantação, a chamada Rede Pública do Executivo sacaria do contribuinte R$ 250 milhões, na estimativa oficial -avaliações realistas elevam esse custo para, no mínimo, R$ 500 milhões.O ministro Hélio Costa (Comunicações) diz que o governo encontra dificuldades em "mostrar suas idéias" nos canais privados e que, "até por segurança nacional, não se pode prescindir de uma rede pública". Falta "liberdade de circulação de opinião", afirma seu colega Tarso Genro, agora na Justiça.São argumentos pueris, reiterados na tentativa de dourar a pílula de uma iniciativa que visa tão-somente à autopropaganda dos governantes. Os problemas do presidencialismo brasileiro, no que tange à sua exposição e à sua influência nos meios de comunicação, dizem respeito a excesso, e não a carência.Por conta da formação histórica do país e do atraso econômico e institucional a que estão entregues vastas porções do território, o Executivo federal no Brasil sofre de hipertrofia também no campo da mídia. As verbas publicitárias do governo e das estatais sustentam as finanças de uma miríade de veículos. As concessões de rádio e TV são das mais prolíficas moedas de troca com oligarquias regionais.Além disso, um considerável aparato de comunicação estatal veio se amontoando com os anos sob os auspícios do governo federal. A Radiobrás, com mais de mil jornalistas e orçamento anual de R$ 100 milhões, congrega duas agências de notícias, quatro rádios e duas TVs -entre elas um canal dedicado à divulgação das "idéias" do Executivo, o NBR, produzido para TV a cabo.O arsenal amazônico de comunicação do Estado brasileiro não se limita à esfera federal. A última década assistiu à expansão frenética de veículos de divulgação institucional, como os canais do Senado, da Câmara, da Justiça, das Assembléias estaduais. Sob a saudável diretriz de dar transparência aos atos dos Poderes, criou-se uma máquina gigantesca, que extrapola o objetivo original. Apenas no âmbito do Legislativo, 58 TVs foram criadas no país em 12 anos.Os 26 maiores canais estatais de TV consomem por ano mais de R$ 400 milhões em recursos dos impostos. Apesar de gastarem tanto, esses notáveis cabides de emprego atraem audiência desprezível. Como costuma acontecer com veículos dirigidos sob a lógica da política partidária, do corporativismo e do clientelismo, as TVs estatais brasileiras se transformaram no império da irrelevância.Uma TV pública interessante, moderna e dinâmica só terá chances de vingar no Brasil se tiver autonomia em relação aos governos. Uma fração dos recursos torrados no sistema estatal bastaria para lançar uma iniciativa inovadora nesse campo.O PT e o governo Lula, no entanto, optaram pela marcha a ré. Sequiosos por deixar gravada sua marca no telecoronelismo nacional, desejam abrir uma nova sucursal de autopromoção para acomodar apaniguados, à custa do erário. A idéia de criar a TV do Executivo é um despropósito.

sábado, 17 de março de 2007

editorial de sábado

Hora do recreio
COM EDUCAÇÃO e Saúde não se brinca, disse bem o presidente Lula. A frase, que justificava a presença de ministros de perfil técnico nas duas áreas, não pretendia ser jocosa. Mas terminou produzindo o efeito de uma piada pronta."Na Saúde, se você brincar, é a morte", considerou Lula, sombriamente. "Na Educação, se você brincar, é analfabeto", advertiu em seguida, já levado pelas águas traiçoeiras do improviso.Ainda que seja preocupante a situação do ensino no país, é todavia possível que até mesmo um estudante com notas abaixo da média no Enem possa deduzir facilmente o que vai implícito na mensagem presidencial.Preservados os ministérios da Saúde e da Educação, um vasto e dispendioso "playground" se reserva, a julgar pelas considerações de Lula, aos mais robustos representantes da base parlamentar do seu governo.Brincarão à vontade, pelo que se pode prever, no Ministério das Minas e Energia, das Comunicações, da Agricultura ou da Integração Nacional. Brincarão na Previdência ou no Turismo, nas Cidades ou nos Transportes, nos aeroportos ou nos estádios, nos centros de pesquisa ou nos correios, onde partidos grandes e pequenos, ambições modestas e exaltadas, tratam de se acomodar num corre-corre estrepitoso, risonho e franco.Há diversões para todos os perfis de pretendentes, dos mais comportados e discretos aos que acumulam, desde já, um vasto currículo de estripulias e turbulências. Neste último grupo, ressalta a figura do deputado peemedebista Odílio Balbinotti, apontado como provável ministro da Agricultura.Provável ou improvável, há o bastante no noticiário a seu respeito para sugerir que, mesmo para os padrões permissivos da reforma ministerial, brincadeira tem limite.O deputado paranaense responde a inquérito sigiloso no STF sob acusação de falsidade ideológica, e, tendo justificado com atestado médico algumas de suas freqüentes ausências em plenário, foi flagrado no mesmo período em visita a uma cooperativa agrícola em Maringá, cidade onde enfrenta uma ação popular, acusado de desviar recursos.O que são gazetas legislativas, entretanto, diante da expectativa de um extenso e produtivo período de recreio nos próximos quatro anos? Confirme-se ou não o nome de Balbinotti, uma coisa é certa: o presidente sabe que, antes da Saúde e da Educação, é com o PMDB -e com os demais partidos de sua base- que não convém brincar.No fundo, a estratégia do Planalto reduz-se a proteger alguns setores prioritários do pega-pega geral. Com espontaneidade característica, o presidente Lula involuntariamente aponta para aquilo que, típico da política brasileira, não se cansou de denunciar quando estava fora do poder, e agora aceita, sem alternativas melhores a propor: o triunfo do fisiologismo, da negociata, da brincadeira escancarada com os recursos do contribuinte e com as necessidades do cidadão.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Clóvis Rossi

Educação, sábios e gente comum

É devagar nosso querido presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Precisou de 50 meses e meio de governo para descobrir o escandalosamente óbvio, ou seja, que o sistema educacional brasileiro está "entre os piores do mundo", conforme afirmou ontem. Menos mal que, desta vez, o presidente não usou a sua já cansativa muleta verbal, a de dizer que "nunca neste país a educação esteve tão bem". Enquanto era oposição, Lula ainda podia apontar o dedo acusador para todos os presidentes anteriores. Agora, é cúmplice do fato de a educação brasileira estar entre as piores do mundo. É saudável, de todo modo, que o presidente tenha orientado o ministro da Educação, Fernando Haddad, a convidar ex-ministros, como Paulo Renato, Cristovam Buarque e Murilo Hingel, para debater o que chamou de "grande reforma" do setor da educação. Aproveito então o embalo para repassar sugestão do leitor Hamilton Lima Wagner, presidente da Associação Paranaense de Medicina de Família e Comunidade. Para ele, chamar apenas "brilhantes pensadores" para discutir o tema é uma ilusão. O debate (e não só sobre educação mas também sobre saúde e segurança, acrescenta Hamilton), "deve, sim, ter a academia, mas majoritariamente deve ter pessoas comuns sendo ouvidas e avaliadas, sem as distorções que permeiam a maioria das avaliações". O médico paranaense critica, com razão, "a falácia de muitos analistas, que fazem perguntas tendenciosas para corroborar as suas idéias, o que leva a crises sociais como as que agora atravessamos no Brasil -sem ética, sem cidadania, sem respeito social". Parece sensato, levando em conta que os doutores que até agora responderam pela educação brasileira só contribuíram para torná-la uma das piores do mundo, na avaliação de quem é hoje, como presidente, o supremo responsável.

quinta-feira, 15 de março de 2007

contardo calligaris, colunista da folha

Fama e narcisismo
Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisãoNA CONVERSA leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?". Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seria dramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros. De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista". Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui. O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos. Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras. O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes. Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora. No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas). O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida). É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso. Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama. Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo. Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime. Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê? Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão. PS.: Na semana retrasada, comentei o filme "Pecados Íntimos".

quarta-feira, 14 de março de 2007

norma culta apesar da informalidade

RUY CASTRO
Palas e poses
Lidas assim, nuas, sem outros balangandãs verbais que ajudem a lhes emprestar sentido, as palavras acima parecem agora foragidas do teatro grego ou de um poema medieval. Mas não -são palavrinhas bem nossas, de uso corriqueiro até outro dia, e que ameaçam se evaporar da língua porque as pessoas começaram a deturpar o jeito de escrevê-las. Pala, por exemplo. É um enfeite de vestido feminino, uma dobra perto da gola, algo assim. Ou aquela parte do boné, também chamada aba, que os meninos usam ao contrário, para evitar que a nuca tome sol. Ou a venda preta dos piratas. Enfim, pala é um ornamento, uma coisa meio secundária, um quase nada. Daí o vulgo ter inventado, em tempos idos, a expressão "dar uma pala" -ou seja, resumir, adiantar o assunto, dar apenas uma pista do que se vai dizer. Por extensão, chegou-se a "dar uma palinha", que significa ser ainda mais sucinto.Mas, ultimamente, por ignorância da língua, pela pouca intimidade com a gíria ou pelo crescente desprestígio das palas, as pessoas começaram a escrever "dar uma palhinha", pensando estar dizendo "dar uma palinha". Não faz sentido e, questionadas sobre o porquê da palhinha, não saberão responder. A outra palavra é posar -ficar fixo numa posição para ser retratado por um fotógrafo ou pintor. Há séculos que, na língua portuguesa, as pessoas vêm posando para os artistas e sendo felizes para sempre. Só que, de uns tempos para cá, tenho lido que, em vez de modestamente posar, fulano "pousou" para um retrato ou foto.Nesses momentos, não resisto. Imagino o fulano vindo pelos ares, planando com a graça de uma cotovia e pousando com a maior classe no poleiro do estúdio ou do ateliê, a fim de ser retratado.Tudo bem. Mas a língua derrapa e se estabaca.

terça-feira, 13 de março de 2007

articulista da folha

JANIO DE FREITAS
Em nome das vovós

OS AVÓS PARECEM mais calmos. É só um jeito mais experiente, facilitado pelo cansaço e mascarado pelas rugas, de represar em relação aos netos as suas mesmas aflições de pais. Não é difícil imaginar a aflição opressora da vovó anônima que se dera ao cuidado de levar o neto para a sua própria casa, acompanhá-lo todas as noites até ao colégio, na esperança de fazê-lo estudar, e de repente é despertada a chamado de uma delegacia.Foi na madrugada de sábado. Pouco depois que cinco pessoas assaltaram e agrediram um motorista de táxi, roubaram-lhe o carro, assaltaram um casal em outro carro, empurraram em tempo o menino que dormia no banco de trás e lutaram a bala com dois policiais que o acaso aproximara. A vovó anônima precisava reconhecer um dos cinco. O netinho de 14 anos que se juntara a dois outros "dimenor", de 16 e 17 anos, e a dois maiores, de uns 30 e de 18 anos, para assaltos à mão armada que não se prometiam menos frutuosos que o costumeiro.A vovó anônima sentiu-se tão atingida que implorou, de vergonha, por seu anonimato: não suportava a idéia de ver-se reconhecida no emprego como "aquela" avó, "naquela" situação, "daquele" neto. Parte da sua dor ninguém poderia atenuar. Mas a outra não precisava ser tão perversa, a dor transbordante nestas palavras espichadas por um futuro longo e nem encerradas: "Agora quero ver o que ele vai fazer..."A vovó mora na favela Pára-Pedro, no enganoso subúrbio carioca que ostenta o nome de Colégio. Em tal situação, é compreensível que vovó anônima não esteja informada dos códigos que velam pelos meninos como seu netinho e pelos companheiros adolescentes. Ninguém a poupara da penosa visão do futuro, dando-lhe lá atrás a conveniente informação legal de que daqui a três anos e pouco, nestes tempos tão velozes, seu netinho já estará de volta a Colégio, embora não para o colégio. Em três anos e pouco, completará 18 anos, a generosa maioridade que presenteia, por lei, a liberdade aos "dimenores" criminosos.Não basta que os "dimenores" conheçam essa minúcia da legislação -nem precisam conhecer outra. É preciso, por caridade, divulgar esse saber ilustrativo da maneira como as leis e as instituições brasileiras protegem a infância e a adolescência. E, admitido que aí estão avós do futuro, podem aliviar vovós do presente.

Editorial

Lógica temporal
NA POLÊMICA a respeito da utilização de preservativos que opôs, na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), não há como deixar de dar razão a César.A Igreja Católica é evidentemente livre para ensinar o que bem entende a seus seguidores. Se as autoridades eclesiásticas julgam que o sexo fora dos laços do matrimônio é uma grave falha moral e que o uso da camisinha como método contraceptivo se opõe aos ensinamentos da religião, é legítimo que o digam com todas as letras. Todos os católicos que desejem permanecer bons fiéis devem procurar observar tais regras.Não é essa, entretanto, a lógica do Estado. O poder público é laico. Não está interessado na salvação da alma de seus cidadãos, mas, bem mais modestamente, no bem-estar de seus corpos. Sob essa perspectiva, é fundamental, como sugeriu Lula, distribuir preservativos e ensinar sua correta utilização.
Ainda que em teoria a abstinência sexual seja o modo mais seguro de evitar a Aids, outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e a gravidez precoce, são massacrantes as evidências epidemiológicas de que programas que incentivam o uso da camisinha funcionam melhor do que seus congêneres baseados na castidade. Não há aí nenhuma surpresa. É muito mais fácil conseguir que um jovem se lembre de usar preservativo quando vai ter relações do que esperar que renuncie ao sexo.É imperioso que as autoridades sanitárias multipliquem os programas de orientação sexual, prevenção de DSTs e distribuição de camisinhas, repudiando as posições em contrário, talvez não como "hipócritas", como fez Lula, mas certamente como contraproducentes e até mesmo contrárias ao interesse público.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Ruy Castro

Longe da mídia
RIO DE JANEIRO - Faz hoje dez dias que a menina Gabrielli Cristina Eichholz, de 1 ano e 7 meses, foi encontrada estuprada, estrangulada e agonizante, dentro da pia batismal nos fundos de um templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Joinville, Santa Catarina. Numa sala ao lado, transcorria um culto religioso. Gabrielli morreu pouco depois.O caso provocou comoção e revolta em Joinville. Mas, apesar de seu forte conteúdo simbólico -a inocência da menina, a inacreditável violência, a pia batismal-, esse crime, ainda que hediondo, não teve maior dimensão. Você provavelmente soube dele por algum jornal ou telejornal de segunda-feira última. Depois, mesmo que se interessasse pelo assunto, não soube mais nada. A mídia nacional abandonou a história.O fato é que, até agora, ninguém o convidou para uma passeata pela paz, em protesto contra o assassinato de Gabrielli. Ninguém lhe ofereceu uma tarja negra para usar a caminho do trabalho, em sinal de luto pela morte dela. E, embora tenham acontecido vários jogos de futebol durante a semana em seu Estado, nenhum deles guardou um minuto de silêncio em memória da menina.Da mesma forma, Gabrielli não foi matéria de capa em nenhuma revista semanal. Juristas, pedagogos, cronistas e donas-de-casa ainda não escreveram sobre ela nas páginas de opinião dos jornais. E, por enquanto, nenhum filósofo propôs o suplício lento ou a pena de morte para seu assassino -o qual, aliás, não sabemos quem é ou se já foi encontrado.Não houve missa de sétimo dia por Gabrielli em nenhuma cidade do país que não Joinville. Sendo assim, pode-se dizer que não deverá haver missa de trigésimo dia.Gabrielli foi morta em Joinville e lá foi enterrada, longe da mídia e do Brasil. Mas, ainda assim, no Brasil.

Editorial

Aberta e vulnerável
A WIKIPÉDIA é hoje uma ferramenta tão familiar ao internauta quanto o sistema de busca Google e a página de vídeos YouTube. A diferença está no fato de essa enciclopédia aberta não visar lucro e representar um usual exemplo de livre interação na internet -o que a torna também vulnerável.Em seus primórdios, a Wikipédia permitia que todos os seus verbetes fossem editados por qualquer pessoa. Logo surgiram os problemas, que iam do vandalismo ideológico à desigualdade e hiperespecialização de algumas das entradas.
O golpe mais recente na confiabilidade da enciclopédia foi o caso Ryan Jordan. Esse estudante americano de 24 anos era um dos mais prolíficos editores voluntários da Wikipédia, com mais de 20 mil intervenções em verbetes, em geral para desfazer ações de vândalos.
Jordan atuava sob pseudônimo ("Essjay"), como é usual no universo "wiki". Ocorre que, além do apelido, ele inventou também uma personalidade fictícia: doutor em teologia, professor de uma universidade privada, e por aí. Foi desmascarado pela revista "The New Yorker".Foi um duro golpe. Vale notar que a credibilidade, que já sofrera reveses, havia sido em parte reabilitada pelo prestigioso periódico científico britânico "Nature", que testou 42 verbetes sobre ciência e os comparou com seus equivalentes na enciclopédia "Britannica". Somente oito erros graves foram detectados, quatro em cada uma. Empate.O caso Jordan está longe de aniquilar a experiência da Wikipédia, iniciativa que já conta com 1,7 milhão de verbetes. Serve, porém, para revalidar um velho princípio intelectual: nenhuma fonte de informações está isenta de erro. Com a generalização do uso da internet no ensino, nunca foi tão atual a regra que manda desconfiar de todas elas.

domingo, 11 de março de 2007

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
era seu jeito desempre falar
E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo
não queria ousar
Com seu vestido decotado
cheirando a guardado
de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
como há muito tempo
não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança
toda despertou
E foi tanta felicidade
que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
Chico e Vinicius

crônica de domingo

Quando estava terminando o 2º grau, eu tinha dificuldade de ficar com alguém. Meus colegas viviam se apaixonando. Eu, sozinho. A falta de dinheiro me excluía de programas comuns para minha idade. Pior era a timidez. Tentara namorar uma menina da igreja. Saímos juntos duas vezes. Na época, o segredo era ir ao cinema. No escurinho, aproximava-se a mão. Se a garota não retirasse a dela, era "sim". Dois filmes com o braço duro de tensão! Olhava de lado, ela desviava o rosto. Ela se virava para mim, eu girava o pescoço. No primeiro acampamento a que compareceu, ela voltou apaixonada. Que decepção! Meu irmão me aconselhou a tentar uma garota do bairro que já tivera muitos namorados. Hoje ninguém dá tanta importância. Na época, ela ficara "falada". Um dia nos encontramos no ponto de ônibus. Perguntei de certo filme. Não, não havia visto. Aceitou o convite. Minha mãe juntou uns trocados. Eu devia pagar as entradas. Comprar pipoca. Um hambúrguer na saída, com direito a refrigerante. A condução de volta. Meu irmão deu a dica.
– Se ela aparecer de blusa com botões na frente, é a dica. Desabotoa no escurinho!
Eu tremia ao esperá-la. Depois de desabotoar, o que faria? Dali a pouco, ela chegou. De gola rulê! Assistimos ao filme, imóveis. Na saída, em vez de refrigerante, ela pediu milk-shake. Meu dinheiro deu contado. Humilhação!
– Arruma o do ônibus? – tive de pedir.
Nunca mais falou comigo!
No Dia dos Namorados, meu irmão ganhou perfume. Um colega de classe, camisas. A garota mais bonita, noiva de um engenheiro, uma jóia. Fiquei de mãos abanando. Aos poucos, perdia até o romantismo. Já nem fazia questão de amar como nos livros. Queria namorar fosse quem fosse. Como quem conquista um troféu!
Mas, quanto mais sonhava, menos acontecia!
Até a festa de aniversário de um amigo. Sanduíches. Bolo. Refrigerantes. Muita cerveja. Nunca fui de beber. Até hoje. Naquela noite, fui fundo. Nem sei quantas garrafas entornei. Lembro vagamente do que aconteceu em seguida. Restam, depois de tanto tempo, apenas algumas imagens. Eu, no centro de uma roda, cercado pelo pessoal da classe, convidados, e muita gente surpresa. Minha timidez explodia como um balão. Falava da minha solidão. Aos gritos, anunciava:
– Não quero mais ficar sozinho! Quero arrumar uma namorada!
Várias pessoas me agarraram ao mesmo tempo.
– Ele está muito mal!
– Leva para o banheiro! Bota a cabeça pra baixo!
– Café, ele tem de tomar café!
De repente – e essa é a imagem mais forte – ouvi uma voz.
– Larguem dele!
Percebi rapidamente dois grandes olhos verdes. No banheiro, ela me lavou o rosto. Meu amigo, dono da casa, cedeu seu quarto. Com alguma ajuda, ela me levou até lá.
– Eu cuido dele! – avisou.
Nem convidada era, como eu soube depois. Fora à festa por acaso. Na cama, desmaiei. Dormia e acordava, confuso. Sentia mãos na testa, me acalmando. Acordei com a maior dor de cabeça da minha vida. Ela dormia na poltrona. Despertou quando me mexi. Era mais velha que eu, mas só alguns anos. Cabelo longo, escuro. Os olhos. Linda. Havia sido, inclusive, musa de um cantor. Mas naquele momento eu não tinha a mais vaga idéia de quem fosse.
– Quem é você?
– Também quero amar de verdade – explicou.
Sentou-se a meu lado na cama. Acariciou meu rosto. Beijou-me.
– Meu nome é Ana Maria.
Sorrimos um para o outro, e minha vida mudou.
Foi meu primeiro grande amor. Nunca mais a esqueci.

Walcyr Carrasco

sábado, 10 de março de 2007

Conto na medida certa

Biografia de um sucesso
NO DIA em que completou cinco anos, berrou 12 horas seguidas, querendo a maçaneta da porta do quarto da mãe -velha maçaneta de cristal, quando a luz batia em cima ficava cheia de cores, era o fascínio, o principal brinquedo de sua primeira infância.Evidente que ninguém lhe deu atenção, ou melhor, deram-lhe toda a atenção, menos a maçaneta de cristal que parecia iluminada por um arco-íris.Ganhou muitos brinquedos, inclusive um cavalinho de pau, um velocípede e um quadro-negro com giz e apagador.No dia em que fez dez anos, pediu e ganhou uma bicicleta, mas não deu muita importância ao presente. Preferia andar na bicicleta de seu irmão mais velho e, meses depois, criou um problema na rua quando trocou com o garoto vizinho sua bicicleta nova por uma coleção de bolas de gude e um pião.Os pais de ambos os garotos entraram na jogada, desfizeram a troca, mesmo assim a vergonha foi mútua: eram homens sérios, de respeito, comerciantes bem-sucedidos, sabiam que não se desfaz um negócio firmado livremente pelas partes, enfim, foi um problema, dos muitos que ele criou em sua infância.Aos 15 anos, não ganhou nada: estava no internato e, como seu aniversário coincidia vagamente com a Semana Santa, ganhou antecipadamente um ovo de Páscoa, que ele jogou fora, num matinho que havia lá para os fundos do recreio.Mesmo assim, lá pelo início da noite, ele foi para um canto e chorou de raiva: um dia se vingaria de tudo e aí o mundo tremeria a seus pés.Ao fazer 20 anos ganhou um enxoval de noivo: roupas de cama, móveis, casa e um emprego na companhia do pai, pois a noiva era pobre e a família dele precisava torná-lo um executivo às pressas, pois o irmão mais velho dera uma de louco, trocando as pompas deste mundo por uns trapos coloridos, uma cabeça raspada e uns hinos esquisitos, tornando-se um hare krishna antecipado da onda que viria mais tarde, nos anos 70.Pois em meados dos anos 50 o irmão abandonou a família e foi para o Tibete, viver em paz com seu karma ou entidade equivalente.Para compensar o mau exemplo do irmão mais velho, aos 25 anos ganhou o título de diretor vice-presidente da empresa de seu pai e uma filha. Ganhou também um cadillac rabo-de-peixe, importado; na época não havia similares nacionais.Aos 30 anos, ganhou outro filho e o título de "homem de visão" do ano. Aos 35 anos, não ganhou nada pois estava numa reunião internacional, em Genebra, debatendo com empresários do mundo ocidental as causas do recesso industrial provocado pela queda da libra e pela maxidesvalorização do marco alemão.Mesmo assim, no dia seguinte -o atraso foi atribuído aos péssimos serviços dos postalistas suíços- recebeu telegramas da família e dos puxa-sacos da empresa da qual já era o segundo em importância.As 40 anos, ganhou a presidência de todas as empresas do grupo da família e um filho bastardo (ele tivera um caso com uma funcionária de terceiro escalão), e o governo de Minas Gerais concedeu-lhe a Medalha da Inconfidência.Aos 45, quase não ia ganhando nada, mas na última hora ganhou um jantar de surpresa, preparado por todos os puxa-sacos de suas empresas, os mesmos dos telegramas de cinco anos passados, acrescidos por novos de seus novos negócios.Aos 50 anos, recebeu uma urna de bronze com as cinzas de seu irmão mais velho que morrera no Tibete depois de uma greve de fome em nome da paz mundial.Aos 55 anos, depois de complicada demanda familiar, ganhou a velha casa onde nascera e passara a infância e que estava abandonada.Na manhã seguinte ao dia em que recebeu a escritura definitiva da posse, foi sozinho para lá, abriu a porta principal, pisou em ratazanas mortas e espalhadas pelo assoalho. Sentiu cheiros dos quais se esquecera e que eram mais fortes do que o mofo acumulado pelo abandono e pelas ratazanas mortas.Não abriu uma janela. Foi direto ao quarto de seus pais; apodrecida em suas ferragens, a maçaneta de cristal foi fácil de ser retirada. Não havia sol, mas ele sabia que dentro dela havia um arco-íris iluminado e agora seu.
Carlos Heitor Cony

Editorial

Primeiros resultados
NEM SEMPRE a emoção extrema se revela um óbice ao necessário aperfeiçoamento das leis. Após a comoção pela tragédia do menino João Hélio, alguns avanços estão afinal sendo produzidos no Congresso. Não fosse a vigorosa pressão da sociedade, dificilmente os parlamentares teriam despertado de sua costumeira letargia.
Uma semana depois do crime, esta Folha aqui relacionou 12 propostas com amplo respaldo nos meios jurídicos para melhorar a segurança pública. Duas foram aprovadas pelo Senado na quarta-feira e seguem para sanção presidencial. Outras duas receberam aprovação da Câmara e, portanto, ainda devem tramitar pela outra Casa. Não chega a ser um balanço desanimador, para um mês de trabalho.As medidas chanceladas pelo Senado surpreendem apenas por não ter sido adotadas antes. A progressão indiscriminada de penas, que libertava qualquer criminoso após o cumprimento de um terço de sua condenação, contava com repúdio generalizado. Seu endurecimento nos crimes graves era visto como quesito básico de uma distribuição de justiça mais equilibrada.
O dispositivo adotado no Senado prevê agora que, em caso de crimes hediondos, no mínimo 2/5 da pena sejam cumpridos. Isso para condenados primários, porque reincidentes ficam obrigados a pagar 3/5 da pena. Um condenado a 30 anos de reclusão teria de cumprir, assim, respectivamente 12 ou 18 anos.Também segue para sanção de Lula, vinda do Senado, medida que transforma em falta grave o uso de celular em prisões. Por incrível que pareça, não havia como punir o festival telefônico penitenciário que a imprensa não cessa de documentar -inclusive na execução do crime da moda, os falsos seqüestros.Mesmo flagrado com um aparelho, o preso não precisava temer restrições a benefícios, como o indulto de fim de ano. Só falta agora o Executivo exigir das concessionárias de telefonia celular que encontrem meios de bloquear o sinal em penitenciárias sem prejudicar vizinhos.Os projetos de lei aprovados na Câmara, por seu turno, devem facilitar processos criminais e, com isso, restringir o incentivo perverso à impunidade criado pela lentidão da Justiça. Um deles determina prioridade para videoconferências no interrogatório de presos, com economia de tempo e dinheiro.Espera-se que tenham ainda maior impacto agilizador as alterações aprovadas no processo em tribunais do júri. Admite-se agora uma única audiência para oitiva de testemunhas (em lugar de três), por exemplo, ou ainda a realização de julgamentos na ausência do réu. Medidas como essas, com potencial para encurtar em até um ano os processos, estavam em pauta desde 2001 no Congresso Nacional.
A emoção pode não ser boa conselheira da razão, mas seu extravasamento, por vezes, é a única maneira de arrostar as deficiências das instituições nacionais. Que o Congresso Nacional não arrefeça.

sexta-feira, 9 de março de 2007

O escândalo do Pan
PISOU NA bola o presidente Lula ao defender anteontem, em pleno Maracanã, os desembolsos extras da União com as obras dos Jogos Pan-Americanos. É "hipocrisia", disse, discutir se a decisão de sediar o evento foi oportuna e se os gastos decorrentes são razoáveis.Tais perguntas, cuja pertinência não precisa ser demonstrada, tornam-se obrigatórias quando se verifica que os custos do Pan já excedem em 684% o orçamento de 2002, quando o Rio apresentou sua candidatura. Os R$ 409 milhões então previstos deram um salto óctuplo e se converteram em R$ 3,2 bilhões -dos quais a metade coube à União.Um timoneiro consciencioso, como deveria ser o primeiro mandatário, em vez de apenas assinar cheques em branco, deveria debruçar-se sobre alguns dos gastos e mandar investigá-los. Como explicar, por exemplo, que a reforma do Maracanã, orçada em 2005 em R$ 75 milhões, já tenha consumido R$ 232 milhões? É dinheiro o suficiente para erguer estádios moderníssimos. O de Leipzig, usado na Copa da Alemanha de 2006, saiu por R$ 244 milhões.Mesmo que as obras no Rio não escondam nenhuma malfeitoria, devem ser cuidadosamente estudadas, a fim de que erros tão grotescos de planejamento não voltem a repetir-se. Na melhor hipótese, R$ 3,2 bilhões por um estádio novo, outro reformado, uma vila olímpica e pouco mais é um preço extorsivo.Se há uma virtude no desastre pan-americano, é que ele serve de alerta para que o Brasil repense sua oferta de sediar a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Ao contrário do que diz Lula, não há hipocrisia em preterir gastos supérfluos, em especial quando octuplicam misteriosamente.

Lembretes inesquecíveis

A REDAÇÃO NOS VESTIBULARES
1) Como se preparar antes das provas- Leia jornais e revistas porque os temas sociais e atuais têm predominado nos principais vestibulares do país nos últimos anos. A leitura também ajuda a aumentar o vocabulário. Faça da leitura um hábito - Leia os editoriais dos jornais, que são bons modelos de dissertação (estrutura de texto mais pedida nos exames) e ajudam a perceber técnicas de argumentação. Reescreva os editoriais mudando o vocabulário - Faça uma redação por semana. Reescreva os seus textos corrigindo os erros indicados pelo professor. Converse sobre assuntos polêmicos para aumentar o seu repertório de argumentos. Leia a redação dos colegas e peça que eles leiam as suas - Vá ao cinema, ao teatro e a exposições. Elas são fontes de informação e ajudam a ter uma visão mais ampla da realidade - Fique atento a outros tipos de texto, como histórias em quadrinhos e letras de música, que podem aparecer na coletânea de textos apresentados - Não tenha medo de expor sua opinião no texto. O que importa é como você a expressa e como faz a argumentação - Evite a repetição. A clareza e a objetividade são itens muito importantes
2) O que fazer na hora da prova- Fique atento ao que está sendo pedido: você está sendo avaliado pela sua capacidade tanto de produzir o texto quanto de interpretar o enunciado. Fazer o que o enunciado pede é fundamental - Faça períodos curtos, pois os longos podem tornar o texto confuso e criar problemas de coesão e coerência - Fuja das fórmulas prontas e dos clichês (como "o Brasil é um país de contrastes"; "todo homem é uma ilha"; "transpondo as barreiras"). Seja original - O uso inadequado de palavras ou expressões invulgares dá a impressão de uma falsa erudição e é considerado um grave erro
3) Quando a prova é anulada- Prova em branco - Fuga do tema: ainda que seja bom, se não tratar do tema pedido, o texto será anulado - Estrutura inadequada. Não narre em vez de dissertar e vice-versa, por exemplo

quinta-feira, 8 de março de 2007

Mais uma sobre a educação no país

O ciclo da ignorância
A PROPOSTA da secretária da Educação do Estado de São Paulo, Maria Lucia Vasconcelos, de reduzir de quatro para dois anos a duração dos ciclos no ensino fundamental pode, ainda que modestamente, contribuir para atenuar o desastre que foi a implantação do sistema de progressão continuada.A redução dos ciclos, entretanto, não é uma resposta convincente para o péssimo desempenho das escolas estaduais no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano passado.No ensino médio não existem ciclos. Cada estudante é avaliado anualmente e só poderia ser promovido para a série seguinte se obtivesse notas satisfatórias. No entanto, os mesmos vícios que contribuíram para o fracasso da progressão continuada na educação fundamental permanecem no nível seguinte.O sistema é incapaz de avaliar o aluno, identificar deficiências e corrigi-las. E essa falha ocorre tanto no ciclo de quatro anos do fundamental quanto no ano a ano do médio. Nada permite crer que, em ritmo bienal, o sistema melhore de forma relevante.O conceito de progressão continuada faz sentido. No mais das vezes a reprovação compromete ainda mais a evolução de um aluno com dificuldades e estimula a evasão. É mais lógico detectar o problema antes e corrigi-lo com um bom programa de reforço.Por uma séria de falhas na implantação, porém, o resultado dos ciclos em São Paulo foi ruim. Na prática, se converteram em aprovação automática. A evasão e a repetência caíram, mas alunos foram progredindo com graves lacunas. A secretária tenta agora como pode corrigir o desastre. Diminuir a duração do ciclo pode ajudar, ao favorecer avaliações mais freqüentes.O problema da educação, porém, permanece intocado: professores desmotivados que, muitas vezes, fingem que ensinam a alunos que fingem aprender.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Ruy Castro, em língua culta, dá um "chute" nos saudosistas!!!

RUY CASTRO
Mais anos "dourados"

RIO DE JANEIRO - Outro dia, ousei defender a idéia de que os "anos dourados" -os anos 50, pelos quais tanta gente suspira- nunca foram tão bons quanto vistos de hoje. O tempo é que se encarregou de melhorá-los. Alguns nostálgicos saltaram das pantufas e argumentaram que, por mais superestimados, os "anos dourados" eram melhores que os dias atuais. Para eles, nada pode ser pior que os dias atuais. Eu diria que a pior coisa dos dias de hoje, para esses meus amigos, é que eles já não são jovens como nos "anos dourados". E que, mesmo naquela época, os jovens tinham muito que reclamar. Por exemplo, eram poucas as carreiras a seguir: direito, medicina, engenharia e, talvez, arquitetura ou farmácia. Não se conheciam (ou se reconheciam) profissões hoje corriqueiras, como as de sociólogo, designer, publicitário, aspone ou carnavalesco.Só aos pobres ou muito pobres era permitido cantar, tocar violão ou jogar futebol como profissional. Da classe média para cima, nem pensar em viver dessas atividades. Ter vocação para jornalista também não contava muitos pontos entre as tias mais velhas.As moças se dividiam em "de família" e as outras. As primeiras usavam meias soquetes, tinham namorado firme e estavam destinadas ao magistério. As outras se divertiam muito mais. Mas ninguém tinha direito à vida pessoal. Esperava-se que as pessoas se casassem antes dos 30, e os solteirões eram malvistos -as mulheres, como encalhadas; os homens, como enrustidos.Enfim, os "anos dourados" eram fabulosos -para os que não os conheceram em primeira mão ou já se esqueceram de como era viver sem água, luz, telefone e outros confortos. E também sem o excesso de informação que hoje nos intoxica 24 horas por dia e faz o mundo parecer ainda pior do que ele é.

terça-feira, 6 de março de 2007

Nota vermelha

QUANDO JÁ não parece mais possível receber más notícias sobre o desastre educacional, eis que elas não param de chegar. A última má nova saiu de um recorte paulistano do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem): nenhuma escola estadual da maior cidade do país obteve "nota azul" na prova. Todas as 621 escolas consideradas tiveram rendimento inferior a 50%.O desempenho pífio dos estabelecimentos da capital foi revelado por Laura Capriglione nesta Folha. Apenas 12 escolas reconhecidamente diferenciadas na rede oficial do Estado -11 técnicas e uma ligada à USP- foram excluídas da amostra.
A mediocridade é geral. Mesmo ressalvadas as limitações de abrangência do Enem (o exame não é obrigatório), impressiona a disseminação do mau resultado por todas as regiões do município. A melhor das 13 regiões (Centro-oeste) conseguiu a média de 40,76 pontos de acerto no total de cem possíveis. A pior (Sul 2) ficou em 37,07.A nota média da capital ficou em 38,42, muito abaixo dos 52,81 pontos das escolas privadas do município (que já não são nenhuma maravilha). Para comparação, a avaliação do Estado de São Paulo como um todo, incluindo as redes municipais e particular, foi 40,37; no plano geral nacional, 40,08. De qualquer ângulo que se observe, o desempenho da educação vai mal.Considerar que possa haver algo de positivo nessa uniformidade da ignorância, como chegou a pronunciar-se a titular da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (Cenp) da Secretaria da Educação, não passa de um arroubo panglossiano.
Nada há nem pode haver de auspicioso em nivelar por baixo um requisito tão básico do desenvolvimento socioeconômico. Melhor fez a própria ocupante da Pasta, Maria Lucia Marcondes Carvalho Vasconcelos, que reconheceu o resultado como "alarmante". Com efeito, é de alarme que se trata, e vermelho, pois o estágio amarelo já se ultrapassou há muito. O governador José Serra tem a palavra para esclarecer como pretende reverter o descalabro educacional na capital e no Estado que o elegeram.

domingo, 4 de março de 2007

CARLOS HEITOR CONY
Feiticeiros e reis

RIO DE JANEIRO
- Conheci um bailarino do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, famoso por sua beleza física e sua técnica apurada, que fazia os papéis mais nobres do repertório do balé clássico. Era o "partner" preferido das artistas estrangeiras que vinham se exibir no Rio, como Margot Fonteyn, Tamara Toumanova e outras. Tinha um fã-clube que o aplaudia quando se exibia em "pas-de-deux" de "Dom Quixote" e "Lago dos Cisnes". Com o tempo, foi pegando papéis menos importantes, mas não queria pendurar suas chuteiras, vendia a alma para entrar em cena, fosse em qualquer papel. Nos últimos anos, foi oficializado como o feiticeiro do "Lago dos Cisnes", o mesmo balé que lhe dera glória.Com a roupa e a máscara do feiticeiro, ele escondia a idade, a gordura e a técnica precária, limitava-se a fazer gestos terríveis, mesmo assim era aplaudido pelo conjunto da obra.Li agora que Peter O'Toole, o magnífico "Lawrence da Arábia" de anos atrás, está contracenando com uma jovem em "Vênus", filme em que ele faz o papel de um ator decadente que se apaixona por uma quase-adolescente.Ao contrário de outros que não passam recibo, submetendo-se aos agravos do tempo, Peter O'Toole reclamou que só lhe dão papéis de moribundo e, na melhor das hipóteses, em homenagem ao seu passado shakespeareano, faz um "Rei Lear" sem precisar de maquiagem. É o destino em geral dos artistas e atletas que sobrevivem à sua obra. Thomas Mann descobriu tarde demais que depois do "Doutor Fausto" não devia ter escrito mais nada. Jogador de futebol, com a idade, pode se transformar em técnico ou em comentarista esportivo. As grandes divas do teatro tornam-se sogras ou avós nas novelas de televisão. Sobram feiticeiros, e até mesmo os Reis Lears são raros.

sábado, 3 de março de 2007

Drodas e violência 03/03/07

Drogas e violência

NO AUGE do debate sobre violência, Sérgio Cabral mencionou a legalização das drogas como um tema importante. Aparentemente, todos os que acreditam nesta saída futura deveriam lançar-se na batalha. Mas quem conhece o processo de legalização fora daqui sabe que ele tem premissas que não foram cumpridas no Brasil. Uma delas é uma polícia mais ética e competente. Enquanto não se fizer uma reforma profunda nos organismos policiais, a mudança pode contribuir com a violência. Com o tempo e observação internacional, passei a ver a legalização não como como uma renúncia ao controle, mas um salto de qualidade no próprio controle. Aqui, no Brasil, é evidente que a súbita retirada dos mercados clandestinos jogaria os criminosos em outros tipos de crime. Logo, é preciso estar preparado para esse deslocamento, de um modo geral para seqüestros e roubos de carro. Um brasileiro entrou num bar holandês onde se vende maconha. Estava de gorro, e o gerente do bar se assustou. Chamou os seguranças que cuidam da entrada e os advertiu seriamente. Tinham esquecido da norma? É proibido entrar de gorro. Isto significa que os lugares são monitorados por câmeras. Os armazéns suecos que vendem bebida possuem um grande fichário de clientes que não podem usar álcool. O fichário é consultado e uma luz vermelha se acende no caixa, indicando que, naquele caso, era proibido vender. Quando a Inglaterra decidiu liberar o uso de maconha numa região de Londres, o fez aconselhada pela polícia. Argumento: quatro horas para abrir inquérito contra um usuário, é tempo preciso para realizar tarefas mais importantes de segurança pública. Passei tantos anos falando em legalização e agora, que um jovem e corajoso governador levanta a tese, não posso abandoná-lo. Mas a melhor forma de concordar com ele é apontar e contribuir com a premissa que, realmente, pode nos aproximar, como outros países, da fase experimental: a reforma da polícia. Mesmo a Colômbia, com os avanços em Bogotá, está mais perto da legalização do que nós, pois, do ponto de vista urbano, torna a violência administrável. A tarefa de reformar a polícia não pode ser feita sem apoio da sociedade. Mas o importante é contar com as forças especiais e o Exército. Isso protege contra bolas pelas costas quando se tocam nos pontos mais sensíveis da corporação. Pensem no Haiti. Em situação muito mais difícil, abriu-se um caminho em Bel Air e, nesta semana, Cité Soleil caiu nas mãos dos brasileiros. De que adianta correr o mundo se não aprendemos as lições?

sexta-feira, 2 de março de 2007

Editorial da Folha02/03/07

Crescer não é risco
Com inflação sob controle, BC poderia baixar mais os juros a fim de deter a tendência de valorização do realSÃO NÍTIDOS os sinais de que a atividade econômica se mantém em expansão neste início de ano.Embora ainda não tenham sido divulgados os dados agregados mais representativos -como a Pesquisa Industrial Mensal e a Pesquisa Mensal do Comércio, ambas do IBGE-, a maioria dos indicadores já conhecidos (como a produção de aço e de automóveis, a expedição de embalagens e o tráfego de veículos de carga) evoluiu positivamente de dezembro para janeiro.Os levantamentos relativos às expectativas e à confiança de empresários e consumidores corroboram a perspectiva de continuidade da expansão das vendas e (em ritmo mais lento) da produção. Essa constatação, sem dúvida positiva, chega porém a suscitar preocupação quanto ao uso que dela poderá ser feito pelos responsáveis pela condução da política monetária.O histórico recente das suas decisões justifica o temor de que o Comitê de Política Monetária do Banco Central -que irá se reunir na próxima quarta para deliberar a respeito da taxa de juros básica- enxergue na continuidade do crescimento um motivo para novamente determinar corte mínimo da taxa Selic.Ocorre, no entanto, que o crescimento ora em curso não põe em risco o controle da inflação, o que se reflete nas expectativas do mercado sobre o regime de preços, as quais continuam a refluir.O temor com freqüência invocado pelo BC é de que a procura por bens e serviços se expanda a ponto de superar a capacidade de oferta da economia, gerando elevações de preços. Caberia ao Copom agir para limitar o ritmo de expansão da demanda antes que tal quadro viesse a se configurar.Dois elementos, sobretudo, limitam esse risco na atual conjuntura. O primeiro é o avanço do investimento, evidenciado pelos dados relativos ao PIB de 2006 e refletido na evolução do nível de utilização de capacidade produtiva na indústria. Nenhum dos levantamentos disponíveis aponta para a iminência de surgimento de restrições de oferta.O outro fator que limita o perigo de que a expansão da demanda se traduza em surto inflacionário é o crescimento, impressionante, das importações.A cotação cambial é um terceiro elemento a indicar uma situação de conforto para o controle da inflação. A pressão de valorização adicional do real se intensificou nas primeiras semanas do ano. Mesmo as turbulências financeiras desta semana produziram repique pouco relevante na cotação do dólar -indicando probabilidade de que a tendência de baixa da moeda americana logo volte a preponderar.Esse conjunto de elementos indica ser ainda bastante ampla a margem para reduzir a taxa Selic. Um corte mais rápido, ademais, permitiria ao BC moderar as imensas (e custosas) compras de dólares por meio das quais busca deter os vetores de apreciação do real.Com inflação sob nítido controle, a política monetária poderia reconhecer no câmbio o fator que hoje acarreta mais riscos à aceleração sustentada do crescimento econômico.