Dos símbolos nacionais
Zapeava eu, sem muitas expectativas, pela TV a cabo, quando ouvi do comentarista esportivo e amigo meu, Juca Kfouri, a frase: 'O Brasil não ama mais a seleção.' Como é?, pensei, alarmado. Ando meio alheio ao mundo bola, confesso; esta pode não ser uma novidade para os torcedores mais antenados, mas para mim era. E parei para ouvir a explicação. Caramba.Faz sentido, no entanto. A falta de amor pela seleção não resulta, apenas, da derrota na última Copa do Mundo. Os astros mudaram de mala e cuia para a Europa e perderam contato com a população do País. Adotaram outro calendário. Muitos deles declinaram do convite para participar da Copa América. O Brasil não se sente representado pela seleção da CBF.A notícia preocupa, a meu ver, porque atinge a imagem que o País faz de si. Nos últimos 50 anos, a identidade brasileira foi criada sobretudo através do carnaval, da música e do futebol.Discordo do argumento de que esse não passa de um estereótipo. Acho, ao contrário, que se trata de uma das características do País. Em vez de heróis militares ou datas oficiais, como o 7 de Setembro, a população cultivou uma imagem própria em que se destaca a criatividade, a tolerância, a celebração e a capacidade de improviso como mvalores. Pode não ser a identidade mais organizada ou produtiva deste mundo, um alemão talvez sentisse falta de um pouco de planejamento e disciplina em meio à geléia geral. Mas como diz Caetano Veloso, cada um sabe a dor e delícia de ser o que é.Pensava nisso, mais à noite, depois de desligar a televisão. Lia um livro recente, da editora Contexto, muito bom, aliás, chamado História dos Estados Unidos: Das Origens ao Século XXI. É um resumão mesmo, escrito por quatro professores, a maior parte da USP. Tem o mérito de ser despretensioso. Narra os acontecimentos principais dos Estados Unidos de maneira clara, inteligente e de um ponto de vista brasileiro.Neste caso é possível dizer, sem medo de cair em um clichê: este livro veio preencher uma lacuna. Faltam obras brasileiras sobre os EUA. Alguns analistas explicam esse silêncio da intelligentsia nacional como decorrência da influência francesa, outros através da hegemonia (gramsciana?) do pensamento marxista ou do antiamericanismo. Seja como for, o fato é que a universidade brasileira ignorou o tema.Chamou-me a atenção, no livro, um trecho a respeito da construção da identidade nacional nos Estados Unidos. (Daí a ligação com a seleção brasileira.) Surpreende, hoje, voltar ao tempo em que não se conhecia o significado de ser americano. Logo depois da independência da Inglaterra, ainda em fins do século 18, não existiam símbolos nacionais. Discutia-se como confeccionar a Constituição, a bandeira. E explica o livro: 'Como símbolo dos Estados Unidos também foi escolhida uma ave: a águia careca, animal típico da América do Norte. Houve protestos contra a escolha. Por incrível que pareça, alguns chegaram a sugerir o peru como ave nacional, porque, além de ser também típico da América, era mais sociável e menos agressivo.' Concluem os autores, sem esconder os sorrisos: 'Prevaleceu a águia.'Mas já pensou se tivesse vencido o peru? A história do mundo talvez fosse outra. O peru, devo dizer, não traz o duplo sentido que adquiriu aqui. Não é disso que falo. Acho, apenas, que um país cujo símbolo nacional fosse o peru talvez pensasse duas vezes antes de invadir o Iraque ou o Vietnã, por exemplo. Talvez fosse mais social e um pouco menos agressivo, quiçá se levasse menos a sério.Daí a minha preocupação com a atual desavença da população com a seleção. O futebol nos une. É um dos nossos principais símbolos. Nos seus melhores momentos, inspira, gerando alegria e confiança. Como símbolo nacional, a seleção é melhor ainda do que o peru. E tem o Robinho.
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