sábado, 14 de julho de 2007

A cidade e o Pan

De repente o Rio se viu comprometido com um Pan que nunca fez falta e passou a ouvir falar de bilhões gastos

JANIO DE FREITASCOLUNISTA DA FOLHA

O PAN é uma pergunta a que ninguém pode ainda responder, nem poderá por bom tempo: trouxe males que vêm para bem ou é agora um bem que afinal resultará em males?O Cristo Redentor já fez pelo Rio mais do que podia. E, que outras maravilhas do mundo não nos ouçam, mais do que ele próprio merecia. Mas a alma da cidade precisa de muito mais carinhos, para não buscar alegrias na mortandade da bandidagem. E essa é a responsabilidade maior que cabe ao Pan. Se é também sua possibilidade, já é outro campeonato.A predisposição para regozijar-se com o Pan (se preferir, você pode substituir a frase anterior pela fórmula Marta Suplicy) até agora a cidade não mostra. Nem com toda a tortura de ouvidos e olhos pelo exagero da promoção do Pan em TV e rádio. Não é má idéia suspeitar que esse massacre provocou certo enjôo do Pan antes de haver Pan. Anda muito esquecido, mesmo, aquele ditado da boa sabedoria dos nossos avós: "Tudo o que é demais, enjoa". Que o digam, quando recordarem o ditado, os publicitários das cervejas.Mas não faltaram razões mais fortes para o pouco ou nenhum entusiasmo do Rio com o Pan. Quem usa a cidade no dia-a-dia sente o desprezo em que está há anos, por parte dos que têm o dever de tratá-la como jóia. Não há um só serviço urbano que funcione em condições ao menos razoáveis. Não há, em toda a cidade, nem uma só iniciativa séria das "autoridades", em favor do bem-estar e da modernização da cidade.Apesar disso, de repente o Rio se viu comprometido com o Pan que nunca lhe fez falta e, desde logo, passou a ouvir falar de bilhões a serem gastos para realizá-lo. Tudo muito sedutor: metrô ligando Ipanema à Barra, novas vias expressas e remodelação das atuais, embelezamentos e serviços a granel. Isso tudo sem falar nas obras propriamente esportivas. E o lucro com o turismo? Imediato, com os turistas do Pan, e até os atletas nas contas do prefeito Cesar Maia, pagando o próprio Pan e deixando ainda um rastro de ganhos pelo futuro afora.Ninguém sabe de quanto é o gasto a pretexto do Pan. Falam em R$ 3,5 bilhões, para quem quiser acreditar que ficará só aí. Mas todos sabem que nem uma só das maravilhosas obras urbanas recebeu sequer um centavo. Todos sabem que o Rio ficou em tal miserê, que várias vezes parou a construção dos estádios nunca necessitados pela cidade. Os turistas, informa a associação dos hoteleiros, no início do Pan são em número menor do que em julho do ano passado.Se houver um jeito, o Pan tem obrigação de pagar, seja como for, pelo menos uma parte de sua dívida com o Rio. Mas a cidade, até agora, não acredita que isso ocorra.

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