sexta-feira, 20 de julho de 2007

crônica - Moacyr Scliar

A tragédia vista de Porto Alegre

Porto Alegre é uma cidade grande, como as metrópoles brasileiras. Mas mesmo as cidades grandes, por vezes, voltam no tempo e regridem à época em que eram pequenas cidadezinhas interioranas, provincianas. Isto aconteceu com a capital gaúcha, na última terça. A notícia do medonho acidente com o avião da TAM foi recebida com incrédulo horror. As pessoas não podiam acreditar que aquilo tinha acontecido. E aí veio o pânico, o desespero. Famílias inteiras correram para o único lugar em que podiam obter informações, o aeroporto Salgado Filho. Um aeroporto do qual os porto-alegrenses se orgulham, mas que era, naquele momento, cenário para cenas de dor e de sofrimento. A notícia rapidamente se espalhou. Num primeiro momento, não se sabia ao certo quem estava a bordo, o que desencadeou uma verdadeira onda de ansiedade. A cidade, agora, era uma única família, com as pessoas ligando umas para as outras, querendo saber se estava tudo bem, se amigos e conhecidos não teriam, por acaso, viajado no fatídico avião. Particularmente, recebi numerosos telefonemas, tanto do Rio Grande do Sul como de outros Estados, o que me fez pensar nesta nova, e sombria, forma de identificar amigos: são aqueles que nos telefonam nessas horas. Depois veio a lista e a consternação foi geral. Muitas das vítimas eram pessoas conhecidas e estimadas. Havia políticos, esportistas, jovens empresários. A sensação era a de uma catástrofe. Nas casas, os olhares estavam fixados na tela de tevê. De repente, Congonhas transformava-se no fulcro da tragédia. O que não deixa de ter um amargo simbolismo. Para os habitantes de um Estado situado na ponta do país, Rio e São Paulo são os grandes pontos de referência, sonhos gaúchos, por assim dizer. E Congonhas era a porta de entrada para este sonho. Desembarcar em Congonhas era, para empresários e estudantes, para políticos e artistas, o começo de uma excitante aventura. De repente, a aventura revelava-se um pesadelo. E a pergunta que a gente pode se fazer é: por que os sonhos se transformam em catástrofes? O que aconteceu, que erros ou equívocos foram cometidos para que isso acontecesse? É uma pergunta à qual precisamos responder. Em primeiro lugar, trata-se de um dever que temos para com as vítimas, gaúchos, paulistas, mineiros, não importa: esta é uma tragédia brasileira, e como tal tem de ser considerada. Em segundo lugar, porque precisamos, de uma vez por todas, descobrir qual o caminho que, afinal, deve o nosso país seguir, para melhorar a existência de seus cidadãos. E, finalmente, porque precisamos nos reconciliar com nossos símbolos. Congonhas era, com suas limitações, uma imagem do progresso brasileiro, um lugar dinâmico, mesmo que confuso. Não pode ficar na história do país como um cenário de holocausto. Precisamos dar asas aos nossos sonhos. Mas precisamos assegurar que eles possam pousar em segurança, sem aterrorizar Porto Alegre ou qualquer outra cidade brasileira.
MOACYR SCLIAR, médico e escritor

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Crônica - Ruy Castro

Primeiro, a bonbonnière; depois, a pista

O POETA Vinicius de Moraes já dizia: "É mais pesado que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por brasileiro. Não pode dar certo". Durante 40 anos, essa foi apenas uma "boutade" de Vinicius sobre o avião, meio de transporte do qual, mesmo quando diplomata, guardava prudente distância.Hoje, ela ganhou um amargo sabor de realidade. Depois de habituar-se a maltratar passageiros antes, durante e depois de vôos, aeroportos e companhias aéreas brasileiros estão se dedicando a matá-los. Não admira que venham perdendo freguesia.Pesquisa sem valor de amostragem, ontem no UOL, perguntou a cerca de 10 mil assinantes se, em vista dos últimos acontecimentos, sentiam-se seguros para viajar de avião.O não ganhou de goleada: 78% a 22%. Donde, mesmo que os aeroportos voltem a funcionar direito e as empresas do setor troquem ganância por espírito público, poderemos ter esvaziamento em massa do transporte aéreo. Quebrou-se a confiança no veículo e em quem o opera.Posso tirar por mim. Por causa de livros que publico, sou freqüentemente convidado a visitar cidades que adoro e onde tenho amigos. Nos últimos tempos, já estava aprendendo a me adaptar às longas esperas nos aeroportos, ao crescente desconforto das poltronas, a indecentes aparelhinhos de TV transmitindo comerciais no vôo e à mesquinha dieta de barras de cereal -tudo pela literatura.Mas, a partir de agora, pensarei duas vezes se quero arriscar o pescoço num aparelho que pode muito bem não pousar -e só porque o aeroporto, vide Congonhas, começou sua suntuosa reforma pela bonbonnière, deixando por último a pista.Acontece que, se viajo ou deixo de viajar para dar uma palestra ou assinar livros, isso só altera meu cotidiano e o de algumas pessoas. Mas há uma quantidade fenomenal de brasileiros que precisa voar para lá e para cá o ano inteiro, para prestar serviços, fechar negócios, cumprir contratos -enfim, para fazer a economia funcionar.Por acaso, são todos, ou quase todos, seres humanos, sujeitos a medo. Suas empresas terão o direito de obrigá-los a esquecê-lo e viajar -ou, a partir de agora, deveriam pagar-lhes um adicional de insalubridade para cada tumba voadora em que forem obrigados a embarcar?Acontece que quem viaja a negócios, bem ou mal, terá de continuar viajando. Mas os que viajam a prazer, em busca de sol, praia e pernas de fora -direitos inalienáveis do ser humano, mesmo que por alguns dias do ano-, poderão optar por ficar em casa em férias ou feriados. Com isso, perdem cidades como o Rio e as capitais do Nordeste, que têm mais a oferecer ao viajante do que uma sala fechada no 25º andar, feita só para gerar dinheiro que tem cada vez menos o que comprar.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Reforma ortográfica 2

Reforma ortográfica
Colunista da revista Língua Portuguesa fala sobre o acordo ortográfico proposto pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que deve entrar em vigor em 2009. O documento prevê a unificação ou padronização do português em todos os países falantes da língua: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste. Machado explica essas modificações e como isto pode modificar o cotidiano do brasileiro

Opinião

A mudança ortográfica tem de ser examinada, em primeiro lugar, discriminando-se o foco da apreciação: O editorial-mercadológico? O de praticidade de uso? O de coerência dentro do sistema lingüístico?
O primeiro foco fala alto, já que interfere em vários empreendimentos, do consumo de obras a ações inspiradas na política de proclamação e de valorização de uma lusofonia.
O segundo foco também tem apelo, e soa bem como declaração de intenções. Mas as tentativas e tratativas de simplificação ortográfica soam muitas vezes como menosprezo às capacidades da comunidade de usuários, pelo que pressupõem de necessidade de facilitação para usuários incompetentes.
O terceiro foco é o que toca a essência dos fatos, e nunca pode ser desprezado. Assim como, em seus subsistemas, a língua tem equilíbrio interno, também no subsistema regrado pela mão do homem - o das regras ortográficas - a intersustentação tem de ser preservada. É a tarefa primeira dos responsáveis pelas propostas, mas sua discussão tem âmbito técnico.
Na projeção desses focos, como fica a mudança ortográfica (semi)aprovada?
Quanto ao primeiro foco, por enquanto não fica garantida uniformização completa, e sem isso não se justifica a mudança. Já tivemos a experiência de fazer dois acordos (1943 e 1945) e ficar no desacordo (no Brasil valendo o de 1943; em Portugal, o de 1945). Quanto ao segundo foco, de fato se verificam simplificações. Quanto ao terceiro, nada há de muito relevante a discutir.
O exame da proposta também deve submeter-se a análises setorizadas. Dou exemplo de duas distinções:
1) Alterações que podem sugerir, graficamente, que se passa a uma pronúncia diferente X Alterações que não fazem nenhuma sugestão nesse sentido.
No primeiro caso há "freqüente", "geléia" e "argúe", que passam a "frequente", "geleia", "argue". No segundo caso estão "vôo", "lêem" e "feiúra", que passam a "voo", "leem" e "feiura". A mudança é só (orto)gráfica, não de pronúncia, como não poderia deixar de ser.
2) Alterações que marcam graficamente diferenças na emissão vocal X Alterações que desconsideram qualquer tipo de distinção.No primeiro caso está a admissão das duas formas, como "econômico" / "económico", refletindo as diferentes pronúncias no espaço lusófono. Também aí se enquadra a indicação para hífen em "hiper-realista" e "inter-regional", mas não em "suprarrealista" e "intrarregional". No segundo caso está a revogação das distinções gráficas entre "para" e "pára" ou entre "pelo", "pêlo" e "pélo", além da adoção das grafias do tipo de "geleia" e "heroico". Aliás, não fica bem explicado por que é que "cruéis" e "lençóis" continuam acentuados, o que poderia contar-se como ponto negativo, quanto ao terceiro foco que invoquei, o do amarramento dos subsistemas lingüísticos.
Escorregadio
Sabemos que o uso do hífen é um dos pontos escorregadios das normas gráficas do português, e a mudança que se anuncia entra nesse terreno. Ela busca fazer menos especificações para o uso do hífen, mas mantém indefinições, o que, por poucos que sejam os elementos atingidos, pode comprometer a proposta.
Ora, a vaga indicação para que se grafem em uma só palavra os compostos nos quais se perdeu a noção de composição não serve para orientar seguramente as escolhas. Permanece a situação de o usuário ter de buscar caso a caso um registro oficial de grafia, porque não há marca divisória perceptível (nem para especialistas) entre perda e não-perda da noção de composição das diversas palavras.
Há ganhos de simplificação (âmbito do foco 2), mas não o bastante. Em primeiro lugar, só justifica a mudança a garantia de que a adoção resultará em uniformização, pois a questão política e a mercadológica sempre estiveram nas alegações de defesa de medidas do tipo. Assim, se a adoção não atingir todas as comunidades lusófonas, volta-se ao ponto de partida. Segundo, outras ações políticas precisam acompanhar a implementação. Por exemplo, o desbastamento de qualquer entrave que dificulte a escolha inequívoca da forma gráfica, em todo e qualquer caso.
Maria Helena de Moura Neves é professora da Unesp e do Mackenzie, autora da Gramática de Usos do Português e Guia de Uso do Português

segunda-feira, 16 de julho de 2007

dicas para UNESP

Caríssimos
Aqui vão algumas dicas para a prova da UNESP, para muita gente é mero treino para outras é para valer, de qualquer forma, ir bem significa passar ou aumentar a confiança para as provas de final de ano, então aí vão os temas de redação dos últimos 2 anos:

dez. 2006
A busca da beleza do corpo nos dias atuais
tema de caráter filosófico-reflexivo

jul 2006
O Brasil noespaço: prós e contras
tema objetivo

dez 2005
O sentimento do ciúme em nossas relações
tema subjetivo

jul 2005
Terra para todos: utopia ou sonho possível?
tema objetivo

Percebemos que os temas oscilam, a UNESP não demosntra preferência, a única coisa que ela preza sempre é a relação do tema com a realidade do candidato, que deve dar um exemplo, se possível, de algum fato ou idéia que ilustre a proposta.
Para os temas objetivos, como os da terra ou do espaço, apresentam temática cuja argumentação deve ser montada a partir das informações do texto de apoio. Não se esqueçam: no caso de tema inédito se apóiem nos textos de apoio!! Façam pelo menos 2 boas leituras para conduzir sua redação à linha de pensamento proposta.
Temática subjetiva exige sinceridade: seja autêntico, só fale daquilo que realmente pensa, não tente agradar o corretor, somente a verdade é capaz de dar consistência à argumentação.
As temáticas de caráter filosófico reflexivo exigem do aluno habilidade em lidar com o subjetivo e o objetivo o tempo todo da argumentação, exige espírito aberto e maturidade. Cuidado com os falsos moralismos!!


Boa sorte e até!!!!!!
Planejamento familiar traz segurança

O economista Samuel Pessôa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, acredita que chegou o momento de a sociedade brasileira enfrentar a questão da responsabilidade reprodutiva, para combater o crime e outros problemas sociais. Ele é o orientador da tese de doutorado de Gabriel Hartung, que relacionou mães solteiras a crimes violentos.O trabalho de Hartung traz qual mensagem para a sociedade?O crime violento ocorrido em 2000 estava determinado por uma tragédia social que já existia em 1980. A sociedade brasileira lá atrás fez uma opção de não universalizar o ensino básico, nos anos 50, 60 e 70. Assim, criamos uma máquina de produzir miséria. O resultado foi um número enorme de pessoas pouco educadas, tendo muito filhos - e também muitos filhos indesejados. A bomba estourou nos anos 90.Qual é a saída?Há três políticas públicas. A primeira é educação: temos de priorizar a melhora no nível cultural de classes menos favorecidas. O segundo ponto é repressão: melhorar a eficiência da polícia e botar bandido na cadeia. E o terceiro é que políticas que previnem a gravidez indesejada são muito eficazes contra a violência. Falo de planejamento familiar e até descriminalização do aborto. O senhor é favorável à legalização.Sou pessoalmente a favor, mas entendo perfeitamente que a sociedade seja contra. Por outro lado, acredito que a sociedade está totalmente preparada para aceitar uma política mais agressiva, com outros métodos de planejamento familiar, custeada e patrocinada pelo Estado. É claro que existem instrumentos mais razoáveis que o aborto, cuja demanda pode cair muito se a gente escolarizar a população. O importante é discutir a reprodução responsável. É preciso haver a consciência de que o ato de gerar um ser humano traz conseqüências para toda a sociedade. Um ser humano que não foi devidamente cuidado pela família e pelo Estado na infância tem uma chance grande de criar fortes problemas para a sociedade mais tarde. Temos de exigir responsabilidade não só das instituições, mas de cada cidadão.

complementando a notícia - planejamento familiar

Estudo liga gravidez indesejada a crimes violentos em cidades de SP

Queda de 10% no número de crianças que vivem com mães solteiras reduziria em 5,1% os homicídios

A gravidez indesejada é uma causa muito mais importante dos crimes violentos no Estado de São Paulo do que a desigualdade ou outros indicadores econômicos. Esta é a conclusão de um trabalho do economista Gabriel Hartung, em etapa final de elaboração. O estudo foi realizado com base na análise estatística de dados demográficos e econômicos de 643 dos 645 municípios de São Paulo.O levantamento partiu do famoso estudo do economista americano Steven Levitt - autor do best-seller Freakonomics - que demonstrou a ligação entre legalização do aborto nos Estados Unidos e a queda da criminalidade duas décadas depois. Como no Brasil o aborto é ilegal e não há estatísticas confiáveis sobre o assunto, a opção de Hartung foi a de examinar os indicadores de mães adolescentes e solteiras. A relação entre gravidez indesejada e o fato de a mãe ser solteira ou adolescente já foi exaustivamente comprovada.Mas os resultados do trabalho mostram que uma queda no número de crianças vivendo com mães solteiras diminuiria a taxa de homicídios três vezes mais do que reduções idênticas na desigualdade - e quatro vezes mais do que uma aceleração equivalente do crescimento econômico. Assim, uma queda de 10% no número de filhos criados por mães solteiras provocaria uma redução de 5,1% na taxa de homicídios. Já uma diminuição de 10% na desigualdade reduziria a taxa de homicídios em apenas 1,7%. E uma aceleração de 10% no ritmo de crescimento econômico teria um efeito de 1,2% sobre os homicídios.Segundo o pesquisador, o trabalho aponta o controle de natalidade como instrumento fundamental para o combate à criminalidade no Brasil. Pessoalmente, ele também defende a descriminalização do aborto. “O meu estudo é uma evidência de que a gravidez indesejada aumenta o crime”, diz Hartung, que faz doutorado na Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.Ele explica que o canal entre a gravidez indesejada e o crime violento é a criação dos filhos em um ambiente familiar deteriorado, que tipicamente consiste num lar chefiado por uma mulher sem marido ou companheiro, que muitas vez deu à luz na adolescência. Dessa forma, essas crianças têm probabilidade maior de se tornarem criminosas quando chegarem à adolescência ou à juventude.E o problema tende a piorar. A proporção de mães com menos de 17 anos saltou 45%no Brasil, entre 1991 e 2000, e os domicílios chefiados por mulher aumentaram 38%nesse período. O pesquisador observa que “reduzir o número de mães solteiras, por meio de uma política pública, é provavelmente muito mais fácil do que conseguir diminuição equivalente da desigualdade”. De 1997 a 2005, o Brasil obteve melhora da distribuição de renda substancial, que chegou a ser saudada como “espetacular” por alguns economistas, como Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Essa queda da desigualdade foi de 5,4%.Segundo o estudo de Hartung, uma melhora da distribuição desta magnitude em São Paulo tem um efeito na taxa de homicídios de 0,9%. A experiência histórica brasileira e internacional indica, por outro lado, que reduções de desigualdade daquela intensidade normalmente só ocorrem ao longo de vários anos. Em outras palavras, uma política de combate à criminalidade que focasse exclusivamente na redução da desigualdade levaria décadas para obter redução perceptível nos crimes violentos, como homicídios e estupros.O economista considera que Diadema, um dos municípios mais violentos de São Paulo, teria em 2000 uma taxa de homicídios 14,3% menor do que a registrada, se na década anterior o porcentual de crianças vivendo com mães solteiras fosse de 16,3%, como em Barretos, no interior paulista. O índice efetivamente registrado em Diadema em 1991 foi de 22,9%. A redução da taxa significaria 70 assassinatos a menos por ano em Diadema.O objetivo básico desse estudo era buscar as causas da diferença entre as taxas de homicídios registradas nos municípios paulistas. Para tanto, Hartung fez uma análise estatística de vários indicadores de cada cidade entre os anos de 1999 e 2001, como renda, crescimento econômico, tamanho do município, escolaridade média e desigualdade.

opinião - Folha

Favelópolis

SÃO PAULO - Como você, morador de Higienópolis, do Pacaembu, de Perdizes, da Vila Madalena, do Alto de Pinheiros, do Itaim Bibi, da Vila Nova Conceição, do Morumbi, dos Jardins -como você, leitor, reagiria à notícia de que um em cada seis paulistanos vive em favelas?É o que diz um estudo divulgado ontem pelo jornal "O Estado de S. Paulo". Em quatro anos, a população favelada da cidade teria crescido assombrosos 38% -eram 290 mil famílias nessa condição em 2003; são hoje 400 mil famílias (de 1,6 milhão a 2 milhões de pessoas).O estudo revela, porém, que a área ocupada pelas favelas permaneceu praticamente a mesma; a expansão se deu sobretudo pela verticalização e/ou pelo inchaço das favelas já existentes, o que aponta para os limites da fronteira urbana e sugere um processo de "marginalização dentro da marginalidade", para usar as palavras do ensaísta Mike Davis, autor do livro "Planeta Favela" (2006, Boitempo).Parece que estamos diante do PAF -o Programa de Aceleração das Favelas-, cujo êxito é incontestável. A favelização de São Paulo nessa escala é ainda mais assustadora porque vem acompanhada por uma cortina de invisibilidade.No Rio, bem ou mal as favelas têm história, têm enredo, inventam seus heróis e seus bandidos, são, como diz Walter Benjamin, monumentos de cultura e de barbárie. Várias delas estão debruçadas sobre a zona sul, produzindo um ambiente de promiscuidade e contraste, o cenário de uma cidade conflagrada. Prédios de alto padrão estão blindando suas fachadas contra os efeitos da guerra do tráfico.Em São Paulo, por ironia perversa, o agravamento da favelização vem a público em meio a um boom imobiliário. Chovem nos jornais ofertas de recantos paradisíacos, repletos de área verde, lazer, segurança total. Há até um empreendimento que usa a Bossa Nova como isca de um estilo de vida desfrutável. Não temos o Pan, não temos o Cristo Redentor, mas Tom Jobim -agora ele é nosso!

editorial de segunda - Folha

Em concentração

Empresas no Brasil seguem onda mundial e se aglutinam, mas defesa da concorrência não evolui no mesmo ritmo

ALÉM DA fartura de capitais no globo em busca de aplicações com retorno maior, a valorização das ações -fenômeno que atinge níveis recordes em todo o planeta- também é impulsionada por operações de fusões e aquisições entre grandes empresas. Os valores envolvidos nessas trocas de ações e dívidas que resultam em conglomerados gigantescos impressionam.Na semana passada, a mineradora anglo-australiana Rio Tinto ofereceu US$ 38 bilhões pela canadense Alcan. Dois meses antes, a americana Alcoa realizara uma oferta hostil -sem a anuência dos controladores da parte que é objeto da tentativa de compra- de US$ 27 bilhões pela rival canadense. Nesse processo de múltiplas negociações, o valor das empresas explode, abrindo possibilidade para a realização de grandes ganhos de capital.Com a operação, a Rio Tinto, terceira mineradora do mundo, tenta tornar-se a maior produtora de alumínio e alumina (matéria-prima do alumínio), superando a russa Rusal. Como resultado, o setor de mineração ficará ainda mais concentrado nas mãos das cinco grandes: BHP, Anglo American, Rio Tinto, Vale do Rio Doce e Xstrata.Outra conseqüência inevitável desse processo de aglutinação é que os grandes conglomerados ampliam seu poder de definir preços para seus próprios produtos. No ano passado, por exemplo, a cotação do alumínio avançou 36%, impulsionada não apenas pelo crescimento da economia global e pelo apetite chinês por metais -o país responde por um quarto do consumo mundial de alumínio- mas também em razão do grande poder de negociação das mineradoras.O Brasil também vive um processo notável de aglutinação empresarial. Fusões e aquisições têm ocorrido em alguns dos setores mais promissores em termos de perspectiva de expansão, até há pouco caracterizados pela dispersão do capital. É o caso, entre outros, do complexo da cana-de-açúcar e do setor frigorífico.Na outra ponta, a dos segmentos industriais mais prejudicados pela valorização do real, a concentração de companhias também tem sido resposta para melhorar a capacidade de competir na nova realidade cambial. Em setores como o de têxteis, calçados e móveis, a redução do número de atores é concomitante ao aumento da escala de produção individual -o que ajuda a reduzir custos e viabiliza diminuições da margem de lucro.Se os mercados de ações, dívida privada e crédito corporativo, em franca expansão no Brasil, parecem dar suporte a esse movimento no aspecto do seu financiamento, o descuido acerca do necessário "aggiornamento" das instituições de defesa da concorrência no país preocupa.O capital empresarial se aglutina e ganha poder de mercado com rapidez. Mas o poder federal de mitigar efeitos colaterais danosos para o consumidor continua fragmentado e lento. O Planalto deveria, ao menos, acelerar a criação da chamada superagência de defesa da concorrência, reunindo numa só as três instâncias hoje existentes.

domingo, 15 de julho de 2007

Será que pega??

A partir de janeiro de 2008, Brasil, Portugal e os demais países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste terão a ortografia unificada.

O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o espanhol. A ocorrência de ter duas ortografias atrapalha a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais. Sua unificação, no entanto, facilitará a definição de critérios para exames e certificados para estrangeiros.
Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6% do vocabulário de Portugal seja modificado. No Brasil, a mudança será bem menor: 0,45% das palavras terão a escrita alterada. Mas apesar das mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país. Resumo da ópera - o que muda na ortografia, em 2008: - As paroxítonas terminadas em "o" duplo não terão mais acento circunflexo. Por exemplo: ao invés de "abençôo", "enjôo" ou "vôo", os brasileiros terão de escrever "abençoo", "enjoo" e "voo". - As normas para o uso do hífen. - Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus decorrentes, ficando correta a grafia "creem", "deem", "leem" e "veem". - Serão criados alguns casos de dupla grafia, para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como "louvámos", em oposição a "louvamos", e "amámos", em oposição a "amamos". - O trema desaparece por completo. Estará correto escrever "linguiça", "sequência", "frequência" e "quinquênio", ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio. - O alfabeto deixa de ter 23 letras, para ter 26, com a incorporação de "k", "w" e "y". - O acento deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição). - Haverá eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia". O certo será assembleia, ideia, heroica e jiboia. - Em Portugal, desaparecem da língua escrita o "c" e o "p" nas palavras onde ele não é pronunciado, como em "acção", "acto", "adopção" e "baptismo". O certo será ação, ato, adoção e batismo. - Também em Portugal, elimina-se o "h" inicial de algumas palavras, como em "húmido", que passará a ser grafado como no Brasil: "úmido". - Portugal mantém o acento agudo no "e" e no "o" tônicos que antecedem "m" ou "n", enquanto o Brasil continua a usar circunflexo nessas palavras: académico/acadêmico, génio/gênio, fenómeno/fenômeno, bónus/bônus.
Fontes: Revista Isto É, Folha de São Paulo e Agência Lusa

sábado, 14 de julho de 2007

editorial de sábado

Um plano para o pedágio

A PROPOSTA da Prefeitura de São Paulo de proibir o estacionamento em determinadas vias do centro da cidade como forma de aumentar a fluidez do trânsito é paliativa. É claro que, se ninguém estacionar, a rua ganha mais uma ou duas faixas que poderão ser usadas para a circulação. O efeito positivo da medida, porém, encontra seu limite na capacidade das vias estruturais (as avenidas) -nas quais em geral já é proibido parar-, que estão saturadas.Também é verdade que a proibição pode ter algum efeito inibitório. Para não ter de arcar com os custos de um estacionamento privado, alguns motoristas poderão deixar seus carros em casa, preferindo o transporte público. O grau em que isso ocorrerá depende da oferta de vagas de estacionamento e do preço que se pagará para parar o carro.O prefeito Gilberto Kassab (DEM) agiu com bom senso ao anunciar que vetará a lei aprovada pela Câmara proibindo estacionar carros nas vias estruturais e coletoras do centro expandido. Diz que vai implementar a medida aos poucos, permitindo que se construam novos estacionamentos para atender à demanda.O fato, insofismável, é que o trânsito caótico da cidade já produz custos extras para todos. Eles apenas não estão totalmente explícitos. A proibição do estacionamento teria a virtude de torná-los mais evidentes, mas há soluções melhores.Não faz muito sentido, por exemplo, que os recursos monetários produzidos por uma eventual restrição de estacionamento tenham apropriação privada, por donos de terrenos e administradores de estacionamento. Seria mais lógico que fossem recolhidos através de algum mecanismo de pedágio urbano e destinados à melhoria do transporte coletivo.São Paulo, a exemplo de outras metrópoles do mundo, acabará inexoravelmente adotando alguma modalidade de pedágio urbano. Prefeitos relutam em propô-lo por temer os ônus eleitorais.Uma forma interessante de dividir os custos políticos seria aprovar agora um sistema para ser implantado paulatinamente, ao longo de alguns anos. Esse seria um gesto de estadista.

notícia

População nas favelas dobra após governo revisar cálculo
EVANDRO SPINELLIda Folha de S.Paulo

O Brasil tem o dobro de moradores de favelas do que apontavam as estatísticas. O governo federal reconheceu o problema e refez os cálculos.
Agora, o governo reconhece que o país tem 12,4 milhões de pessoas vivendo em condições precárias em 3,2 milhões de domicílios. Antes, o dado reconhecido oficialmente era de 6,3 milhões de pessoas em 1,4 milhão de domicílios.
A mudança se deu por uma reavaliação dos dados do Censo de 2000 do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O órgão não divulga dados de moradores de favelas. Porém, o item aglomerado subnormal era usado como referência para cálculos dos moradores por ser o único dado consolidado que se aproxima dessa realidade.
O próprio IBGE concorda que esse item subdimensiona o problema e que outros cálculos podem ser feitos a partir dos dados obtidos no censo, que são públicos e estão disponíveis a qualquer pessoa ou instituição. O instituto confirma ainda que estão sendo feitos estudos para mudar a definição do aglomerado subnormal a partir do Censo de 2010, para aproximá-lo mais da realidade.
Os novos cálculos foram feitos pelo CEM (Centro de Estudos da Metrópole), órgão ligado ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), por encomenda do Ministério das Cidades.
O trabalho consistiu em identificar, nos próprios dados do IBGE, locais em que a situação socioeconômica dos moradores é bastante próxima daqueles moradores dos aglomerados subnormais.
Eduardo Marques, presidente do Cebrap, explicou que, para identificar a situação socioeconômica dos moradores a partir do Censo do IBGE, foram elaborados modelos estatísticos para cada uma das regiões metropolitanas do país. Cidades que não fazem parte de regiões metropolitanas foram agrupadas de acordo com características comuns.
Para o IBGE, são aglomerados subnormais áreas em que a posse do terreno é irregular --invasões de áreas públicas, por exemplo-- e que têm pelo menos 51 domicílios. Ou seja, favelas com até 50 barracos não eram computadas. Favelas que ocuparam terrenos privados também não.

Distorções
No resultado do Censo há ainda outras distorções. Favelas como Heliópolis, em São Paulo, e Rocinha, no Rio, são consideradas apenas parcialmente como aglomerados subnormais. Ou seja, para o IBGE, nem todos os moradores de Heliópolis vivem em condições que exijam uma política governamental para melhorar sua condição de vida.
"O tipo de população subnormal [do IBGE] está certo, embora ele subdimensione o problema", disse Marques. Segundo ele, o cálculo do Cebrap também se aproxima da realidade, mas ainda assim subestima o problema, porque não identifica, por exemplo, pequenos núcleos de favelas encravados em bairros de alto padrão.
Com a constatação de que o número de pessoas em condições precárias --favelas, cortiços, palafitas e outros--é praticamente o dobro do que apontavam as estatísticas, o governo refez também os cálculos de quanto será necessário investir para solucionar o problema.
Segundo Júnia Santa Rosa, diretora de Desenvolvimento Institucional e Cooperação Técnica da Secretaria Nacional de Habitação, do Ministério das Cidades, o valor a ser investido pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em áreas como habitação popular e saneamento básico já leva em conta a nova realidade.
O PAC prevê gastos de R$ 4,6 bilhões por ano para os próximos quatro anos em favelas e projetos de habitação, contando apenas recursos do Orçamento da União. Em 2006, saíram do Orçamento R$ 990 milhões para habitação popular (até três salários mínimos).
O levantamento foi em 555 municípios de regiões do país onde, de acordo com o Ministério das Cidades, se concentram 98% do problema de habitação precária ou irregular.
A cidade e o Pan

De repente o Rio se viu comprometido com um Pan que nunca fez falta e passou a ouvir falar de bilhões gastos

JANIO DE FREITASCOLUNISTA DA FOLHA

O PAN é uma pergunta a que ninguém pode ainda responder, nem poderá por bom tempo: trouxe males que vêm para bem ou é agora um bem que afinal resultará em males?O Cristo Redentor já fez pelo Rio mais do que podia. E, que outras maravilhas do mundo não nos ouçam, mais do que ele próprio merecia. Mas a alma da cidade precisa de muito mais carinhos, para não buscar alegrias na mortandade da bandidagem. E essa é a responsabilidade maior que cabe ao Pan. Se é também sua possibilidade, já é outro campeonato.A predisposição para regozijar-se com o Pan (se preferir, você pode substituir a frase anterior pela fórmula Marta Suplicy) até agora a cidade não mostra. Nem com toda a tortura de ouvidos e olhos pelo exagero da promoção do Pan em TV e rádio. Não é má idéia suspeitar que esse massacre provocou certo enjôo do Pan antes de haver Pan. Anda muito esquecido, mesmo, aquele ditado da boa sabedoria dos nossos avós: "Tudo o que é demais, enjoa". Que o digam, quando recordarem o ditado, os publicitários das cervejas.Mas não faltaram razões mais fortes para o pouco ou nenhum entusiasmo do Rio com o Pan. Quem usa a cidade no dia-a-dia sente o desprezo em que está há anos, por parte dos que têm o dever de tratá-la como jóia. Não há um só serviço urbano que funcione em condições ao menos razoáveis. Não há, em toda a cidade, nem uma só iniciativa séria das "autoridades", em favor do bem-estar e da modernização da cidade.Apesar disso, de repente o Rio se viu comprometido com o Pan que nunca lhe fez falta e, desde logo, passou a ouvir falar de bilhões a serem gastos para realizá-lo. Tudo muito sedutor: metrô ligando Ipanema à Barra, novas vias expressas e remodelação das atuais, embelezamentos e serviços a granel. Isso tudo sem falar nas obras propriamente esportivas. E o lucro com o turismo? Imediato, com os turistas do Pan, e até os atletas nas contas do prefeito Cesar Maia, pagando o próprio Pan e deixando ainda um rastro de ganhos pelo futuro afora.Ninguém sabe de quanto é o gasto a pretexto do Pan. Falam em R$ 3,5 bilhões, para quem quiser acreditar que ficará só aí. Mas todos sabem que nem uma só das maravilhosas obras urbanas recebeu sequer um centavo. Todos sabem que o Rio ficou em tal miserê, que várias vezes parou a construção dos estádios nunca necessitados pela cidade. Os turistas, informa a associação dos hoteleiros, no início do Pan são em número menor do que em julho do ano passado.Se houver um jeito, o Pan tem obrigação de pagar, seja como for, pelo menos uma parte de sua dívida com o Rio. Mas a cidade, até agora, não acredita que isso ocorra.

editorial sexta - Folha

Indícios de abuso no Rio

A AÇÃO da polícia do Rio que confrontou o domínio do crime organizado no complexo de favelas do Alemão partiu de uma premissa estratégica correta -quebrar o pacto, tácito, de não-agressão com o narcotráfico-, que precisa continuar norteando a política de segurança de Sérgio Cabral (PMDB).Os indícios de abuso da força na operação do último dia 27 dão ao governador a oportunidade de romper também um mito: o de que não há conciliação possível entre uma linha que prega o combate intransigente às máfias da droga e outra, que exige respeito aos direitos humanos.A suspeita de que houve desvios é reforçada pelo tom defensivo e sigiloso com que as autoridades vão conduzindo o caso. A atitude lembra muito o comportamento do governo paulista por ocasião da investigação das mortes que se seguiram aos ataques do crime organizado em 2006.Relatório de um médico-legista independente que teve acesso aos laudos do IML do Rio concluiu que, pelo ângulo dos disparos, de cima para baixo, algumas das pessoas que foram mortas estavam sentadas ou ajoelhadas; teriam sido rendidas pelos autores dos tiros. O perito também constatou ferimentos nos braços de cadáveres, o que é compatível com "conduta de autodefesa".O governador continua a sustentar que as mortes decorreram do confronto. Nesse caso, porém, para que as investigações oficiais ganhem credibilidade, as autoridades deveriam contratar auditores independentes para acompanhá-las. Os laudos do IML precisam tornar-se públicos.É preciso superar o temor de que apurações pontuais sobre abuso abalem o moral da polícia num momento de combate aberto ao crime. Ações como a do morro do Alemão devem prosseguir. Elas atendem, tanto quanto o imperativo de controlar o uso da força policial, à demanda por segurança da população do Rio.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

complementando a notícia - internet

Empresa já transmitiu 8 velórios pela internet

Uma empresa que gerencia o serviço funerário de São José dos Campos (91 km de SP) iniciou nesta semana a transmissão em tempo real, pela internet, de velórios. Desde segunda-feira, oito cerimônias foram transmitidas pela web.
Para o velório ser veiculado virtualmente, de forma gratuita, a família precisa assinar uma autorização. Segundo a Urbam (Urbanizadora Municipal S.A), que tem a prefeitura como acionista majoritária, o serviço é inédito no Estado.
Por meio de câmeras instaladas nas quatro salas de velório da funerária municipal, as imagens são disponibilizadas na página da empresa (www.urbam.com.br), permitindo que parentes e amigos ausentes possam acompanhar a cerimônia a distância e em tempo real.
Para acessar as imagens, o usuário deve ter conexão de banda larga. Não é preciso senha. O serviço permite o envio de mensagens de pêsames.
A empresa não soube informar o número de internautas que já acompanharam os velórios, mas disse que ao menos 30 mensagens a familiares já foram enviadas pelo site.
A assistente social Eliza Yukie Otsuka, 30, autorizou a transmissão on-line do velório do pai dela, que morreu na segunda-feira. "Tenho dois irmãos, um no Japão e um na Austrália, que foram informados da morte e também da possibilidade de acompanhar o velório pela internet."
Ela conta que recebeu mensagens de desconhecidos. "Deve ter sido gente que deu uma olhadinha e resolveu mandar uma mensagem de conforto."

editorial de quinta

A força do dogma

HÁ DUAS formas de ler o novo documento divulgado pela Santa Sé no qual o Vaticano reafirma que a Igreja Católica é a única verdadeira: como um golpe contra os esforços em prol do ecumenismo dos últimos 40 anos ou como um avanço rumo à tolerância e ao reconhecimento de outras crenças.
O paradoxo se explica pela longevidade da Igreja Católica. Não há dúvida de que, tomando-se como referência o "hic et nunc" (aqui e agora), é a primeira interpretação que se impõe.
É claro que o papa, na condição de chefe de todos os católicos, precisa acreditar que o catolicismo é superior aos outros credos. O problema é reafirmar essa convicção a todo instante, como um dogma e no contexto de conversações com representantes de outras religiões em busca de pontos em comum.
O gesto hostil tampouco chega a ser uma surpresa. Em setembro de 2006, Bento 16 enfureceu muçulmanos ao afirmar que o islamismo era uma religião violenta. Em março passado, qualificou o segundo casamento como uma "praga" e, em maio, em passagem pelo Brasil, disse que a evangelização das Américas não foi uma imposição de cultura alheia.
O documento divulgado anteontem, intitulado "Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a igreja", explicita a epístola "Dominus Iesus" (2000), concebida por Ratzinger quando era chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé. Ali o Vaticano diz que quem não acata a "verdade" como interpretada pela Igreja Católica está em sérios apuros teológicos, "in statu gravis penuriae".
A forma como "Dominus Iesus" coloca a questão é até diplomática, pois admite a possibilidade de graça para os não-católicos, ainda que "objetivamente" menor do que para o católico.
De uma perspectiva neutra, no entanto, é preciso registrar que qualquer igreja tem, como o catolicismo, o direito de proclamar-se "a única verdadeira". Daí advêm os conflitos religiosos.

opinião - Contardo Calligaris

"Ratatouille" e o desejo

Quando o caminho do nosso desejo parece árduo, devaneamos para não agir

CHEGAM AS férias escolares, e os filmes para crianças invadem as salas.Em "Harry Potter e a Ordem da Fênix", pré-adolescentes e adolescentes encontrarão mais uma chance para sonhar que eles são órfãos, bruxos e heróicos. Outros preferirão o "Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado" e se imaginarão dotados de poderes descomunais. Nenhum problema: o devaneio, além de ser prazeroso, é um dos caminhos pelos quais se enveredam e se desenvolvem nossos desejos. Mas devanear e desejar não são a mesma coisa. Ao contrário, devanear pode ser um jeito de contornar o nosso desejo, ou melhor, de celebrá-lo aparentemente (de olhos abertos ou fechados), mas sem pagar o preço de sua realização e sem correr o risco do malogro de nossos esforços. Em suma, sobretudo quando o caminho de nosso desejo parece árduo e improvável, devaneamos para não agir. Por isso, gostei de um outro filme para crianças, que estreou na semana passada, "Ratatouille", de Brad Bird. Essa animação, da Pixar, conta a história de Remy, um rato que deseja ser chef de cozinha. Se você fosse um rato e quisesse ser chef, qualquer orientador lhe daria o conselho seguinte: esqueça e sonhe com algo diferente. Afinal, numa cozinha, não tem bicho menos indicado do que um rato. A vigilância sanitária fecha os restaurantes freqüentados por roedores; imagine o que ela faria com um restaurante capitaneado por um rato. Sua família também faria o impossível para que você mudasse de idéia. Rato pode comer restos e lixo ou se insinuar nas despensas e dar umas mordidas nos suprimentos, mas cozinhar alimentos? Inventar sublimes combinações de sabores? Preparar amorosamente pratos tão bonitos quanto suculentos? Isso, convenhamos, não é coisa para rato. Ora, Remy é cabeça dura. Ele está disposto a desafiar a autoridade paterna, o conforto do clã e as convenções sociais, que lhe são francamente desfavoráveis. Não é porque sente o apelo do sucesso ou imagina futuros lucrativos. É porque cozinhar, para ele, significa dedicar-se ao que ele sabe fazer, realizar quem ele é. Tempo atrás, escrevi uma crônica sobre a pouca ousadia dos desejos de nossos jovens. Pois bem, como antídoto, prescrevo "Ratatouille" a todos, crianças e pais. Quando pensamos no futuro de nossos rebentos, temos, em geral, uma visão limitada, preocupada com a "possibilidade" de seus desejos. Na maioria dos casos, preferimos que eles tenham desejos "plausíveis". Parece lógico. Mas o problema é que medimos esse "plausível" a partir da lição de nossos próprios limites ou fracassos. Isso, sem mencionar nossa vontade de guardar os filhos por perto e, eventualmente, nossa inveja, que é inconfessável, mas existe: nem sempre é fácil aceitar que nossos filhos inventem para si uma vida melhor do que a nossa. O rato que ambiciona ser chef de cozinha é como o menino que pretende se tornar escritor, ator, violinista ou astronauta. Em geral, nos filhos que desejam uma vida que atropelaria a cerca de casa, a resistência dos pais encoraja uma hipertrofia do devaneio, que compensa o abandono dos sonhos "extravagantes". Este é o recado: "Seja razoável em seus desejos e solte-se no devaneio", "Resigne-se ao plausível e, em compensação, alugue DVDs ("Harry Potter" ou o "Quarteto", por exemplo) para o fim de semana". Os devaneios do domingo consolarão e inibirão o anseio "louco" de correr atrás de aspirações incomuns. É possível entender "Ratatouille" como uma apologia da sociedade aberta, com oportunidades para todos: até um rato, com dedicação e persistência, pode se tornar chef. Mas, antes disso, o filme é uma homenagem à coragem de quem se autoriza a procurar a vida que ele quer. A história de Remy não inspira devaneios de glória culinária. Se o filme nos faz sonhar, é com a galhardia de quem não larga o osso (o queijo, no caso) de seu desejo. Mais uma coisa: "Ratatouille" é também um excelente filme sobre a arte de cozinhar. É bem provável que, para quase todos, a primeira gratificação tenha sido oral. Afinal, o seio e a chupeta nos foram impostos como respostas universais a qualquer choro. O grande cozinheiro é aquele que, ao mesmo tempo, evoca em nós a lembrança das primeiras gratificações e nos surpreende com uma experiência sensorial inédita, inesperada. A cozinha é isto: a arte de nos dar a satisfação mais primitiva de uma maneira nova.

complementando a notícia - pena de morte

Suposições

Formadores de opinião (entre os quais não me incluo), sociólogos, psicólogos e outros entendidos que procuram explicar tudo foram unânimes em condenar a ação policial no complexo de favelas do Alemão, da qual resultaram 20 e tantos cadáveres de "supostos" traficantes.Apesar da unanimidade das elites culturais, o povão se manifestou a favor da chacina, na base de 80%. Não faz muito, quando houve o referendo sobre a proibição do fabrico e venda de armas, os mesmos entendidos sofreram um impacto. Davam como certa a aprovação da medida, mas o povão mais uma vez foi contra, votando a favor da liberação das armas.Sempre ouvi dizer que a democracia é o regime político e social cujo núcleo é a opção da maioria. Já foi tempo em que a desculpa (ou a explicação) para o confronto entre o povão e as elites era simples: o povo não sabia votar. Quer dizer, saber, sabia, mas votava errado.E tem mais: quase 90% dos cariocas desejam que a polícia faça novas chacinas em outras favelas. E 54% de uma população que sempre desconfiou da polícia pela primeira vez admitiu, meio a contragosto, que ela merece um crédito.O argumento das autoridades locais é taxativo: guerra é guerra. E há uma guerra de fato entre o Estado legal e o crime que assumiu a condição de um Estado marginal. Como se sabe, toda e qualquer guerra é uma estupidez. E nem sempre o vencedor é o lado certo.De qualquer forma, sempre que me informo pela mídia, fico sabendo que não há traficantes nem arsenais de armas ilegais. Há apenas supostos traficantes e supostos arsenais. Um jurista disse, há pouco, a propósito de Renan Calheiros, que ninguém pode ser julgado antes de ter o processo respectivo passado por todas as instâncias da Justiça. O resto é suposição.

complementando a notícia - álcool

O Conar não funciona para o álcool

Não é a concorrência entre marcas que está em jogo, mas a saúde da sociedade. Espera-se uma restrição à propaganda do álcool

A AUTO-REGULAMENTAÇÃO da propaganda, no Brasil exercida pelo Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária), é a estratégia defendida pelas indústrias de bebidas alcoólicas como efetiva para regulamentar a promoção de seus produtos. As vantagens presumidas seriam: eficiência, maiores incentivos para obediência e custo reduzido. Esses argumentos têm sido defendidos em vários artigos recentes na mídia. É possível que a auto-regulamentação seja "mais eficiente do que a atuação do Estado" em algumas áreas, mas, certamente, essa lógica não se aplica à área das bebidas alcoólicas. Existem evidências científicas de que a exposição de crianças à promoção de bebidas alcoólicas aumenta a probabilidade de que elas iniciem um consumo precoce e bebam mais. Isso acontece em adição a outras variáveis, como baixo preço dos produtos e facilidade do acesso, mas é independente delas. Ou seja, a promoção não é o único fator que causa impacto no consumo de álcool, mas certamente é um deles. Embora inúmeras pesquisas tenham demonstrado de forma inequívoca esse fato, tal verdade não é aceita pela indústria do álcool. Mas esse não é o único fator importante. A propaganda do álcool, principalmente a que é apreciada pelas crianças, em especial a que contém humor, se relaciona com suas atitudes e expectativas positivas quanto às bebidas alcoólicas. Isso significa que a propaganda é um fator de estruturação de atitudes das crianças em relação às bebidas alcoólicas -atitudes e crenças que não são mudadas do dia para a noite. Esse processo se dá com um acúmulo de mensagens atraentes e exclusivamente positivas e bem-humoradas em relação às bebidas alcoólicas. Pesquisa nacional financiada pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) mostra que cerca de 60% dos adolescentes brasileiros estão expostos a algum tipo de promoção de álcool (televisão, rádio, revista ou outdoor) diariamente. Portanto, do ponto de vista da saúde pública, é fundamental que possamos exercer influência não somente no tipo de propaganda a que nossas crianças são expostas mas também -e principalmente- na quantidade de exposição. Pelo simples motivo de que, quanto maior é a exposição, maior é o consumo do álcool. É o que as pesquisas mostram. Mas voltemos à auto-regulamentação. Os códigos relacionam-se principalmente com questões de conteúdo das mensagens, basicamente restringindo mensagens direcionadas aos menores de idade e que incentivem o consumo abusivo. Vários estudos científicos internacionais apontam que a interpretação desses códigos varia muito, dependendo do público que os avalia. Dessa maneira, e não surpreendentemente, avaliações realizadas por membros das indústrias de interesse econômico (publicitários, indústria de álcool, mídia etc.) encontram muito menos violações do que as realizadas por representantes do público geral. Pesquisa com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) recém-concluída pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com estudantes do ensino médio de escolas públicas apontou grande número de violações em cinco propagandas de cerveja selecionadas como as mais apreciadas pelos estudantes. Uma das recomendações do Conar com respeito à propaganda de álcool é que ela "evite associação com erotismo". O leitor que já tenha assistido a algum comercial de cerveja talvez nos acompanhe na dúvida quanto ao cumprimento desse item. De qualquer maneira, a principal intenção da auto-regulamentação no caso das bebidas alcoólicas é evitar ingerência externa -leia-se restrição à quantidade de propaganda. E é a exposição, no final, o que realmente importa em termos do impacto no consumo dos adolescentes e jovens. O ministro da Saúde, grande defensor da saúde pública, já expressou a sua preferência pela restrição da propaganda do álcool, à semelhança do que foi feito com o cigarro. Do presidente Lula espera-se que tenha a coragem e a determinação para optar pela restrição desse tipo de propaganda que estimula que menores de idade bebam. Afinal, não é a concorrência entre marcas que está em jogo, mas a saúde da sociedade brasileira.

RONALDO LARANJEIRA, 50, doutor em psiquiatria pela Universidade de Londres (Inglaterra), é professor livre docente do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). ILANA PINSKY, 40, psicoterapeuta, mestre em psicologia pela USP e doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Unifesp, é pesquisadora sênior do Departamento de Psiquiatria da Unifesp.Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

segunda-feira, 9 de julho de 2007

humor - 02 neurônio

02 Neurônio >>
Jô Hallack >>Nina Lemos >>Raq Affonso
- 02neuronio@uol.com.br

Dia do Cabelo Roubado

Força na peruca! (se roubarem, você compra outra) NÃO EXISTE O Dia do Cabelo Ruim? Aquele dia em que você acorda com um cabelo péssimo, com uma cara de espantalho e que nem chapinha resolve o seu problema? Pois é. Mas pior do que isso só o Dia do Cabelo Roubado. Isso acontecia muito quando éramos adolescentes no Rio. Naquela época, as gangues roubavam cabelos (menos mal do que as gangues cariocas atuais, que espancam mulheres no ponto de ônibus). A gente sempre ouvia histórias escabrosas de mulheres que tiveram seus cabelos rapelados para serem vendidos para os salões que fazem interlace.Mas recentemente, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, uma dupla roubou o cabelo de uma jovem evangélica que nunca havia sido cortado. Os assaltantes levaram quase um metro de cabelo, e a jovem teve que consultar um psicólogo para se refazer do trauma. Só que a polícia conseguiu prender a dupla que cometeu tamanho ato de crueldade, e um dos assaltantes comentou: "Pegamos a primeira pessoa que passou com um cabelão".O Dia do Cabelo Ruim, como dizem os gringos, serve de metáfora para os dias horríveis em geral e virou gíria. "Ah, ontem eu tava com o cabelo ruim." Sim, até o Gianecchini já usou essa expressão durante uma entrevista para explicar os seus dias de mau humor. Agora, como seria um Dia do Cabelo Roubado? O do Cabelo Ruim, a gente sabe, acontece quando o cabelo tá ruim, a gente não cabe muito dentro do nosso próprio corpo e tudo sai errado: do PC que dá pau até o pretê que dá bolo.Já um Dia do Cabelo Roubado... seria aquele em que a sua mãe humilha você logo pela manhã num surto de perversidade gratuita, você resolve se esquecer disso ligando para um menino e descobre que ele está com outra e não quer mais saber de você. Aí você resolve fazer compras, e, quando sai da loja arrasada porque o seu cartão de crédito foi bloqueado (pela sua mãe), passa uma pessoa sinistra na rua, agarra você pelo pulso e... rouba o seu cabelo! Não, não merecemos passar por essas situações.E, apesar de saber que dias do cabelo roubado acontecem (metaforicamente falando) não desejamos que vocês tenham um deles. Mas, pelo menos, quando tudo der errado, depois de chorar ouvindo "Everybody Hurts" (do R.E.M.), pelo menos você pode pensar, antes de dormir, "tudo bem, foi só um Dia do Cabelo Roubado".Momento de histeriaForça na peruca! (se roubarem, você compra outra)

Brasil!!

GARI É AGREDIDO EM PRAIA DA ZONA SUL DO RIO

Um gari foi agredido ontem por dois banhistas que jogavam futvolêi na praia do Leme, no Rio. Um dos agressores, Fabiano Costa e Silva, 31, foi liberado após ser ouvido pela polícia. O outro fugiu. O gari Maurício Luciano da Silva, 36, que ficou com hematoma no rosto, disse que eles reclamaram do barulho de um veículo usado para retirar lixeiras e, após uma discussão, partiram para agressão. Fabiano não foi localizado pela Folha.

boa notícia

ANTICONCEPCIONAIS COM DESCONTO JÁ ESTÃO À VENDA

As pílulas anticoncepcionais com preço reduzido já estão nas farmácias da capital paulista. O preço da cartela de remédios para um mês custa até R$ 0,40. Para comprar o medicamento, é preciso uma receita médica com o registro do Conselho Regional de Medicina do médico e o CPF da paciente. A oferta de contraceptivos com até 90% de desconto faz parte da Política Nacional de Planejamento Familiar, lançada em maio.

humor - Moacyr Scliar

Seqüestro e paixão

Após ter sido mantida refém num ônibus na Dutra pelo ex-marido e de o ter acusado de tentativa de estupro, a técnica de radiologia Cristina Ribeiro, 35, reatou o relacionamento com André Luiz Ribeiro da Silva, 36. "Estamos morando juntos", disseram ao jornal "Extra". Marcada pelo ciúme de Silva, a relação do casal ganhou visibilidade em todo o país em 10 de novembro do ano passado, quando ele seqüestrou um ônibus na rodovia Presidente Dutra, em Nova Iguaçu. Sob a mira de um revólver, Cristina foi feita refém com outros 38 passageiros por dez horas. Cristina afirma que o amor pelo marido e a saudade que os filhos tinham do pai pesaram em sua decisão. Cotidiano, 2 de julho
A NOTÍCIA do final feliz para o caso de Cristina e André Luiz comoveu muitas pessoas. Para Laura, contudo, não se tratava só de uma notícia; passou a ser um sonho. Laura queria mudar de vida. Casada havia muitos anos com Pedro, gerente de um pequeno restaurante, sem filhos, a sua existência se transformara numa previsível e, para ela, insípida rotina. Iam sempre aos mesmos lugares, conviviam com as mesmas pessoas, passavam as férias na mesma praia. Laura ansiava pelo insólito, pelo inesperado -por uma aventura, enfim, como aquela que Cristina tinha vivido, mesmo que tal aventura pudesse representar um susto, e até um abalo, em sua vida. A aventura pela qual esperava acabou acontecendo e de uma forma muito parecida com aquela que tinha sido vivida por Cristina. Uma noite ela e o marido voltavam para casa, de carro, quando ao pararem num semáforo, foram abordados por um homem armado. Um seqüestro. O assaltante mandou que Pedro descesse do carro, tomou o volante, e, junto com a apavorada Cristina, dirigiu-se para uma pequena casa num bairro distante da periferia. Lá imobilizou a moça e disse que pediria um resgate. Uma quantia aliás não muito elevada, de modo que Cristina não precisaria se preocupar: provavelmente já no dia seguinte estaria livre. De fato, avisado, Pedro falou com amigos e parentes, reuniu a soma necessária e entregou-a no local escolhido pelo assaltante. Cristina voltou para casa. Tudo parecia bem. Mas não estava tudo bem. Por uma simples razão: não conseguia esquecer o seqüestrador, homem bonito, másculo, decidido. Como acontece nos casos da chamada síndrome de Estocolmo, tinha se apaixonado por ele. E era uma paixão tão avassaladora que ela decidiu largar Pedro. Tinha o telefone do homem, ligou para ele, combinou um encontro. A partir daí passaram a viver juntos. Não era fácil. Ela pouco sabia do companheiro, que se identificava como Rafael, e que às vezes sumia por dias seguidos -provavelmente às voltas com roubos e seqüestros. Começava a sentir falta da tranqüila existência com Pedro; mas isso agora era coisa do passado. Ou pelo menos assim ela imaginava. E aí mais uma surpresa. Uma noite estava voltando com Rafael de carro para casa quando, ao estacionarem, alguém emergiu das sombras, empunhando um revólver. Era Pedro, que ali estava para seqüestrar a ex-mulher. Ela atirou-se nos braços dele chorando. Estão morando juntos de novo, e são relativamente felizes. Conversam muito, desvendam seus segredos. Mas nunca falam de seqüestros, claro.

Brasil!!

Por hora, 7 jovens entram nas prisões do país

Dados inéditos do Ministério da Justiça apontam que 187 homens de 18 a 29 anos ingressam no sistema prisional por diaLevantamento está na versão final do Pronasci, programa que pretende integrar ações de segurança com políticas sociais

Dados do Ministério da Justiça incluídos na versão final do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) revelam que, a cada hora, pelo menos sete jovens entre 18 e 29 anos ingressam no sistema prisional brasileiro.O ritmo de entrada de jovens na prisão (68,4 mil/ano) é 58% superior ao de saída (43,2 mil jovens/ano). Isso significa que 187 jovens entram a cada dia em unidades prisionais, contra 118 que deixam o sistema.Relativos aos últimos 12 meses, os números inéditos do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça integram uma versão fechada do Pronasci, conhecido informalmente como "PAC da Segurança", que será apresentada hoje pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto. O lançamento oficial está marcado para 1º de agosto.O objetivo do programa é integrar ações de segurança com políticas sociais. As cerca de 40 ações do programa terão um custo extra ao governo federal de R$ 1 bilhão ao ano.O foco inicial de atuação será em 11 regiões metropolitanas e, em cada uma delas, a promessa é construir um presídio específico para jovens. Dos 240 mil jovens presos no país, 65% (160 mil) estão nessas 11 capitais e entornos (Alagoas, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco, Bahia, Pará, Paraná, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul), escolhidos pelo governo federal com base na quantidade de vítimas de homicídios.Reincidência"De todos que entram no sistema penitenciário, incluindo os jovens, 70% são reincidentes. Se até 2010 baixarmos essa taxa de reincidência pela metade, para 35%, estará aí uma coisa extraordinária", disse Tarso Genro. "O jovem que nós vamos buscar é o jovem que não quer ir aos programas sociais do governo, que não é recebido nos programas sociais, que tem a sua vida controlada pela criminalidade. É o jovem que tem a sua família desestruturada", completou o ministro.De acordo com a Secretaria Geral da Presidência, dos 50,5 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos, 4,5 milhões são considerados em "estado de risco", pois não têm o ensino fundamental e estão fora da escola e desempregados.Um índice que preocupa o governo é o de analfabetismo entre os jovens presos -36 mil (15%) estão nessa situação. Por conta disso, o governo incluiu no Pronasci um plano que diminuirá a pena daqueles que estudarem nos presídios. Eles serão submetidos a testes e ganharão dois dias de remissão a cada 20 horas de estudo -no limite de quatro horas diárias.Nas últimas semanas, o Ministério da Justiça promoveu uma série de discussões sobre o programa com entidades e movimentos da sociedade. Nas apresentações, o governo apontou para 2010 a consolidação do Pronasci, incluindo, antes disso, ações policiais para a "ocupação" dos territórios e de inclusão dos jovens em programas oficiais.Entre outros, participaram dos encontros o professor George Felipe Dantas, coordenador para assuntos de segurança pública do UniDF (Centro Universitário do Distrito Federal), e Rosiana Queiroz, coordenadora nacional do MNDH (Movimento Nacional dos Direitos Humanos)."O programa está bem desenhado, com ênfase na questão da exclusão dos jovens. É preciso, porém, que ele [Pronasci] venha acompanhado de ações para resolver problemas estruturantes, como a morosidade do Judiciário", disse o professor Felipe Dantas.TemorJá a coordenadora do MNDH teme que o primeiro momento do programa, a chamada "ocupação" de territórios, ocorra sem o devido respeito aos direitos humanos. "Tenho poucas ilusões em relação a programas do governo. Principalmente pelo fato de o presidente [Lula] ter uma visão restrita e equivocada sobre a relação de segurança pública e direitos humanos", disse Rosiana."Essa ocupação de territórios é algo preocupante em relação à violação dos direitos humanos. Uma ocupação deve ser feita num processo longo", completou a coordenadora nacional do MNDH.

opinião - Alba Zaluar

Confiança se ganha

Pesquisas recentes confirmam a pouca confiança depositada nas polícias, principalmente na PM, em quase todos os Estados brasileiros. Para que a população se sinta protegida de seus predadores é preciso antes de tudo uma profunda reforma policial. Pouco mudou nos baixos salários da PM, no seu equipamento depauperado, na falta de valorização das técnicas investigativas e da inteligência nas carreiras profissionais dos policiais civis e militares em cada Estado da Federação, com pequenas diferenças. As armas que a polícia usa para matar, e continua a matar muito, ainda não são suficientemente controladas. A corrupção policial permanece, sem que se instituam formas eficientes do controle democrático dela. Policiais civis e militares continuam cumprindo esquemas de plantão que lhes permitem complementar baixos salários com o "bico" em segurança privada, alguns em empresas montadas por outros policiais mais graduados, outros em empresas informais sem o controle da Polícia Federal. Isso tudo aumenta a ineficiência policial, que eleva ainda mais a sensação de medo dos cidadãos. A reforma policial precisa ser aprofundada para que todos deixem de se sentir inseguros por causa da incomunicabilidade, ineficiência, corrupção e violência nas polícias, apesar dos esforços já feitos para minorá-las. Investigações recentes da Polícia Federal começam a levantar o véu do interminável fluxo de armas e drogas para nossas cidades. Não basta. Primeiro, é imprescindível que policiais estaduais parem de matar sem respeitar as normas constitucionais. Muitas ações das polícias podem ser feitas para desarmar os jovens que se armam para serem aceitos pelos colegas armados e que se matam entre si por motivos fúteis. Esta ação pode ser feita com um patrulhamento cujo objetivo seria a apreensão de armas. No entender de criminólogos, são os projetos que modificam a forma de abordagem e de investigação policiais os que têm efeitos mais sólidos a longo prazo. Nestes, as estratégias de solução de problemas, e não de repressão violenta, mobilizam a vizinhança onde o patrulhamento é modificado. Mesmo que os resultados dessas tentativas ainda encontrem resistências nas áreas conflagradas sob o domínio armado de traficantes, sem dúvida muito melhorariam a capacidade de negociação, interação e entendimento entre as forças policiais e os moradores. Elas apontam para o caminho dos acordos políticos e da disseminação de novas idéias para que a polícia não continue como inimiga de pobres e favelados.

editorial de segunda - Folha

Ninho de bactérias

ESTUDO da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgado pela Folha mostra que infecções comuns em UTIs e hospitais do país vêm sendo tratadas com antibióticos inadequados, devido ao fenômeno da resistência bacteriana.Embora preocupante, a notícia não é uma novidade. A resistência de bactérias a antibióticos é a prova viva de que a teoria da evolução postulada por Charles Darwin no século 19 está correta. De resto, quanto mais de ponta for uma UTI, maiores tendem a ser suas dificuldades com microrganismos resistentes.Um meio de enfrentar o problema é ampliar iniciativas como a da Anvisa de traçar o perfil de resistência das bactérias, possibilitando ao médico entrar antes com a droga mais indicada. Vale lembrar que o uso indiscriminado de antibióticos -em especial os de amplo espectro- é um dos fatores que mais favorecem o surgimento da resistência.O elenco de medidas possíveis não pára aí. Alguns hospitais já exigem que o médico justifique em formulário específico a escolha de determinada droga. Ela só será ministrada se a comissão de controle de infecção da instituição aprovar a conduta.Também seria interessante voltar a utilizar antibióticos antigos. Como a manutenção da resistência implica um custo energético para as bactérias, ela não costuma ser mantida por muitas gerações. Drogas que deixaram de funcionar podem voltar a fazê-lo a melhor preço do que o dos novos fármacos promovidos pelos laboratórios -política comercial de assédio aos médicos que também favorece o uso inadequado de antibióticos.Essas são apenas algumas das várias medidas documentadas na literatura. Só que todas elas perdem muito da eficiência porque profissionais de saúde muitas vezes ainda descuidam do básico, como a necessidade de lavar bem as mãos antes e depois de atender cada paciente.

domingo, 8 de julho de 2007

notícia fresca - domingo dia 08/07/07

Jovens quebram nariz de prostituta no Rio

Uma prostituta identificada apenas como Mônica, de 27 anos, foi espancada por três jovens na madrugada de ontem na AvenidaAtlântica, em Copacabana, Rio. Ela levou socos no rosto e teve o nariz quebrado. Foi levada por PMs ao hospital e, em seguida, deu queixa. Não se sabe quem são os agressores, que, segundo policiais, estavam bem vestidos.

editorial de domingo no estadão

Apagão educacional

Além do apagão aéreo, o País vem sofrendo outro apagão num setor estratégico para o desenvolvimento. Ele atinge a rede pública do segundo ciclo do ensino fundamental e as três séries do ensino médio, onde há um déficit de 246 mil professores com licenciatura em física, química, biologia e matemática. Mesmo que o governo liberasse verbas extraordinárias para contratar docentes para essas disciplinas em caráter emergencial, não conseguiria resolver o problema, dada a falta de mão-de-obra qualificada no mercado. A escassez maior é nas disciplinas de química e física. Para atender à demanda das escolas públicas, o Ministério da Educação (MEC) deveria ter garantido a formação de pelo menos 55,2 mil professores de química, na década de 90. No entanto, foram licenciados só 13,5 mil. Em física, a situação é pior. A demanda é a mesma, mas o número de licenciados ficou em apenas 7,2 mil, o equivalente a 13% do necessário. Atualmente, só 9% dos professores de física que atuam na rede pública têm formação nessa disciplina. Ou seja, 91% dos docentes têm formação em outra área do conhecimento. Esses números constam de um relatório que o Conselho Nacional de Educação (CNE) acaba de divulgar. Elaborado por um ex-ministro da Educação, Murílio Hingel, e por dois ex-reitores de universidades federais, Antonio Ibañez Ruiz (UnB) e Mozart Neves Ramos (UFP), o levantamento foi feito com base em dados compilados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e suas conclusões são preocupantes. O mais grave é que o CNE já havia alertado o MEC para esse problema há três anos. E, como infelizmente se tornou habitual no governo do presidente Lula, pouco foi feito para enfrentar o problema. “Podemos dizer que já existe um apagão de professores no ensino médio”, diz Ramos. Segundo ele, esse nível de ensino passa atualmente pelos mesmos percalços da rede pública de ensino básico, que conseguiu atender à demanda de matrículas, no final dos anos 90, mas até hoje não foi capaz de oferecer aos alunos uma educação com um mínimo de qualidade. No caso específico do ensino médio, o número de alunos vem aumentando e tão cedo não haverá professores qualificados em número suficiente para atender à demanda, pois os índices de evasão nos cursos de licenciatura, desde 1997, se mantêm em 65%, em física, e em 75%, em química. Por isso, diz o relatório do CNE, o governo não tem outra saída a não ser adotar medidas emergenciais para os próximos anos. Entre outras recomendações, o órgão sugere a criação imediata de um piso salarial nacional para os docentes do ensino médio e o aproveitamento dos atuais estudantes de licenciatura. Também propõe a adoção de bônus para os professores que retardarem a aposentadoria, a concessão de incentivos financeiros para os aposentados que quiserem voltar a lecionar nas disciplinas com maior déficit de professores, a expansão do Programa Universidade Aberta, que oferece ensino superior a distância, e a criação de bolsa de estudo nos moldes do ProUni, para que os alunos egressos da rede pública de ensino fundamental possam cursar o ensino médio em colégios particulares. O déficit de 246 mil professores nas escolas públicas de todo o País decorre, basicamente, de falhas de planejamento por parte do MEC e da falta de prioridades em matéria de política educacional. Enquanto o presidente Fernando Henrique manteve o mesmo ministro durante seus dois mandatos e deu prioridade à universalização do ensino básico e à implantação de mecanismos de avaliação, o presidente Lula teve três ministros desde 2003. E cada um deles, além de mudar o que vinha sendo feito com sucesso, definiu prioridades que foram abandonadas assim que deixaram o cargo. O primeiro ministro, Cristovam Buarque, priorizou programas de alfabetização. O segundo, Tarso Genro, perdeu tempo com um demagógico projeto de reforma universitária. Só agora, na gestão de Fernando Haddad, é que o MEC começou a trilhar o rumo certo, valorizando o ensino fundamental e o médio, por meio da implantação do Fundeb. Era inevitável, portanto, que as idas e vindas do governo acabassem gerando o que o CNE está chamando de “apagão educacional”.

Ferreira Goulart

Qual o nosso limite?
O respeito à Justiça e a aplicação das leis são vistos como expressão de intolerância

DO LAMENTÁVEL episódio em que cinco rapazes de classe média, moradores da Barra da Tijuca, roubaram e espancaram brutalmente uma empregada doméstica, vale destacar a atitude do pai de um deles, que correu imediatamente em defesa do filhinho de 19 anos. Alegou que aqueles rapagões, sarados e violentos, eram "crianças que estudam" e por isso não deviam ficar presos, uma vez que, na prisão, seriam misturados com bandidos.Deve-se concluir que, embora sendo capazes de roubar e espancar mulheres, rapazes que moram em condomínio da Barra da Tijuca não são bandidos, já que bandido é quem mora em favela. Isso ajuda a entender o filho que ele tem.Se não é justo atribuir essa atitude a todos os pais de classe média, é impossível não ver nela o sinal de uma visão que se generalizou e que, de certo modo, explica o grau de impunidade que caracteriza a sociedade brasileira.Na frase daquele "paizão", está implícita a noção de que o respeito às normas sociais é coisa secundária e mesmo condenável, porque, no fundo, encobre o ranço repressivo que herdamos do passado e a vontade de vingança contra os criminosos. Isso é uma coisa que estou cansado de ouvir da boca de advogados e até de ministros da Justiça, muitos deles herdeiros da lição rebelde dos anos 60-70: "É proibido proibir", "Não acredito em ninguém que tenha mais de 30 anos".Tudo isso era muito divertido, mas a verdade é que contribuiu para minar o princípio de que a sociedade necessita de normas, já que, sem elas, mergulharíamos no arbítrio, na violência e no caos.Ainda não chegamos lá, nem chegaremos, porque a maioria das pessoas sabe, sem ter lido os juristas, que o respeito às normas é condição básica do convívio social. A Justiça não nasce no fundo do quintal, ela foi inventada pelo homem que necessita dela como do ar que respira. Mas isso não impede que, como no caso do Brasil, o respeito à Justiça e a aplicação das leis sejam vistos como expressão de intolerância e repressão.Isso se percebe a cada momento e às vezes na boca daqueles que deveriam defender a aplicação rigorosa do princípio de justiça. Não consigo me esquecer das declarações do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos defendendo o abrandamento da punição dos crimes hediondos, sob a alegação de que seu agravamento não fizera diminuir esse tipo de crime.Ao ler tais declarações de um jurista, pensei comigo: se esse argumento é válido, então deveríamos revogar o Código Penal, já que sua vigência não impede que se pratiquem crimes no país.Como se sabe, o condenado por crime hediondo, que até então não usufruía do direito de cumprir apenas um sexto da pena, agora usufrui, graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, bandidos queimam vivas dezenove pessoas dentro de um ônibus, são condenados a 400 anos mas, como a pena máxima no Brasil é de 30 anos, poderão estar soltos depois de cumprir apenas cinco anos, isto é, um sexto da pena. Noutras palavras: em muitos casos, a pena máxima, no Brasil, é de cinco anos.Parece brincadeira. E isso tudo é decidido apoiado em argumentos de difícil compreensão para nós, leigos, que não gozamos da sapiência jurídica. O fraseado estrambótico escapa à nossa compreensão, enquanto sua conclusão nos deixa indignados. Dá a impressão de que o aparelho jurídico que montamos e que nos custa tão caro existe para dificultar a aplicação da Justiça e beneficiar os criminosos.Certamente não é assim, já que a maioria dos juízes defende a vigência da Justiça. Não obstante, na prática, prevalece a impunidade.A garantia da impunidade conta com todo um aparato, que vai desde a falta de escrúpulos do advogado de defesa -cuja função parece ser impedir que se faça justiça- até as minudências jurídicas que, na hora H, anulam o processo.- Mas por quê, meritíssimo?- Ele pôs vírgula entre o sujeito e o verbo! Dura lex sed lex.Isso sem falar naquele juiz que adulterou o parecer do colega para permitir que se libertasse um dos maiores traficantes internacionais. Condenado a 20 anos por tráfico de drogas e respondendo a processos por evasão de divisas, contrabando, falsificação e apropriação indébita, foi solto por ter, segundo o referido juiz, bons antecedentes.Bons? Pois eu diria ótimos antecedentes, levando-se em conta a noção de ética que vai tomando conta do país.

artigo de opinião - Jânio de Freitas

A violência pela violência

Exemplos recentes ilustram uma realidade que nos recusamos a ver: a violência no Brasil mudou de nível

O intenso interesse da imprensa e a extensa repercussão do espancamento, por um grupo de rapazes, de uma moça na Barra da Tijuca não decorreram, pelo que pude depreender, do ato de agressão absurda e covarde. O que não quer dizer que a solidariedade à moça e a repulsa à covardia não sejam sinceros. Mas violências assim e ainda mais covardes e absurdas são inúmeras todos os dias, e não provocam reação proporcional, nem geram muito mais sentimento do que uma certa agitação do medo já incorporado.A classe social e econômica dos agressores, senão também a topográfica do antipatizado novorriquismo da Barra, foi o componente essencial entre os fatores que fermentaram a imprensa e expandiram a indignação. Também por isso, além de nossa brasileira distração, mais uma vez deixamos de dar a atenção devida a uma parte fundamental, no sentido mesmo de estar na origem, da motivação dos rapazes universitários.A agressão não buscou aproveitar a desproteção da moça, final de madrugada em um ponto ermo de ônibus, para saciar a ânsia de violência física. Sua alegação, "pensávamos que era uma prostituta", suscitou todas as justas recriminações morais e humanas, quase dispensáveis, de tão óbvias. A motivação do grupo, porém, não foi a de castigar uma prostituta porque prostituta, foi a de agredir para roubar a bolsa de uma prostituta - no que se enganou quanto à pessoa, mas não no resultado da intenção."É uma quadrilha especializada em roubar bolsas de prostitutas", diz a polícia depois de saber de mais investidas idênticas do grupo. Roubar bolsas de prostitutas: o que desejariam, esses rapazes de nível universitário, das bolsas de mulheres que precisam se vender nas ruas de madrugadas vazias? Que proveitosos frutos poderiam obter acima do que têm nos próprios bolsos, sejam bolsos de emergentes ou de já emergidos? E, depois das agressões e dos roubos, a deliciosa diversão de ir "jogando pela janela do carro as coisas da bolsa".A idéia de roubar prostitutas para nada provém só do prazer de provocar as aflições em que, já tão desprovidas, essas moças se vêem de repente, sem dinheiro nem para a passagem, sem os pertences miúdos, sem o possível documento, sem a chave, sem nada, rasgadas na roupa e na carne igualmente baratas. Não é o assalto, propriamente. Não é a agressão física que atrai. É a perversidade em estado puro.O assassinato de um casal diante do filho de sete anos, já feito o roubo no carro; o incêndio de outro casal já roubado também no carro, aquele e este casos paulistas sem explicação possível que não a perversidade pura. Os assassinatos, na Zona Sul carioca, de pessoas depois de assaltadas por adolescentes em sinais de trânsito. O menino João Hélio arrastado no carro roubado. Os tiros a esmo, só para atingir rodas de desconhecidos ou passantes anônimos, episódios de todos os dias. O tratamento feroz dado por bandos armados a moradores de favelas. A cegueira furiosa dos combates entre criminosos e policiais. Estão aí exemplos só para ilustrar uma realidade que nos recusamos a ver: a violência no Brasil mudou de nível.Já vivemos o estado da violência pela violência, a violência só por perversidade, pelo prazer da maldade e do sofrimento alheio: a violência que não tem mais nenhum tipo de restrição.Não adianta pensar ainda na violência urbana e na segurança pública com as idéias convencionais, que prevalecem absolutas. A realidade está em outro estágio, e cresce nele a cada dia, em extensão social e em profundidade dos efeitos. Mas onde e quem pensar sobre isso, eis o mistério

artigo de opinião

A dor do preconceito e da discriminação

O caráter sexista da agressão a Sirlei é um traço mais intenso de uma violência naturalizada, banalizada e até mesmo autorizada

Decorrida mais de uma semana desde a covarde agressão a Sirlei, no Rio de Janeiro, a sucessão de novas informações descobertas pela investigação policial e apuração jornalística contribui para iluminar um traço fundamental desse episódio que andava oculto: a violência de gênero. Nos primeiros dias, a bestialidade que caracterizou a ação dos agressores associada à aparente gratuidade de tamanha violência despertou um sentimento de perplexidade que, com certeza, contribuiu para esconder um importante fator que fomentou aquela barbárie. A saber, a misoginia -segundo o "Aurélio", desprezo e/ou aversão a mulheres- professada pelo grupo de cinco agressores de Sirlei. Essa manifestação exacerbada de discriminação à mulher era o foco principal de uma comunidade do Orkut intitulada "É tudo vagabunda", freqüentada pelos algozes da trabalhadora doméstica carioca. Ali, julgando-se em território livre, a fúria discriminatória dos misóginos rapazes -embora nos faça lembrar dos violentos ataques homofóbicos- não tinha como alvo especial as prostitutas, mas as mulheres em geral. Na página da internet, pista rapidamente apagada por amigos dos réus, que confessaram o crime, mas tergiversaram sobre as razões, eles afirmavam em alto e bom som que, "toda vez que um homem tem problemas, é por causa de uma vagabunda". O curso das investigações policiais, com efeito, trouxe à baila não apenas casos até então desconhecidos de envolvimento do grupo com ataques a prostitutas mas também a uma manicure, a uma ex-frentista e a duas mulheres que saíam de um restaurante da Barra, pelo que se sabe até agora. Tudo isso serve como agravante à flagrante discriminação às mulheres em geral, e às prostitutas, em particular, contida na alegação dos agressores de que espancaram e roubaram Sirlei porque a imaginaram uma profissional do sexo. Ao contrário, esses fatos demonstram, cabalmente, que os estereótipos através dos quais o grupo enxerga as mulheres fomenta esse tipo de violência. Ademais, as próprias prostitutas se encarregaram de reagir. A Ong Davida, com a solidariedade da OAB-RJ (seccional do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil), está movendo justa ação de danos morais por discriminação contra os cinco acusados. O caráter sexista da violência praticada pelo grupo de jovens não esclarece, de forma alguma, todas as indagações que estão postas por sociólogos, psiquiatras, educadores e especialistas em segurança pública, bem como por todos os cidadãos em geral, sobre as causas dessa violência. Mas é um componente evidente e tem uma importância significativa, justamente num momento em que toda a sociedade se solidariza com Sirlei, sem se dar conta de que esse é um traço exacerbado -e por isso repelido por todos- de uma violência naturalizada, banalizada e até mesmo autorizada. Parece excessivo, mas é exatamente isso: a violência exercida pelos homens contra as mulheres, no Brasil como em qualquer parte do mundo, é autorizada pela sociedade patriarcal. Segundo sua lógica, o espancamento de namoradas e esposas por seus companheiros é uma questão da vida privada, na qual o Estado não pode nem deve intervir. Vale lembrar que somente a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 "não existe mais hierarquia familiar", ou seja, a mulher não se subordina mais ao homem, são todos iguais. Todavia, passados quase 20 anos e malgrado tantas conquistas das mulheres brasileiras, a cultura patriarcal ainda está longe de ser substituída por uma cultura da igualdade de gênero. Diante de casos de violência doméstica contra mulheres, é comum que os comentários machistas predominem até mesmo sobre a natural rejeição ao ato de agressão. "Alguma ela fez" ou, na melhor das hipóteses, "melhor não tomar partido". Sem falar nos casos de estupro, quando, freqüentemente, se critica a sensualidade excessiva dos trajes das mulheres, responsabilizando-as e justificando o estuprador. Na vida real, trabalhadoras prostitutas ou domésticas são feitas da mesma matéria. Como na música do Chico "Umas e Outras", elas se cruzam "pela mesma rua olhando-se com a mesma dor". A dor do preconceito e da discriminação.

NILCÉA FREIRE , 55, médica, é ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Foi reitora da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) de 2000 a 2003.

sábado, 7 de julho de 2007

crônica - Drauzio Varella

O sobrevivente
Na cadeia, adotou uma atitude humilde, estratégia à qual atribui a sobrevivência


COM UMA caixa de engraxate pintada de amarelo pendurada no ombro, o rapaz cruzou a rua em minha direção: -Não sei se o senhor lembra de mim, mas quando estive lá me chamavam de Neguinho de Guaianases, para diferenciar do finado Negão de Pirituba que era alto e forte.Para ser sincero, não lembrava dele nem do finado, mas se dizia que estivera lá, pelo menos ficava claro de onde nos conhecíamos. Todo ex-presidiário que encontro pela rua se refere à extinta Casa de Detenção dessa forma, como se trouxesse mau agouro pronunciar o nome do presídio.-Quanto tempo você cumpriu lá?-Seis anos.-Não voltou mais para a cadeia?-Deus me livre, agora sou trabalhador.-E dá para viver engraxando sapato?Explicou que, saindo de casa às sete da manhã e voltando às nove da noite, conseguia tirar R$ 40 a R$ 50 por dia, quantia suficiente para pagar os R$ 150 do aluguel de um cômodo no Bexiga e as demais despesas fixas.E ainda sobrava para visitar os irmãos em Itaquaquecetuba aos domingos, para um baile em Pinheiros de vez em quando e para pagar o hotelzinho na saída, nas noites em que os céus ouviam suas preces.Com a caixa amarela nas costas, percorria dez a quinze quilômetros por dia no encalço da clientela:-Procuro passar em lugar que tem homem parado: ponto de táxi, porta de bar, restaurante com fila de espera, praça com aglomeração de aposentado. Cobro de acordo com a aparência do cidadão: R$ 2 se aparentar ser trabalhador; R$ 5 se tiver cara de rico.Neguinho foi aluno comportado até os treze anos, quando o primo que mais admirava o convidou para distribuir panfleto no Largo da Concórdia. Nessa fase, pegou o gosto por dinheiro, por roupas da hora e conheceu a maconha. Para desgosto do pai, pedreiro em Guaianases, parou de estudar.Um dia, o primo decidiu mudar de ramo:-Disse que não se conformava com aquela mixaria; tinha nascido para uma vida melhor. Levantou a camisa e exibiu o revólver no cinto. "Vem comigo, é apontar a arma e pegar o dinheiro."Neguinho não tinha coragem; dois de seus amigos de infância haviam acabado de morrer num tiroteio na Vila. Mas, o mais velho insistiu:-Eu enquadro as vítimas e você recolhe o dinheiro e os objetos de valor. É só ficar de cabisbaixo para ninguém te reconhecer mais tarde. Não requer prática nem tampouco habilidade.Na primeira vez, quando assaltaram uma loja do bairro, tudo se passou como o primo previra. Na partilha, coube R$ 300 para cada um:-Nunca tinha visto tanto dinheiro junto. Deu gosto no bolso. Comprei blusa para minha mãe, camiseta para o pai, dei dinheiro para os irmãos e saí com o primo para gastar na cidade.Aos 17 anos foi parar na Febem. Saiu com 18, mais esperto e com novas amizades. Juntou-se ao inseparável primo e formaram uma quadrilha.Meses mais tarde, o primo foi morto por justiceiros a serviço dos comerciantes da Vila.Uma noite, Neguinho e dois comparsas assaltaram um posto de gasolina e fugiram num carro roubado. Cinco minutos mais tarde foram cercados por duas viaturas de polícia. Os policiais gritaram para que jogassem as armas e saíssem com as mãos na cabeça. Pensaram em reagir, mas prevaleceu o bom senso do finado Alemão:-Era o mais experiente de nós. Disse que se a gente atirasse morria no ato: era três contra oito.Preso em flagrante, foi levado para a detenção. Acabou condenado a seis anos e três meses por dois assaltos a mão armada; nada mal para quem havia praticado mais de trinta.Na cadeia, adotou uma atitude humilde, estratégia à qual atribui a sobrevivência:-Dos que tinham fama de bandidão, sangue nos olhos, só um escapou vivo.Quando Neguinho foi libertado, construiu a caixa de engraxate, pintou-a de sua cor favorita e jurou nunca mais por os pés num lugar daqueles.Quando perguntei se era mais feliz engraxando sapato, respondeu com um sorriso:-Nem compara, doutor. Sabe o que é viver com medo? Qualquer carro que passa, imaginar que os justiceiros chegaram? O senhor entrar numa padaria, pedir uma média com pão e manteiga e não ter o direito de sentar de costas para a porta?

crônica - Ruy Castro

Não autorizada

Uma repórter me perguntou se eu pensava em escrever minha autobiografia. Respondi que nem pensar, que não confiava em autobiografia de ninguém, nem na minha. "Quem escreve sobre si mesmo mente muito", expliquei. Daí ela perguntou, brincando, se eu não "escreveria uma autobiografia, mesmo que não autorizada". A idéia era intrigante pelo contra-senso. Tive de rir.Mas, nos últimos dias, temi que me fizessem essa pergunta a sério. A discussão sobre biografias "autorizadas" ou "não autorizadas" ocupou enorme espaço na imprensa e as duas palavras ficaram quase mágicas, sem que as pessoas soubessem muito bem do que se tratava. Pois, eis.Uma "biografia não autorizada" é aquela em que o biografado (ou seus herdeiros) toma ou não conhecimento de que se está produzindo um livro a seu respeito e se dispõe ou não a colaborar com o biógrafo. O livro é publicado, e o biografado tem duas coisas a fazer: ou gosta do que leu e telefona para o autor a fim de cumprimentá-lo; ou não gosta e mete-lhe um processo. Subentende-se que só leu o livro depois que este saiu.Já na "biografia autorizada", o biógrafo e o biografado (ou seus herdeiros) fazem um acordo de papel passado que os torna quase sócios. O biografado se dispõe a dar todas as informações, abrir gavetas, ceder fotos, emprestar documentos, enfim, colaborar ao máximo com o biógrafo. Em troca, este concede ao biografado (ou aos advogados dele) o direito de ler o original antes de este ir para a gráfica, com o que o ilustre estará em condições de cortar o que não lhe agradar. Dependendo da quantidade de cortes, é como se o verdadeiro autor fosse o biografado. E, no fundo, é.Donde uma "biografia autorizada" faz tanto sentido quanto "uma autobiografia não autorizada". Quer dizer: nenhum.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

editorial de quinta - Estadão

Alfabetização fantasma

Ao lançar o chamado “PAC da educação”, em março, o governo teve o bom senso de anunciar a progressiva substituição dos professores leigos por professores da rede pública nos programas de alfabetização de adultos. A contratação de docentes leigos foi uma das inovações introduzidas pelo Brasil Alfabetizado, ambicioso programa lançado pelo presidente Lula no início de seu primeiro mandato que vem apresentando resultados medíocres. O que levou o governo a dispensar os professores leigos foi a constatação de que, além de não terem competência técnica para atuar como alfabetizadores, muitos eram ligados a organizações não-governamentais (ONGs) que haviam sido criadas só para abocanhar verbas públicas. Entre 2003 e 2006, o Brasil Alfabetizado consumiu R$ 750 milhões - a maior parte repassada para ONGs. Contudo, a maioria do público-alvo do programa - 7,3 milhões de pessoas com idade acima de 15 anos - continuou sem saber ler e escrever. Reportagem do Jornal da Tarde mostrou algumas das fraudes praticadas pelas ONGs contratadas pelo Brasil Alfabetizado na cidade de São Paulo. Entre as irregularidades mais graves, os repórteres do JT descobriram a existência de classes fantasmas, duplicidade de turmas, docentes cadastrados para atuar em três lugares diferentes no mesmo horário e professores leigos que estão há meses sem receber salários, embora as ONGs que os contrataram tenham recebido repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.Só no primeiro semestre de 2007, os repasses para entidades com sede na capital paulista totalizaram R$ 20 milhões. A equipe do JT visitou mais da metade das 241 turmas cadastradas em São Paulo e encontrou graves irregularidades em 80. Várias delas têm como endereço terrenos baldios. No endereço de outras estão residências cujos proprietários jamais ouviram falar do Brasil Alfabetizado. A ONG que mais recursos recebeu do governo e que não cumpriu o calendário escolar do primeiro semestre de 2007 é vinculada à Central Única dos Trabalhadores. E vários dirigentes das demais acusadas de irregularidades são filiados ao PT. Isso é uma prova do aparelhamento partidário do Brasil Alfabetizado. Em resposta às denúncias da reportagem do JT, o diretor do Departamento de Educação de Jovens e Adultos do MEC, Timothy Ireland, admitiu que o órgão não tem condições de fiscalizar todas as ONGs cadastradas. Por falta de técnicos, disse ele, a fiscalização é feita apenas por amostragem. Isso dá a medida da farra da distribuição de dinheiro público a ONGs - um problema que o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou em várias outras áreas, além da educacional. Há seis anos, a estimativa era de que existiam 22 mil ONGs no País. Atualmente, estima-se que existam 260 mil, e a maioria sobrevive à custa da União. Entre 2001 e 2006, o total de recursos repassados a essas entidades pelo governo chegou a R$ 11 bilhões. O Orçamento para 2007 prevê um repasse de R$ 2 bilhões a ONGs, das quais várias, em contradição com o próprio nome, vivem exclusivamente de verbas governamentais. Como se vê, de não-governamentais, essas “organizações” não têm nada.Segundo o TCU, muitas dessas entidades não têm qualificação técnica, condições administrativas, pessoal qualificado e experiência para exercer serviços públicos. Seus projetos são mal elaborados, com propósitos vagos e metas insuficientemente descritas. Várias ONGs gastam mais consigo próprias do que com atividades-fim. O JT constatou que esse é o caso das entidades contratadas para desenvolver programas de alfabetização na capital.Diante desse quadro, além de substituir docentes leigos por docentes da rede pública, o MEC decidiu reduzir o número de convênios com essas entidades no Brasil Alfabetizado. A iniciativa é oportuna. Mas, para se moralizar de uma vez por todas a atuação das ONGs, é preciso nova regulamentação do setor. Em 2004, as ONGs mais sérias fizeram essa reivindicação ao presidente Lula. Mas, como de hábito, ele criou um grupo de estudo e o assunto foi esquecido.

Ideologia

Site da Presidência da República distorce história do Brasil
Antonio Carlos Olivieri*Especial para o UOL

De uma seção didática, voltada para o público infantil, no site de uma instituição como a Presidência da República, deve-se esperar, no mínimo, duas coisas: primeiro, que ela seja educativa e, segundo, republicana. Não é o que acontece no site da Presidência da República Federativa do Brasil.Em artigo publicado em "O Estado de S.Paulo", o historiador Marco Antonio Villa fez uma breve relação dos erros e distorções ideológicas que compõem a "Versão para Crianças" do site da chefia de Estado e de Governo. No âmbito educacional, trata-se de um problema grave. Em vez de propiciar uma formação para a cidadania, o site tem um caráter desinformativo.É melhor começar comentando os erros, pois eles são tão crassos que não há como discuti-los. O site diz que a primeira Constituição do Brasil data de 1822, o ano da Independência. Na verdade, ela foi outorgada por dom Pedro 1º à nação dois anos depois, em 1824.Do mesmo modo, afirma-se que o Duque de Caxias participou do afastamento de dom Pedro 2º. Quando a República foi proclamada, em 1889, Caxias já estava morto havia oito anos.Distorções ideológicasAo chegar à história recente do país, os erros fatuais abrem caminho para a eclosão das distorções ideológicas, que não são poucas. Por exemplo, afirma-se que "em maio de 1978, ocorreu a primeira greve de operários metalúrgicos desde 1964". As greves dos trabalhadores de Osasco e Contagem, dez anos antes, parecem não vir ao caso.Aliás, nada parece vir ao caso nos últimos 30 anos, se não se relacionar com Lula. Como bem notou Villa, o site transforma o atual presidente num "personagem onipresente na história do Brasil", nessas últimas três décadas. Tanto que Luiz Inácio da Silva é proclamado o líder "da mobilização nacional contra a corrupção que acabou no impeachment do presidente Fernando Collor".Trata-se de um exagero. Lula contribuiu, sim, para o afastamento de Collor, que hoje faz parte da base do presidente. No entanto, a liderança do movimento incluía muitos políticos de outros partidos e instituições da sociedade civil, como a OAB - Ordem dos Advogados do Brasil.Não bastassem omissões e exageros no trato da história, o site também peca na extensão da biografia de Lula, que é maior que a de todos os outros presidentes da República, como ainda inclui uma biografia de dona Marisa - a única primeira-dama brasileira que tem a vida relatada aos jovens internautas.O nome que se dá a isso há algum tempo é o de "culto à personalidade" e a pedagogia que dela deriva pode produzir efeitos desastrosos. E aí é que se chega ao X do problema: transformar o site da instituição Presidência da República em peça de propaganda político-pessoal é misturar a coisa privada, particular, partidária, com a coisa pública. Em poucas palavras, é ser anti-republicano.Vale encerrar lembrando que a idéia de República, nos tempos modernos, sempre caminhou ao lado do conceito de uma educação sem doutrinação, em especial nas repúblicas verdadeiramente democráticas.*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.